Um conto de arrepiar

Tómané acordou como em tantos outros fins de semana acordara; tomou um pequeno-almoço suficiente para fazer marchar toda uma legião romana e…

– Ó Velopata, ma´ que raios de maneira de começar um conto é essa? – reclamará o mui querido e cheio de razão leitor.

Era uma vez.

Assim é que é.

Era uma vez um Ciclista de seu nome António Manuel, Tómané para amigos e conhecidos, que vivia numa terra muito distante onde era conhecido por todos pela sua paixão e dedicação ao nobre desporto da Velocipedia.

Só que Tómané tinha um problema.

Quer-se dizer, Tómané tinha bem mais que um problema, mas os restantes não são para aqui chamados.

Tómané era aquilo que todos conhecemos como… Um granda Ressabiado.

Era tão ressabiado mas tão ressabiado que se Rob Zombie e comparsas White Zombie o conhecessem, a granda malha “More Human Than Human certamente chamar-se-ia “More Ressabiado Than Ressabiado”.

Não surpreenderá ninguém, portantos, quando o Velopata escreve que Tómané pedalava sempre sozinho – todos sabiam que sua única razão de viver e motivação mais não eram que simplesmente encarochar e empenar tudo e todos os que tivessem o azar de tentar acompanhar sua roda.

Isto para posteriormente, quando a empenada troupe lá se reunia novamente, amandar bitaites a seus comparsas como; “tens de melhorar o teu VO2max” ou “se me queres acompanhar tens de tomar este ou aquele suplemento que melhorarão teu FTPmax” ou até “tens de trabalhar essa cadência”.

Portantos, Tómané era aquilo que todos reconhecerão como… Uma Besta. Assim mesmo, com B maiúsculo.

Aquele sábado, dia 31 de Outubro, tinha começado como todos os outros – ainda mal os primeiros raios de Sol acordavam o mundo e já Tómané tinha tomado seu pequeno-almoço que de pequeno pouco ou nada tinha e, como já referido, era manjar capaz de fazer uma legião romana marchar durante vários dias para espalhar Democracia pelos territórios vizinhos.

Bicicleta inspeccionada, suas melhores licras vestidas e Tómané lançava-se à estrada com o intuito de completar um treino na zona da Endurance Aeróbia do Lactato na Cadência do Mesociclo, ou seja, semântica técnico-táctica à parte, Tómané ia apenas rolar as pernas, evitando as principais e duras subidas da região.

Tudo corria de bem, Tómané sentia-se muita forte e até capaz de derrotar os máiores roladores do World Tour num Contra-Relógio individual quando, após uma apertada curva num qualquer ermo serrano, ouvistou uma Bicicleta estancionada junto a uma árvore, sem qualquer sinal de seu dono.

Foi então que Tómané fez algo que jamais pensou um dia fazer – Tómané reduziu sua pedalada e velocidade pois… Um inculto e destreinado olho civil não saberia mas… Aquela não era uma Bicicleta qualquer.

Era nada mais, nada menos, que a nova Cromondale Righty, a Bicicleta mais leve e rígida e aero do mercado – Tómané já tinha ouvisto na Internet que o quadro pesava menos que uma folha de papel… De formato A5; os tubos pareciam cunhas capazes de fatiar qualquer enlatado que se lhe atravessasse no caminho (pela primeira vez na história, uma Bicicleta existia que deixava os enlatados com medo de a atropelar), a forqueta tinha sido toda redesenhada em relação ao modelo anterior, tendo agora só a metade direita (Tómané também tinha lido que esta meia forqueta aumentava a potência da viscosidade termodinâmica do atrito em mais do dobro!), já vinha equipada com o novo grupo Shimano Di3+ (Tómané leu que esta era a transmissão que melhor desempenho da aerobiose permitia), pedaleiro com um só prato e triangular (dizem que permitia ao Ciclista utilizar todos os músculos das pernas durante uma revolução do cranque), cassete 11-170 (permitia enfrentar qualquer subida com inclinações superiores a 50% como se um moçe pedalasse no plano), rodas em full carbon aero carbon onde até os mamilos eram full carbon aero carbon (e era mesmo carbono daquele que é mesmo só carbono, totalmente carbono, 100% carbono!), com perfil de 400 mm e rolamentos em cerâmica da Vista Alegre, uma micro-mini suspensão escondida no espigão de selim que funcionava não a água ou óleo e sim óleo de fígado de uma rara espécie de iaque que viva no refugo das montanhas nepalesas, selim já dotado com a nova tecnologia Ergo Testicle Fit e a cereja no topo do bolo que era… O novo Garmin Trek Edge Explore Power Synapse Carbon Gore Stopper que, para além de incluir todas as características standard da marca (ligação por uáifái, dente azul, emparelhamento com Apps como a STAYAWAY Covid ou a do Continente), trazia ainda o novo espectacular sensor de cadência esfíncteriana, capaz de medir com uma incrível precisão todos os movimentos esfíncterianos cada vez que um enlatado passava uma razia ou a trajectória e travagem durante uma vertiginosa curva eram mal calculadas, enfim… Aquilo era máquina para fazer as Bicicletas da Prózada World Tour sentir que pedalavam com ferros enquanto o dono daquela beleza carbonatada sentiria pedalar num enlatado da Fórmula 1.

Por falar (ou escrever), em dono, o que raios faria aquele exemplo do engenho da bicharada humana ali, sozinha e abandonada, encostada a um eucalipto?

Ainda para mais quando Tómané já tinha ouvisto na Internet que aquilo era máquina para custar uns bons milhares de milhões de eirios – não era para qualquer bolso.

Foi então que Tómané tomou uma decisão que jamais pensou alguma vez tomar – durante uma pedalada, colocar o sapato de encaixe no chão.

Ele precisava ver, sentir, tocar e cheirar aquela beldade.

Isto porquê?

Porque Tómané tinha outro grande problema.

Tómané era licenciado em Engenharia Astrofísica com média de 19 valores numa das mais reputadas universidades lá do sítio, tendo conseguido um emprego de sonho – Tómané era Técnico Controlador de Bens de Consumo.

Ou seja, caixa num hipermercado.

Tómané era operador de caixa num hipermercado da região.

Mas não era um hipermercado qualquer – esta era uma grande superfície conhecida por privilegiar o meio ambiente e os produtores com os quais celebravam acordos justos, pelo menos era isso que mostravam nas suas publicidades televisivas, pena era esquecerem-se de pagar mais que o ordenado mínimo a seus trabalhad… Empregad… Funcioná… Colaboradores.

Portantos, apesar de Tómané ser um exemplar de Ciclista muita forte, seu maior defeito (além do perfil psicológico de ultra-mega-hiper-giga ressabiado), residia na Bicicleta – é que com aquele deplorável ordenado, a única Bicicleta que Tómané havia conseguido comprar (a prestações que duraram uns complicados 15 anos a fazer refeições à base de latinhas de atum e daquele embebido em óleo), foi uma Bicicleta de supermercado, proveniente de retoma, inclusivé com marcas de queda do anterior dono.

Tómané tinha que ver aquela maravilha da tecnologia dos bichos humanos de perto e sapato de encaixe ante sapato de encaixe, mesmo sem saber bem porquê, tentando que o cagaçal dos encaixes no alcatrão não denunciasse sua presença, Tómané aproximou-se sorrateiramente.

(………)

Sem sombra de qualquer dúvida, aquela era A Bicicleta mais linda que Tómané alguma vez tinha ouvisto.

Mas… Onde estaria seu dono?

– Está aí alguém? – indagou Tómané na direcção do eucaliptal.

Vivalma retorquiu a questão lançada no vazio serrano.

“Esta agora…” – pensou Tómané para com o fecho éclair de seu jersey.

Um estranho sentimento como Tómané jamais havia experienciado tomou conta de seu cérebro, alma e intestinos.

“E se…”.

A Bicicleta era realmente maravilhosa.

“E se…”.

E ele com aquele seu cangalho… É que se ele já era o máior lá do sítio com aquele ferro, imagine-se as proezas velocipédicas que não faria com um avião daqueles.

“E se… E se… Não é tarde nem é cedo!”.

O Diabo nem tempo de esfregar um olho teve e já Tómané deixava seu cangalho para trás cometendo o que só pode ser considerado o mais hediondo crime sobre este plano Terceiro Calhau a contar do Sol.

Tómané roubou a Cromondale Righty.

(………)

Tómané nunca havia pedalado assim.

Era como se até aquele dia, Tómané nem andar de Bicicleta soubesse.

A experiência que aquele maquinão proporcionava não podia ser comparada a nada.

Se algum transeunte o ouvistasse, pensaria certamente que Tómané teria enlouquecido – extasiado, ria e chorava ao mesmo tempo enquanto pedalava a velocidades e médias que certamente fariam os invejosos flagar sua volta no Strava.

Mas nada importava – as sensações que sua nova Bicicleta proporcionavam deixavam-no ébrio. Tão ébrio que nem se apercebeu quando algo que já não ocorria há muitos anos aconteceu – do nada, um Ciclista apanhava sua roda.

Sentindo seu ego inchado enquanto ao comando de seu ex-libris de distribuição carocheira, Tómané decidiu fazer o que melhor sabia – ressabiar.

“Espera aí que já te lixo…” – pensou para com o fecho éclair de seu jersey.

Tómané engrenou um ritmo que deixaria Tony Panzerwagon Martin com os bofes de fora e as pernas em farrapos.

Alguns quilómetros depois e… “Que raios?!?!”.

O Ciclista continuava silenciosamente colado em sua roda, nunca desarmando uns milímetros que fosse.

Para sua surpresa, Tómané ouvistou pela sua vista periférica que a Bicicleta da qual o Chupa-Rodas se munia era muito semelhante à sua antiga, seu cangalho com rodas.

Sentindo um estranho arrepio percorrer a espinha (e intestinos), Tómané não pode deixar de matutar como quem matuta mesmo – “Quem seria aquele moçe que dotado de um ferro semelhante ao seu conseguia acompanhá-lo nestes ritmos?”.

Foi então que Tómané tomou aquela que hoje só podemos considerar uma das piores decisões de sua vida – esquecer o treino de Cadência do Lactato na Anaerobiose Aeróbia e rumar na direcção da pior subida que existia na região, um marafado segmento strávico de 15 Km com inclinação média de 30%.

“Agora é que vais ver como elas te mordem…” – o ressabio toldava Tómané.

Tómané entrou na subida com tudo, um contundente ritmo que faria os melhores trepadores do World Tour chorar por suas Mães.

Mas o Chupa-Rodas não desarmava.

Uma e outra vez Tómané tentou o ataque; em cadência, em força, em FTPmax mas… Nada, nada demovia aquele Chupa-Rodas.

Uma e outra vez, Tómané sinalizou que seria a vez do Chupa-Rodas passar pela frente mas, em silêncio, este não demovia seu… Vá, chupanço.

Depois de várias horas em sofrimento (o KOM da subida havia sido estabelecido há muitos anos atrás, rondando as 3 horas e meia), Tómané via o cume e num último hercúleo esforço… Atacou.

E não é que o Chupa-Rodas desarmou?

Tómané atingia o cume e sentindo que era chegada a hora de conhecer e até confrontar o Chupa-Rodas, pregando-lhe um sermão daqueles por nunca ter dado o corpo ao manifesto de trabalhar na frente, decidiu colocar o sapato de encaixe no chão e…

Uai, onde estava o Chupa-Rodas?

Não se ouvistava vivalma na estrada.

Desconcertado, começando a acarditar-se que algo muito estranho se passava, Tómané decidiu dar o treino por concluído e seguir para o conforto do lar (um barraco T0 que alugava pela pechincha de 900€ ao mês), restando apenas a descida vertiginosa e uns quilómetros rolantes.

Esquecendo a perseguição pelo Chupa-Rodas, rapidamente o cérebro de Tómané se concentrou no quão espectacular seria fazer aquela vertiginosa descida ao comando de seu novo avião.

“Isto vai ser uma loucura!” – pensou.

E assim foi.

Atingindo velocidades na ordem dos 160 Km/h, a sua Cromondale não falhava – era estável e assertiva como só uma máquina daquele calibre podia ser.

Distraído com a excitação urinária que aquela descida proporcionava, Tómané dobrou uma curva cega e… Bem, nada neste ou outros mundos podiam preparar Tómané para aquela visão.

Um iaque de dantescos cornos, pêlo crispado que mais pareciam os pregos da cama de um faquir e uns grandes olhos vermelhos como um sumáfro ocupava boa parte da estrada e… A seu lado, seu cangalho de Bicicleta que Tómané havia deixado muitos quilómetros para trás.

Com a estrada bloqueada daquela maneira, à velocidade a que Tómané seguia só existia uma solução – travar a fundo e rezar a todos os santinhos velocipédicos conhecidos.

Só quando Tómané pressionou as manetes, a chiadeira que tal acto provocou levou-o a olhar para baixo.

Tómané não sabia como mas… Afinal não estava ao comando de uma Cromondale Righty e sim de uma pasteleira do século passado que nem travões de disco ou Di3+ tinha.

“MAS O QUE É QUE É ISTO?” – bradou ante o hipnótico olhar do iaque que continuava ruminando umas ervas como quem rumina umas ervas mesmo.

Uma última solução restava para não se esbardalhar contra aquele marafado iaque – guinar na direcção do raile e rezar para que o precipício não fosse gargantuano.

(………)

Só alguns dias depois, a pedido da ex-mulher de Tómané (o vício velocipédico, o feitio ressabiado e o facto de nunca querer praticar o amor bom com sua esposa pelos efeitos nefastos que tais actos poderiam ter sobre seus níveis de testosterona tinham-lhe custado um divórcio), as autoridades encetaram buscas pelos ermos serranos lá do sítio, em vão buscando o corpo de Tómané.

Seu cadáver nunca foi recuperado mas sua Bicicleta, o cangalho com rodas, foi encontrado no fundo de um precipício na zona da Subida do Chifrudo, uma inóspita montanha onde poucos se aventuravam, inclusivé enlatados.

Sem entender o que poderia ter acontecido a Tómané, as autoridades recorreram ao auxílio do especialista em desaparecimentos estranhos Giorgio A. Tsoukalos que chegou à unica conclusão possível – com aquelas marcas de violência sobre o quadro da Bicicleta, ou extraterrestres tinham abduzido Tómané ou pior… Um iaque tinha-o comido.

O mais estranho?

Nunca ninguém tinha ouvisto um iaque naquela zona. Nem fósseis de iaques alguma vez tinham sido descobertos, indicando que a espécie nem podia ter ali habitado.

Abraços (de máscara e à segura distância higiénica) velocipédicos,

Velopata

Ah, óbviamente que o Velopata não se podia despedir sem partilhar a lição de moral que esta história pretende transmitir, não vá o mui querido leitor equivocar-se.

E a moral da história é;

NÃO SE METAM COM IAQUES!

Que todos tenham um feliz Samhain (ou Halloween, como a maioria de vós celebra)! Que este seja um Inverno livre de Cóvides e com muita pedalada!

Agora sim, abraços (de máscara e à segura distância higiénica) velocipédicos,

Velopata

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