Arades e Sobreires – um longo sábado de treino

O Velopata acordou com aquela sensação de vazio cerebral, bafo capaz de trucidar o mais formoso dos malmequeres e a barba molhada, fruto da baba que muito provavelmente escorria devido ao sonho de uma pedalada montado numa lindíssima Cannondale Synapse toda montada em Ultegra.

Verdade seja escrita, aquilo não foi bem acordar.

Assemelhou-se mais a entrar num estado vegetativo de vida suspensa, em que não se está a dormir mas também não se está acordado, devendo-se tal a dois importantes factores; o tardio deitar e os urros de terror que o Velopatazinho soltou durante a noite, pregando valentes sustos ao casal velopático e levando-os a acreditar que Carlos Cruz ou o Bibi estariam ali ao lado do berço quando afinal… Foi só a chucha que lhe escapou da poderosa mandíbula bicúspide que, após uma inspeção cuidada por parte da Srª Velopata, revelou ser agora uma mandíbula quadricúspide.

Percebendo movimento nos lençóis, a Gata Gorda decidiu confundir o Velopata com o sofá do lar velopático cravando-lhe as unhas na pior região corporal que o leitor consiga imaginar (nas pernas!), enquanto ligou o ronronante motor, pedindo comida. Também a Cadela Descontrolada parece ter confundido o Velopata com um trampolim e saltou para cima dele, empurrando as já magoadas pernas velopáticas com a sua desvairada cabeça, indicando que estava na hora do passeio matinal.

Procedimentos burocrático-familiares cumpridos e lá estava o Velopata finalmente pronto para deixar o conforto do lar para trás, aventurando-se numa jornada que se previa cansativa e longa, tentando cumprir um mínimo de 250 quilómetros como treino de base para as aventuras que se avizinham no horizonte.

Muitos dos mui estimados seguidores velopáticos parecem convencidos que uma jornada de tamanha quilometragem é, per se, uma aventura.

Permitam ao Velopata que discorde, explicando os porquês.

A Distância

Por muito estranho que possa parecer ao maior ressabiado enlicrado, ou até ao mais desconhecedor dos civis, até à módica quantia de 300 quilómetros pedalados, o Velopata não considera tal como uma longa distância.

Provas existem no calendário profissional internacional do World Tour, como a clássica primaveril Milão-São Remo, que roçam essa quantia de quilometragem e sofrimento embutido nos pistons, logo, na humilde e modesta opinião velopática, nada abaixo dos 300 quilómetros pode efectivamente ser considerado uma longa distância.

Até porque esses mariconços asmáticos do pelotão profissional jamais aguentariam uma séria longa distância, à semelhança de Joshs Ibbetts, Sarahs Hammonds, Julianas Burhings, Kristofs Allegaerts e o jamais esquecido e entretanto canonizado Mike Hall, para quem esses 300 quilómetros de Milão-São Remo pouco passariam de um simples e monótono aquecimento.

O Percurso

Calcorrear uma distância superior a 300 quilómetros, por estradas já muitas outras vezes pedaladas também não deverá ser considerado uma aventura.

Aventura é quando se parte à descoberta de novo alcatrão, novas paisagens e novos tascos perdidos por entre vales e montes afastados da civilização; aqueles onde qualquer transeunte calorosamente retorque a um Bom dia!, aproveitando para vários dedos de conversa e onde as casas de banho dos respectivos estabelecimentos não passam de buracos no chão que vão desembocar sabe-se lá onde.

O 70/30

Este é talvez o factor mais determinante à definição de aventura – o não saber se seremos capazes de a terminar.

Seja por impossibilidade física (30% do que é necessário), ou impossibilidade psicológia (70% do que é necessário), o que define realmente uma aventura é a capacidade que reconhecemos ter ou não para sobreviver ao objetivo proposto, sabendo de antemão que o ciclista é alguém que perante a maior das adversidades opta por manter as pernas e aquela maravilhosa invenção da humanidade que é o eixo pedaleiro, a girar.

Além de que quando nos encontramos a 200 quilómetros de casa… É só chato smartphonar a alguém, implorando que nos venha buscar quando não temos mais ninguém a quem atribuír as culpas senão a nós próprios.

“E agora? Para onde?” – era a questão que se colocava na mente velopática, à medida que o seu novo Garmin Edge 820 Explorer indicava encontrar-se pronto a registar mais uma dose de tortura deliberadamente procurada e auto-infligida da boa.

Desde o redondo falhanço da tentativa de completar o Rapha Festive 500 de uma só assentada que o Velopata se questiona se a actual relação pedaleiro/cassete será a indicada para o que se quer uma máquina devoradora de quilómetros como a Estrela Vermelha o é. Mesmo sentindo a melhor forma físico-velocipédica a aproximar-se, a dúvida toldava-o; seria ele capaz de carregar a Estrela Vermelha e todas as suas malas, mochilas, malinhas, pochetes e bidons com um pedaleiro 52/36 e uma cassete 11/28, relações típicas de ressabiado do pelotão amador?

Foi com esta monumental questão existencial em mente que o Velopata carregou a sua Estrela Vermelha, equipou-se e sem nenhum objectivo específico em mente que não o de completar 250 quilómetros carregado até à última fibra carbónica, se lançou ao alcatrão.

“Vai-se até ao Barranco do Velho, faz-se uma paragem na Tia Bia para degustar a viciante Torta de Alfarroba e logo se vê.”

Os primeiros quilómetros foram aquilo a que o Velopata já está mais que habituado e algo que muitos dos livros, publicações e guias turísticos subordinados à mítica Estrada Nacional 2 se esquecem de referir – a estupidez e selvajaria enlatada que pulula nos quilómetros entre São Brás de Alportel e Faro.

Uma razia, depois outra razia, ainda mais uma razia, seguida de outra razia e o Velopata não pode senão elaborar uma rápida estatística; 99,9% dos enlatados que por ele passam não cumpriam a distância mínima de segurança, excepção feita a uma única e solitária lata que ultrapassou o Velopata pela outra faixa e adivinhe-se… A matrícula não era portuguesa e sim espanhola, o que só corrobora aquilo que o Velopata está farto de escrever sobre as estradas portuguesas e que o cerne da questão não se encontra na qualidade do alcatrão e sim na barbárie daquele objecto que se encontra entre o volante e o banco do enlatado.

Com São Brás de Alportel e as contrações esfíncterianas provocadas pela selvajaria enlatada da urbe para trás, o Velopata pode descontraír e experimentar as primeiras sensações pré-fanico que o aguardavam com a chegada das primeiras rampas.

Com um sorriso estampado na face, o Velopata viu os seus medos e receios desvanecer enquanto se sentia voar rampa após rampa.

(Nota velopática: na frase acima ele está claramente a exagerar. Não é que ele fosse muito rápido, tipo ressabiado em modo full aero chrono carbon, ele simplesmente não se sentia na iminência do acidente cardiovascular e isso já era um óptimo indicador.)

Afinal a Mãe De Todos Os Empenos que o Velopara experienciou naquele fatídico dia do Rapha Festive 500 não se deveu à relação peso/pedaleiro/cassete e sim à óbvia ausência de treino que só uma época festiva como o Natal católico consegue proporcionar.

Com a placa do Barranco do Velho à vista que, onde à semelhança de uma Roma velocipédica todo o alcatrão algarvio parece desembocar, a brisa fresca, o cheiro a Streptomyces coelicolor do dilúvio da noite anterior e os raios de Sol que alumiavam o alcatrão por entre as gotas de orvalho e o Velopata não conseguiu  evitar salivar parecendo-lhe sentir já na boca o sabor da mais famosa iguaria da Tia Bia, a Torta de Alfarroba.

Dizem e escrevem os adeptos das teorias de uma tal de Rhonda Byrne, que O Segredo para uma felicidade plena e absoluta, daquelas que nos completa e preenche, está na vontade de querer (parafraseando o filósofo da bola Mantorras), no entanto, parece ao Velopata que esta prima do Gustavo Santos nunca deve ter experienciado o que o Velopata passou a seguir.

Se a vontade de querer uma bela fatia de Torta de Alfarroba acompanhada de uma cafézada e dose de nicotina era muita, porque razão não haveria o Universo de colaborar com o Velopata?

Porque já dizia Sartre; o inferno são os outros.

E o Velopata, sempre disposto a contribuir como quem contribui mesmo, propõe uma adenda a esta notória afirmação de Sartre; o inferno são os outros e pior ainda se forem enlatados.

O Velopata sentiu a pestilência a hidrocarboneto em combustão inundar o límpido ar, ouviu atrás de si, o primitivo roncar de um veículo que se queria já obsoleto.

Tratando-se de uma curva cega acompanhada de traço contínuo, o Velopata encostou-se à berma aguardando a ultrapassagem do enlatado mas ruidosamente ele continuava ali, seguindo lentamente o Velopata e isto, mui querido leitor, é algo que imediatamente deixou o Velopata com todos os seus seis sentidos alerta.

“Ó Velopata, seis sentidos?” – questionará o sempre assertivo leitor.

Sim; não esquecer que para além de visão, olfacto, paladar, tacto e audição, o Velopata tem ainda aquela ligação neurocarbonoencefálica com a Estrela Vermelha e quando esta dispara é de bom senso prestar atenção.

A curva finalizou, o traço contínuo passou a descontínuo. Seguindo na frente da lata e percebendo que nenhuma outra lata descia no sentido contrário, o Velopata tratou de sinalizar ao ruidoso e poluidor enlatado que seguia na sua roda que podia dar início à ultrapassagem.

O que fez aquele asno?

Passou com a lata a milímetros do Velopata.

Agora a sério e fora de brincadeiras… Que tipologia de esterco pode existir na cabeçinha desta gentalha? Uma estrada larga, sem traço contínuo, o Velopata a agradecer o gesto e a facilitar a ultrapassagem e é isto?

Levando com todos os apupos e gonorreia verbal que o Velopata conseguiu descarregar em tão curto espaço de tempo, a besta 13-AF-02 de pouco ou nada pareceu importar-se, seguindo viagem. Que até foi a sorte dele e o azar velopático (ou vice-versa como diria outro grande filósofo da bola e contrabandista de bacalhau de seu nome Jardel), pois se aquele energúmeno tivesse o azar de parar na Tia Bia, muito provavelmente esta crónica estaria a ser escrita com o Velopata a ver um Sol axadrezado.

Irritado até ao seu ínfimo Bosão de Higgs, o esfíncter velopático lá acalmou até chegar à Tia Bia onde o sempre simpático staff lhe serviu a magnânime Torta de Alfarroba, acompanhada de um belo e forte abatanado, além de uma outra maravilha culinária que lá habitava e mesmo através do vidro da montra, o Velopata ouvia clamar por si – Bolo de Chocolate.

barrancodovelho
Existirá melhor maneira de esquecer a tentativa de homicídio por parte de um enlatado selvagem?

A inebriante moca do açúcar bateu forte e feio, resultando numa rápida decisão; o Velopata romaria para Alcoutim ao longo da bonita N124, onde faria a sua segunda pit stop da jornada. Daí para a frente logo se veria pois se há algo que o Velopata não gosta de fazer é colocar a carroça na frente dos bois ou, na versão velocipédica desta ancestral sabedoria popular, sentar-se na bicicleta antes de colocar o selim.

Pança cheia, mitocôndrias em euforia açucarada e pulmões carregados com a habitual dose de nicotina e o Velopata lançou-se à estrada com o intuito de percorrer a bom ritmo aqueles 70 quilómetros que o separavam de Alcoutim.

Aquecendo novamente a musculatura, o Velopata preparava-se para entrar no carrossel da N124 quando sem que nada o fizesse prever, novamente um ruidoso e primitivo roncar de hidrocarbonetos em combustão se fez ouvir atrás de si. Sendo ele um moço que não gosta de atrapalhar a vida a ninguém, de imediato aproximou a Estrela Vermelha da berma de modo a facilitar a ultrapassagem enlatada que se avizinhava simples pois esta era uma das poucas zonas rectas do percurso, com boa visibilidade e nem traço contínuo existia.

Vruuuum!

A Mãe De Todas As Razias, com o espelho lateral direito da lata a alta velocidade e a escassos milímetros da manete esquerda.

E por quem?

Novamente aquele filho de uma concubina do 13-AF-02.

O Velopata entrou em modo Taberneiro e descarregou mais um sem número de palavras em vernáculo impróprio para os menores de idade que podem estar a ler estas linhas, apenas garantindo que as familiares gerações passadas, presentes e futuras daquele asno enlatado seriam amaldiçoadas.

“Ele só espera é não te apanhar parado num tasco qualquer aí à frente…” – pensou o Velopata para com a Estrela Vermelha.

O Velopata não voltou a ver a besta 13-AF-02 e ainda bem, caso contrário, o Velopatazinho só poderia voltar a visionar a Ronde van Vlaanderen ou mesmo o Paris-Roubaix na companhia do seu progenitor caso o EPF tivesse disponível Eurosport.

(Nota velopática: EPF é a sigla do Estabelecimento Prisional de Faro.)

Outro ancestral ditado popular mandarim afirma ninguém ser infeliz enquanto pedala uma bicicleta, e o Velopata pode atestar que tal é efectivamente verdade; meia dúzia de quilómetros depois e ele já havia esquecido o incidente com aquele jumento, apreciando toda a beleza que a N124 tem para oferecer e mantendo um ritmo confortável durante as subidas para deslizar rapidamente nas descidas, corroborando o que ele já suspeitava – o problema do fatídico empenão do Rapha Festive 500 havia sido uma questão de pernas e não de relação peso/pedaleiro/cassete.

Esta constatação permitiu ao Velopata suspirar de alívio pois qualquer moço que leva a sua nobre montada à enfermaria velocipédica sabe da existência de uma outra pérola da sabedoria ancestral suméria; nunca é só uma coisa.

Um mafarrico entra pela loja da especialidade velocipédica convencido que a actual cassete 11-28 tem de ser trocada por uma, digamos 11-32.

Mas então e a corrente? Terá elos suficientes para uma cassete maior?

Claro que não.

Zás! Num ápice está-se a pagar uma corrente nova.

E o desviador traseiro? Será que aguenta?

Claro que não.

Zás! Num ápice está-se a pagar por um novo desviador, dizendo eles que é de caixa alta e coiso.

(Nota velopática: Zás!, pretende ser a onomatopeia representante da uma já depletada carteira a ser terminantemente esvaziada.)

Agora o Velopata lança o desafio a toda a comunidade velopática; tentem lá explicar isto à Srª Velopata, particularmente quando esta não se cansa de lembrar o Velopata que o mais-que-tudo Velopatazinho já atingiu um tamanho tal que aquele seu ovinho para transporte enlatado já lhe fica apertado, tornando-se necessária a aquisição de uma nova cadeira de transporte que, olhando apenas para o preço, o Velopata acredita ser produzida em Titânio daquele que a NASA e a ESA utilizam nas suas intervenções espaciais.

Pois.

Alcoutim.

Apesar de toda a (des)planificação típica dos aglomerados habitacionais de bichos humanos, Alcoutim é uma bem bonita vila à beira-rio Guadiana plantada.

Todos somos bichos de hábitos e já diziam os comentadores desportivos gregos aquando da invenção das Olimpíadas, em equipa que ganha não se mexe. Com isto em mente, o Velopata seguiu direto até à esplanada onde ele sempre faz as suas pit stops, pois com o Sol a despontar entre as parcas nuvens e a fresca brisa primaveril que se fazia sentir, aquela esplanada devia estar um mimo.

Não era um mimo, eram duas.

Duas nuestras hermanas muito supimpas e giraças, com aquele ar de militantes do Bloco de Esquerda espanhol, ou seja, um look de lesbianas ganzadas (piada preconceituosa patrocinada pelo Partido Nacional Renovador), miraram o Velopata dos sapatos de encaixe Mavic Ksyrium ao capacete Kask Mojito, fazendo-o sentir-se um macho garanhão emproado.

Cuja auto-estima e confiança é tanta que a primeira coisa que fez foi observar o seu próprio corpo à procura do que estaria errado.

Teria marcas de óleo nas pernas?

Teria alguma parte da depilação ficado por fazer, destacando-se um horrível tufo de apêndices piliformes da restante musculada perna lisa?

Teria marcas de pinguinhas de urina nos bib shorts, fruto dos watts impostos nas duras rampas?

Entretidas elas lá continuaram na sua vida de turista, tirando várias selfies com aquela boca de peixe mal amanhado e o Velopata não pode deixar de reparar que uma delas o lembrava de uma tal de Miley Cyrus (aquela moça que gosta de lamber material de construção civil), logo aquilo não eram moças que alevantassem o moral velopático.

Esparramado ao Sol, acompanhado de uma bela cerveja fresquinha e uma dose de cacahuetes torrados, o Velopata agradeceu este passar do amuo de São Pedro que já se tornava longo em demasia.

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Dificilmente a vida melhora mais que isto.

“Ooh la la, mais c´est très joli!”

O momento de comunhão e zen velopático era interrompido por uma mais ou menos máscula voz avec, até porque seja lá o que for que seja dito nessa língua, soa sempre menos viril, exceptuando claro, impropérios e outro vernáculo azedo, como dizia e muito bem, o filósofo Merovingian.

Olhando na direção da voz, o Velopata encontrou um sénior cidadão avec observando a Estrela Vermelha;

“Ton vélo est très joli.”

“Obrigado mas não é uma Jolie, é uma BH.” – era mesmo só o que faltava ao Velopata, mais um mafarrico a ofender a Estrela Vermelha confundindo-a com essa tal outra marca de Jolie.

“Oui, oui. J´ai un magasin en France où je vends BH mais votre vélo est une belle machine.”

“Bem… Deixe lá ver se o Velopata percebeu… Você quer que ele e a Estrela Vermelha posem para uma magazine?”

“Mais que dites-vous?”

“Olhe, vamos ser honestos, se quer a espectacular presença velopática numa revista, quantos eirios é que ele vai ganhar com isso?”

“Je ne comprends rien à ce que tu dis, mais regarde, bon voyage avec ton bon vélo.”

E assim como apareceu o sénior cidadão avec desapareceu, deixando o Velopata sem entender muito bem a razão de posteriormente dar por ele apreciando a sua cerveja e cacahuetes, trauteando a brilhante malha da Edith Piaf, Non, Je Ne Regrette Rien.

Qualquer pit stop ou pausa velocipédica velopática que se preze, tem obrigatóriamente de envolver a injecção de nicotina nos seus pulmões. É mais forte que ele. E desta vez não seria excepção, nem mesmo enquanto toda a clientela da esplanada observava atónita, aquele ciclista fumante.

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Tanto ar puro que o Velopata, qual típico habitante da poluída urbe, achou por bem conspurcar um pouco aquele salutar ambiente.

Enquanto o pulmão velopático era carregado de básicos alcalóides, por entre a pequena ondulação e corrente que se fazia sentir no Rio Guadiana, a periférica visão velopática detectou uma negra sombra que sorrateiramente se movia nas águas.

Em antes que viesse de lá um dos já famosos esfomeados crocodilos, para os quais o Velopata está sempre a avisar, ele voltou a fazer-se ao alcatrão.

Dada a tardia hora que já se fazia notar pela altura da nossa mais querida estrela, aliando o facto de o estado vegetativo matinal se ter prolongado mais do que o Velopata realmente queria, o plano tornou-se óbvio e simples; regressar pelo mesmo caminho que o havia levado até Alcoutim, somando depois mais uns trocos de quilometragem ao seguir até Alte e regressando ao lar e à já pior-que-estragada Srª Velopata, por Loulé.

Já diziam os xiitas que com vento de feição, não há má navegação.

O tanas é que não há.

Se durante a matinal ida até Alcoutim o vento pouco ou nada se fez sentir, é claro que o sempre colaborador São Pedro não podia deixar de dar um ar de sua graça neste treino, alevantando um vento meio norte, meio oeste, que tornou a navegação velopática até Cachopo um prazeroso suplício.

Se até aqui tudo corria bem, estando ausentes os encontros imediatos de enlatado grau, novamente o Velopata foi lembrado do amor existente entre esses dois habitantes das estradas portuguesas; o ciclista e o enlatado selvagem.

Na rotunda à entrada de Martim Longo, no momento em que o Velopata se preparava para saír desta, eis que surge um outro asno a alta velocidade numa daquelas enormes latas de caixa aberta, atirando-a para a frente do Velopata e forçando a brusca intervenção de Santo Sram Red.

“Obrigado ó palhaço!” – berrou o Velopata a máxima frequência cardíaco-acústica.

“Vai p´ó ca#$&ho!” – berrou do interior o nativo selvagem.

Mais uma vez os Bosões (ou será Bosãos?), de Higgs ficaram em acelerado ritmo cardíaco, levando o Velopata a optar por uma bucólica paragem uns quantos quilómetros depois, tenando restabelecer o seu zen, mantra, chakras e coiso.

E dar ao serrote pois a bela da cervejinha fresquinha e o combustível fornecido pelos cacahuetes já tinham ficado para trás há muito, graças à moderada brisa, como descreveram os senhores da metereologia aquele agonizante vendaval nordoestino, tendo o Velopata a certeza que o que aqueles senhores não fazem é pedalar.

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Momento zen velopático na Ribeira da Foupana. De que estão à espera os senhores que mandam nestas coisas de lá colocar uma placa avisando os mais incautos dos famintos crocodilos que por lá podem pulular? É um escândalo, mas destas coisas ninguém fala ou escreve.

Seguiu-se a subida mais longa do dia e já com 130 quilómetros embutidos nas pernas, o Velopata voltou a sorrir e sentir a confiança para dias mais duros ao comando de uma carregada Estrela Vermelha.

Estava já o Velopata sentado na famosa esplanada do restaurante A Charrua, nessa mítica localidade perdida por entre vales e serras algarvias que é Cachopo quando ouviu uma esganiçada voz feminina em antes de ver;

“Olhe lá mê estúpide, fostes tu que me destes cabe do terrene co arade?”

A óbvia primeira questão que se colocava era quem seria o estúpido ao qual a voz se referia, uma vez que na solarenga esplanada apenas dois bichos humanos se encontravam; o Velopata e um outro macho cachopenseCachopoense. Coiso.

“Olha-me esta, queres ver que esta agora vem para aqui xarengar-me?” – comentou o outro transeunte da esplanada na direção do Velopata.

Foi então que a dona da voz se assomou da esplanda.

O que o Velopata viu foi uma imagem que certamente o marcará para a vida; pernas apejadas de grossos e longos pêlos que dir-se-iam pertencer ao Tony Ramos, um farto e farfalhudo bigode de fazer inveja a qualquer jogador de futebol da seleção nacional portuguesa dos anos 80.

Era uma velha. Daquelas mesmo velhas, mais velhas que a ainda-viva bisavó do mui estimado leitor.

“Fostes tu que me destes cabe do terrene!” – vociferou a velha na direção do transeunte.

“Epá mas quantas vezes tenho de lhe dizer?!?! Não fui eu!” – defendeu-se o que o Velopata deduziu ser um agricultor nativo de Cachopo.

“Fostes sim que a minha vezinha disse-me que te viu a passar lá co arade!”

“Não fui nada pá!”

“E ainda por cima destes-me cabe do sobreire!”

“Mas quantas vezes tenho de dizer que não fui eu?”

“Atão se não fostes tu, quem é que foi?”

“Sei lá eu quem é que lá passou!”

“Fostes tu sim, nã tinhas nada que lá passar e dar-me cabe do terrene!”

“Epá, mas não fui eu! Olha, o Xabregas tem um arade igual ao meu, se calhar foi ele.”

“A minha vezinha diz que te viu a passar lá!”

“Mas tu queres ver?… Nã fui eu!”

“E destes-me cabe do sobreire muite antigue que lá tava!”

Em abono da verdade, também o Velopata se questionava como seria possível um arade arrumar com um sobreiro, mas estes bichos humanos do campo conhecem técnicas e metodologias que a vasta maioria dos habitantes das urbes nem ideia fazem.

A discussão continou bem acesa, tratando a gritaria de ambos os dois de trazer para o exterior os restantes habitantes do restaurante/snack-bar, ávidos de uma boa coscuvilhice.

“E agora quem é que me vai pagar os estragues e o sobreire?” – continuava a velha.

“Mas se nã fui eu, o que é que você quer que lhe pague?”

“Vossemecê nã tem nada que andar com o arade nas terras dos outres!”

“Mas já lhe disse que nã fui eu, deve ter sido o Xabregas que ele também andou por lá!”

“E ainda por cima dê-me cabe do sobreire, agora quem é que me paga o sobreire?”

Aquilo ainda continou nestes trânmites durante mais uma boa meia-hora, mas tendo o Velopata já apreciado a sua bela cervejinha fresquinha, sandes de queijo, dose de cafeína e nicotina, ele achou melhor fazer-se à estrada.

Até porque todos sabemos como, regra geral, estas histórias terminam… A velha iria a casa procurar a sua caçadeira de canos serrados, regressaria ao restaurante/snack-bar e lá iria o suposto moço do arade fazer manchete no Correio da Manhã do domingo seguinte, com uma espectacular foto onde aparece esburacado por vários tiros à queima-roupa, prostado sobre o frio chão da esplanada agora envolta em sangue e vísceras.

As iradas vozes ficaram para trás e o Velopata atacou as últimas subidas do dia dignas desse nome, sentindo que mesmo após 150 quilómetros feitos conseguia manter um bom e confortável ritmo, evitando aquela sensação de colapso cardiovascular e aumentando os níveis de confiança, não conseguindo já esperar mais pela hora de embarcar nos seus aventureiros objectivos deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito.

Passando novamente em frente à Tia Bia, o Velopata ouviu a Torta de Alfarroba e o Bolo de Chocolate clamarem pelo seu nome, no entanto, ele conseguiu desviar o seu pensamento para opções mais nobres como manter esta bela forma anoréctico-somali, e seguindo caminho, rolou ao longo da N124 até atingir Alte e a obrigatória pit stop no Germano. Até porque nenhuma volta ou treino de bicicleta realmente o são sem a paragem neste venerável estabelecimento, além de que o tal vento nordoestino que se fez sentir quase acabou com as últimas forças velopáticas.

Tomada mais uma dose de cevada fermentada acompanhada de uma injecção pulmonar de básicos alcalóides, motivando esta uma nova ronda de incrédulos olhares dos muitos transeuntes da esplanada germanoânica (não faria muito sentido referir-se à esplanada do Germano como germânica, certo?), o Velopata lançou-se novamente ao alcatrão, devorando rapidamente os quilómetros que o separavam do aconchego do lar, apenas com uma fugaz paragem para ligar as luzes, vestir o colete reflector e enfrentar uma a duas horas de pedalada no nocturno breu.

“Vês? Andavas para aí a chorar pelos cantos porque estavam temporais e não podias ir pedalar e assim que deu uma aberta lá voltaste a desaparecer de casa durante horas!” – comentou a Srª Velopata, ainda nem ele tinha pousado a sua nobre montada Estrela Vermelha no respectivo altar.

O Velopata optou por não retorquir à clara provocação da Srª Velopata, estando mais preocupado em conectar-se à internet e percorrer o feed de notícias desse marco jornalístico que é o Correio da Manhã, procurando por palavras-chave como Cachopovelhahomicídioarade sobreiro.

Mas nada.

Desta vez, o nativo agricultor dono de um marafado arade havia-se safado.

E quem também se safou de deslargar uma valente quantia em cassetes, correntes e desviadores foi o Velopata.

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A Estrela Vermelha repousa no hall do prédio velopático. Se com este peso extra se portou muito bem… Veremos o que mais uns quilogramazinhos farão à miserável confiança velopatóide.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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