Binapócalipse

Milhares de milhões de bichos humanos correram às grandes superfícies comerciais para adquirir enlatados (notar que excepcionalmente nesta publicação e por motivos de força viral maior e Estado de Emergência, com enlatado o Velopata não se refere ao vil veículo que s´acardita Rei da Estrada e sim ao produto semelhante a alimento devidamente acondicionado e conservado em lata), água engarrafada, papel higiénico e o que restasse na secção dos frescos, ou seja, vegetais e fruta infelizmente muitos já ou flácidos,  rançosos, bolorentos ou pior – aqueles que até já parecem providos de orgãos locomotores dado o avançado estado de decomposição…

Seguiram-se as lutas pelos lugares nas caixas para pagamento, filas para deixar os estabelecimentos comerciais e a preparação dos lares para os duros dias de privação social e isolamento a que o Estado de Emergência obriga.

Mas…

Quem se alembrou do iminente apócalipse que se avizinha no horizonte?

Será este apenas e só mais um tsunami que impávidos observaremos seu crescendo enquanto assobiem para o lado? Um tsunami em pior que o do álcool etílico ou papel higiénico, uma catástrofe capaz de abalar as mais profundas raízes da estrutura social?

“Mas que cataclismo social será esse?”, indaga o mui querido leitor de esfíncter retesado perante a revelação velopática.

Com o passar das areias temporais, as futuras gerações sobreviventes apelidarão estes negros tempos velocipédicos de… Binapócalipse.

E como váiamos chegar ao Binapócalipse?

Com a imposição do Estado de Emergência e Quarentena e Isolamento Social e coiso, todo o tráfego enlatado foi reduzido, não implicando necessáriamente maior segurança como muitos ouvistaram aquando do Alerta CM em Felgueiras – a cidade em total bloqueio e um enlatado atropelava um peão.

Eh, eh…

Porque as estradas ficam subitamente mais perigosas com menos tráfego… Certo.

Fronteiras fechadas. O Gustavo Santos isolado preferencialmente sem acesso à Internet. Espaços aéreos encerrados. A histeria da Cristina Ferreira incessante nos televisores vizinhos. Transportes públicos suprimidos. Bens de primeira (e demais necessidades) começam a escassear e o inevitável chegará como a alvorada, acariciando a face dos bichos humanos com sua dura e árdua verdade – o único modo de um bicho humano se deslocar será de Bicicleta.

O resultado?

Todos que esgotaram super e hipermercados vaiam agora virar sua atenção para, numa enfurecida (e certamente indignada), horda, irromper pelas lojas da especialidade velocipédica acompanhados de suas Bicicletas que há muito apodreciam na sacada, procurando uma revisãozita que lhes permita voltar a montar, voltar a pedalar.

E o mui querido leitor?

Só tardiamente perceberá que deseja sair para um voltinha ou treino, necessita de uma cãmbra de ar suplente e… Estão esgotadas.

Portantos hoje, o Velopata partilha convosco uma lista de itens essenciais para adquirirem nas lojas da especialidade velocipédica mais próximas de vossa zona de residência, assim tentando salvaguardar vossa sobrevivência ao iminente colapso civilacional-velocipédico que será o Binapócalipse.

Mas cautela – não esqueçam que mens qarentena in covid sano ou lá o que é.

Podeis até referir que foi o Velopata que vos enviou.

Talvez assim, ele saque uns descontos quando tudo isto passar.

Lista de itens essenciais para sobreviver ao Binapócalipse

– Creme para besuntamento das partes baixas; o papel higiénico acabará e estais esquecendo que vivemos virais tempos onde tudo temos que lavar incessantemente; mãos, pés, partes baixas (no caso de solteiros e divorciados que as lavarão a maiores médias que um bicho humano comum, dado o constante visionamento solitário de filmes de acção), e… Uai? Não estávamos em Seca Extrema na era pré-Covid? No Binapócalipse os artigos de higiene pessoal têm seus stocks depletados e a conclusão é inevitável – teremos peles mais secas, peles dessecadas, peles encarquilhadas. Virilhas e trizes cuja epiderme parecerá o Grand Canyon. De pequenas fissuras epidérmicas a Feridas, Infecções, Castrações e Lobotomias, a distância é curta, muito curta. E o que vaiam todos os recém-chegados Ciclistas da geração Pós-Covid necessitar para manter das mais importantes partes velocipédicas untadas e lubrificadas? Ah, pois é. Creme para carneiras da Assos. Que se vende a 17 eirios o bóiãozinho. Açambarquem como quem açambarca mesmo e verão como as partes baixas de uns se revelam a riqueza de outros. Fazei a matemática. E não esquecei – este país necessita de empreendedores.

 – Equipamentos e licras; ao contrário dos tempos de outrora, quando era impingida ao Ciclista a idéia de envergar roupas fluorescentes para se destacar do ambiente, o paradigma completará uma volta de 360 graus pois a única maneira de pedalar pelo Binapócalipse será equipado com os mais variados tipos de camuflado de modo a pedalar despercebido por entre as tribos de bichos humanos que se pulularão pelas ruas; grupos de caçadores-recolectores de víveres que surgirão como uma maré negra proveniente dos confis dos refugos urbanos.

– Malas, malinhas, mochilas e mochilinhas de Bikepacking; no Binapócalipse, a distância standard para qualquer commute “normal” de Bicicleta passará a ser algo como Faro – Melgaço. Ida e volta. E isto apenas porque correm rumores e mitos urbanos da era pós-Covid que em Melgaço ainda existe um mini-mercado que vende papel higiénico. Um commute desta envergadura necessitará de muito material acessório como várias toneladas de papel higiénico. E porquê? Porque no Binapócalipse, tudo tem papel higiénico. Com os relatos de caçadores-recolectores de víveres entretanto já disseminados pelas zonas rurais, ainda tereis de começar a equacionar onde carregar os artigos standard de defesa pessoal do futuro; granadas, bazoocas, RPG´s. E se não tiveres malas, malinhas, mochilas e mochilinhas de Bikepacking onde é que irás transportar todos estes itens? Ah, pois é.

– Cãmbras de ar; este é basicamente um item auto-explanatório. Com os serviços governamentais em colapso, acarditais que alguém limpará ou mesmo reparará as estradas? E com os poucos enlatados continuando sua chacina intra e extraespecífica e sem ninguém para limpar chapas e vidros e detritos e lixo e… Merda. As estradas entupirão com merda em monte. E merda de todos os tipos. Por cima, por baixo, pelos lados. Merda. Com seus cónéctes, o Velopata inclusivé pode confidenciar com sua legião de milhares de milhões de leitores que a Garmin colabora com o Strava na elaboração de um novo sensor que revolucionará o modo como se pedala na era pós-Covid – um sensor que regista o número de furos por segmento, estando mesmo pronta a implementação um novo prémio, o KOF – King Of Flops, satisfazendo as necessidades do futuro mercado e os Ciclistas mais exigentes que anseiam pelo conhecimento do seu número de furos obtido em determinado segmento. Isto será a cena do futuro. Vaiam aver. E açambarcar cãmbras de ar para posteriormente as colocar à venda por preços irascíveis. Lá está, empreendorismo.

– Pneus suplentes; no seguimento da anterior, item também auto-explanatório. A inominável merda em monte na estrada levará a furos. E depois mais furos. O problema é que nossas Fininhas não furam – o pneu rasga ou rasga. Neste pneumático campo devem interpretar a ancestral Lei Velominati integralmente;

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Sendo o actual número de pares suplentes de pneus (portantos ambos os dois, dianteiro e traseiro), que armazenem em vossos lares. Devem preferir pneus de marcas cuja nomenclatura técnico-táctica do material e método de construção vos soe sempre a revestimento para tanques de guerra. Ballistek Nano Carbon e Hidrofoil Gore Tex. Vocês sabem.

– Pedaleiro Triplo; não importa o quanto gozais com Cicloturistas e seus pedaleiros triplos – quando o Binapócalipse chegar e, como já referido, te vires forçado a um commute entre Faro e Melgaço, ida e volta, com malas e malinhas e mochilas e mochilinhas do Bikepacking carregadas de papel higiénico para além dos já standard itens de defesa pessoal como AK-47 e granadas de fósforos ou lá o que é, perderás todo o orgulho de pró ressabiado que há em ti, lembrando e agradecendo a dica velopatóide.

– Correntes suplentes; comprai meia dúzia de correntes. Aliás, comprai uma dúzia. Todos sabemos a frequência com que correntes partem (“Nunca” será a correcta terminologia técnico-táctica), mas quando tal acontecer sob vosso FTPmax produzido na tentativa de fuga à perseguição por um qualquer indignado que também é predador sexual conduzindo encapuçado para vos pregar uma lição de moral com AQUELA razia apenas porque não usais capacete e…

Ou uma das muitas hordas fora-da-lei que agora pululam pelos arredores suburbanos, os Caçadores-Recolectores.

De víveres, de virgindades esfíncterianas.

Com as correntes a adquirir uma importância fulcral por entre os sobreviventes do holocausto velocipédico, é apenas uma questão de tempo até a Moda pegar na coisa, surgindo assim as primeiras tendências para este Verão do ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e vinte.

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Hordas de Caçadores-Recolectores cheios de estilo, deixarão urbes e campos intransitáveis.

PS velopatóide: porque qualquer cena com correntes fica logo em mais bad ass.

– Raios; quando um raio se partir, no espaço ninguém te ouvistará a gritar. Nem a atravessar a lezíria ribatejana. Ou o alentejo. Ao meio-dia. Em Agosto. Enquanto perseguido por um qualquer tio de um monte alentejano que até é predador sexual e agora Caçador-Recolector. Onde também ninguém te vai ouvistar a gritar é nas lojas da especialidade velocipédica, entretanto saqueadas e seus donos e mecânicos, no mínimo, crucificados. Por precaução comprai raios na seguinte proporção;

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Sendo o número de raios na roda dianteira somado ao número de raios da roda traseira. Matemática simples, não? Excusado será escrever que rodas de carbono daquele que é só carbono, 100% carbono, full carbono, totalmente em carbono, full aerocarbono, serão pouco recomendáveis dada a carga que levarás na Bicicleta.

– Barras aerodinâmicas; no Binapócalipse, as já referidas hordas de bandidos, hooligans e predadores sexuais deambulam pelas urbes e zonas rurais sobrevivendo através da actividade caçadora-recolectora – procuram e caçam indefesas e principalmente lentas presas (mais uma razão para manter as sessões de auto-mutilação nos rolos, mantendo a forma física no auge), para roubar, matar ou coisas muito piores como destruír virgindades esfíncterianas. Numa situação de perseguição activa e fuga, o Commuter do futuro sabe que cada Watt conta para manter a dignidade esfíncteriana e todos os #ganhosmarginais serão preciosos.

– Fitas de guiador; nem pensar em pedalar pelo Binapócalipse sem qualquer noção de estilo, escapando das violentas garras de bichos humanos que envergam indumentária acabadinha de desfilar na Moda Lisboa. Sim, querido leitor, está na hora de adquirir aquelas fitas de guiador com tachas e em padrão tígrésse com que sempre sonhou.

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A evolução natural do militante Chegófilo durante o Binapócalipse.

– Cabos e Bichas; se a aquisição de Cabos suplentes parece ao leitor auto-explanatória (em dúvida, tudo o que é de índole matemática deverá resultar no Binapócalipse se respeitarem a regra n+1), a compra de Bichas pode alevantar algumas dúvidas. Não é que o Velopata vos esteja a recomendar adquirir um Gustavo Santos para levarem em vossa Bicicleta, podendo até atirá-lo como engodo durante a perseguição pelos bandidos e predadores sexuais. Uma excelente idéia sim, mas não é bem isso até porque mesmo os predadores sexuais têm critérios e mínimos de aceitabilidade. Aqui, o Velopata refere-se mesmo às Bichas, aquele pedaço de pseudo-cabo em pseudo-plástico esquisito, que permite o eficaz deslizar dos cabos sem atrito enquanto protege o quadro de riscos e fricções. Não esquecei, lá porque se vive em tempos apocalípticos não é razão para desleixarmos a manutenção e bom estado geral de nossas Bicicletas.

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Mesmo durante o Binapócalipse, os Predadores Sexuais não deixarão de lado plumas e penas e peles e tachas e coiso, adereços essenciais aos mínimos standards de glamour.

– Curso de Mecânica de Bicicletas; se na sociedade de bichos humanos pré-Coronavírus a malta já afinfava forte e feio como quem afinfava mesmo forte e feio em Médicos e Enfermeiros, imagine-se o que não farão a Mecânicos e Donos das lojas da especialidade velocipédica quando estes informarem que não conseguem salvar aquela Bicicleta adquirida numa qualquer promoção de hipermercado depois deixada na sacada à mercê dos elementos aí durante meio século. Para estes Mecânicos, a crucificação será um mal menor quiçá até uma benção – o Alerta CM mostrará clientes indignados experimentando a roupa interior dos assassinados Mecânicos e cenas maradas assim. Com toda a escassez de mão de obra qualificada não é de todo má idéia aprender e mestrar tarefas importantes como um Bike Fit ou remendar um cubo Shimano.

– Drogas; adquirir EPO, bombinhas para a asma e todo e mais algum suplemento desde que contenha Creatina ou Criatina ou Creatonina ou lá o que é e Ginseng. Não interessa se é Prozis. Lembrai-vos que todas as ajudas serão poucas para escapar às garras dos bandidos e predadores sexuais que com suas e-Fat Bikes estilosas nunca descansarão de vos perseguir e… No Binapócalipse não existirão testes anti-doping.

 

Considerai-vos avisados; arranjai estes itens quanto antes e estarão mais que prontos para enfrentar o Binapócalipse.

Que Nosso Senhor Joaquim Agostinho esteja convosco.

Mens qarentena in covid sano.

 

Abraços (à segura distância higiénica) velocipédicos,

Velopata

Um comentário sobre “Binapócalipse

  1. Pingback: As tribos do Binapócalipse – Blog do Velopata

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