Os Senhores do Bikepacking – uma trilogia natalícia – parte I

OS SENHORES DO BIKEPACKING

Uma Trilogia Natalícia

Parte I

Era uma vez seis moçes judeus; Gaspar, Baltazar, Melchior, Mateus, Herodes e Beda que, no ano -1 de Nosso Senhor Joaquim Agostinho, trabalh… Eram funcio… Colaboravam juntos numa exploração pedreira romana onde recebiam seus espectaculares honorários através de uma espécie de percursor dos actuais Recibos Verdes, portantos, eram remunerados em chicotadas, porrada e mau-viver generalizado não obstante aqueles dias bons em que até lhes era fornecida uma refeição que, à época, equivalia a um autêntico manjar digno de Imperadores e Reis – uma taça de arroz.

E arroz branco.

Sem manteiga ou pitada de sal.

Que seus esclavagist… Patrões eram gente bem poupadinha.

Durante suas folgas, aí 1 ou 2 dias por ano (conseguidos após árdua luta vencida pelos Sindicatos de então), os seis amigos conseguiam sempre escapulir-se do Campo de Concentra… Pedreira, para se entregarem à paixão que os unia – as Bicicletas e a nobre arte velocipédica.

Todos solteiros excepto Beda, aqueles eram dias únicos em suas singelas vidas (nota do autor: à época, ter um emprego assim tão bem remunerado era considerado um privilégio ao qual muito poucos podiam aspirar), onde eram livres para pedalar durante horas a fio (menos Beda que, regra geral, findas as longas pedaladas acabava forçado pela respectiva a dormir o soninho recuperador bom no confortável sofá de pedra polida), sendo imagem recorrente nos seus perfis highfivianos (outra nota do autor: o Highfive era uma espécie de percursor pré-histórico do actual Facebook), inúmeras selfies em recônditos e belos locais serranos, sempre acompanhados de suas Bicicletas de rodas quadradas (ainda outra nota do autor: à época, a roda em forma circular ainda estava por inventar).

Um belo dia, Mateus, entre eles o mais dotado nas artes strávicas, preparava-se para uploadar a última volta da troupe quando uma publicação se destacou no seu feed.

Seria verdade o que Mateus lia? Ou seriam apenas efeitos da moca proporcionada pelo bolorento arroz, sua refeição pré-pedalada nessa manhã?

Intrigado, Mateus seguiu o link até ao site de uma tal de CMR (Correio da Manhã Romano) – estudos levados a cabo pelos académicos da época indicavam que no dia 17 de Junho desse mesmo ano, aquele que mudaria o mundo do Ciclismo para sempre, o Messias velocipédico, nasceria em Meensel-Kiezegem.

De imediato, a massa cinzenta de Mateus não conseguiu evitar começar a matutar como quem matuta mesmo; e se os seis amigos deixassem para trás aquela privilegiada vida para embarcar numa aventura velocipédica, viajando até Meensel-Kiezegem para assistir ao nascimento quiçá até conhecer pessoalmente o Messias, o máior por entre os máiores Ciclistas que o mundo ouvistaria?

– Só há um problema. – informou Baltazar enquanto os seis amigos labutavam, carregando uma pedra de 30 toneladas que serviria para a construção de um pilar para o lar de um qualquer nobre.

– Então? – inquiriu Mateus.

– Onde raios fica Meinsiel-Kezegerviemen? Isso nem deve de vir nos mapas…

– Meensel-Kiezegem. – corrigiu Mateus.

– Foi o que eu disse.

– Ó Baltazar mas tu também começas logo a agourar ainda nem uma pedalada demos. – notou Gaspar.

– Vejam aqui no Roman Earth! – berrou Herodes de telefone esperto na mão.

Debruçados sobre o ecrã 4K Nano Rock Led Full HD, os olhos dos amigos brilhavam em mais que os próprios leds enquanto mapas de longínquos países eram percorridos por polegares oponíveis.

Meensel-Kiezegem localizava-se na Flandres, portantos, na Bélgica, uma remota região da qual só estranhas lendas lhes haviam chegado aos ouvidos, alimentando sua imaginação – uma terra de gente rija, de Ciclistas que não temiam intempéries como chuvadas, ventos laterais e até… Até… Pavê.

Os 6 amigos nunca tinham sequer ouvisto pavê, apesar de trabalharem numa pedreira que fornecia muita da matéria-prima para a construção das via romanas, sonhando com o dia em que poderiam experienciar uma pedalada nesse piso tão acarinhado por Ciclistas de todos os cantos do Mundo (nota do autor: à época, acarditava-se que este Terceiro Calhau a contar do Sol era plano).

– Epá, essa tal Menseliem-Kizergevemienen parece ficar longe demais daqui… – suspirou Melchior.

– Meensel-Kiezegem. – corrigiu Mateus.

– Foi o que eu disse.

– Mas malta, tende lá calma e atentai à minha ideia. Porque não pegamos em nossas Bicicletas e protagonizamos uma monumental e épica viagem de Bicicleta que perdurará nos anais não só da história velocipédica mas também da própria história da humanidade? – propôs Mateus.

– Epá ó Mateus, tu falas um bocado bem demais para quem é escravo numa pedreira. – notou Herodes.

– Lá porque sou escravo não quer dizer que não tenha estudos. Ficai sabendo que sou Licenciado em Engenharia Astrofísica, simplesmente o mercado de trabalho está mau e um moço tem de se sujeitar para sobreviver, não? Ou queríeis que ficasse em casa a mamar do Subsídio de Desemprego Romano?

– Pois, lá nisso o Mateus tem razão. Para chupistas já nos chegam os ciganos. – concordou Melchior, aquele que, à revelia de seus amigos, secretamente tinha votado Chegum nas últimas eleições legislativas promovidas pela democracia romana.

– Epá, a ideia é muito gira, é tudo muito engraçado mas… Vocês já pensaram bem na logística que uma pedalada dessas acarreta? – insistiu Herodes.

– Não vos preocupais com a logística, fazemos como a malta do Bikepacking! – retorquiu um urináriamente excitado Mateus.

– Packing quê? – indagou Melchior.

– Bikepacking!

– O que é isso? – questionaram em uníssono.

– O Bikepacking é na sua essência, muito simples. Carregam-se as Bicicletas com mochilas e alforges e parte-se à aventura com mais ou menos tudo o que necessitamos para ser autosuficientes. A grande diferença é que não nos preocupamos muito com as médias. – explicou Mateus.

– NÃO NOS PREOCUPAMOS COM AS MÉDIAS?!?!?! – inquiriram em uníssono os incrédulos amigos.

– Epá… Vocês saíram-me cá uns ressabiados… Uma pedalada destas não é como nas nossas de fim de semana, onde todos se tentam descarregar e encarochar. Uma pedalada destas é para apreciar a paisagem, sentir os cheiros, o companheirismo e entreajuda e…

– Ufa… Pensava que estavas a falar de cerveja… – suspirou Herodes.

– Já percebi que isso é tipo Cicloturismo… Então e explica lá onde é que vais arranjar esses alforges? – Baltazar interrompia grosseiramente o devaneio poético de Mateus.

– Epá, com isso não se preocupem. Tenho uma amiga costureira que arranja armaduras para os legionários romanos, de certeza que ela consegue desenrascar qualquer coisa. – contra-argumentou Gaspar.

– Pois, pois… E onde é que dormimos? Ou vamos pedalar esses quilómetros todos de seguida? – insistiu Baltazar.

– Podemos dormir em inúmeros sítios, o que não falta por esse mundo fora são almas caridosas dispostas a partilhar um estábulo para um noite de dormida de uns aventureiros cansados. Ou até podemos ficar num Hostel se quiserem.

– O que é isso? – inquiriu Melchior.

– Isso o quê?

– Um Óstéle.

– Ah, é tipo um hotel mas em mais manhoso. É tipo hotel para pobres, boémios e drógádos. Mas podemos até nem ficar em nenhum destes sítios. E porque não?… E porque não equiparmos as Bicicletas com sacos-cama e dormirmos ao relento, só com o céu estrelado como companhia e as estrelas reflectindo nossos sonhos de fama, fortuna e glória velocipédica? – propôs Mateus.

Os covencidos olhos de seus companheiros começaram a brilhar ante a ideia de uma pedalada tão épica.

– Ó Mateus, outra coisa. – interrompeu Gaspar.

– Dizei amigo, dizei.

– E o cacau?

– Como assim o cacau? Ah, a comida? Então, levamos conosco barrinhas energéticas e preparamos uns quantos tamparoéres para levar nos alforges. Mas como isso certamente não será suficiente também podemos ir comprando pelo caminho ou mesmo parando em tascos para provar as iguarias nativas. – explicou Mateus.

– Sabes, não era bem a esse cacau a que me referia.

– Como assim?

– O cacau. O monay. O pilim.

– Hã?

– Os sestércios pá! Os sestércios que vamos precisar para toda essa viagem!

– Ah sim, também já pensei nisso! Acho que devíamos tentar falar com algumas empresas locais quiçá até com o próprio Governador Pilatos para patrocinarem a nossa aventura a troco de publicidade nas redes sociais. – explicou Mateus.

– Epá Mateus, tu pensas mesmo em tudo! – notou Melchior.

– Tem de ser, tem de ser… Toda a gente sabe que o segredo para uma boa aventura correr sem espinhas está na preparação e…

– Ó malta, desculpem lá mas… MAS VOCÊS JÁ SE OUVIRAM BEM? ESTÃO SÉRIAMENTE A PENSAR ARRISCAR O DESPEDIMENTO POR JUSTA CAUSA DE UM TRABALHO DE SONHO E ARRUINAR VOSSAS CARREIRAS APENAS PORQUE VIRAM NA INTERNET UMA NOTÍCIA QUE PODE MUITO BEM SER DAQUELAS DAS FAKE NEWS? MAS ESTÁ TUDO PARVO? – a tempestiva explosão de Baltazar apanhou os amigos de surpresa.

– Mas quais fake news… – tentou Mateus acalmar.

– Sim, fake news! E se essa história do Messias do Ciclismo mais não fôr que uma grande tanga? Já pensaram nisso? Olha, parece que nem de propósito, ainda na semana passada li um artigo no highfive onde alguns chalupas diziam ter provas que a Terra era redonda.

– Ah! Ah! Ah! A Terra redonda… Realmente… Ele há com cada um… – anuíu Melchior.

– E se chegam lá a essa tal de Mezebelem-Kiezeguel e não está lá nada? Se toda essa história não fôr mais que uma lenga-lenga inventada por algum gajo qualquer com muito tempo livre e falta de sexo, ainda a viver no estábulo dos pais aos quarenta anos?

– Meensel-Kiezegem. – corrigiu Mateus.

– Foi o que eu disse.

– Sabes o que te digo Baltazar?… Onde está… A tua Fé?

– Mas qual Fé pá! O que tem a Fé háver com isto?

– A Fé na Velocipedia. A Fé que podemos ser mais e melhores, que podemos ir mais além e desafiar os limites dos nossos corpos e mentes e…

– Pois ó malta, isso é tudo muito bonito mas estou fora. Não contem comigo. – Beda falava pela primeira vez.

– Então? – questionaram os amigos em uníssono.

– É que vocês esquecem-se que não sou solteiro… Mas acham mesmo que a minha mulher me vai deixar desaparecer durante sabem-se lá quantos dias com a desculpa que vamos pedalar até encontrar o Messias?

E foi assim que Beda saltou fora deste conto natalício.

– Vocês querem o meu dinheiro para quê?

O Governador Pilatos, assentado sobre as costas de um escravo-mobiliário, um moçe de origem escandinava outrora capturado durante um incursão viquingue falhada e agora condenado a servir de cadeira, não s´acarditava no que aqueles cinco escr… Trabalhad… Funcioná… Colaboradores da Pedreira Romana lhe pediam.

– O mui venerável e magnificiente Governador Pilatos não deseja ver seu nome associado a uma aventura épica que perdurará nos anais da história? – explicou Mateus.

– Bem… Sim.

– Então porque não desbloquear as verbas que permitam a estes seus humildes súbditos sofrer nas pernas, corpo e mente as agruras de levar o nome do Magnífico Governador Pilatos mais além, transcendendo fronteiras do contínuo espaço-tempo?

– Epá, vós falais muito bem para quem trabalha numa Pedreira.

– Obrigado Eminência.

– Se não tivesse os cargos do meu Governo democráticamente eleito já todos ocupados pelos meus irmãos, primos, cunhados, tios e sobrinhos, até lhe arranjava aqui uma vagazinha num Ministério qualquer.

– Obrigado Eminência. Mas é meu desejo concentrar-me totalmente na aventura em mãos, quem sabe no meu regresso?

– Pois quem sabe? A´tão mas explique-me lá só mais uma coisa… Como é que ganho notoriedade enquanto patrono da vossa aventura mesmo?

– Garanto-lhe que todas as publicações que qualquer um de nosso grupo faça no highfive serão acompanhadas do échetégue Pilatos. Assim todos os seus súbditos ficarão a saber o quão caridoso é, para além da publicidade gratuita ao seu magnânime reino. É certo e sabido que este tipo de manobra de marketing até nas cotações da bolsa tem um efeito positivo. E nem vou falar do retorno ao nível do Turismo. Olhe ali em Jerusalém, por exemplo. Dizem que aqui há uns anos andava por lá um moço carpinteiro que transformou água em vinho e agora é só turistas e hostels e bares e gourmet por todo o lado.

– Não digas mais, estou convencido! Tenham é só o cuidado de escrever bem o meu nome.

– Assim faremos Sua Excelência, assim faremos.

– Lembro-vos que os últimos que andaram pelo Instagram a fazer trocadilhos de índole ordinária com o meu nome… Bem, vou só dizer que os Crocodilos do Nilo tiveram alimento para várias semanas, se é que me entendem.

(Nota do autor: apesar de os trocadilhos infames com o nome do Governador Pilatos terem terminado por aqui, este não se livraria de ter uma espécie de ginástica ou lá o que é nomeada em sua homenagem.)

– Podeis ficar descansado e um grande muito obrigado Sua Majestade.

E foi assim que pelo dia 25 de Dezembro do ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de -1, os cinco aventureiros pegaram nas suas Bicicletas carregadas de mochilas confeccionadas pela amiga de Gaspar, a reconhecida costureira Maria Apidurum, lançando-se à mais ou menos estrada da época para sua grande aventura.

Dia 15 de Fevereiro do Ano 0 de Nosso Senhor Joaquim Agostinho

Aproximadamente dois meses depois, o quinteto completava os cerca de duzentos quilómetros que os separavam da fronteira, assim deixando território israelita-judaico para trás, embrenhando-se por caminhos jamais percorridos por qualquer um de ambos os cinco.

(Nota do autor: se a média efectuada pelos aventureiros; duzentos quilómetros em aproximadamente dois meses, parece deveras fraquinha ao mui ressabiado leitor, é porque não haveis experimentado pedalar numa Bicicleta de rodas quadradas.)

Entrando em território libanês, portantos, no Líbano, a troupe sabia que todas as cautelas eram poucas pois os nativos destas paragens, conhecidos como Fenícios, eram moçes muito dados à actividade mercantil de bichos humanos sendo opinião unânime entre o grupo que o contacto devia ser evitado a todo o custo, sob o risco de captura para virarem escravos ou até algum maquiavélico destino em pior.

Independentemente dos temores que a ideia de uma vida de escravatura apresentava, a moral encontrava-se elevada, permitindo-se a troupe, quando a inclinação da estrada o permitia, entoar belas canções que ecoavam pelas magnânimes paisagens que atravessavam;

O lar ficou para trás

O mundo pela frente

E há muitas estradas a pedalar.

Cadência e Lactato

Pelas brumas da noite

Até as estrelas estarem todas acesas.

Cadência e Lactato

FTP e VO2

A Esperança aparece

Todos devem esperançar.

Dia 31 de Fevereiro do ano 0 de Nosso Senhor Joaquim Agostinho

– Epá, mas quantas vezes temos de te dizer que esses pneus Specialicoisum Turbum RapidAirum não prestam? – bradou Baltazar na direcção de Melchior, enquanto a troupe cessava sua pedalada para mais uma vez acudir o comparsa acometido do que já contabilizavam como trigésimo sétimo furo.

– O Baltazar tem razão, devíeis ter feito como nós e trocado para uns Vittoriam Rubinum Proum. Já vistess como mais ninguém teve tantos furos como tu? – reforçou Mateus.

– Prontoss, prontoss, isto resolve-se já. Vaiamos fazer um pequeno desvio rápido até à próxima cidade e tentamos passar despercebidos enquanto vou a uma loja trocar de pneus e compramos cãmbras de ar para todos. – retorquiu um comiserado e ainda não tão convencido Melchior.

Gilum, o reputado dono do único estabelecimento da especialidade velocipédica existente num raio de muitos quilómetros, a G-Rideum, sabia que podia ganhar uns sestércios valentes com aquela desaustinada troupe estrangeira.

– São mil sestércios se faz favor. – informou Gilum enquanto limpava as mãos besuntadas de óleo à pele de um escravo-pano.

– COMO?!?!?! – bradaram os aventureiros em uníssono.

– Como? Então; são quinhentos sestércios por dois pneus Specialicoisum Turbum RapidAirum novos, mais duzentos sestércios por todas as cãmbras de ar e há que não esquecer os trezentos sestércios por toda a mão de obra. – explicou Gilum.

– Mas é impressão minha ou falar contigo é como falar com uma parede?!?! Metestess outra vez pneus Specialicoisum? – Baltazar não se queria acarditar na casmurrice de Melchior.

– Párem de achincalhar os meus pneus Specialicoisum! Fiquem sabendo que é a melhor marca do Mundo! Vocês e as vossas marcas têm é inveja que a Specialicoisum tenha inventado a roda quadrada! – ripostou Melchior.

– Já devíamos ter adivinhado que esta malta da Specialicoisum é pior que uma seita… – Mateus desesperava.

É que feitas as contas, o orçamento providenciado pelo Governador Pilatos acabava-se por aqui ainda a procissão não tinha sequer chegado à periferia do adro.

– Aceita Multibanco? – Melchior inquiria Gilum.

– Claro! – Gilum já esfregava as mãos (mas não num escravo).

E foi assim que a troupe regressou à via, todos dotados de cãmbras de ar suplentes e Melchior com pneus novos.

O problema?

Mateus, encarregue das Finanças da epopeia, omitiu de seus comparsas a preciosa informação que suas economias chegavam ao fim.

(Nota do autor: se o mui querido leitor desconhece a taxa de conversão de sestércios para eirios, o Velopata não tem culpa de vossa notória ausência de cultura geral.)

Dia 15 de Março do ano 0 de Nosso Senhor Joaquim Agostinho

Atravessando agora território sírio, sempre com todas as cautelas e mais algumas; afinal esta era região de xiitas, alauitas, sunitas e muitas outras etnias de “itas”, tribos capazes de massacrar qualquer judeu que lhes aparecesse pela frente apenas por saber da simpatia que os regimes judeu e amaricano nutriam entre si; a troupe deu por si com estômagos a roncar como quem ronca mesmo finda a passagem pelo ponto Cima Coppi sírio – o Monte Hérmon com os seus dois mil, oitocentos e quatorze metros de altitude.

– Epá malta! Sabem o que é que me apetecia agora? Uma Pita Shoarma! Nem precisava de ser daquelas do Joshua´s, até podia ser de uma roulote qualquer! – informou Herodes.

– Não é roulote que se diz agora pá! É Street Food! – ripostou Baltazar.

– Pois por mim, já ficava satisfeito com uma min´ bem fresquinha! – disse Gaspar.

– Tenho estado a tentar adiar esta notícia para vós… – interrompeu Mateus.

Acometida de um tenso silêncio, a troupe rodeou Mateus em antes de iniciar a complicada descida técnico-táctica do Monte Hérmon.

– Então Mateus, que se passa? – indagou Herodes.

– Eu… Eu…

– Desembucha pá! – reforçou Baltazar.

– Não temos mais sestércios. Gastámos tudo na oficina com os pneus e as câmaras de ar, para além das bujecas e rameiras naquela boate quando parámos em Damasco.

Um excruciante momento de silêncio percorre a troupe enquanto os comparsas se fitam, sendo Mateus e Melchior os que mais tempestivos e furiosos olhares recebem. Algures nos longínquos vales da cordilheira do Antilíbano, alguém toca uma harmónica, só quebrada pelo roncar dos vazios estômagos dos comparsas.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

Um Feliz Yule (ou como vós conheceis, Natal), a todos!

Abraços (com máscara e à segura distância higiénica) velocipédicos,

Velopata

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