Carta de uma mendiga do pedal

Quando leres esta carta, já não serei a mesma.

Escrevo-a no altar onde agoro repouso inerte mas não consigo esquecer que foi aí mesmo que tantas vezes festejámos este amor.

Não vou mentir – isto está a custar muito mais do que esperava. Vejo ali as malas, malinhas, mochilas e mochilinhas do Bikepacking já arrumadas a um canto e nelas está tudo o que precisámos nas aventuras que vivemos e nos sonhos que não vivemos que não passaram disso mesmo. Sonhos.

Por favor não me culpes pela cobardia de não esperar que voltes a montar-me para sair a descobrir alcatrão e estradas. Tenho medo que me falte a coragem para não falhar.

Tomei esta decisão porque não aguentava mais o marasmo em que esta relação se transformou. Nota que não estou a derramar lágrimas sobre a tua cassete 11-32, carretos que há muito pareces ter esquecido o som. Luto há tempo demais por melhoras no teu peso, no teu FTPmax, na tua cadência do mesociclo do latacto anaeróbio mas… Em vão. Estou cansada de viver como uma bicicleta, assim mesmo, com b minúsculo, uma vulgar bicicleta que se transformou numa peça de mobiliário, um quadro estranho. Há meses que adormeço e desperto questionando-me onde falhei. Que mal tão grande terei feito, que furo, que quebra do cabo das mudanças, que manete ligeiramente desafinada terá despoletado essa indiferença tão grande com que me tratas. Não te importa que não role, não suba, não desça. E depois dizes “está tudo bem”.

Não, não está tudo bem.

Outrora fomos cúmplices, uma só revolução do pedal bastava para ambos os dois ficarmos de sorriso, tu nos lábios, eu nas fibras e resinas. Horas e horas por montanhas e vales, agarravas-me o guiador com força e paixão e planeávamos um futuro radioso e… Que futuro este agora… Onde todas as promessas mais não foram que isso mesmo, um imaginário nublado, sombrio, doente.

Este altar onde outrora me sabia bem repousar agora assusta-me, sinto-me numa prisão. Muitas são as noites onde acordo sobressaltada, fibras e resinas latejam com aquele recorrente pesadelo onde s´maccardito que mais dia, menos dia, serei escorraçada para um qualquer canto da sacada onde definharei o resto do tempo útil de minhas fibras à mercê dos elementos, como tantas outras infelizes que ouvistámos e criticámos.

O silêncio dos meus cubos novos já não é de paz e tranquilidade. É de quen não tem por onde ser pedalada.

Tenho pena que não me queiras pedalar. O meu selim ainda tem saudades tuas e tento, em vão, dar-te a manete para convidar a sair, intimamente tentando seduzir-te com aquele toque plastificado e as manchas de bedum de nossa última pedalada.

Não imaginas o que custa quando te vejo assentado no sofá, quando te vejo com a outra naquelas tuas sessões de auto-flagelação dos rolos de treino ou pior… Quando te vejo a colocar likes em fotos de Cannondales e Colnagos.

Eu sei que não sou aero. Sei que não sou full aero. Sei que não sou a mais leve. Sei que nunca serei uma tuénináiner e nunca te poderei levar a trilhos e êxtases de Natureza. Não consegues perceber o quanto meu 105 ganha folga, deslubrifica-se e desafina a cada vez que te ouço proferir palavras como “Ultegra” ou “Di2”.

Não imaginas o que isto me está a destroçar. Quando vejo que estás pronto para sair de casa sem capacete, sem um vestígio de licra a cobrir-te e sei que vais passear com o teu filho a pé… A pé! Como um simples e bárbaro hominídeo bípede que resolveu deitar milhares de milhões de anos evolutivos no lixo.

E quando regressas… Aquela mesma sensação de abandono, impotência.

Confesso que já te segui; já verifiquei todos os teus emails, o telefone esperto, o perfil strávico, o Instagram, as facturas acumuladas na caixa das contas. Nada. Não encontro provas que tenhas adquirido outra Bicicleta. A única prova que encontro é que não me pedalas. Acardito que só não me entregas para retoma porque o comodismo tomou conta de ti. E embora te queira em cima de mim mais do que nunca, mesmo com essas pernas hirsutas e por depilar há meses, não consigo deixar-me pedalar por alguém que me trata assim. Que não me olha nos tubos.

Ainda assim, cada vez que dobras a esquina do corredor, apareces sempre enlicrado dos pés à cabeça, trazes aquele olhar de felicidade ansiosa como quando aguardavas meu regresso da loja da especialidade velocipédica, como se me visses pela primeira vez. Prometestes-me isso. Agora dizes que “o teu filho, a metereologia e os cóvides não te estão a dar tréguas para te poderes dedicar a essas coisas”. Percebo então que essa imagem tua mais não era que um sonho fracassado e…

“Essas coisas” sou eu, a tua Bicicleta mais que tudo.

Não vês o estado lastimável em que me deixas…

Parece que não sentes a secura da corrente ou a vazia cãmbra de ar espezinhada pelo simples peso da gravidade? Tenho saudades de quando me agarravas com um vigor como mais ninguém me agarrou até hoje, mesmo quando trazias as manápulas pestilentas do tabaco de enrolar.

Se um dia sair por aquela porta sem ti, sei que me vou sentir como se um enlatado me passasse por cima. De dia. Com luzes na dianteira, na traseira, reflectores nas rodas. Minhas fibras de carbono vão perder a rigidez lateral, as resinas descolar e o verniz estalar. Irei ver e rever todas as nossas fotografias, cheirar todas as licras e senti-las uma última vez contra meu selim e aí saberei – vou desejar ser entregue para retoma.

Mas depois tudo vai passar. E vou sorrir por não mais ter de mendigar pela tua pedalada. Vou renascer. Aos poucos. Mas sabe que conseguirei ser montada outra vez.

E aí verás como o meu verniz vermelho ainda consegue reflectir o Sol.

Da tua eterna montada,

Estrela Vermelha

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