O primeiro passeio… Que era uma corrida… Que era um passeio… Que afinal era uma corrida!

Corria o ano de Sua Santidade Joaquim Agostinho de 2013, quando o anúncio de um passeio velocipédico se destacou no feed facebookiano do ainda então velocipédicamente imberbe e maçarico heteromónimocoiso do Velopata.

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É com lágrimas nos bonitos olhos castanho-esverdeados que o Velopata lembra o anúncio do seu primeiro passeio… Corrida… Coiso.

Organizado pela associação Rodactiva, sediada em Castro Marim, essa bela localidade algarvia que o Velopata já conhecia das suas visitas à então desconhecida mas actualmente insuportavelmente atulhada em bichos humanos, Feira Medieval, o anúncio prenunciava um belo passeio por estradas até então totalmente desconhecidas deste vosso compincha do pedal.

Importa agora que o Velopata estabeleça a primeira ressalva, permitindo aos mui queridos leitores entender o ponto de vista velopático, não o considerando um simples asno.

Até à data desse malogrado dia 19 de Maio de 2013, a maior volta que o Velopata havia praticado não ultrapassou os míseros 100 quilómetros de extensão; uma espécie de circuito entre Faro e Vila Real de Santo António pela famigerada N125 (quem diria que o Velopata já arriscou dessa maneira a vida/morte!), e como muitos dos mais-que-tudo leitores conhecerão, esse é um percurso que pouca ou nenhuma real subida apresenta.

Lendo o anúncio da Rodactiva, o Velopata matutou, como quem matuta mesmo, sobre qual seria a melhor distância para ele.

As duas primeiras distâncias; 10 e 50 quilómetros estavam fora de questão pois não ocorria justificação ao Velopata para convencer a Srª Velopata a levá-lo até à partida, com o intuito de fazer tão pouca quilometragem. Ou talvez fosse o bichinho das longas distâncias, também ele imberbe, despoletando as primeiras influências. Já o percurso de 90 quilómetros apresentava-se como uma distância razoável mas, uma vez que a Rodactiva frisava em todos os textos e publicações que se tratava de um passeio, ao maçarico Velopata, farto de pedalar sempre sozinho, a inscrição na distância dos 130 quilómetros pareceu uma óptima oportunidade de passar o dia e travar amizade com outros tantos adeptos da mais nobre modalidade que é o ciclismo.

Inscrição feita e o Velopata obteve o dorsal número 1, o que seria per semais grande presságio em como havia ali água na suspensão a óleo. Porque razão, a escassos dias do passeio, o Velopata era o primeiro a inscrever o seu nome na lista dos participantes na distância dos 130 quilómetros? É certo que o portuga deixa tudo para a última da hora mas ainda assim…

Seguia-se a fase pós-inscrição na qual o Velopata teria de convencer a Srª Velopata a transportá-lo e à sua querida montada da época, o querido Cangalho, na sua lata até Castro Marim, tendo posteriormente de trazê-lo de regresso ao lar, findo o passeio.

Claro está que como boa fêmea e respectiva de um ciclista, a Srª Velopata protestou, revelando-se necessária toda a lista de artimanhas e astúcia às quais um macho pode recorrer quando necessita de algo da sua companheira.

Birra.

O Velopata fez birra.

Uma resignada Srª Velopata transportou na sua lata o Velopata e sua fiel montada Cangalho até Castro Marim onde, logo à chegada começaram a destacar-se os primeiros sinais da lições de vida velocipédica que aguardavam o Velopata.

Ainda nem a Srª Velopata tinha estancionado a sua lata e já o casal observava vários enlicrados de todas as cores, formas e feitios, realizando pedaladas de aquecimento pelas estradas circundantes da linha de partida. Aquilo pareceu estranho ao Velopata, não só pelo facto de andarem enlicrados tão cedo a realizar curtos mas duros intervalos como manobra de aquecimento, como pelo facto de que à época, apesar de mancebo, o Velopata já saber distinguir uma bicicleta muito cara de uma bicicleta absurdamente cara. E rodas. Rodas que custavam pequenos assaltos a máquinas multibanco com recurso a garrafas de gás. Rodas tão absurdamente caras que nem toda a parafernália velocipédica que o Velopata tem actualmente no seu lar seria suficiente para as pagar.

E disso caro leitor, bicicletas exageradamente caras com rodas absurdamente caras, era o que mais por lá se via. Às resmas e paletes.

Assim que saíram do estancionado enlatado da Srª Velopata, seguiu-se um outro portentoso sinal de alarme que óbviamente o Velopata ignorou – um estranho e inidentificável cheiro pairava na atmosfera, dir-se-ia um misto de medicamento com pomada, ambos provenientes de Fukushima.

Só muitos dias depois e após uma extensa pequisa pelos meandros da deep e dark e coiso web, o Velopata descobriu o que raios aquela enlicrada troupe esfregava nas pernas.

Creme para aquecimento muscular.

Para que quereriam aqueles mafarricos um creme de uso quase profissional se aquilo não passava de um passeio?

Mas faltava um último sinal, se é que se pode chamar sinal à constatação do óbvio, ainda por cima quando proveniente do Presidente, Chefe ou Boss da Rodactiva, com quem o desconhecedor Velopata trocou umas impressões.

“Desculpe, poderia indicar-me onde se levantam os dorsais?” – o Velopata questionou um moço que vestia um pólo côr de laranja onde se liam as palavras Rodactiva e Organização.

“É já ali, na primeira porta à direita do Pavilhão.”

“OK, obrigado. Muita gente para o passeio, não?” – Velopata a tentar meter conversa de circunstância, afinal ele tinha-se deslocado a este passeio para travar amizades.

“Sim, sim, muita gente. Não esperávamos tanta gente dada a dificuldade do percurso. Já agora, qual distância vai fazer?”

“A distância dos homens, 130 quilómetros.” – retorquiu um orgulhoso Velopata.

Após a resposta do Velopata, o Boss Rodactiva olhou Velopata e Cangalho de alto a baixo, claramente tirando as medidas a ambos;

“É um percurso bem duro e tramado. Boa sorte.”

Com aquelas palavras e particularmente aquele tom de voz, o Velopata engoliu em seco, fornçando-se a aguentar as pontadas, quer da nervosa bexiga, quer do enrascado esfíncter.

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Observando bem esta foto, torna-se perfeitamente aceitável o olhar que o Presidente da Rodactiva lançou sobre o maçarico Velopata. Se fosse hoje, o Velopata também teria muita pena ao saber que o desgraçado da foto se ia lançar numa pedalada muito acima da que as suas pernas permitiam.

Uns quantos cigarros depois, fumados em catadupa numa frustada tentativa de acalmar os nervos, a maralha começou a juntar-se na linha de partida do passeio e lá foi o nervosíssimo Velopata juntar-se às hostes. Aí, segundo o que o Velopata conseguiu apurar dos vários enlicrados à sua volta, os primeiros 3 quilómetros do passeio seriam neutralizados, ou seja, mais um sinal de que o Velopata se estava a meter numa bela encrenca velocipédica.

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Ele que até nem tem esse nojento vício de roer as unhacas, pouco antes da partida roeu-as até ao tutano, principalmente quando comparando o seu já físico somali com o dos restantes participantes, como é o caso do Hulk Velocipédico, à direita na foto.

Como se já não bastasse a óbvia falta de preparação para o que o aguardava, mais uma ideia de jumento acometeu o cérebro velopático.

Sendo ele maçarico nestas andanças de pedalada em molhada compacta, a ideia era manter-se na cauda do pelotão para evitar desgraças, subindo lugares calma e gradualmente, à medida que a conversa com os restantes intervenientes fosse fluíndo.

Tiro de partida.

Nos 3 primeiros quilómetros o pelotão levava já uns bons 6 quilómetros de avanço sobre o Velopata.

Neutralização?

Que razão poderia existir para aquele ritmo alucinado lá na frente?

Estaria algum perigoso animal, fugido de um zoológico próximo, a perseguir a malta?

Será que, alguns quilómetros à frente da linha de partida, alguém estaria a oferecer algo?

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O único momento em que o Velopata conseguiu pedalar numa roda, ou seja, aí uns 5 segundos após a partida.

Indiferentes às questões que percorriam a mente velopática, o pelotão seguia desaustinado na frente, atingindo uma velocidade tal que poucos minutos depois o Velopata deu por si a pedalar sozinho nas tais rotas de Castro Marim e pouco ou nada mais havia a fazer, mesmo sendo um ainda imberbe praticante deste mui nobre desporto, um dos mais importantes mandamentos velocipédicos o Velopata conhecia – desistir não é opção.

“Bem… Seja o que Nosso Senhor Joaquim Agostinho quiser e siga.” – pensou um Velopata para com o seu fiel Cangalho.

Dos cerca de 90 quilómetros que se seguiram pouco há a escrever. Subidas intermináveis a perder de vista no horizonte, vertiginosas descidas técnicas, terminologia à qual o Velopata acha muita piada pois uma descida técnica não mais significa que se deve fazer com cautela, reduzindo o risco de saír ribanceira abaixo, mais longas subidas, algum alcatrão de qualidade duvidosa, depois ainda mais subidas mas, acima de tudo, dores nas pernas, braços, costas, peito e que mais zonas corporais o leitor consiga lembrar. Se existe no corpo humano, tenha a certeza mais-que-tudo leitor, essa zona doía ao Velopata.

Triste, só e abandonado, mas não tão gelado como na música do comercial da Olá por ter recorrido a uma camisola interior térmica, o Velopata seguiu sozinho durante horas e horas, chegando mesmo a questionar-se se algures não se teria enganado num dos muitos entroncamentos por onde o “passeio” decorria. A sua salvação foram mesmo…

Os porcos.

Sim, aqueles praticantes deste nobre desporto que, sempre preocupados com o peso, nem são capazes de levar consigo até ao lixo mais próximo os restos das embalagenzinhas plásticas que envolvem as barras de energia.

Aqui e ali lá passava um desses plásticos ao sabor da brisa e só assim o Velopata pode saber que se encontrava na estrada certa.

Se até à data deste malogrado dia, as voltas do Velopata haviam sido curtas, o que dizer dos Reais Cagaços Velocipédicos, esses momentos de contracção esfíncteriana onde o ciclista sente que escapa ao esbardalhanço e morte por um triz?

Quis o destino que também nesse dia o Velopata perdesse a virgindade do real cagaço velocipédico; durante uma ultra-mega-hiper-inclinada descida, seguida de uma hiper-ultra-mega-apertada curva cega, o Velopata apertou os travões com tanta genica que o Cangalho sacudiu que nem um bovino acometido de encefalopatia espongiforme, quase atirando o Velopata para a margem do Rio Guadiana, uns bons metros afastada do alcatrão. Teria sido uma manobra capaz de arrancar nota 10 nas Olimpíadas da Burrice, felizmente não se encontravam juízes por perto.

Acagaçado, derreado, desaustinado e almariado, sentindo que seriam necessárias várias vidas para recuperar corpo e mente do brutal trauma e choque sofridos, o Velopata viu aparecer no horizonte a placa indicativa dos 90 quilómetros cumpridos.

Nesse mesmo ponto, a Rodactiva decidiu presentear os participantes do “passeio” com uma bela tenda munida de formosas jovens e uma longa bancada recheada de caixas com bolos, bolinhos, fruta, água, bebidas isotónicas, energéticas e sabe-se lá mais o quê de multicoloridos líquidos.

Só aí o Velopata percebeu a pressa e razão por detrás daquele ritmo do pelotão; aquelas velocipédicas aves de rapina estavam com ganas de chegar a este ponto, agindo conforme manda a lei portuguesa – se é de borla, há que rapinar tudo!

Como dos fracos não rezam as lendas, o Velopata decidiu não parar para provar sobras e migalhas, seguindo para os derradeiros e últimos 40 quilómetros deste… “Passeio”.

Mais subidas intermináveis, descidas a perigosas velocidades e de uma só coisa o Velopata tinha agora a certeza; as rotas de Castro Marim poderiam efetivamente ser muito bonitas, o problema é que o sofrimento durante as subidas e a sensação de vertigem estomacal nas descidas não deixavam apreciar 1 único quilómetro de paisagem.

Após uma curva cega eis que Nosso Senhor Joaquim Agostinho finalmente presenteou com uma agradável surpresa este vosso compincha pedalante; no horizonte à sua frente, o Velopata vislumbrou três coloridas licras cujas rodas podiam ser apanhadas caso o Velopata fizesse das tripas, pernas.

Importa agora ao Velopata fazer uma ressalva para que o querido leitor não o venha acusar de aldrabice ou até mesmo um obtuso nacionalismo pois a verdade é que apesar do Velopata ter perdido 6 quilómetros para o pelotão naqueles primeiros 3, muitas outras desgraçadas almas houve que também ficaram para trás logo, na sua velocipédicamente infantil mente, ele acreditava não se encontrar em último lugar do… “Passeio”.

Colando na roda do trio que assim passava a quarteto, este manteve-se unido durante uns parcos quilómetros sem que ninguém questionasse o facto do Velopata se manter sempre na última posição do grupo, recuperando alguns dos bofes e não labutando na frente uma única vez que fosse.

Chegando à base do que se previa mais uma típica dura subida do belo Sotavento Algarvio, foi com alguma excitação que o Velopata se apercebeu que um dos elementos do quarteto começava a perder o contacto. Soltando mais alguns dos já poucos bofes sobreviventes, o Velopata pregou dentes no guiador e colou-se na roda dos dois que seguiam na frente, alheios a todo o sofrimento que decorria nas suas rodas.

Foi então que o Velopata ouviu a esbaforida voz do gajo que ficava para trás;

“Mi disculpa pero, eres el último?”

“Hã?” – com a deslocação do ar e a concentração em ambas as duas rodas que seguiam na sua frente, o Velopata não percebeu patavina.

“Eres el último?”

“Não sei mas acho que não.” – atente caro leitor, nesta longínqua época o Velopata não observava o espelho reconhecendo no reflexo um espectacular atleta de baixa competição logo, não se referia a si próprio na terceira pessoa.

“Pressupuesto.”

E com aquela palavra que muito gostam nuestros hermanos de dizer por dá cá aquela palha, o espanholito desistia de lutar contra o ritmo que os dois marafados impunham na frente, ficando para trás e desaparecendo para todo o sempre do Universo Velopático.

Os quilómetros que se seguiram foram feitos a um ritmo agradável ao Velopata, apesar de não trocar uma única palavra com os outros dois membros do trio. Seguiam concentrados na tarefa de terminar aquele tortuoso “passeio”, levando até a que o Velopata se aventurasse e labutasse na frente, peito ao vento.

Atingindo-se a que o Velopata conhece agora ser a Barragem de Odeleite, talvez por fruto de vislumbrar tanta quantidade de líquido, a bexiga velopática começou a dar sinais de vida, forçando o Velopata a pedalar uns quantos quilómetros completamente contraído sobre o seu Cangalho, chegando a tal ponto que se revelou incomportável continuar a pedalada sem esvaziar aquele desgraçado nível hídrico-úrico.

Resultado… O trio passou a dueto, deixando um Velopata com um misto de sentimentos; alívio por finalmente esvaziar aquele atrapalhador orgão e desilusão por perder a companhia.

Novamente sozinho, o Velopata lançou-se ao alcatrão onde, pelas contas do seu ciclocomputador (à época nem GPS o Velopata tinha), restavam uns 20 quilómetros de tortura, sofrimento e coiso.

Como o destino é tramado com F maiúsculo, estavam ainda reservadas duas grandes surpresas ao Velopata, novamente sob a forma de cagaços velocipédicos capazes de contraír ainda mais um esfíncter já derreado de tanta emoção.

O primeiro chegou ao Velopata sob a forma de uma efetiva e real saída de estrada; numa apertada curva mal sinalizada onde o alcatrão havia sido substituído por pedras, pedrinhas e terra, o Velopata degustava uma das suas barrinhas de energia quando, apercebendo-se da errada trajectória que seguia, mal conseguiu travar e levar o Cangalho a curvar, saíndo da estrada, penetrando na vegetação para só parar quando a roda da frente violentamente embateu no muro de uma habitação, por sorte, desocupada. Sendo já um ferrenho adepto dos pedais de encaixe, aquando da sua transformação em corta-relva, o Velopata conseguiu libertar as chancas dos encaixes e só por isso não se esbardalhou.

O Cangalho podia ser muita coisa; pesada e um quadro assim a puxar para o alumínio feinho mas de uma característica o Velopata não se podia queixar – o Cangalho aguentava tudo.

Refeito do monumental cagaço e com o esfíncter menos contraído, o Velopata inspeccionou a roda da frente; nem o pineu se encontrava furado, nem a roda parecia empenada. Por milagre o Velopata havia-se safado sem que vivalma tivesse ouvisto o que ali tinha acontecido.

Regressando à estrada, o Velopata continuou o seu “passeio”, enfrentando mais uma longa e interminável subida quando, do vazio que eram aquelas tortuosas estradas, o ronco de um enlatado se fez ouvir na roda velopática.

Uma Ford Transit com aquela típica côr creme deslavada, um ferro-velho sobrevivente à dureza e piroseira do final dos anos 70 e 80.

Uma, duas, três vezes o Velopata fez sinal para a lata o ultrapassar e seguir a sua vida mas teimosamente, o condutor insistia em seguir o Velopata bem perto.

Perigosamente perto.

E o cérebro velopático disparou que nem um louco, enumerando as várias hipóteses dispostas sobre o alcatrão;

– Seriam ciganos, aguardando o momento ideal para atacar o Velopata, despojando-o de bicicleta, indumentária e o que mais houvesse?

Perscutando a atmosfera em busca de sinais odoríferos com recurso à sua bela aeropenca, o Velopata não conseguiu detectar nenhum cheiro característico de ciganada; aquele smell a fogueira, fruta roubada, roupa contrafeita ou até mesmo subsídios (nota velopática: esta é uma piada patrocinada pelo Correio da Manhã).

-Seriam terroristas da Al-Quaeda, prestes a atropelar o infiel Velopata em nome de Alá?

Por precaução, o Velopata tentou explicar recorrendo à linguagem gestual que atropelá-lo teria pouca influência mediática e que o grosso dos enlicrados seguia lá na frente e esses sim, valeria a pena atropelar dada a espectacularidade e mediatismo que tal acto terrorista traria consigo.

Zero. Bola. Nenhuma reação do enlatado.

Nada parecia resultar.

O Velopata deu por si rendido às evidências; aquela Ford Transit seguia o Velopata com um montão de bandidagem no seu interior, esperando o oportuno momento para saltar e atacar o Velopata roubando-lhe tudo.

Com o esfíncter contraído a uma capacidade intestinal que o Velopata desconhecia ser capaz, a escassos quilómetros do que o ciclocomputador indicava estar a “meta” do “passeio”, o Velopata vislumbrou Castro Marim no horizonte e respirou de alívio por estar assim a salvo do ataque da bandidagem da Ford Transit, dadas as muitas testemunhas que por ali passavam nos seus enlatados. Infelizmente foi com horror que o Velopata percebeu que a malta da Rodactiva não utilizava a mesma marca de ciclocomputadores deste vosso amigo – surgia a indicação de uma curva que levou o Velopata para uma estrada que o afastava de Castro Marim.

Ao entrar nessa estrada, assim como havia aparecido, a Ford Transit sumiu.

Arrebentado a um nível como ele jamais havia sentido, 5 quilómetros depois de uma infindável estrada com horríveis rampas, o Velopata chegou a Castro Marim onde, esperava ele, estariam milhares de milhões de bichos humanos, aguardando a chegada dos participantes no passeio.

Cri-cri.

Cri-cri.

(onomatopeia que simula o som dos grilos na noite)

Chegado à zona onde o “passeio” terminava, só duas pessoas aguardavam a chegada do Velopata. Quer-se dizer, apenas uma aguardava a chegada velopática; a Srª Velopata. O outro indivíduo era alguém da organização da Rodactiva que desmontava o que pareceu ao Velopata um pódio. Fora estes dois seres, não se via vivalma.

Que miséria.

Questionando o moço da Rodactiva, o Velopata procurava saber se aquilo lhe tinha corrido tão miserávelmente mal e se seria ele o último a ter chegado a Castro Marim;

“Não foi o último, não. Tanto quanto sei ainda há gente na estrada.” – retorquiu.

“E os tempos?”

“Fique atento que as classificações devem saír esta semana.”

Mas desde quando um passeio tem classificações?!?!?!

Era esta a prova cabal do que o Velopata havia matutado ao longo daqueles penosos 130 quilómetros; os organizadores destes eventos precisam que alguém lhes envie um diccionário de Português.

“Então, gostaste?” – questionou uma sorridente Srª Velopata.

“Não. Foi a pedalada mais horrível da minha vida.”

A Srª Velopata riu. Muito.

 

Foram vários os penosos dias de recuperação em que o Velopata esperançoso, visitou o site da Rodactiva, procurando as “classificações” do “passeio”.

Até que o dia chegou.

Dos cerca de 98 enlicrados que haviam marcado presença, apenas 20 se haviam inscrito na distância dos 130 quilómetros.

Desses 20, o número de desistentes era 3.

Adivinhe, querido leitor, quem ficou na décima sétima posição?

O vosso querido Velopata.

E décimo oitavo?

O desgraçado do espanholito; provavelmente ao ver-se ultrapassado pelo Velopata que aos seus olhos não passava de um maçarico montado numa bicicleta de supermercado, decidiu jogar a toalha ao chão. Pressupuesto, o tanas.

Analisando os tempos da geral, o Velopata descobriu que efetivamente tinha sido o gajo que mais tempo demorou a completar o “passeio” pelas Rotas de Castro Marim ou, por outras palavras, o gajo da Rodactiva era um fofinho que não quis destruír o já mastigado e cuspido ego velopático.

Só muito tempo decorrido após aquele lastimável dia, o Velopata percebeu quem estaria no interior daquela Ford Transit…  Não se tratavam de ciganos, terroristas ou bandidos…

Afinal era apenas o ca… Car… O Enlatado Vassoura.

Nada mau para primeira prova, passeio ou coiso, não?

“Ó Velopata, não achas que isso foi uma dica do Além para te deixares dessa vida?” – chegando a estas linhas, decerto essa é a questão colocada pelos mui queridos leitores e à época, a esperança da Srª Velopata.

Que nada.

Meses depois, árduas sessões de treino e flagelamento de pernas decorrido, surgiu novamente no feed facebookiano, o anúncio de mais um “passeio” velocipédico, desta feita promovido pela Associação Existir, onde se percorreriam belas estradas do concelho de Loulé. No anúncio surgia a indicação que os cerca de 60 quilómetros do percurso se encontrariam neutralizados por um enlatado da associação na frente e os últimos 4 quilómetros abertos para uma Roda Livre (caro leitor civil, uma Roda Livre não é mais que o enlatado neutralizante saír da frente e é o salve-se quem puder), com prémios para os primeiros três a cortar a meta que se encontrava no topo de uma penosa subida.

Ele pode demorar… Mas… Velopata que se preze, aprende a lição.

Chegando ao local de partida, a primeira opção táctica do Velopata foi apurar quais de entre os inúmeros enlicrados espécimens que por lá pululavam, aparentavam marcar presença com o intuito de ressabiar ao mais alto nível. Identificada a competição velopática, o plano era infalível; manter-se nos primeiros lugares do pelotão até ao momento em que o enlatado lá na frente libertasse a fúria ressabiada sobre o alcatrão.

O problema é que dos 60 quilómetros do passeio, o Velopata passou 56 deles de mãos coladas nos travões. A quantidade de mafarricos a lutar por um lugar cimeiro no pelotão era tal que se o objectivo daquele passeio era pedalar, a organização havia falhado redondamente.

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À esquerda aquele inconfundível estilo velopático começava já a dar cartas. Ao centro, um ciclista com graves problemas de amor próprio pedala sem capacete. À direita, um claro desconhecedor das regras da estrada, recorre a um capacete com sombreira ou lá o que é aquilo. As coisas que um Velopata tem de aturar.

Já com calos nos dedos e dores nos braços de tanta travagem, com o cérebro já ocupado com a matemática do orçamento mensal para uns novos calços de travões, preferencialmente aero, atingiu-se a marca dos 56 quilómetros do passeio e os ressabiados não demoraram a soltar as pernas.

Num relâmpago, um ressabiante grupo destacou-se do pelotão e enchendo-se de confiança, o Velopata também se lançou ao ataque, fazendo a ponte.

Os dois tubarões que seguiam na frente puxando todo o grupo sentiram sangue no alcatrão e aceleraram, destacando-se do grupo que, fruto das pernas e pulmões trucidados, desmembrou-se. Para trás um esbaforido Velopata acompanhado de três mafarricos que, avaliando as suas expressões faciais, tinham já adquirido bilhete para o espectáculo da comatose.

Mas já nada importava ao Velopata, o êxtase da batalha velocipédica cegava-o enquanto trabalhava que nem um louco na frente do grupo, gritando;

“Vá! Força! Vamos apanhar aqueles gajos!”

De jericos bem intencionados está o planeta a abarrotar.

A escassos metros da meta o Velopata viu, com uma diferença de 3 ou 4 segundos, os dois marafados cortarem a meta.

“O Velopata fez pódio nessa “corrida”?” – questiona o boquiaberto leitor.

Claro que não.

Em cima da meta, dois dos chupa-rodas que fizeram grande parte da subida na roda velopática, lançaram-se em sprint e ultrapassaram o Velopata que terminou num exausto 5º lugar.

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O Momento da Verdade Velocipédico (em bifês, The Velocipedic Karate Kid), no qual o Velopata atravessa a meta para a sua mais grande classificação de sempre.

O Velopata não cabia em si de felicidade; se o “passeio” de Castro Marim lhe tinha deixado o esfíncter derreado em monte, esta corrida voltou a mexer com essa membrana velopática mas por uma razão distinta – o Velopata havia conseguido passar de Lanterna Vermelha num “passeio” a 5º lugar numa “corrida”.

E não importa que a concorrência fossem essencialmente gajos com idade para ser bisavós do Velopata.

Ou crianças.

Nesse dia… Até o Velopata gostou de ressabiar.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

3 comentários sobre “O primeiro passeio… Que era uma corrida… Que era um passeio… Que afinal era uma corrida!

  1. Joao Neto

    Belo baptismo que o Velopata teve nesse “passeio”.
    Sempre evitei participar em “passeios” pois sem bem como terminam, ou melhor, como começam, decorrem e terminam….de facto são corridas loucas, onde um modesto e pouco experiente ciclista mais não é do que “carne para canhão”.
    Porque não lhes chamam “corridas” ou “corridinhas” para dar um ar mais amador?

    Grande abraço ao Velopata e que nos continue a presentear com os seus textos velocipedicos inspirados.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Depois do que o Velopata viu no Velopasseiosummitcoiso… As organizações pouco ou nada podem fazer quando os ressabiados dão largas ao ressabiamento… Mas isso terá de ser analisado em futuras instâncias neste espaço. Obrigado pelas palavras de apreço e boas voltas!

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  2. Pingback: Divisão Velopata – Ao Fevereiro e ao ciclista perdoa tudo quanto faz, se Fevereiro não for ressabiado nem o ciclista encarochado – Blog do Velopata

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