A Odisseia Algarvia 2017: A Maldição da Figueira – parte I

Yo no creo en brujas… Pero que las hay, las hay…

Ditado popular castelhano, autoria desconhecida.

 

04:30 da madrugada de domingo, 08 de Outubro do ano de Sua Santidade Joaquim Agostinho de 2017.

Pelas paredes do adormecido quarto velopático ecoa a melancólica voz de Dot Allison na fabulosa faixa que é “Dirge” dos Death in Vegas, o actual toque para despertar do Velopata que, nessa fatídica madrugada, saltou da cama num ápice logo aos primeiros acordes de guitarra e consequentes protestos da Srª Velopata;

“Desliga essa sanfona. Queres acordar o miúdo?”

Como em tantas outras aventuras seguiu-se um rígido protocolo préviamente estabelecido pelo Velopata; pequeno-almoço enfarta-brutos seguido da observação do estado metereológico na sacada, acompanhado de um alguidar de café e cigarrito (sim, esse terrível e nojento vício do qual o Velopata ainda não se libertou do opressor jugo). Uma descarga gástrica matinal com o intuito de reduzir o lastro e os quilogramas por ele transportados, e com a Estrela Vermelha já pronta desde a véspera, faltava só ao Velopata equipar-se.

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A Estrela Vermelha descansa na véspera, sentindo-se o nervosismo atravessar todas as suas resinas aero e fibras carbonatadas.

Foi então que a porca iniciou o processo de torcer o rabo.

Não existe atleta de alta, baixa ou até média competição que não tenha um je ne sais quois de supersticioso.

Ao longo da já sua vasta experiência velocipédica, o Velopata aprendeu que existe um determinado ritual que deverá ser criterio-escrupulosamente cumprido de modo a que a volta/treino/aventura/coiso atinja sempre bom porto – a ordem pela qual os peúgos e as chancas de encaixe são calçados.

Primeiro o Velopata calça o peúgo direito, segue-se a meia esquerda, depois a chanca de encaixe direita e por último o sapato de encaixe esquerdo.

Como chegou o Velopata a tal conclusão?

Das únicas vezes em que tal ritual não foi cumprido, a coisa terminou mal. Fosse por queda ou problema mecânico, a verdade é que desrespeitando a natural ordem de calçado dos peúgos e chancas de encaixe, Suas Altas Eminências Velocipédicas pareciam castigar o Velopata, fazendo-o regressar ao conforto do lar desaustinado com a pedalada incompleta.

Mas naquele marafado dia de 08 de Outubro de 2017, por alguma sinistra razão, o Velopata não seguiu este minucioso protocolo e só tardiamente se apercebeu do sucedido – calçou peúgo e chanca de encaixe direita, seguidos do peúgo e chanca de encaixe esquerda. Como ele até nem é um gajo supersticioso e percebendo a burrice cometida, foi até à sacada e cuspiu três vezes na direção do pouco vento que se sentia com o objectivo de afastar os maus presságios, espíritos e coiso.

Antes de se fazer à estrada, o Velopata não pode deixar de beijar a face adormecida do Velopatazinho e despedir-se da Srª Velopata, processo que se revelou mais difícil do que planeado, quase terminando com violência doméstica sob a forma de uma almofada arremessada na face velopática;

“Ele vai arrancar agora. Dá-lhe um beijinho de boa sorte.”

“Deixa-me dormir.” – retorquiu uma sonolenta Srª Velopata.

“Ele só quer despedir-se com amor e carinho.”

“Ele tem é que se deixar destas parvoíces.”

“Tens que entender que ele sente o chamamento velocipédico. A glória. Vá, até logo… Ou será… Até amanhã?”

“Deixa mas é de ser estúpido, tem cuidado e não te esqueças de trazer pão. Agora deixa-me dormir.”

Com uma motivação desta classe e calibre, de que pode o Velopata queixar-se?

Raras são as vezes em que o Velopata aparece para a pedalada à hora marcada e veja bem, mais-que-tudo leitor, tal era o nervosismo velopático que até antes da hora já o Velopata assinava o ponto no quilómetro zero da Odisseia Algarvia do ano de Sua Santidade Joaquim Agostinho de 2017, diante da loja no Centro do Universo Conhecido que é a G-Ride.

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Depois de no transacto ano de 2016, o Velopata ter estado à porta da G-Ride, em jeito de agradecimento pelo espectacular equipamento providenciado para a Odisseia Algarvia de 2016, o comentário internético que o Velopata recebeu da prestável loja foi este… Que só abriam às 10 horas da manhã. Quis o destino que este ano a loja já se encontrasse aberta para a horda velopática pelas 05:30 da manhã. Velopata 1 – 0 G-Ride.

Apesar de ser um projecto ainda imberbe, encontrando-se apenas na sua segunda edição, a Odisseia Algarvia deste ano já se fazia rechear de internacionais estrelas velocipédicas como Calhau Rolante (emigrante tuga na Suíça), e Zuca Paraná (imigrante brazuca a residir em Portugal, ao que o Velopata conseguiu apurar, já legalizado – não que fosse necessário entregar comprovativos do SEF para participar), para além de ter reunido o incondicional e prestigiado apoio do Gil (não, não é o da Expo 98), e da sua loja de referência G-Ride, sob a forma de um enlatado que percorreria grande parte do percurso na companhia da horda velopática lançada a homérica epopeia.

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Velopata, Calhau Rolante e Zuca Paraná posam sorridentes para a posteridade velocipédica à porta da loja no Centro do Universo Velopático Conhecido que é a G-Ride. Desde já o Velopata confirma que o querido leitor pode ficar descansado; o Gil é muito melhor mecânico que fotógrafo.

Como combinado, 05:45 da manhã e os três estarolas faziam-se ao alcatrão, rapidamente calcorreando os quilómetros que os separavam de São Brás de Alportel onde se juntariam à aventura Pata Negra e Falso Lento mas, em antes de se atingir essa bela terra/lugar/aldeia/vila/coiso de magnânime nome que são os Machados, iniciando-se a primeira rampita do dia, o Velopata notificou os seus dois comparsas de pedalada do cuidado que seria necessário ao passar junto do acampamento cigano que aí existe.

“Malta, cuidado aí com os cães da ciganada!” – berrou o Velopata.

“Ué cara, que cão?” – indagou Zuca Paraná.

“Os cães desse acampamento aí à direita costumam vir para a estrada ladrar e perseguir a malta. Um dia destes acontece uma desgraça qualquer.”

“Cara, çê tá mané? Passei mais milhões de vezes aqui e num vi cão, não.”

“Pois mas ele já passou e chegou mesmo a ser perseguido.”

“Será de sua bicicleta? Por ser vermelha?”

Ao Velopata aquilo parecia apenas uma barata provocação à sua mui amada Estrela Vermelha e lançando um olhar carregado de raios e coriscos na direção do Zuca Paraná, o Velopata ripostou;

“São cães.”

“Oi?”

“Oi, tudo bem?”

“Cara, çê tá mancando comigo é?”

“Não… Só que ele não percebe qual o problema que vocês zucas têm com o plural. O plural de cão… São cães!”

“´Cê tá tirando sarro comigo…”

“Não está nada… O Velopata usa sempre um cotonete para limpar todo o sarro das lindas orelhas dilatadas e vê bem que ontem até cortou as gânfias das mãos e pés para vir mais leve!”

Alheio a toda esta bem disposta troca de galhardetes internacionais seguia na roda o Calhau Rolante, provavelmente já preocupado com a companhia que lhe tinha saído na rifa nesta sua estreia a pedalar pelos reinos do Allgarve. Ou Hellgarve pois terminado o percurso entre São Brás de Alportel e Tavira a bom ritmo, a troupe velopática entrava agora na famigerada N125, segmento sempre nervoso dado o comportamento dos enlatados e o espectacular alcatrão, notado pelo Calhau Rolante que partilhou com a restante troupe o facto de que se na terra do offshore e do canivete suíço uma estrada assim existisse, com mais buracos que o queijo que por lá se fabrica, decerto cabeças de Presidentes de Junta e Câmara rolariam à boa maneira ariana.

Com um perfil plano, os quilómetros rapidamente foram devorados pelo mini-pelotão velopático, sem grandes desvarios da parte dos poucos enlatados que à matinal hora cruzaram caminho com a troupe.

Rapidamente se atingiu a primeira paragem do dia, o quilómetro zero da Ecovia Algarviana, localizado junto ao Rio Guadiana em Vila Real de Santo António.

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Paragem de cariz turístico-institucional junto ao Rio Guadiana, no quilómetro zero da Ecovia Algarviana.

E que melhor maneira de celebrar tal facto com uma bela urinadela para o rio?

Como refere o célebre ditado popular “onde micta um português, mictam dois ou três”, vários membros da troupe velopática decidiram seguir estas instruções à risca mas não o Velopata que, sendo um gentélmen e apesar dos protestos da restante malta por perdas ao nível do contínuo espaço-temporal, baixou o seu nível hídrico no mesmo café onde no transacto ano o havia feito, com a diferença que este ano não se ouviam por lá os depressivos acordes da melhor banda contemporânea que são os Cabeça de Rádio (Radiohead, em bifês), algo que o Velopata interpretou como um sinal de esperança e sorte.

Saíndo da N125, deixando para trás Vila Real de Santo António e um sem-número de peixes intoxicados em ácido úrico, Velopata & Cia. seguiram pela alcatrão rodeado de salinas, ávidos das primeiras dificuldades do dia mas também de pedalar numa das mais belas estradas do reino dos algarves e arredores, a N122, ligando Vila Real de Santo António a Alcoutim.

Natural de Leiria e habituado às paisagens de centenários pinhais agora transformados em madeira barata, o Calhau Rolante estava maravilhado com a paisagem e beleza natural da N122, sempre ondulante ao longo das margens do Guadiana. Tão maravilhado o moço estava que a dada altura os vários livecoisos dos Garmincoisos começaram a questionar os vários membros da troupe se estariam interessados em medir a velocidade média da Odisseia em quilómetros por hora ou em fotografias por quilómetro.

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Velopata e Calhau Rolante carregam ao longo da lindíssima N122.

“Aquela estrada ali também é muito fixe!” – apontou o Velopata para o outro lado do rio, num misto de guia turístico com cicerone.

“Pois, parece que sim.” – retorquiu o Calhau Rolante.

“É pena que no país do Cycling Portugal, onde se quer tanto promover o turismo da bicicleta, só se consiga atravessar a fronteira pela auto-estrada!” – o sarcasmo é forte no Velopata.

“Fronteira? País?”

“Então homem? Ali é Marrocos, claro!”

O Velopata foi brindado com uma poker face suíça à medida que no horizonte já se vislumbravam as primeiras habitações de Alcoutim, localidade onde estava prevista a primeira real pit-stop do dia, com o objectivo de carregar no chop-chop e adaptar as indumentárias dos atletas de baixa competição ao temível calor serrano algarvio que começava já a mostrar as suas garras.

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A troupe velopática, sempre acompanhada de perto pelo enlatado de apoio da G-Ride, deambula pela N122 com Alcoutim no horizonte.
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Em Alcoutim o Velopata dá aos morfes enquanto Zuca Paraná ainda conseguia sorrir.

Estômagos cheios e bexigas novamente esvaziadas, desta vez sem provocar nenhum cataclismo ambiental, a horda velopática lançou-se novamente à estrada, sendo o objectivo calcorrear rapidamente aquele ondulante troço da N124, homóloga da N125 mas sem os esgazeados e opressores enlatados aliada a uma irrepreensível qualidade de alcatrão.

A troupe seguia a bom ritmo quando, numa das muitas trocas e baldrocas após trabalhar na frente do grupo, o Velopata se apercebeu que Zuca Paraná estava a perder o contacto com o grupo. Descaíndo, o Velopata foi até perto do moço, percebendo que aquela boca torcida, olhar vazio e respiração trôpega eram sintomas de uma só coisa.

“Que se passa?” – questionou o Velopata.

“Cara, a chinela ´tá cantando alto.”

“Como é que é? Quem é que está a cantar o quê?”

“Isso num tem melzinho na chupeta não.”

“Hã?” – o Velopata até dá uns toques no bifêsportuñhol e avec, no entanto, aquela linguagem era completamente desconhecida.

“Pô cara, o martelo ´tá descendo na môlera!”

“Espera aí um pouco…”

Regressando ao grupo que seguia lançado na frente, o Velopata berrou;

“Malta! Alguém pode ver o que se passa com o Zuca Paraná? Parece ao Velopata que ele está a tentar comunicar!”

A verdade é que todos sabiam o que se passava com Zuca Paraná sem ser necessária uma única troca de palavras num estranho dialecto pois a linguagem velocipédica é, à semelhança da famigerada Matemática, universal; o moço tinha tirado um gigantesco bilhete de ida sob a forma de M.T.E., ou seja, a Mãe de Todos os Empenos.

Consternação, tristeza e coiso percorreram a horda velopática enquanto assistia impotente à redução das suas fileiras após Zuca Paraná tomar a acertada decisão; era preferível abandonar a Odisseia, fazendo aqueles quilómetros que faltavam até ao Barranco do Velho em modo enlatado com o Gil, do que sofrer miseravelmente, arrastando-se e atrasando o grupo. Não que fosse objectivo do Zuca Paraná fazer a totalidade dos 500 quilómetros previstos desta edição de 2017, isso era algo reservado apenas para os mais fortes ou, na humilde opinião da Srª Velopata, parvos. Ainda assim o seu objectivo de acompanhar a troupe até ao Barranco do Velho não foi superado e acredita amigo, o Velopata bem sabe o quanto tal custa, principalmente no que ao ego velocipédico diz respeito.

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Velopata e Falso Lento carregam numa das rampas de acesso a Cachopo.

Com as duras rampas existentes após passagem por Cachopo, o grupo dispersou-se pelo alcatrão, movido pelos ritmos inerentes de cada mafarrico, apenas para se voltarem a encontrar no local onde, à semelhança de uma Roma velocipédica, todos os alcatrões parecem desenbocar – o BdV. Ou como é conhecido pelos civis desconhecedores dessa rede social de atletas que é o Strava, o Barranco do Velho.

Novamente se alevantaram protestos para com este vosso companheiro, palhaço e amigo do duro circo que é a vida do pedal pois, em jeito de homenagem, muito queria ele parar para se dedicar à degustação da famosa torta de alfarroba da Tia Bia mas, apesar da boa média que os GPS indicavam, a sempre preocupada troupe com o contínuo espaço-temporal não permitiu que o Velopata se dedicasse a tais vícios.

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Tudo a mandar vir com o Velopata apenas por ele estar a ressacar daquela maravilhosa torta de alfarroba da Tia Bia.

Se no transacto ano de 2016, P.P. fez um belíssimo trabalho protegendo o Velopata do vendaval que se fazia sentir ao longo dos primeiros 260 quilómetros dessa Odisseia, o que dizer de 2017 onde, apesar de acometido por uma virulenta estripe de gripe que lhe provocava ataques de baba e ranho (a grande dúvida era quem seguiria naquela roda), juntou-se à troupe velopática para árduamente labutar na frente do grupo, permitindo assim que os quilómetros entre o BdV e o mui amado Germano Biciarte Café fossem calcorreados com uma assombrosa média.

Importa ainda ao Velopata frisar que a média aí pedalada foi tal que até Pata Negra teve direito a um furo, sendo pronta e tão rapidamente atendido pelo Gil que ficou a pairar na atmosfera psicológica da troupe um sentimento de que não eram apenas uns alucinados machos com crises de meia-idade e ilusões de grandeza velocipédica e sim heróis do World Tour ou até mesmo uns grandes atletas de… Vá, aí uma média competição.

Na passagem por Alte, estava prevista uma mais-que-obrigatória paragem para abastecimento, fuel chop-chop no Germano, mas nada podia preparar Velopata & Cia. para a surpresa que os aguardava.

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Sendo uma das mais ferrenhas adeptas velocipédicas a marcar pontos na mui amada Divisão Velopata, a Lioness of Porches deixou toda a troupe velopática salivando boquiaberta (sem segundas intenções, não sejam ordinários), com um manjar digno de marajás velocipédicos acompanhado de uma fofinha e querida e coiso carta de votos de boa sorte. Quando se têm amigos, adeptos, fãs e coiso destes, que mais pode um Velopata pedir?

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O manjar providenciado pela Lioness of Porches; composto por aquelas fatias douradas do Germano, obrigatórias para qualquer mafarrico que pedale ao domingo, pastéis de nata, café e limonada fresquinhas. Que mimo!
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A boa disposição reina por entre a horda velopática, apesar dos já mais de 200 quilómetros embutidos nas pernas.
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A sempre habitual foto à porta do Germano, com o porreiraço Pedro, dono do mais grande e nobre estabelecimento velocipédico da serra algarvia.

Com 206 quilómetros percorridos em 8 horas, a horda velopática lançou-se ao alcatrão para frenéticamente percorrer a distância que os separava da Nave Redonda, não sem que alguns berros fossem proferidos na direção de P.P., dado o ritmo que o engripado mafarrico impunha na frente, decerto esquecendo que esta volta não ultrapassaria os cento e poucos quilómetros para ele enquanto à horda velopática restavam uns míseros 300 quilómetros a meter no bucho.

E que 300 quilómetros se anteviam…

 

Fim da Primeira Parte

Abraços velocipédicos,

Velopata

3 comentários sobre “A Odisseia Algarvia 2017: A Maldição da Figueira – parte I

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