Commute Apeado

Zuuummmm, Zuuuummmm, Zuuuummmm….

(fraquinha onomatopeia representativa do som da máquina velopática de auto-tortura, que mais se assemelha a um avião Jumbo alevantando vôo nos confins do lar velopático e que muitos mui queridos leitores reconhecerão sob a nomenclatura técnico-táctica de Rolo de Treino)

– Podes parar com isso um bocado? Preciso de falar contigo. – notou a Srª Velopata enquanto entrou pelo quarto do lar velopático, interrompendo a prazerosa sessão de auto-mutilação tibial à qual o Velopata se dedicava.

– O… Que… Foi? – o Velopata tentou juntar várias palavras por entre os bofes expelidos.

Zuuuummm, Zuuuummm…

– Mas vais parar com essa barulheira e ouvir-me ou não? – com a sobrancelha mais torcida que a corrente de uma Bicicleta equipada com estes grupos da moda compostos por um só prato, o Velopata percebeu que o caso era sério e o ensurdecedor zunido da máquina de auto-flagelação cessou, substituído pelo som dos ofegantes bofes velopáticos.

Zuuummm.

– Então… O… Que… Que foi? – questionou um combalido Velopata enquanto o precioso oxigénio regressava das pernas ao cérebro.

– Nos próximos três dias tenho uma formação em Vilamoura e tenho de lá estar cedo.

– Uai, e então?

– E então que tens tu de levar o teu filho à Escola. – a Srª Velopata proferia as palavras “tu” e “teu” a negrito, itálico, sublinhado e Caps Lock.

– E isso é um problema porque?…

– Como é que vamos fazer com o carro?

– Uai, como vamos fazer com a lata?!?! O que tem a lata a ver com isto?

– A iáta! A iáta! – berrou um orgulhoso Velopatazinho, mostrando ao seu progenitor que com algum esforço foi possível alterar o blasfemo ensino de palavras como Póp… Pó… Enfim, o mui querido leitor, já habituado à coerênciosidade velopática, entende.

(Nota velopatóide para o próprio: deslocar-se à Escola e ter um pequeno tête-à-tête com as Educadoras.)

– Então como é que vais levar o miúdo à Escola? A pé? – continuou a Srª Velopata.

– Pois… Infelizmente ele ainda não teve autorização para comprar uma nobre Bicicleta que lhe permita passear e transportar a sua cria de um lado para o outro ou… Esperai. Estais afirmando que ele pode finalmente adquirir aquela linda Pasteleira estilo old school que está à venda na Decathlon? E a respectiva cadeirinha para transportar o Velopatazinho?

– A ixtéta du pai! – interrompeu o Velopatazinho, repticiamente auxiliando seu progenitor.

– Mas outra vez essa conversa? Não achas que já temos bicicletas mais que suficientes espalhadas pelas paredes da casa?

– Bem… Não. Há ali dois espaçinhos na parede da sala que…

– Mas porque raios estamos a discutir mais bicicletas quando o que interessa é como vais levar e buscar o teu filho à Escola nos próximos três dias?

– Como querias que ele fosse?!?! A penantes, pois claro!

– Tens a certeza que não queres ficar com o carro? – insistiu a Srª Velopata.

– Uai, mas isso é uma pergunta a sério?!?! Quer-se dizer, ele tanto labutou na construção de toda esta reputação anti-enlatado e agora para fazer uma pequena caminhada de dois a três quilómetros com a sua cria… Necessitava recorrer a uma lata? Imagina que algum dos seus milhares de milhões de seguidores o via? Lá se ia todo o trabalho por água abaixo, isto para não falar da coerênciosidade.

– Hã? Coeren… Quê?

– Coerênciosidade. O substantivo feminio que significa nexo, conexão e conformidade com factos e ideias. – explicou o Velopata.

– É coerência que se diz! – notou a Srª Velopata.

– No Blog do Velopata não é, não!

– Pois mas não estamos no teu blogue. Levas o miúdo à Escola a pé? De certeza?

– O Papa faz cocó no mato?

– Eu mereço… Eu mereço. – protestou entredentes a Srª Velopata enquanto saía do quarto do lar velopático, indicando que o Velopata podia regressar à sua sessão de auto-mutilação.

Zuuuuummmm…

 

O dia que o Velopata há muito premonizava chegou – ele teria de se deslocar pela urbe farense qual bicho humano menos evoluído, recorrendo única e exclusivamente à bípede força de suas pernas mas sem a companhia de uma de suas gloriosas Bicicletas.

Apesar do Velopatazinho apresentar um peso pluma que promete fazer os horrores de muitos carocheiros quando a hora chegar de mostrar todos seus dotes de trepador nas mais duras etapas de Grandes Voltas, transportá-lo ao colo e a penantes durante três quilómetros seria tarefa hercúlea quiçá impossível para o miserável core velopático, tendo assim optado por transportar o Velopatazinho naquele seu car… Carrin… Cadeira com rodas.

E pelas oito horas e trinta minutos daquela fatídica manhã de segunda-feira do ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezanove, Velopata e Velopatazinho lancaram-se no… Passeio de calçada.

Que é daquelas maravilhas dos bichos humanos cujo inventor merecia um valente e sonoro par de galhetas no focinho.

Mas vamos por partes, pois como o mui querido leitor sabe, o Velopata não é moçe que goste de queimar etapas.

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Velopatazinho (à esquerda), e Velopata (à direita), partilham sorrisos e galhofa no início do seu commute apeado, totalmente desconhecedores do inferno pedonal que os aguardava.

É importante frisar, em antes do Velopata continuar seu relato, que por pertencerem à desaustinada classe endividada (talvez o mui querido leitor a conheça por outra nomenclatura – classe média), habitante desta região à beira mar mal plantada com eucaliptos em monte no Terceiro Calhau a contar do Sol, a família velopática escolheu manter um orçamento reduzido para a aquisição da cadeirinha de transporte do Velopatazinho, tendo assim optado por uma não construída em carbono daquele que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono e sim uma cadeirinha feita daquele plástico que é mesmo só plástico, 100% plástico, totalmente em plástico, nada aero plástico, revelando-se esta extremamente leve mas nada rígida e quanto ao conforto… Bem, o Velopata vai só escrever que aquela cadeirinha é tão confortável de empurrar quanto um instrumento de tortura saído dos mais profundos pesadelos que um Inquisidor medieval conseguiu congeminar.

Por sorte, neste apeado dia, o vento não se fazia sentir com intensidade e o Velopata não pode deixar de mentalmente agradecer às Altas Eminências Velocipédicas por esta clemência metereológica, pois em outros pequenos passeios dados com o Velopatazinho a bordo de sua cadeirinha, o Velopata pode sentir nos bofes, os nefastos efeitos que aquela notória falta de aero têm sobre os seus braçinhos de Ciclista adepto da modalidade de Estrada.

Independentemente de todas estas considerações técnico-tácticas de transporte de petizes em cadeirinhas, verdade seja escrita, no momento em que o commute apeado teve seu início, o Velopata percebeu que a tarefa pela frente não se trataria simplesmente de um agradável passeio matinal pela urbe farense e sim uma espécie de prova de obstáculos com inúmeras armadilhas dispostas a colocar à prova todas as suas capacidades de FTPmax, lactato da cadência e mesociclos de core, para além de ser necessária toda a sua destridade.

Ainda nem cem metros tinham decorrido e já o Sentido de Velopata (aquele semelhante ao d´O Incrível Homem-Aranha, só que em carbono), disparava – de onde poderia surgir o perigo, se o Velopata não se encontrava desbravando alcatrão?

Só tardiamente o Velopata viu e valeram todos os seus aguçados instintos parentais e mais ou menos espectacular destreza para evitar o frontal esbardalhanço da cadeira do Velopatazinho no duro chão de calçada, quando a roda direita dianteira se enfiou num buraco de calçada provavelmente formado quando Monchique era um vulcão activo.

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A primeira de muitas invisíveis armadilhas que testaram todos os limites da sanidade velopática.

Recompostos do primeiro dos ainda desconhecidos inúmeros momentos acagaçantes que o dia lhes reservava, o dueto Velopata e Velopatazinho continuou o seu commute apeado ao longo de uma das principais avenidas da urbe farense, apenas para o Velopata dar por si matutando como quem matuta mesmo na Teoria da Relatividade einsteiniana – se a velocidade a que os enlatados circulam nas avenidas, ruas e ruelas de nossas urbes, já parecem por demais excessivas quando nos deslocamos de Bicicleta, então imagine-se quando nos deslocamos bem mais devagar e a penantes…

Seguindo pelo confortável passeio de calçada, o Velopata também não pode deixar de notar que muitos enlatados passavam pelo dueto a distâncias largamente inferiores ao tão desejado metro e meio que os Ciclistas tanto apelam, o que se torna ainda mais relevante quando se atenta ao facto que muitos condutores aparentavam estar mais preocupados com o estado dos seus perfis facebookianos do que a trajectória da própria lata – o Sentido de Velopata ribombava e ecoava pelo cérebro velopático, não podendo ele (o Velopata), deixar de pensar que talvez tivesse chegado a hora de ambos os dois (Velopata e Velopatazinho), precocemente conhecerem o Criador, Nosso Senhor Joaquim Agostinho, quando um daqueles descontrolados enlatados invadisse o passeio.

Até que chegou o primeiro grande desafio da jornada – as passadeiras com sumáfros de velocidade (provavelmente ali colocados pelos serviços camarários para evitar que Bicicletas, Trotinetes, Skates e Patins em Linha circulem em excesso de velocidade), que permitem atravessar a sempre movimentada Avenida Calouste Gulbenkian.

Com inúmeros enlatados a alta velocidade à vista, um acagaçado Velopata viu-se forçado a pressionar aquele botãozinho que leva à passagem do sumáfro de verde para amarelo e posteriormente vermelho, ou encarnado, nunca esquecendo o mito urbano, provavelmente popularizado pelo vil enlatado na esperança que menos peões atrapalhem suas sempre-com-mais-pressa-que-as-dos-outros vidas, que é o de bichos humanos falecerem electrocutados após pressionar estes mesmos botõezinhos apenas porque queriam atravessar o alcatrão em segurança – uma espécie de variante da eterna piada galinácea;

Porque morreu o peão electrocutado?

Porque queria atravessar a estrada.

O Velopata pressionou o botãozinho, não sentiu nenhuma descarga eléctrica, depois esperou uns segunditos e o sumáfro lá passou à côr vermelha, ou encarnada, mas os enlatados continuaram passando, mesmo quando a luz do homenzinho verde já se encontrava acesa, indicando que os peões podiam tentar transpôr o alcatrão em segurança.

E mais uma vez o Velopata não pode deixar de pensar nos Ciclistas, esses prevaricadores do asfalto que não respeitam nada, ninguém e muito menos o Código da Estrada, enquanto os muitos enlatados que continuavam a passar o sumáfro vermelho, ou encarnado, pobres coitados, pouco mais podem fazer senão pedir a benevolência das Autoridades pois ninguém tem culpa de sofrer dessa terrível maleita que é o Daltonismo.

Estranhamente, e isto é algo que as mais altas instâncias académicas deviam investigar, até fêmeas de bicho humano também parecem padecer deste tipo de Daltonismo agudo quando atrás de um volante.

Conseguindo atravessar aquela marafada avenida em relativa segurança, sempre com um olho no burro enlatado e outro no enlatado vulgaris, não fosse algum turbinado Vin Diesel tecê-las, o Velopata lá continuou sua demanda, produzindo watts à bruta enquanto empurrava a cadeirinha velopatazínhica pelo passeio de calçada quando… O primeiro surreal encontro com esse novo flagelo que se espalha como uma praga pelas nossas cidades se materializou à sua frente – as Trotinetes (ou Trotinetas, de acordo com a versão de Acordo Ortográfico que o mui querido leitor preferir).

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Quando é que esta praga das Trotinetes terá seu fim? Será necessário falecer alguém?

Isto é inadmissível!

Onde já se viu, ser forçado a transportar um petiz de tenríssima idade pelo alcatrão, levando razias atrás de razias de pobres coitados enlatados que não têm onde estancionar pois essa maralha das Trotinetes não nutre respeito nenhum pelas mais simples regras de convivência em sociedade e se apodera dos passeios?

Uma vergonha…

E um Velopata não pode deixar de reflectir como quem reflecte mesmo nas sábias palavras do nosso grande estadista Pacheco Pereira (já escrutinadas pelo Velopata aqui), – sem dúvida que as Trotinetes deturpam a paisagem urbana, forçando crianças, idosos e outros bichos humanos em geral à fuga em debandada das nossas urbes.

Deixando toda esta moderna monstruosidade para trás, o Velopata lá continuou puxando pelo cabedal, desta vez empurrando o Velopatazinho ao longo do passeio de calçada oposto à entrada oeste do Hospital de Faro, quando o deplorável estado da calçada levou a uma epifania velopática daquelas a que o mui querido leitor já está certamente habituado – a razão pela qual os passeios de calçada são construídos aos altos e baixos, qual Grand Canyon pavimentado, só pode ser uma – os senhores responsáveis por estas obras não dotam seus funcioná… Trabalhado… Colaboradores camarários de… Níveis.

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O Nível, importante utensílio quando o objectivo é construir coisas direitas.

Depois de muito puxar por toda a capacidade somali-anoréctica de seus braçinhos para ultrapassar este apeado segmento de montes, vales e montanhas de calçada, sempre conseguindo equilibrar a cadeirinha velopatazínhica, o dueto aproximava-se de uma passadeira e…

Lá estava o Sentido de Velopata ao rubro, ribombando em seu cérebro.

Mas de onde surgia o perigo? O Velopata olhou em volta, nenhum selvagem enlatado se aproximava e a passadeira que o dueto se preparava para transpôr aparentemente até se encontrava apta para bichos humanos com mobilidade reduzida, munida de uma daquelas rampinhas toda supimpa.

Estaria o Sentido de Velopata com algum problema de ordem psicosomática?

A receio, o dueto avançou para a passadeira e…

Novamente, todas as valências de progenitor velopático foram testadas, pois só tardiamente o Velopata percebeu que até as passadeiras, esse último e recôndito ponto dos nossos alcatrões onde os bichos humanos que se deslocam a penantes ainda possuem uma réstia de prioridade e dignidade em relação ao vil enlatado, também se encontram armadilhadas.

É que aquelas rampinhas de acesso à passadeira são efectivamente muito giras, o problema é que a sua inclinação é tanta que as rodas da cadeirinha velopatazínhica encaixaram no alcatrão e só recorrendo a toda a FTPmax dos braçinhos velopáticos foi possível evitar que o Velopatazinho praticasse um duplo mortal encorpado que certamente faria as delícias de qualquer Júri Olímpico que assistisse à lamentável cena.

Matutando como quem matuta mesmo sobre o tipo de material indicado para o espigão de selim a ser aplicado como corretivo sobre o lombo das personagens que desenham estas maravilhas das nossas urbes, o Velopata lá continuou sua demanda até que, deixando as imediações do Estádio do Farense para trás, um novo Encontro Imediato de Trotinético Grau aguardava o dueto.

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A falta de civismo e respeito desta maralha das Trotinetes é gritante.

Sobrevivendo à passagem por mais umas quantas passadeiras, o dueto conseguiu chegar a um ponto mais descontraído da sua jornada, deixando a fofinha calçada das ruas farenses para entrar no deslizante piso do Mercado de Faro, algo que os já dormentes braçinhos velopáticos agradeciam.

 

Findo o segmento de descanso físico e psicológico, o dueto voltou ao exterior e aos tenrinhos pisos de calçada que permitem o acesso à Baixa farense, apenas para novamente ser confrontado com, para além daquele que só pode ser considerado um exemplo de desenho urbanístico cheio de categoria e classe, o terror trotinético que alastra que nem um temível vírus conspurcando nossas urbes.

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O apogeu do design citadino, agora estragado pelas execráveis Trotinetes.

Recorrendo a todos os seus dotes equilibristas que dir-se-ia o Velopata ser um moçe formado nas artes circenses da escola do Chapitô, e uma enorme vontade de utilizar a cadeira velopatazínhica como aríete, arrancando os guarda-lamas de todos aqueles enlatados que, aparentemente, só não entraram pelas lojas chinesas dentro porque isso estragar-lhes-ia a pintura das latas, o fustigado Velopata seguiu caminho para o segmento seguinte que revelar-se-ia de uma lentidão tremenda.

Segundo o Decreto Lei 123/97 em Diário da República do dia vinte e dois de Maio do ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de mil novecentos e noventa e sete, a largura mínima que um passeio público português deve apresentar é de dois vírgula vinte e cinco metros.

2,25 metros.

Hoje, à hora desta publicação, o Velopata sabe que os senhores responsáveis pelo desenho dos passeios da urbe farense, para além não de dotarem seus funcioná… Trabalhado… Colaboradores de Níveis… Epá, umas Fitas Métricas também não faziam mal a ninguém!

Aquilo foi um longo segmento de passeio com uma largura tal que o dueto Velopata e Velopatazinho se viram forçados a seguir na roda de uma idosa que, com a ajuda do seu andarilho, ocupava todo aquele espaço que podia ser muita coisa menos dois vírgula vinte e cinco metros de largura.

O Velopata ainda pensou interpelar a pobre idosa, questionando-a sobre a possibilidade de “dar um jeitinho” e deixar o dueto ultrapassar, o problema é que em longínquos tempos ele fez algo semelhante (na época ele necessitou de indicações para se deslocar até determinado sítio lisboeta cuja localização era desconhecida), e a idosa alfacinha em questão desatou aos berros em plena via pública, receosa de se encontrar na iminência de um assalto.

Verdade seja escrita, desde então o Velopata já dilatou seus aerolóbulos e pintou permanentemente mais bonecada em seus braçinhos, o que não abonaria favoravelmente numa repetição de toda a situação e já se sabe como acabaria a história – os transeuntes chamariam a Polícia, o Velopata ia de cana finda a sessão de valente bordoada policial, o Velopatazinho seguia para a Segurança Social e uma outra família apoderar-se-ia daquele bebé bem bonito e tudo terminaria com a Srª Velopata sendo entrevistada pelas autoridades competentes, CMTv ou TVI24 quiçá até com direito a uma reportagem exclusiva no Sexta às 9 explicando que apesar de todo aquele mau aspecto, seu marido Velopata até era bom moçe e tudo não passava de um grande mal-entendido.

E desaustinadamente lentamente lá foram Velopata e Velopatazinho, aproveitando a roda (ou seria o andarilho?), da idosa, não podendo o Velopata deixar de matutar como quem matuta mesmo que deve ser justamente isto que os enlatados sentem (se é que os enlatados são dotados de sentimentos…), quando forçados a deslocar-se infindáveis quilómetros em marcha lenta atrás de Ciclistas e Trotinetistas. E assim, seguindo a vigente lógica enlatada, ao Velopata só ocorria um pensamento – quando é que vão proibir idosos de se deslocar a penantes nos nossos passeios, deixando de atrapalhar a vida a todos os que andam a penantes em mais rápido?

É claro que o Velopata podia ter recorrido à mesma solução que os enlatados tanto gostam de pregar – o Velopata usaria a cadeira velopatazínhica para dar uma cacetada na idosa, tirando-a do caminho para depois poder seguir com sua vida como se nada se tivesse passado.

Mas não.

E o mui querido leitor sabe o porquê?

Porque mesmo num passeio com tão fracas condições para a prática do walking, a corja das Trotinetes não se enxerga ou perdoa.

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Quando é que este pesadelo das Trotinetes irá terminar?

Aproveitando que a idosa e seu andarilho foram forçados a sair do passeio para o alcatrão, desviando-se daquela enorme e monstruosa Trotinete, também o dueto o fez, conseguindo assim ultrapassar a idosa (será isto considerada uma carocha pedonal?), mas não sem que em antes um crápula enlatado espetasse uma valente buzinadela ao Velopata por se encontrar invadindo seu habitat.

Irritado, o Velopata ainda tentou justificar suas acções, apontando para a Trotinete estancionada no passeio, mas a resposta que surgiu do interior do enlatado mais não foi que um manguito, sendo importante frisar que o Velopata não se refere à importante peça de indumentária velocipédica e sim à estranha fixação que todos os enlatados aparentam ter com a genitália masculina e que a comunidade académico-científica já devia ter dedicado algum do seu tempo a estudar e tentar compreender.

Mas um Velopata não pode deixar de sentir um misto de dó, piedade e compaixão para com os pobres coitados enlatados – deve ser complicado uma vida inteira convivendo não só com Daltonismo agudo, mas também Miopia, Astigmatismo e demais maleitas oftalmológicas, além de ter tudo e todos tentando atrapalhar aquele Direito Divino ao alcatrão.

Seguiu-se um segmento apeado menos complicado do ponto de vista técnico-táctico-pedonal, passando o dueto por várias passadeiras e sumáfros, sem nunca descurar sua atenção dos deliciosos pormenores armadilhados das nossas calçadas (os pobres bracinhos velopáticos que o digam);

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Um excelente exemplo da qualidade do design urbanístico português.
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Passeios em calçada com acabamentos de luxo.
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Nem toda a perícia sueca conseguiria criar mobiliário urbano com este requinte.

Eis que no horizonte velopático se materializou a Escola do Velopatazinho, Meca de toda a demanda.

Mas, como é óbvio, o Destino pregava ainda umas quantas valentes partidas ao Velopata.

Sendo bom observador por natureza, o Velopata detectou algo estranho no alcatrão adjacente ao passeio por onde seguia – observando a fotografia abaixo, o mui querido leitor consegue perceber onde está a piada?

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Quando detectarem o erro, por favor respondam na Caixa de Comentários facebookiana desta publicação.

Já bem perto da Escola velopatazínhica, o Velopata preparava já aquele sprint final quando um outro marafado exemplo de como não são apenas as Autoridades e Dirigentes que se estão borrifando para os praticantes de commutes apeados – ninguém quer saber de peões ou bichos humanos com mobilidade reduzida, essa espécie de parente pobre das nossas sociedades e cidades.

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Uma obra usurpava o passeio direito, outra obra usurpava o passeio esquerdo e… Por onde passam os peões?

E novamente um Velopata se viu forçado a transportar a cadeirinha velopatazínhica pelo ecossistema natural do enlatado e…

FOOOOOOOONC!

(outra fraquinha onomatopeia, esta representativa da execrável buzina de um enlatado)

Uma Madame nas suas cinquenta e muitas voltas completas ao Sol buzinava ao Velopata por este, à falta de opções, estar a atrapalhar aqueles importantes cinco segundos da sua vida e, imagine-se até, a ter forçado a reduzir a velocidade por demais excessiva de sua lata.

Mas desta vez, o Velopata não seria apanhado desprevenido.

Zás!

Foi a vez do Velopata mostrar ao enlatado que também ele (o Velopata), sabe gesticular genitália masculina com suas mãos e dedos, o que levou a um escandalizar da Madame enlatada que, talvez à semelhança da já referida idosa alfacinha de outrora, se pirou dali para fora, ainda em mais acelerada, não fosse aquele bicho humano de aspecto esquisito com lóbulos full aero e bonecos desenhados pelo braço, qual marafado tóxicóindependente, arrancar-lhe a maquilhagem à chapada.

Cerca de quarenta e cinco minutos depois de terem deixado o conforto do lar, o dueto Velopata e Velopatazinho finalmente chegavam à Escola, salvos e mais ou menos sãos, o Velopata sentindo-se derreado e sabendo que não existiriam proteínas uéi ou mesmo Sagres médias fresquinhas que promovessem a recuperação muscular de todo o sofrimento infligido na musculatura.

O pior?

Esta era ainda a primeira viagem do dia, faltando o regresso ao conforto do lar findo todo um dia de afincada labuta lá onde ele afincadamente labuta, realizado na hora do dia em que os enlatados parecem acometidos de uma pressa ainda em maior e pior que a matinal, afinal de contas, todos desejam deixar seus locais de labuta o mais rápido possível.

Esta viagem de regresso ao lar não foi diferente da inicial – muita armadilha urbana, muito cagaço e iminente queda da cadeira velopatazínhica em jeitos que aquilo pareceria mais Ginástica Acrobática que alguém a deslocar-se a penantes; mas já bem perto do lar velopático, um ultimo confronto com algo que o Velopata sabe fazer as delícias de qualquer classicómano – um muro pavimentado que deixaria Huys e Geraardsbergens humilhados, sentindo-se um desafio para meros amadores.

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O Muur de Faro. O mui querido leitor não se deve deixar enganar pela pobre qualidade fotográfica – este muro tem uma inclinação superior a quinze por cento!

Os bracinhos somali-anorécticos velopáticos já pouco mais aguentavam mas o dueto conseguiu sobreviver ao primeiro de três dias de commute apeado, regressando intacto ao conforto do lar.

O cansaço infligido foi tal que os treinos na máquina de auto-flagelação velopática foram abortados e suspensos, no entanto, restou a satisfação de ter efectuado três brutais treinos de core que seguramente teriam seus benefícios ao nível da cadência do lactato da FTPmax velocipédica.

 

Nessa noite, finda a nocturna sessão de morfes, Velopata e Velopatazinho aterraram no sofá, derreados que se encontravam de tanta emoção e esforço do primeiro dia de commute apeado.

Entretida com um dos seus desportos preferidos que é o zapping televisivo em busca de programas culinários, a Srª Velopata chamou a atenção do Velopata para algo que ela considera de uma coragem extrema – a televisão que ainda não é smart mostrava imagens de um resumo daquele alucinado desporto patrocinado pela bebida do Touro Vermelho, ou Encarnado, que são os saltos de precipícios para a água.

– Já viste isto? É preciso coragem para saltar de uma altura daquelas. – comentou a Srª Velopata.

– Isso é para meninos. – notou o Velopata, captando vislumbres por entre os semicerrados bonitos olhos castanho-esverdeado.

– Ai é? Queria-te ver a saltares assim para a água…

– Ai é? E um Velopata queria era vê-los a transportar uma cadeirinha para bebé durante uma travessia citadina durante hora de ponta! Ou atravessarem Faro de uma ponta à outra numa cadeira de rodas! Isso sim, seria desporto radical!

 

PS velopatóide: a boa notícia é que por várias vezes o Velopatazinho apontou na direção dos enlatados chamando-lhes “as iátas”. E um Velopata não pode deixar de sentir aquela pontinha de orgulho parental pois… Filho de Velopata sabe… Velopatar.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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