Pediatria velopática

O Velopata lá conseguiu chegar ao sofá que, tantos anos depois, já deixou de ser novo. Pousou o andarilho em carbono, daquele que é mesmo só carbono, 100% carbono, full aero carbono, e chocalhando todas as artrites, artroses, reumáticos e reumatóides, conseguiu sentar-se no sofá. Esticando-se, quase arranjou uma nova hérnia enquanto pegou no comando remoto da sua já obsoleta TV, que teima em não trocar por uma smart, e com a dificuldade de uma visão já viu melhores dias (trocadilho inteligente este!), sintonizou o canal onde se transmitia o Tour de France.

A etapa seguia já lançada.

O pelotão atingia a base do Alpe D´Huez e instantaneamente se fraccionou em inúmeros retalhos do que outrora haviam sido ciclistas, restavam apenas alguns Homens na frente, para trás os meninos do coro.

Preparando-se para aqueles derradeiros quilómetros que seriam a mítica ascensão ao final da duríssima etapa de consagração do vencedor do Tour, o Velopata imediatamente reconheceu o seu não-mais-rebento-e-sim-agora-homenzarrão Velopatazinho no grupo dos favoritos.

Iniciavam-se os ataques. Em alternância os vários favoritos à vitória final no Tour desferiam os seus golpes que fustigavam a já reduzida capacidade de sofrimento de alguns menos fortes no grupo. Todos pareciam tremer.

Todos menos um.

O Velopatazinho.

Lembrando as longas horas passadas a treinar no também mítico Alto do Malhão, sofrendo carocha atrás de carocha do pai Velopata, o Velopatazinho aguardava pacientemente o seu ataque. Do já-não-tão-confortável sofá, o Velopata assistia a tudo, roendo os cotos que minutos antes seriam unhas.

E foi quando já todos os membros do grupo tinham tentado a sua madrasta sorte que o Velopatazinho lhes mostrou de que cepa é feito um Velopata.

Atacou lançado para a vitória e ninguém o conseguiu acompanhar.

Com tamanha excitação o Velopata nem conseguiu conter umas pinginhas de urina no velho sofá, fruto dos muitos anos passados com a próstata sobre o selim.

Mas já nada importava.

O Velopatazinho seguia isolado para vencer a mítica etapa do Alpe D´Huez e com tamanha façanha, colocar um ponto final na edição do Tour de 2042, vencendo a classificação geral e a tão desejada maillot jaune.

O Velopata soltou mais umas pinguinhas. O seu rebento aproximava-se isolado da meta.

500 metros…

450 metros…

400 metros…

 

100 metros…

 

Já de braços no ar o Velopatazinho preparava-se para passar a meta.

E foi com a vista nublada das lágrimas que se preparavam para correr face abaixo que o Velopata viu do nada aparecer El Bala Alejandro Valverde que, do topo da sua experiência e já com 92 anos de idade, mas conseguindo manter uma carreira invejável, apanhou a roda do Velopatazinho, ultrapassando-o e roubando a vitória na etapa.

O ciclismo tem destas coisas, como diria um jogador da bola.

E dos segundos lugares não reza a história.

Envolto em lágrimas o Velopata queria lá estar para correr e abraçar o Velopatazinho, certamente sentindo-se uma lástima depois da derradeira etapa perdida, mas rapidamente a transmissão seguia para a conferência de imprensa e do Velopatazinho nem sinal. A última coisa que o Velopata ainda ouviu, antes de atirar o comando remoto pela televisão dentro, silenciando-a para todo o sempre, foi El Bala agradecer à Canyoncoiso pelas novas algálias em carbono de alto módulo – sem elas nunca teria tido a mínima chance de continuar a competir durante todos estes anos. E que a reforma não era um plano no seu horizonte.

 

O Velopata acordou sobressaltado na cama.

Súor em monte escorria pelo escanzelado mas bonito corpo velopático, encharcando os lençóis.

Tudo não tinha passado de um pesadelo.

Afinal, ainda há réstias de esperança que, aquando da triunfante chegada do Velopatazinho ao World TourEl Bala já se tenha reformado.

Pequeno-almoço tomado, Gata Gorda alimentada e Cadela Descontrolada passeada e já o Velopata preparava a Estrela Vermelha para mais um escalfante treino quando assola ao corredor uma Srª Velopata com aquela face de sal grosso, que o Velopata reconhece como sendo sinal de barraca armada. Com martelo e escopro. Não há Katrinas, Harveys, Josés ou Marias que a abalem.

“Onde é que pensas que vais?”

“Uai, ele ia pedalar. É sábado e como ele não tem de ir labutar, lá onde ele afincadamente labuta, é dia de ir sim, sofrer no alcatrão.”

“Não vais a lado nenhum.”

Zás! Quais McGregor ou Mayweathers, a Srª Velopata não dá abébias, nem um único round a tremoços.

“Mas…” – o Velopata ainda tentou discutir.

“Mas, nada! Não vais comigo e com o teu filho à consulta de pediatria? É a consulta dos quatro meses, não achas que podias passar um dia sem pedalar? É isso que o teu filho importa para ti?”

McGregors e Mayweathers com certeza que já chorariam que nem teenagers à beira de um ataque de nervos mediante a visão de um poster do Justino Bieber semi-desnudado.

Mas não o Velopata que é um gajo rijo, ou não fosse ele uma espécie de ciclista.

À hora marcada lá estava o casal Velopata e o seu mais-que-tudo rebento à entrada do consultório, localizado no interior de um centro comercial, essa capital do capitalismo. Colocar um hospital privado no andar inferior de onde se servem produtos que se assemelham a alimentos; produtos esses ricos em artérias entupidas, enfartes, colesterol e outras complicações cardio-vasculares, faz todo o sentido. Divagava o Velopata sobre estas lógicas humanas e o facto de estar ali encafuado quando podia muito bem estar a respirar aquele ar puro de campos recentemente estrumados pela sua querida serra algarvia, quando a Srª Velopata interviu;

“Mas não te podes calar? ´Tou cheia de te ouvir…”

E assomou à porta do consultório o Pediatra do Velopatazinho, chamando o trio.

“Até que enfim! Salva pelo Pediatra.” – sem dar hipóteses, a Srª Velopata faz sempre questão de vencer por K.O..

Manuseando o Velopatazinho enquanto prosseguia a sua análise aos primeiros 4 meses de vida do futuro vencedor de Grandes Voltas, o Pediatra, ora acenava positivamente com a cabeça, indicando ao casal velopático que o seu rebento estava a funcionar a 100%, ora brincava com o Velopatazinho, tentando conter-lhe o iminente choro.

“Sabes, ele acha que o Velopatazinho é bipolar.” – notou um Velopata entredentes, esperançado que o Pediatra não ouvisse o seu sempre lógico raciocínio.

“Quem?” – questionou a Srª Velopata, também entredentes.

“Quem é que havia de ser? O Velopata.”

“Estamos no consultório. Não podes deixar esssas parvoíces lá fora e falar a sério por uma vez que seja?”

“Mas ele está a falar a sério. Já viste como o Velopatazinho ri, depois chora, depois ri, depois chora? Isso não é bipolaridadecoiso? Tu é que és a formada em Psicologia, devias saber!”

“Devo ter feito muito mal numa outra vida para ter de aturar isto…”

“Ele já te disse. Numa outra vida deves ter sido uma enlatada que atropelou um ciclista e fugiu. Isto é o castigo.”

A Srª Velopata já não respondeu a esta última provocação, bastou novamente aquele olhar de sal grosso. Em antes que o Velopata pudesse continuar, a atenção do casal foi desviada para a importante fase velocipédica à qual a consulta chegava – a pesagem.

“Cinco quilos, oitocentas e vinte gramas.” – apontou o Pediatra – “É um peso um pouco baixo para a idade que ele tem. Encontra-se nos percentis mais baixos.”

“Isso é mau, Doutor?” – questionou a Srª Velopata, visivelmente preocupada.

“Claro que não! Não se esqueçam que os vencedores das Grandes Voltas são assim a puxar para o somali ou etíope! Se ele ganhar muito peso agora depois vai sofrer ainda mais quando começar a treinar com o pai!” – exclamou o Velopata.

“Desculpe?” – o Pediatra claramente desconhecia as capacidades deste vosso amigo.

“Não ligue Doutor. O meu marido é assim… Meio parvo. Meteu na cabeça que o filho vai ser ciclista. Ainda me vou rir muito quando o miúdo crescer e não quiser nada com bicicletas.”

Com aquele ataque em cadência da Srª Velopata fez-se silêncio na sala enquanto o Pediatra optou pela melhor solução; ignorou os comentários velopáticos, preparando-se para medir o Velopatazinho.

“Sessenta e quatro centímetros. O vosso filho vai ser um calmeirão, está acima de todos os percentis.”

“Isso é que é um problema!” – rematou o Velopata.

“Problema?” – exclamaram em uníssono a Srª Velopata e o Pediatra.

“A malta muito alta é menos aerodinâmica e nem todas as marcas produzem quadros assim tão grandes. Sabem quanto custa um quadro em carbono de alto módulo feito à medida?”

Mais uma vez o Velopata foi brindado com aquele olhar de sal grosso, no entanto, agora a dobrar pois também o Pediatra se juntou à Srª Velopata. Apesar do olhar deste ser ligeiramente refinado.

Novamente se abateu o silêncio sobre o consultório enquanto o Pediatra registava os vários dados do Velopatazinho na respetiva caderneta. Lembrando-se de mais uma daquelas questões que tanto o apoquentam, no que respeita à saúde do seu mais-que-tudo rebento, o Velopata, novamente entredentes, comentou para a Srª Velopata;

“E da baba?”

“Que baba?”

“O facto do Velopatazinho se estar sempre a babar. Não vais perguntar ao Doutor?”

“Tu também passas a vida a babar-te quando vais às lojas das bicicletas e não é por isso que eu te levo ao Veterinário.”

“Mas ele baba-se mesmo muito.”

“Já te viste ao espelho quando te pões a falar daquela Cromondale ou lá o que é que está lá na G-Ride?”

“Aquela quê?”

“Cromondale.”

“E depois tu é que te queixas que ele não te ouve. É Cannondale. SuperSix Evo. Toda Ultegra. Uma maravilha do engenho tecnológico da humani…”

“Limpa é a boca que só da conversa já te estás a babar. O teu filho baba-se porque devem estar para chegar os primeiros dentes. Tu babas-te porque és parvo.”

“Ainda assim. Aquilo é muita quantidade de baba para um ser tão pequenino.”

Se o Pediatra ouviu toda a troca de galhardetes, manteve-se na neutralidade antes de interromper;

“Parece-me que está tudo bem com o vosso filho, tanto fisicamente como cognitivamente. Só têm de ter o cuidado de não o deixar ver televisão; nesta fase eles começam a prestar mais atenção ao meio envolvente e muitos pais optam por os deixar entretidos com a TV. No entanto, existem alguns ensaios clínicos que parecem indicar que crianças que em tão tenra idade assistem televisão, futuramente podem desenvolver problemas ao nível da concentração.”

“Não se preocupe Senhor Doutor! As principais provas velocipédicas; Giros, Tours, Vueltas e a nossa Grandíssima já foram. Não devem acontecer muito mais transmissões televisivas de ciclismo este ano.”

“Desculpe?” – inquiriu um Pediatra notoriamente confundido.

“Não ligue Doutor. Eu terei todo o cuidado e não o deixarei ver nada do que ele diz.” – interrompeu a Srª Velopata.

“Pois Senhor Doutor, ela não deixa o Velopata e o Velopatazinho ver as grandes provas velocipédicas do universo, mas se for para ver um programa daqueles onde uma qualquer morenaça inglesa toda gira cozinha pedaços de cadáver de animal em molho de coca-cola, já não tem problema! Veja bem Doutor, molho de coca-cola!” – porque o Velopata sabe que a melhor defesa é o ataque.

Estarrecido, percebia-se claramente que o Pediatra não sabia o que dizer. Mas o Velopata desconfia que naquela mente só uma questão persistia; “Mas que mal terá feito esta criança para merecer estes dois como pais?”

Terminada a consulta dos 4 meses de vida do Velopatazinho, o trio deixou o consultório para trás e pelas contas velopáticas, se seguissem já para o lar, o Sol ainda não se encontrava tão alto que não permitisse ao Velopata sair para um treino rápido de cento-e-poucos quilómetros.

Apressando o passo rumo ao parque de estancionamento das latas, o Velopata foi surpreendido pela voz seca da Srª Velopata;

“Onde é que vais lançado?”

“Uai, para casa! Como ainda é cedo ele estava a pensar…”

“Nem penses. Já sei que o que tu queres é deixar-nos em casa e sair para ir andar de bicicleta. Mas eu apetece-me passear pelas lojas um bocado.”

“Quantas vezes ele tem de dizer? Não é andar de bicicleta, é p-e-d-a-l-a-r que se diz!”

“Quero ir à Fnac.”

Apesar do ríspido tom, a Srª Velopata sabe que essa loja mexe e remexe com a alma velopática, tal a sua ânsia cultural. Recorrendo a um golpe baixo deste calibre, a Srª Velopata sabia que a argumentação terminava, podendo cantar a sua vitória. “Até parece que o resultado costuma ser outro, ó Velopata…” – pensará o querido leitor. E com razão.

Passeando pela Fnac, o casal Velopata seguiu caminhos diferentes dadas as óbvias diferenças de interesses.

Velopata e Velopatazinho passearam pela secção das câmeras de acção, literatura geral e literatura desportiva, onde o Velopata aproveitou para mandar vir pelo simples facto de todos os livros incidirem sobre um único desporto. Que até é menor. A bola. Dir-se-ia que não existe outro desporto que seja alvo de publicação literária que não a bola. Uma vergonha quando comparado com as montras de livrarias belgas e francesas onde o que não falta é literatura dedicada ao mais grande e nobre dos desportos que é o ciclismo.

Muitos leitores serão desconhecedores deste facto, mas existe uma secção fnaquiana na qual o Velopata faz sempre questão de passear os seus lindos olhos castanho-esverdeados. Comics, livros de banda desenhada, jogos de tabuleiro e afins. É a herança geek do Velopata, um obscuro passado antes de se ter transmorfado no rijo atleta de baixa competição que é hoje.

E foi então que ele viu.

O choque cerebral foi tal que o Velopata se viu forçado a esfregar os bonitos olhos castanho-esverdeados uma e outra vez. Seria real ou apenas o cérebro velopático a pregar mais uma das suas partidas? Em jeito de resposta, até o Velopatazinho bolsou algo que se assemelhava a uma espécie de queijo fresco azedo.

Durante este último Tour de France, o Velopata leu um artigo sobre o facto de, durante as noites no hotel, todos os membros dessa espectacular equipa que recorre a Bicicletas de Homem (BH), que é a Direct Energie, participarem em amenas cavaqueiras em torno de um jogo de tabuleiro de ciclismo intitulado Flamme Rouge. E já na altura o Velopata sentiu aquelas pontadas na bexiga e uma incontrolável vontade de procurar onde poderia adquirir tal maravilhoso artefacto.

Então não é que Flamme Rouge repousava numa prateleira, ali mesmo, diante dos bonitos olhos castanho-esverdeados velopáticos?

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A bonita caixa que tanta baba (e birra), provocou.

Seguiram-se minutos de uma choradeira e birra incontroláveis, nas medidas possíveis em que um adulto de 38 anos e 1,85 metros de altura as pode fazer, enquanto o Velopata tentou persuadir a Srª Velopata a oferecer-lhe o jogo e em antes que o querido leitor se questione porque razão o Velopata não adquiriu o maravilhoso jogo através dos seus próprios eirios, lembre-se que o carbono não é barato e a Estrela Vermelha recentemente necessitou de um novo avanço e um par de sapatilhas, para além das barras de guiador aerocoisas. Há ainda o facto de que tudo tem sempre um sabor melhor quando oferecido.

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Uma visão geral do conteúdo da magnífica caixa.

“Mas para que é que tu queres isso? Vais jogar sozinho?” – questionava a Srª Velopata.

“Jogas com ele!”

“Era só o que me faltava agora… Joguinhos parvos de ciclismo…”

“Ele joga com o Velopatazinho!”

“O miúdo tem quatro meses, ele lá quer saber disso.”

“É uma compra já a pensar no futuro! Não estás sempre a falar que ele tem de pensar a longo prazo, por isso é que não pode comprar uma bêtêtê túénináiner?”

“És é muito esperto com essa conversa cheia de manha.”

“Claro que ele é esperto, por isso é que decidiste ter um filho com ele!”

“Ainda assim, não vejo qual a necessidade disso.”

“Com este jogo o Velopata pode ensinar os princípios teóricos do ciclismo ao Velopatazinho! Já imaginaste bem… Quando um dia escreverem a biografia do grande campeão que ele vai ser e escreverem que o pai, com a ajuda da mãe, desde tenra idade lhe começou a pregar os grandes ensinamentos velocipédicos que o auxiliaram a ser um campeão, como é que te vais sentir? Vais ser uma mãe babada e cheia de orgulho!”

“Eu devo ter feito mesmo muito mal numa outra vida…” – suspirou a derrotada Srª Velopata.

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Uma fofura de ciclistas incluídos no conteúdo da caixa. Como é óbvio, aquando do primeiro jogo que o casal Velopata pratique, a Srª Velopata jogará com a equipa verde, numa clara homenagem à Cromondale e o Velopata optará pela equipa vermelha, dispensando-se aqui a justificação.

Minutos depois e estava uma resignada Srª Velopata na caixa, oficializando o pagamento do espectacular jogo.

E foi assim que o Velopata aprendeu mais uma importante lição de vida; por vezes, vale a pena não ir para a estrada, caso contrário, nunca teria adquirido para si e para o Velopatazinho, tão espectacular peça de introdução à teoria velocipédica.

Se o Velopatazinho gostou da prenda?

Uma imagem vale mais que mil palavras, como poderão confirmar abaixo.

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PS velopático: Obviamente que o Velopata partilhará com toda a restante nação velopática uma análise do que foi o primeiro jogo que fez contra a Srª Velopata. Fiquem atentos!

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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