Days of Isolamento

Surrendered to self preservation,

From others who care for themselves,

A blindness that touches perfection,

But hurts just like anything else,

Isolation, isolation, isolation.

Mother I tried please believe me,

I´m doing the best that I can.

I´m ashamed of the things I´ve been put through,

I´m ashamed of the person I am.

Isolation, isolation, isolation.

por Ian Curtis in Isolation, de Joy Division

 

Reconheceis aquele momento, durante a pedalada, onde se emana a fragância ocre de cadáver animal em decomposição algures na berma alcatroada e, mesmo sabendo que não se apreciará a imagem (a não ser que sejas portador de uma qualquer taradice/maleita à Cronenberg), ainda assim o olhar é desviado, buscando a origem do aroma apenas para confirmar nojo e repulsa?

É mais ou menos o que o Velopata sente cada vez que ouvista uma daquelas publicações sobre maneiras de “matar” o tempo enquanto vivemos estes marafados tempos de Covid-19 e Isolamento Social e coiso.

Se necessitas que alguém te forneça idéias para “matar” o tempo, então certamente algo de muito errado se passa na tua vida. Ponto final parágrafo.

O lar velopático e principalmente o Velopata, não necessitam idéias para “matar” tempo.

Necessárias são idéias para o Velopatazinho “matar” o tempo AÍ POR MAIS DE UNS CINCO MINUTOS ININTERRUPTOS POR FAVOR!

E que não envolvam saltar pelos sofás bradando toda a contagem descrecente do fáive uita monquéis jumpinónabé.

De todo será difícil tarefa velopática imaginar um quotidiano cenário covidiano sem o Velopatazinho; acordar, Pequeno-almoço, leve treino de alongamentos e do piriforme ou lá o que é, visionamento de um documentário ou memorável Grande Etapa de uma Grande volta num qualquer sítio internético à borla. Praticar o Amor Bom com a Srª Velopata. Preparação do almoço, Chop-chop e Sesta. Acordar. Café. Praticar o Amor Bom com a Srª Velopata. Café. Sessão de auto-mutilação nos rolos de treino nunca inferior a uma hora e meia por dia podendo, nos picos da insanidade isolamentofílica atingir as quatro horas de duração. Permita-se uma a duas folgas por semana dependendo da intensidade. Duche. Visionamento de um documentário ou memorável Grande Etapa de uma Grande volta num qualquer sítio internético à borla. Preparação do Jantar. Chop-chop e épico Amor Bom é praticado com a Srª Velopata. Praticar o soninho recuperador bom.

Repetir tudinho no dia seguinte.

Nada atropelaria o calmo e pacífico Isolamento Social de Velopata e Srª Velopata (exceptuando talvez uma ou outra divergência de opiniões no que uma ou outra actividade respeita).

O real Isolamento Social velopático?

O lar desperta.

O Velopatazinho surripia a naifa do pão e pensa sair correndo com ela pelo lar, numa espécie de jogo das escondidas do pequeno-almoço que até podia ser à novela TVI só que é versão Tarantino.

O Kaiju de Categoria 5 Velopatazinho opera profundas mudanças na paisagem do pacato lar velopático; o chão da sala via cenário de documentário sobre o Mundo Jurássico da National Geographic.

Há gritos quando a afiada cauda de um Triceratops dilacera a planta de um pé.

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A nobre idéia de construir uma urbe assente sobre uma plataforma de transportes colectivos de bichos humanos deixou pouco impacto histórico – um terramoto de onze graus na Escala de Richter abater-se-ia pouco depois de sua incepção. E os Raus.

O corredor transforma-se numa prova de obstáculos da Playmobil, há peluches a vaguear ao sabor das correntes de ar nas menos esperadas divisões, o comando da box teima em desaparecer misteriosamente.

Há fraldas para mudar.

Há gritos.

Há jogos de poder e intriga, qual série de espionagem internacional. Trocam-se serenas mudanças de fraldas por M&M´s.

M&M´s azuis.

Para tristeza do Sogro velopático que derrama uma lágrima pela águia via WhatsApp.

Chega a hora do almoço.

Há gritos para escolher a côr da tigela da sopa.

O lar almoça.

Há gritos para escolher se assistir ao Canal Panda ou Baby TV.

O Velopatazinho adormece.

Por instantes, Velopata e Srª Velopata podem pausar para apreciar algo já esquecido desde essa manhã – respirar. O ar fresco. Na sacada, o fresco ar de uma urbe mais limpa, livre do constante conspurcar enlatado, dizem Eles.

(Nota velopatóide: exposição acima é literal devaneio poético. Verdade seja escrita; o quarto andar, que visto das traseiras se assemelha a um quinto, no centro de uma das mais movimentadas avenidas da urbe farense mesmo durante o Estado de Emergência e Covid-19 e coiso, cheira a… Campos verdes? Maresia? Golfinhos na Ria Formosa? O reflorestar de Monchique? O exterior das sacadas do lar velopático continua com a fragância de hidrocarboneto queimado salvo quando o vento bate de sudoeste e faz corrente de ar permitindo que os travos da fragância de uns quantos Alecrins (Rosmarinus officinalis), entre outras aromáticas e variedades vegetais dedicadas ao acompanhamento de saladas que o Velopata tem plantadas, seja ligeiramente detectado).

Agricultura Biológica.

Na sacada.

A revelação de um hobby não-velocipédico velopático.

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Pode parecer que o Velopata tem uma sacada retro-hippie-chic dotada de um confortável Puff mas não – trata-se de uma Gata mesmo e não, não tem nada vestido.

Os morangueiros na improvisada mas eficaz estufa da outra sacada amadurecem em excelentes cadências.

O Velopatazinho acorda e como pequena amostra das hostilidades preparadas para a tarde, arranca três ou quatro morangos ainda longe do amadurecimento.

Sabem mal e vão directamente para o uíxo.

São três a quatro horas até à próxima refeição do futuro Vencedor de Grandes Voltas que deixam qualquer um mais esgotado que quinhentos quilómetros pedalados na Serra.

Lanche.

Há gritos na escolha do iogurte de acordo com a côr do pacote.

Há gritos na escolha da côr da colher.

Há conspirações às mais altas instâncias governamentais enquanto pacíficas mudanças de fralda e M&M´s azuis são trocados.

Acabam os M&M´s azuis.

Um Holocausto como só o Velopatazinho sabe.

Há gritos mas também há baba, choro e ranho.

“Mas há todo um pacote cheio de outras cores.” – alguém notará.

O Velopatazinho quer M&M´s azuis e por entre ranho e baba lá consegue explicar que não existindo azuis, podem-se arrumar os M&M´s. Não quererá.

“Não queres mesmo? Tens a certeza?” – confirmará um progenitor.

“N… Nã… Não.” – confirmará a soluçante voz.

Alguém acondiciona devidamente o restante pacote de M&M´s na parteleira do armário, enclausurando-os detrás da porta perante pequeninos olhos lacrimejantes.

 

Há aquele tenso minuto de silêncio enquanto Progenitor, Velopatazinho e Porta do Armário se fitam.

 

A baba, choro e ranho do Velopatazinho implodem para níveis jamais experienciados nos tímpanos do prédio.

“O que foi agora?” – questionará algum aflito progenitor.

– Ele quer bolinhas amarelas e o pai tirou. – explicará o Velopatazinho.

 

Há a ténue esperança que o Velopatazinho alinhe com o progenitor, durante o tempo que resta até ao jantar, na preparação de vários tipos de esparguetes e massas e massinhas elaboradas à base de plasticina sendo cozinhadas no trem de cozinha de brincar, no entanto, segundo o Velopata conseguiu apurar, o Rau grande azul da sala (no Diccionário de Velopatazinho-Português, “Rau” significa Dinossauro, já sobre ser grande e azul, o Velopata desconhece a existência de semelhante exemplar de brinquedo no lar), não quer ou deixa e tudo termina com o que o Velopata pode apenas explicar como uma Granada de Plasticina.

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O Velopatazinho auxilia à captura e recolha dos fragmentos da Granada de Plasticina, pelo menos até a vassoura destruir qualquer coisa.

Jantar.

Há gritos na escolha da côr da tigela para a sopa.

Há gritos na escolha da côr da tigela para a fruta.

Há gritos na escolha da côr da colher da sopa.

Há gritos na escolha da côr da colher da fruta.

A ONU é chamada a intervir e mediar a última mudança de fralda.

Finda a última refeição do dia, esperar-se-ia que a redução da intensidade luminosa ambiental aliada à televisiva produzisse algum tipo de efeito calmante sobre o Velopatazinho.

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O Rau (réplica de Tyrannosaurus rex).

Há gritos porque onze da noite não são horas para utilizar as baquetas do xilofone de brincar no jambé decorativo da sala.

Onze e meia da noite. O Velopatazinho informa que no chão da sala, por entre as filmagens do documentário jurássico, confeccionará uma refeição de esparguete de plasticina no seu trem de cozinha de brincar.

Há gritos.

Em antes de adormecer, há espaço a todo o tipo de artimanhas que um cérebro de duas primaveras e uns trocos de idade consegue congeminar com o único objectivo de empatar o momento de deitar; tem sede, tem fome mas sopa não e chocolates sim, até a sua vez chega para propôr pacíficas mudanças de fralda como moeda de troca.

 

A curva de actividade terrorista do Velopatazinho segue uma tendência semelhante à do Covid-19.

O Velopatazinho fecha os olhos.

 

Com o Velopatazinho adormecido, Velopata e Srª Velopata podem novamente dedicar-se a uns instantes de respiração na sacada (eufemismo velopatóide para “fumar aquele cigarrinho”), seleccionar algo que não da porcaria das Bicicletas para ver, parafraseando a Srª Velopata, entra o genérico e…

 

O Velopata é notificado pela Srª Velopata; desligará a electricidade de toda a sala sendo melhor continuar a imitar o som dos rolos de treino na cama.

E não sejai ordinários.

Os rolos de treino são metáfora para roncar e não a prática do amor bom.

Isso queria ele (o Velopata).

E todo um novo dia se erguerá.

Não há visionamento de documentários ou grandes etapas de Grandes Voltas à borla em sítios internéticos. Não há sessões nos rolos mas vá… Há muito treino específico de Core. Não há o Amor Bom.

Que gritos aguardam hoje o Velopata?

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O Velopata desconhecia todo o potencial de Balouço que muita da mobília velopática tem.

Se podia ser diferente?

Podia; o Velopata só necessitaria o contacto dos McCan.

 

Mens qarentena in covid sano.

 

Abraços (à segura distância higiénica) velocipédicos,

Velopata

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