A Odisseia Algarvia 2017: A Maldição da Figueira – parte II

De estômagos carregados de fatias douradas e pastéis de nata, hidratados com limonada fresquinha e excitados com cafeína, também ela fresquinha, com a motivação ao rubro pela carta da queridíssima Lioness of Porches, a horda velopática deixou o Germano Biciarte Café para trás, lançando-se em direção ao IC1.

Um Itinerário Complementar, no vulgo IC, designa as estradas portuguesas que ligam centros de influência supra-concelhia mas infra-distrital aos centros de influência supra-distrital, sendo na sua maioria assegurados por estradas nacionais com o perfil de vias 2 + 1, coincidentes com uma via rápida.

Hã?

Supra-quê?

Quem, por alma de Santo Bartali, escreveu esta definição de IC, com certeza pouco ou nada percebe da psicologia que move um enlatado.

Todos sabemos a regra de ouro que os move; se a via tem duas faixas no mesmo sentido, então é uma autoestrada e o limite de velocidade é o que o primitivo motor da lata permitir.

Chegados ao IC1, a troupe velopática, como já é habitual,  pouca ou nenhuma importância deu aos avisos do Velopata de que todo o cuidado seria pouco e o seguro nem a velhinho tinha chegado, tendo morrido atropelado e bem novinho pois, numa via onde a velocidade máxima não ultrapassa os 90 km/h, muitos enlatados existem que lá está… Vendo duas faixas de alcatrão à sua frente, deduzem de imediato que estão numa autoestrada e é sempre a queimar pitroil. E por algum desvio psicológico inerente a quem acha que a sua pressa é maior que a dos outros, Velopata & Cia. acabaram por levar algumas razias e buzinadelas, mesmo estando sempre preocupados em seguir na larga berma que delimita o tal Itinerário Complementar Supra-coiso.

Muitas vezes já o Velopata percorreu este stressante troço da estrada que liga o reino dos algarves a Valença, no entanto, esta vez teve um sabor especial, particularmente por seguir na roda de P.P. que aqui e ali soltou umas pinguitas de baba e ranho, sendo que, fruto de um desvio na cana da sua bela aeropenca, o Velopata pedala maioritariamente de boca escancarada e neste campo o Velopata não se vai alongar mais porque lá está… Estas publicações são partilhadas com o público sempre à hora do almoço mas o leitor fica assim com uma ideia da troca de intimidades que muitos ciclistas praticam.

O calor começou a descer as suas gânfias sobre a horda velopática e estando o IC1 calcorreado a bom ritmo, fruto do incansável trabalho velopático aliado à frescura de P.P., a troupe atingia agora as belas paisagens da Nave Redonda que antecediam a mais grande dificuldade que esta Odisseia trazia na barba.

Fóia.

Muitos saberão que no acesso a Monchique pelo lado norte as rampas que aí existem não são de uma dureza capaz de desfazer tendão, músculo e perna, mas aquele calor de Outubro que se fazia sentir, aliado aos já quase 250 quilómetros percorridos, foi suficiente para atirar ao ar todas e quaisquer expectativas que o grupo pudesse ter de transpôr rapidamente a única montanha que existia no que aparentava ser o forno do Hellgarve.

Talvez por esse facto e fruto da sua frescura, ainda nem os primeiros telhados das habitações de Monchique se vislumbravam e já P.P. desaparecia no horizonte, deixando Velopata & Cia. para trás num registo velocipédico que todos os envolvidos viriam a concordar depois;

“Esta foi a Fóia mais difícil que já fiz.” – a frase comum a todos os membros da troupe, salvo o Velopata que à boa maneira desportista fala/escreve sempre na terceira pessoa e claro, Calhau Rolante que desconhecia a dureza do Barlavento algarvio.

Mas foi nesta mítica subida algarvia que o Velopata viu algo que nunca, em todos estes anos de passeio ou até mesmo de ressabio velocipédico até ao topo daqueles 902 metros de altutide, jamais pensou ver.

O que dizer deste Calhau Rolante, a máquina suíça movida a chocolate com intragáveis percentagens de cacau, o canivete velocipédico que se excede em todos os pisos e inclinações, o ciclista que nada come nas paragens para além de sandes de queijo esburacado que faz questão de transportar consigo?

Verdade seja escrita que o Velopata jamais tinha ouvisto algo assim.

Enquanto Velopata, Falso Lento e Pata Negra gladiavam com aquelas intermináveis rampas, nem depressa, nem devagar, mas sim em modo sobrevivência, Calhau Rolante lançou-se na perseguição a P.P. alcançando a sua roda e fazendo em frangalhos o ego velocipédico de quem nem 100 quilómetros pedalou e se vê a levar uma monumental carocha de alguém que já leva mais de 250 quilómetros nas pernas de 51 primaveras.

Mas julgam que Calhau Rolante se ficou por aqui?

Encontrando umas amáveis vaquitas que pastavam nos topos finais do acesso à Fóia, talvez por labutar num talho e acometido de incomensuráveis doses de arrependimento, Calhau Rolante ainda decidiu parar para umas selfies com as vaquitas enquanto P.P. soltava bofes, mais baba e mais ranho, com a dentição bem afiambrada no guiador.

P.P. ultrapassou Calhau Rolante, deliciado com as suas novas amigas, decerto contando ser o primeiro membro da troupe a chegar ao topo do Fóia… E não é que Calhau Rolante decidiu arrumar de uma vez por todas com o ego velocipédico de P.P., pregando-lhe o enxovalhanço-mor e ultrapassando-o novamente para se coroar Rei da Montanha desta Odisseia?

O Velopata bem avisou… Participar na Odisseia é garantia de um belo empeno e destruição de egos.

A classe de Calhau Rolante e o encarochado e espezinhado ego de P.P., deixaram o Velopata com um sorriso na face tendo em conta o que se passou naquele longínquo Transroad do qual P.P. decerto já não se lembra mas… Um Velopata de orgulho velocipédico ferido não esquece.

A conta-gotas os vários membros da horda velopática foram chegando à Fóia, não sem que esta fizesse irreparáveis estragos na troupe – por motivos de labuta no dia seguinte, P.P. e Pata Negra abandonavam a Odisseia, escalfadamente regressando ao conforto dos respectivos lares.

Foia1
No topo da Fóia, é já com esforço e dedicação que a horda velopática se obriga a sorrir para a posteridade.

O Velopata abre aqui um parêntesis para uma piquena nota respeitante ao Gil, sempre atrás da câmera e que segundos depois da foto acima ter sido capturada, em confidência questionou o Velopata se os sobreviventes Falso Lento, Calhau Rolante e o próprio Velopata, conseguiriam aguentar os cerca de quase 200 quilómetros que ainda tinham pela frente dadas as expressões meio-trombose, meio acidente vascular-cerebral, com que haviam atingido o ponto mais alto do reino dos algarves.

O que Gil desconhecia era a capacidade regenerativa que a mais famosa bolaria de Monchique e arredores possui, podendo o Velopata mostrar uma vez mais porque razão também é apelidado de Bolopata.

Para além da motivação estomacal que a troupe pode aí experienciar, também a Srª Gil e Gil-Júnior, futuro herdeiro do trono da G-Ride, fizeram questão de marcar presença para conhecer estes alucinados adeptos do pedal, facto que serviu de motivação extra para o Velopata pois há que conhecer e tratar muito bem o Gil-Júnior pois num futuro que se quer longínquo mas não muito, o Velopata pode muito bem ter de trocar a amada Estrela Vermelha por uma outra montada e ter um frugal desconto naquela linda Cannondale Synapse Ultegra que se encontra em exibição num pedestal na loja do Centro do Universo Velopático Conhecido seria um mimo logo, há que trabalhar, criar laços, meter aquele miúdo a rir e ganhar o seu afeto.

E não venham criticar o Velopata que está a ser interesseiro. No mundo velocipédico e ainda para mais quando o Velopata é teso (termo aqui utilizado sem segundas intenções), todos os descontos contam. “O carbono justifica os meios”; refere o célebre ditado popular.

Monchique3
Velobolopata carrega no adorado Cheesecake de frutos silvestres.
Monchique1
A máquina suíça também aproveitou para conhecer a gastronomia bem docinha com que aquela bolaria presenteia os clientes. Foi com ansiedade e espanto que a troupe velopática viu Calhau Rolante comer algo que não apenas os seus quadraditos de chocolate e sandes de queijo com buracos. Hesitante, mas comeu.

Despedidas feitas com o Sol a esconder os seus abrasadores raios dos sobreviventes da Fóia; Velopata, Falso Lento e Calhau Rolante fizeram-se à estrada, percorrendo num ápice a distância que os separava de Aljezur mas não sem que o Velopata soltasse alguns protestos, nomeadamente para com as amplitudes térmicas que se sentem por aqueles lados do Allgarve, tremendo que nem parkinsoniano velocipédico dado o frio que se instalava.

Em resposta aos protestos velopáticos, o dueto que o acompanhava exclamou em uníssono;

“Deixa de ser somali e ganha aí alguma gordurita que te aqueça.”

Atingindo estas linhas e aproveitando que se escreve sobre gastronomia, decerto o mais-que-tudo leitor se questionará se toda esta actividade velocipédica pode ser sustentada com recurso a bolos, bolinhos, café e no caso velopático, o belo do cigarrito.

Com 315 quilómetros feitos, atingindo-se o famigerado pavê da Carrapateira, não foram apenas as bicicletas que chocalharam… Também os já depletos estômagos de real chop-chop do sobrevivente trio velopático começaram a chocalhar e roncar que nem um rolo de treino em carga máxima, forçando o trio a uma nova paragem no restaurante que o Velopata reconheceu como sendo o mesmo onde no Tróiapocalipse, ele e o Pro Ressabiado se haviam nutrido.

E aqui o Velopata hesitou, como quem hesita mesmo, ao assistir enquanto Falso Lento e Calhau Rolante jantaram que nem uns lambões; Falso Lento enchendo-se de cadáveres de animais e outras bizarrias igualmente bárbaras, já Calhau Rolante, novamente acometido de um ataque de arrependimento por labutar num talho e a anterior amizade travada com as vaquitas da Fóia, optou por um prato vegetariano, surpreendendo o Velopata e levando-o a acreditar que talvez haja esperança para a humanidade.

Pandulhos cheios e com as luzes da Carrapateira para trás, o trio mergulhou no nocturno breu em direção a Sagres quando o Velopata voltou a sentir o chamamento de guia turístico e cicerone, apontando e notificando o Calhau Rolante;

“Olha, como é de noite não se consegue ver mas ali no horizonte já está o mar.”

“Sério? Que mar?”

“O Mar Egeu, claro!”

Era o que o Velopata suspeitava; claramente o sangue de Calhau Rolante estava a ser desviado das pernas e cérebro para o abastado estômago, sendo justamente esse o maior temor do Velopata pois ele já leu vários estudos daqueles da net que referem o facto de que um estômago cheio claramente afeta a potência da anaerobiose do lactato da FTP máxima. Por sorte, Suas Altas Eminências Velocipédicas decidiram colaborar com o trio, bafejando a pedalada até Sagres com um dócil vento pelas costas. Dir-se-ia que aqueles três campeões não pedalavam… Voavam pelo breu ao ponto de nem se perceber se a estrada subia ou descia – era indiferente, sempre a carregar duro nos pedais, como quem carrega mesmo.

350 quilómetros cumpridos em 14 horas e finalmente o trio atingia Sagres, onde se iniciaria a última e sempre stressante parte da Odisseia, regressando ao Hellgarve que é atravessar a N125 de noite.

sagres1
Falso Lento, Velopata e Calhau Rolante durante uma breve pit-stop em Sagres, conseguindo sorrir com o sentimento de dever quase, quase, quase cumprido.

Do que se passou a seguir, o Velopata tem pouca memória pois, para além da P.D.I. começar a fazer surtir os seus efeitos, os quilómetros sucederam-se rapidamente e a concentração necessária para se desviar das inúmeras crateras que abundam na N125, para além do ocasional enlatado com graves problemas do foro mental que passou razias no grupo, mesmo protegidos pelo enlatado da G-Ride com Gil ao comando e sempre nas costas do trio, levaram a que pouca cavaqueira ocorresse entre o escalfado trio.

Até que o Velopata começou a súar.

O Gil avisou o grupo em antes; todo o cuidado a chegar a Portimão seria pouco, uma vez que na estrada que acedia ao Hotel Penina, fruto das eleições autárquicas que se avizinhavam, o alcatrão havia sido arrancado para ser substituído por um novo tapete. Para além desse temível facto, o Velopata sentia no seu âmago toda a pressão psicológica dado que havia sido naquele preciso segmento que, no transacto ano, o cabo das mudanças da Estrela Vermelha se partiu, forçando o Velopata ao abandono.

Postos estes factos, lembranças e traumas do passado, o Velopata súou ainda mais, como quem súa mesmo, quando passou aquela placa que indicava o local da Figueira.

Sabendo que o enlatado da G-Ride com o Gil ao leme seguiam atrás do trio, ainda por cima munido de uma câmera de filmar, o Velopata teve, mais uma vez, uma daquelas ideias de jerico.

Para que esta Odisseia perdurasse nos anais da história velocipédica, faltava uma mostra da espectacular técnica aliada a uma proeza velopática daquelas de se lhe tirar o cycling cap e vendo uma pequena rampa, resultante do desnível entre a zona onde outrora existia algo semelhante a alcatrão e a berma ainda alcatroada, o Velopata acreditou que o que seria mesmo top e coiso era recorrer à mini-rampa para sacar um tailwind backside offshore inside-out flip-flop slide com a sua Estrela Vermelha, como ele já havia ouvisto aqueles alucinados da bebida do Touro vermelho (ou encarnado, como o leitor preferir), sacar nas suas sessões de Rampage.

Conclusão… O Velopata sacou uma monumental manobra sim, de seu nome técnico “Flop“, que consiste em saltar da bicicleta para terminar completa e totalmente esbardalhado no duro alcatrão.

Naqueles instantes em que o Velopata se encontrava airborne, aqueles cinco segundos que parecem durar toda uma eternidade, apenas dois pensamentos percorreram o cérebro velopático – conseguiria a Estrela Vermelha safar-se com poucas mazelas e sobreviveria o Velopata a estes acontecimentos de modo a ser capaz de ver o Velopatazinho vencer o primeiro de vários Tour.

O baile parou.

Num ápice, ainda o Velopata se encontrava prostado de barriga para baixo, já Falso Lento, Calhau Rolante e Gil se acercavam com uma única questão em mente;

“Estás bem?” – indagaram em uníssono.

“Sim…. Ai. Não…. Ai. Mais ou menos… Ai. Não sei…. Ai.” – retorquiu o Velopata, assentando-se no alcatrão.

“Partiste alguma coisa?” – questionou um preocupado Calhau Rolante.

“Acho que não.” – como decerto o querido leitor terá reparado, o choque velopático era tal que até se esqueceu de se referir a si próprio na terceira pessoa. “A Estrela Vermelha? Onde está? Como está a minha bebé?” – os olhos arregalados do preocupado Velopata perscutavam o breu da N125 procurando a sua amada montada.

“Deixa lá a bicicleta pá! Como te sentes?” – respondeu um indignado Falso Lento.

“Deixa a bicicleta my ass, que o carbono é mais caro de arranjar do que eu!”

Através da penumbra o Velopata conseguiu perceber que o Gil prontamente socorria a tombada Estrela Vermelha;

“Está tudo bem com a bicicleta, não te preocupes!” – se o Gil o afirmava, o Velopata podia ficar descansado.

“Epá, tu tens um azar daqueles…” – notou Falso Lento.

“Azar é deixar cair a sandes com a manteiga virada para baixo. Isto foi pior.” – rematou o Velopata.

“Não foi aqui que foste forçado a desistir o ano passado?” – questionou Calhau Rolante.

“Foi.”

“Tendes de ir à bruxa.”

“Tenho é de descobrir onde ela vive e ir lá fazer-lhe uma visitinha com um espigão de selim! E daqueles bem rijos em aço!”

“Achas que consegues continuar?” – questionou o trio de olhos postos no Velopata.

“Esperem… Ele tem de fazer uma coisa primeiro.” – passado o choque inicial, o cérebro velopático regressava ao lugar e o Velopata voltava a referir-se a ele na terceira pessoa.

“Então, que precisas?”

“Antes de fazer seja o que fôr… Ele precisa de um cigarro.”

O Velopata alevantou-se do alcatrão, como se de um cambaleante zombie se tratasse, ambas as duas pernas a latejar devido à abrupta paragem. A mão direita dir-se-ia ter sido arremessada para o interior de um passe-vite, tal a quantidade de feridas existentes e o sangue que começava a brotar. Na perna direita o Velopata sentiu algo quente a escorrer lentamente e reparou então que pelo esburacado bib short, um enorme rasgão na anca direita sangrava ininterruptamente. Mas pior mesmo eram as luvas… Aquelas maravilhosas Assos, adquiridas na G-Ride, encontravam-se num lastimável estado e apesar de não serem em carbono, tinham custado uma pipa de eirios que o Velopata considerava valerem todos os cêntimos gastos, dado o conforto que proporcionavam nas longas distâncias.

Recebendo da mão de Gil o comando da Estrela Vermelha, aquelas dores que não passavam de uma moínha, enquanto prostado na estrada, depressa se transformaram numa infernal tempestade de dor. O pulso direito latejava de tal modo que só de tocar no guiador da Estrela Vermelha, o Velopata soltou uivos de dor.

Uivos de dor e… Irritação.

Irritação pois a Estrela Vermelha também não saíu incólume de tamanha proeza; o plástico da manete direita encontrava-se esfacelado, revelando parte das suas entranhas mas… Do mal o menos, uma vez que parecia ser essa a única maleita evidente da desgraça ocorrida. Pior mesmo era o facto de que a nenhum daqueles três “amigos” tinha ocorrido pausar o GPS velopático… O Velopata ali com uma espectacular média de ressabiado, reduzida a uma mísera passeata porque todos haviam esquecido a metodologia no que toca a acidentes velocipédicos;

1) Pausar o GPS do comparsa.

2) Inspeccionar o estado da montada do camarada.

3) Verificar se o tombado guerreiro necessita de cuidados veterinários.

Era oficial, com 398,8 quilómetros percorridos em 14 horas, 32 minutos e 7 segundos, pelo segundo ano consecutivo, o Velopata via-se forçado a abandonar esta sua alucinada invenção da Odisseia Algarvia, novamente após um trágico evento na Figueira.

Ele há gajos com sorte.

Uma coisa o Velopata tinha a certeza. Assim que as escoriações e traumatismos resultantes destes eventos passassem, ele iria percorrer os anúncios do Correio da Manhã procurando uma bruxa residente na Figueira. Só uma dúvida havia; seria melhor levar um espigão de aço ou carbono de alto modulo? Qual provocaria maior dor no lombo daquela desgraçada?

A Estrela Vermelha foi acomodada no enlatado, e um almariado e à beira das lágrimas Velopata viu-se enlatado com o Gil até Faro, enquanto o dueto sobrevivente, Falso Lento e Calhau Rolante, terminavam a Odisseia Algarvia. A eles o Velopata só pode dar os parabéns por terem completado tamanha proeza e agradecer a companhia ao longo do dia.

O Gil poderá não ser o melhor fotógrafo do mundo mas foi uma alma de uma caridade inigualável ao trazer o Velopata são e mais ou menos salvo de regresso ao lar em Faro. Mesmo o relógio já passando das duas horas da manhã e tendo ainda de regressar a Portimão, para abrir a loja no dia seguinte às 10 da manhã, Gil não se fez de rogado e salvou o Velopata de uma situação, no mínimo, lixada com um F bem maiúsculo. Do fundo do coração, só quatro palavras ocorrem ao Velopata – UM GRANDE MUITO OBRIGADO!

Restava agora ao Velopata a pior parte desta Odisseia pós-evento traumático.

A bela ensaboadela que iria levar quando chegasse a casa e encontrasse a Srª Velopata.

Ainda o Velopata não tinha tocado à porta do apartamento e já se sentia a atmosfera pesada como na iminência da maior trovoada presenciada pela humanidade.

De olhar irado a Srª Velopata abriu a porta.

O que se seguiu o Velopata não pode aqui descrever, uma vez no seu código deontológico está escrito que as blasfémias deverão ser evitadas a todo o custo mas, para que o leitor fique com uma ideia do que foi proferido, a Srª Velopata mandou vir e muito, como quem manda vir mesmo à grande e à francesa, apontando o dedo a um Velopata moribundo, acusando-o de ser só estúpido por se meter nestas encrencas, que tem um filho para criar e que se a brincadeira tivesse acabado pior, como seria?

Seguiu-se ainda uma penosa fase do pós-queda; retirar a escalafrada indumentária velocipédica, tomar um duche em água tépida (parecia lava vulcânica quando espalhada sobre as mazelas), retirar pedaçinhos de alcatrão da pele e feridas, desinfetando-as, tudo realizado com os protestos da Srª Velopata como banda sonora.

Sentindo-se quase a desmaiar de choque e fraqueza, foi um Velopata mais que moribundo que se arrastou até à cozinha, tentando forçar o estômago a encher-se de qualquer coisa que houvesse.

Os protestos da Srª Velopata continuaram quando, mesmo acometido de um ataque de tremores e frio, o Velopata insistiu em fumar o último cigarrito do dia na sacada.

Na realidade o Velopata sabe que a Srª Velopata estava era aborrecida porque ele havia falhado a sua promessa… Não trouxe pão.

E que raios?! Porque razão, quase 24 horas antes, o Velopata calçou os peúgos e chancas de encaixe numa outra ordem que não a protocolar?

Enfim… Diz a sabedoria popular que… À terceira é de vez!

 

PS velopático: Do fundo do coração o Velopata agradece a todos as palavras de encorajamento e de melhoras que recebeu. Um grande obrigado aos comparsas Falso Lento, Pata Negra, Calhau Rolante, Zuca Paraná e P.P. por um dia bem passado mas mal terminado e um grande, mas mesmo mais grande MUITO OBRIGADO ao Gil e G-Ride por toda a paciência do universo e arredores.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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