Quem tramou o Ciclismo Profissional?

“Se este ano o Tour não se realizar, talvez só três equipas profissionais sobrevivam.”

Rigoberto Úran

Ciclista Profissional da equipa EF Pro Cycling

 

As palavras de Úran ecoaram pelo cérebro velopatóide, lembrando-o de semelhante afirmação proferida por Patrick Lefevere, actual Boss da Deceuninck-Quick Step, que também associou o cancelamento do Tour ao colapso do Ciclismo Profissional como conhecemos.

O que nem Úran ou Lefevre se importaram em esclarecer é como pode um modelo de negócio que sempre foi apontado pela totalidade dos intervenientes (exceptuando-se a organização), como estando totalmente contra os desígnios de Ciclistas, equipas e patrocinadores, pode levar ao colapso de todo o sistema velocipédico profissional como conhecemos, simplesmente pelo cancelamento de uma única corrida.

Isto tem tanta lógica como afirmar que se a final da Taça de Portugal desse desporto menor da bola, entre os rivais FC Xabregas de Baixo e o Sporting Xabregas de Cima, não se realizar… Então esse desporto menor que são vinte e dois moçes aos Xutos & Pontapés a um objecto esférico de poliuretano tem seus dias contados.

Mas porque deviam ambos os dois, matutar como quem matuta mesmo nisto?

Ninguém negará que esta pandemia nos está a ensinar profundas lições sobre o comportamento do bicho humano. Quando ameaçado, o último passo que o bicho humano dá, se alguma vez o fizer, é assentar-se e analisar o que levou até esse ponto. O mesmo ocorre com a Economia de Portugal e restantes membros da U.E. – enquanto o mui querido leitor lê estas linhas, milhares de moçes munidos de cursos universitários e doutoramentos e supercomputadores quânticos e redes de mensagens secretas frenéticamente tentam compreender, por exemplo, como podemos trazer de volta e em segurança os escravos nas traseiras de um balcão para abrir novamente os “restaurantes” de produtos que se parecem com alimentos, sem tentar perceber porque razão todo este sistema falhou.

Economia.

Uma palavra hedionda, estéril, completamente desprovida de humanidade.

Tudo isto não pode ser apelidado de “colapso económico” na medida em que isso da Economia… É algo que não existe.

Existem bichos humanos, chamemo-los até de Pessoas, para quem o termo técnico-táctico “Economia” foi cunhado pois, se adjectivássemos estes tempos de “colapso de sociedade humana” ou “colapso de pessoas e suas vidas”  em vez de “colapso da Economia” talvez isto os forçasse a matutar como quem matuta mesmo em algo mais que… Vá, dinheiro.

Infelizmente a bicharada humana aparenta ainda não estar preparada para tal, nunca esquecendo que essa tal de Economia assenta em 2 princípios fundamentais;

1- o Dinheiro é o recurso mais importante da Vida.

2 – os bichos humanos necessitam continuar o consumo desenfrado, adquirindo mais e mais merdas.

São estes 2 princípios que regem essa tal de “Economia”, mantendo seu impecável funcionamento qual Bicicleta de um Pró. Mas não são esses mesmos postulados que movem a bicharada humana. O bicho humano é movido a comida, abrigo, roupa e um sentimento de pertença à comunidade. O bicho humano é movido a Religião, Imaginação, comunhão com a Natureza, a prática do Amor Bom e demais interacções sociais.

Por outras simples palavras – esta conspurcante “Economia” simplesmente isolou ambos os dois distorcidos princípios acima amostrados pelo Velopata, transformando-os em poderosos Mandamentos em mais importantes que quaisquer pedaços de calhau esculpido e entregue no Monte Sinai.

E assim, sua aceitação e inevitabilidade torna-se mais fácil. Apetecível até. Afinal, sempre são menos dores de cabeça.

Nem Úran ou Lefevere aparentam reconhecer ou mesmo questionar a razão porque, à medida que o tapete é retirado do alicerce de inúmeros bichos humanos, talvez porque a própria estrutura e mecanismo regente sirva para isso mesmo – o acumular de mais e maior riqueza por aqueles que já a têm; preferindo apontar para o facto de como perder o Tour fará um grande dói-dói.

Mas que lógica é esta?

Perder o Tour seria dos acontecimentos menos nefastos a ocorrer durante uma pandemia.

E porque raios isso importa enquanto continuamos a ter os Ciclistas em total servitude, não apenas a Prózada mas também o Homo sapiens sapiens velocipedicus comum que mantém aquela atitude de criança com medo cada vez que sai para uma pedalada? O que raios isso importa quando sabemos que uma série de machos de equipas Pro Continental e até mesmo fêmeas Prós auferem um salário mínimo de… Zero? Para que raios isso interessa quando sabemos existirem Ciclistas que pagam a suas equipas para poder competir profissionalmente? Porque raios isso interessa quando o que move todo um sistema são salários ao nível da subsistência, nenhuma segurança pós-carreira, nenhuma garantia para o amanhã, nenhuma capacidade para argumentar condições de trabalho?

Analisando assim a frio, talvez não seja completamente estranho que apenas dois tipos de bichos humanos se tenham chegado à frente para abordar estes assuntos;

  • os Bosses das equipas (ou empregadores);
  • os Ciclistas que maiores salários auferem e cuja situação financeira se encontra assegurada.

Onde estão as entrevistas com os Prós maçaricos? Os Pro-Continentais? Os gregários e aguadeiros? As fêmeas? E todos aqueles “amadores” que tão árduamente se prepararam para as canceladas Olimpíadas de Tóquio?

E não é que o Velopata esteja a ver estas entrevistas surgirem nos próximos tempos…

Se um côro de semelhantes vozes se alevantar, talvez a bicharada humana matute ligeiramente, um poucochinho só que seja, em porque razão se deve continuar a promover um sistema que aparenta servir apenas meia dúzia de atletas “ricos” (curiosamente, quase exclusivamente caucasianos), de países “desenvolvidos”.

Muitas vozes semelhantes alevantando-se e talvez todos ouvistemos a opinião dos tais escravos de “restaurantes”, de famílias inteiras agora transformadas em Sem Abrigo, dos milhares de milhões de pessoas esfomeadas cujo único planeamento de vida possível é… A refeição seguinte.

É claro que todos temos uma escolha, algo que alguns vaiam ouvistar à medida que o estado pandémico continua. A questão é simples – continuaremos a assumir que mais não somos que um carreto nessa grande cassete que é a “Economia”, ou iremos finalmente exigir que todo o bicho humano tenha direito a seu quinhão de Vida, Liberdade e a possibilidade de perseguir a Felicidade?

Pensai nestes termos.

E se nos estivéssemos borrifando para a Economia?

E se esta nunca recuperasse?

E se continuassemos nossas vidinhas desempregados ou labutanto apenas em part-time?

E se mantivéssemos o teletrabalho?

E se, de repente, os Governos fossem obrigados a labutar em idéias e soluções para a produção e distribuição de comida, alojamento, educação e cuidados médicos para todos?

E se, de repente, o simples facto de teres nascido um Bicho Humano te desse direito a uma Vida? A Liberdade? A poderes perseguir teus sonhos e felicidade?

Que idéia mais descambida, certo?

E é por estas e outras que o Velopata s´acardita que #nãovaificartudobem.

 

Abraços (à segura distância higiénica) velocipédicos,

Velopata

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