Regra da lata

Ela é simples.

Todos, com maior ou menor dificuldade, dependendo da obtusidade cerebral, a conseguem compreender, aprender e transmitir às futuras gerações.

6 simples palavras.

Inalterável, imutável.

Governa a Vida.

Os ricos ficam mais ricos.

Ora aí está! Finalmente haveis entendido como funciona este Terceiro Calhau a contar do Sol!

Óbviamente que toda a regra tem excepção – por vezes, os pobres ficam mais ricos mas tal não subsiste no contínuo espaço-tempo – rapidamente regressam ao nível de pobreza anterior. Ou pior.

Mas os realmente ricos; não aqueles cujos trombis reconhecemos das revistas dedicadas ao Jet7, Jet8, Jet9 e por aí fora e sim aqueles que nem sequer conhecemos as trombas e nomes ou qual o nível de sua riqueza, raramente ficam menos ricos. Ainda assim, não é que não ocorra uma ou outra calamidade que permita a remoção de 1 ou 2 ricos da equação (quem nunca teve como antepassado este ou aquele tio que estourou tudo em fêmeas de profissão duvidosa (mas da qual ninguém duvida), e vinho verde?), numa espécie de Selecção Natural da coisa.

Apesar de se apresentar como uma regra que não auxilia a prever o futuro de um qualquer Bicho Humano é, no entanto, de uma utilidade inigualável em explicar como as coisas são e porque esta e aquela decisão são tomadas – a situação deixa o rico mais rico? Então é por essa mesma razão que ela existe. Esta ou aquela proposta, cultura, decisão política, decisão ambiental, decisão desportiva, decisão jurídica deixa os ricos mais ricos? Então será essa a seleccionada.

E agora uma daquelas do baú, que deixará os mui queridos leitores de cérebros em rodopio – se algo torna os pobres mais ricos então… Certamente ela tornará os ricos mais ricos e os pobres acabarão por retornar à pobreza inicial, quer por competição, correção ou eliminação.

Dificuldades em entender?

Tomemos como exemplo essa melhor invenção da bicharada humana a seguir aos leggings das fêmeas, A Bicicleta.

Porque razão não é A Bicicleta em mais promovida como uma solução para a Economia Verde, eficaz alocação e gestão de recursos, Felicidade e Paz Mundial?

Porque A Bicicleta nunca tornará os ricos mais ricos.

Muito pelo contrário, os ricos ficarão mais pobres em consequência da destruição da economia global como conhecemos.

A Bicicleta é a mais potente ameaça a tudo o que existe, existiu e está para existir.

A Bicicleta destrói e aniquila a economia enlatada de milhares de milhões de triliões de biliões de eirios que a suporta. Acabam-se as autoestradas, as grandes explorações mineiras, as grandes operações fabris, a indústria seguradora, os standers, os vendedores, os mecânicos, as garagens, os parquímetros, os impostos arrecadados e claro, a indústria petrolífera.

A destruição da economia enlatada mundial seria mesmo capaz de danificar o núcleo e as camadas desta rocha que orbita o Sol. Muito provavelmente, nem seu satélite natural, a Lua, se conseguiria safar.

Mas A Bicicleta destrói muito mais que isto.

A Bicicleta arruina toda a indústria da Saúde – quaziliões de eirios gastos em cuidados de saúde evaporariam num ápice se a bicharada humana decidisse pedalar em todas suas deslocações. A Bicicleta assassinaria a poluição atmosférica, as doenças do século XXI associadas ao estilo de vida sedentário (inclusivé as psicológicas), a tóxicóindependência, a indústria seguradora da saúde e as vastas fortunas que delas dependem.

A Bicicleta empobrece tudo e todos, aumentando a esperança média de vida e mesmo sua qualidade. O aumento de população de bichos humanos dispararia e triliões de eirios em planos de poupança e reforma desapareceriam dos cofres dos agiotas legaliza… Perdão, dos Bancos, em mais depressa que o Salgado esfrega um olho.

A Riqueza, enquanto culto de estatuto social evaporaria. A bicharada humana não mais entupiria os centros comerciais, não mais se entupiria em produtos que parecem alimentos (Fast Food, em anglosaxócamónico), participaria em concertos, festivais e eventos desportivos ou mesmo grandes viagens, uma vez que todas estas actividades se revelariam extremamente incovenientes, necessitando um avultado e dispendioso gasto energético e empenho – uma pedalada de 100 Km até um estádio desse desporto menor da bola para assistir a 22 moçes aos Xutos & Pontapés a um objecto esférico de poliuretano a contar para a Liga dos Campeões? Ainda para mais, à noite? Pedalar meia-hora à chuva até à baixa da urbe mais próxima para comer um gelado? Cruzes canhoto!

Fortunas construídas sobre actividades desportivas, que na realidade mais não são que riqueza amealhada através de concessões, consumo, publicidade e receitas de transmissões, seriam dizimadas. Audiências seriam inferiores à participação pois todo o bicho humano seria tal e qual este vosso companheiro, palhaço e amigo do duro circo que é a vida do pedal – às 21 horas da noite e já se encontrariam esparramados nos sofás, imitando o som das máquinas de auto-mutilação, no vulgo, rolos de treino. Estes factores detonariam a indústria das drogas para dormir, dos antidepressivos, dos opióides e até…

(pausa para o Velopata engolir em seco)

…Até a indústria do álcool.

E com todas estas decrépitas indústrias seguiriam todos os que vivem à sua pala – aqueles que subsistem com base no aconselhamento dos bichos humanos modernos, deprivados de sono e saturados de ansiedade.

Sectores como o turismo global colapsariam à medida que a bicharada humana descobria o entertenimento infinito que as localidades e regiões onde habitam conseguiriam proporcionar – viajar ao comando de uma nobre Bicicleta faria todo o complexo hoteleiro industrial, o aluguer de enlatados e as companhias aéreas falecer.

Mas ainda podia piorar.

A Bicicleta envenenaria irremediavelmente todo o complexo militar – à medida que a bicharada humana viajava em suas Bicicletas, sentimentos como compaixão e empatia para com o próximo (vá, excepto em casos mais crónicos de ressabio), tomariam conta do cenário, levando a que todos finalmente entendessem que os conflitos podem ser resolvidos sem punhada e mortandade. O curioso é que o colapso da indústria militar levaria a maiores índices de desemprego, exaltação e protesto social, tumultos e, numa espécie de grande piada cósmica paradoxal, guerra.

São inúmeras as razões que levam A Bicicleta a ser o Inimigo Público Número Um da Economia Global. A indústria de armazenamento e transporte de bens encolheria brutalmente pois a bicharada humana teria perdido o interesse no consumo estúpido e desenfreado – ninguém, exceptuando talvez a malta do Bikepacking, quer carregar mais do que precisa no commute até casa, certo? O sector energético; o nuclear, o carvão, a electricidade, contrar-se-iam até níveis jamais ouvistos dada a menor necessidade energética. O mercado imobiliário e a especulação veriam o quão ridículo tem sido seu comportamento nos últimos anos, agora que os bichos humanos não necessitam de um T4+5 pois já não são necessárias um-sem-número de assoalhadas para arrumar toda a tralha e bugiganga que agora não compram.

A reacção em cadeia seria tal que a regra da lata seria colocada em xeque-mate – os ricos ficariam mais pobres.

As indústrias tecnológicas não escapariam – a bicharada humana passaria menos tempo com os olhos diante de um ecrã para posteriormente descobrir que as interações reais suplantam as interações digitais. As compras online, o entertenimento online e tudo o mais que é online, blogs ou blogues incluídos, seriam pontapeados nas partes baixas sem qualquer dó ou piedade e o mui querido leitor não estaria aqui agora, perdendo seu precioso tempo a ler as alarvidades que este vosso companheiro, palhaço e amigo do duro circo que é a vida do pedal partilha.

“Mete mais tabaco ou experimenta mudar de mortalhas!”, diriam.

No entanto, uma maneira existe para A Bicicleta assegurar que os ricos ficam mais ricos.

Incorporá-la como um acessório da cultura enlatada.

Quando A Bicicleta passa a ser considerada um brinquedo que serve apenas para actividades recreativas, então transforma-se numa espécie de serva da economia enlatada, infelizmente até, estimulando-a. Um bom exemplo pode ser ouvistado em muitos moçes e moças do Downhill – conduzem suas latas até um determinado local onde aí sim, pegam em suas Bicicletas e amandam-se ravina abaixo. Ou como o Velopata ouvistou um transeunte afirmar, enquanto ele (o Velopata), dobrava sua Cappuccino para entrar nas instalações onde ele afincadamente labuta – “isso dava mesmo jeito para guardar na mala do car…”.

Torna-se assim necessária toda uma diversificada e massiva indústria de itens recreativos velocipédicos; desde a mais variada indumentária para toda e qualquer variante metereológica a Bicicletas full carbo aero carbon, passando pelas raques para transporte no tejadilho dos enlatados, até toda uma oferta de componentes em cerâmica da Vista Alegre e mesmo eventos, assim se garante que a Bicicleta não destrói a economia como a conhecemos, mantendo-se como um sub-culto da economia enlatada.

E se ainda assim duvidai, fazei um exercício – contai em quantas publicidades televisivas de marcas de enlatados aparece A Bicicleta…

Enquanto A Bicicleta e a pedalada dependerem do enlatado, eles estão a ganhar.

Infelizmente, a ameaça velocipédica é apenas teoria.

Os ricos não ficam só mais ricos.

Eles veneram enlatados.

Abraços (com máscara e à segura distância higiénica) velocipédicos,

Velopata

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