Euvelonásia

– Tu já me viste isto?

A voz da Srª Velopata exalava indignação por entre as voluptosas garfadas no gratinado de courgette e cogumelos preparado em antes pelo Velopata, como habitualmente sempre confeccionado com elevadas doses de muito amor e carinho mas agora ainda em mais porque está aí a Volta ao Algarve e todas as ajudas à mentalização da Srª Velopata para um fim de semana recheado de pedalada são poucas.

Velopata: Uai, o que foi agora? O que é que ele fez? Ou que é que ele não fez?

Srª Velopata: Não és tu, é esta história da Eutanásia… Como é possível existir gente contra?

Velopata: Uai? Há gente contra esse álbum dos Megadeth? Epá, é verdade que não é dos melhores deles mas…

Srª Velopata: Mas quais Megadeth?!?! Do que estás a falar?

Velopata: Então mas não estás a dizer que andam por aí falando mal do Youthanasia dos Megadeth? Ele confessa que nunca esperou que fosseis fã e…

Srª Velopata: Eu estou a falar de Eutanásia! De Morte assistida!

Velopata: Ah, pronto. Bem… Vê o lado positivo, pelo menos ele não fez nenhum trocadilho infame com Bicicletas.

Srª Velopata: Saíste-me foi cá um Megadef…

Velopata: Vá, diz lá o que tem a Eutanásia.

(Nota velopática: ele alembrou-se da Volta ao Algarve e decidiu joga… Pedalar pelo seguro.)

Srª Velopata: Acho inacreditável como alguns podem acreditar que mandam na liberdade e escolhas de outros que levam uma vida miserável.

Velopata: Uai, mas não é esse o princípio base das nossas sociedades todas democráticas e coiso?

Um desconcertante silêncio abateu-se sobre a mesa do jantar enquanto o casal Velopata trocou desafiadores olhares dado o jocoso tom velopático. O som de uma gaita de bei… Harmónica intensificou o gelo, desta vez tocada pelo próprio Velopatazinho, prenda natalícia de alguém que o Velopata não lembra mas que certamente aprecia o conceito de progenitores em sofrimento auditivo.

A restante conversa, o Velopata não irá transcrever pois não é do maior interesse da Srª Velopata ver aqui exposta a vida do casal, nunca esquecendo que este é fim de semana de Volta ao Algarve.

O que aqui interessa é que foi deste modo que o Velopata descobriu que o (des)Governo se prepara para rever os estatutos e leis e decretos-lei e projectos-lei e coiso da Eutanásia.

Que, caso o mui querido leitor seja daqueles ressabiados que nada mais lê ou vê que não FTPmaxs e cadências dos lactatos da VO2max, é o acto intencional de proporcionar a outro uma morte indolor, assim aliviando-o de sofrimento desnecessário.

Também o que aqui interessa reter; o que indignava a Srª Velopata é que os que estão contra a espécie de Eutanásia legalizada que o (des)Governo pondera implementar, são sempre bichos humanos saudáveis que de nenhuma maleita sofrem (isto é, para além de Labreguice Crónica) – o Velopata nunca ouvistou um pobre coitado tetraplégico diabético com ainda em mais maleitas daquelas com estranhos e impronunciáveis nomes que só lemos nos efeitos secundários das bulas dos medicamentos, e que ainda para mais descobre que é alérgico ao glúten, rejubilar em como a Vida é uma coisa linda e maravilhosa e é contra os que em semelhante situação, já estão fartos e querem é ser deixados em paz para poder ir fazer tijolo sossegados, certo?

Mas para melhor explicar a idéia que ambos os dois, Velopata e Srª Velopata defendem, nada como efectuarmos um daqueles mui celebrados exercícios mentais velopáticos.

Imaginemos que o Velopata, como habitual e regularmente, deixa o conforto do lar para uma pedalada, munido de sua Estrela Vermelha e equipado com suas melhores licras reflectoras.

Ainda no interior do perímetro urbano de Faro, portantos farense, ele prepara-se para passar uma rotunda ao meio dia de um solarengo domingo de Agosto, quando vem de lá um enlatado em excesso de velocidade e velocidade excessiva, cujo condutor tem uma taxa de alcoolémia superior a meio litro de sangue no álcool e que por s´acarditar que as Bicicletas não têm direito à estrada enquanto não dotadas de Matrícula, Seguro e Inspecções Periódicas Obrigatórias, têm mais é de comer pó.

Ou comer alcatrão.

E chapa.

Que é como termina este Encontro Imediato de Enlatado Grau para este vosso companheiro, palhaço e amigo do duro circo que é a vida do pedal, Velopata.

Com a Estrela Vermelha para lá de recuperação, o Velopata sai desta história atropelado e esvaíndo-se em sangue e tripas no duro alcatrão. Já o pobre condutor, mesmo tendo fugido do local do “acidente” e posteriormente afirmando às Autoridades que julgava ter atropelado um canídeozito, provavelmente safa-se com uma multazeca por excesso de velocidade porque isto já se sabe que afinal de contas, as estradas é que são perigosas.

Transportado para o Hospital mais próximo, o estado das Urgências públicas deste país é tal que o estropiado Velopata tem de aguardar sua vez na lista de espera, lentamente definhando numa maca (com alguma sorte, uma ou outra estarão disponíveis), perdida nos corredores, até ser finalmente ouvisto por um Veterinário aí uns dois meses depois.

O diagnóstico?

Tetraplégico.

Cego do olho direito e apenas com 2% de visão do olho esquerdo.

Perda total de audição na orelha esquerda, apenas 3% de audição na orelha direita.

Perda total da dentição.

Substituição do queixo por um de titânio (o Velopata ainda balbuciou, regateando se não podiam substituir por um de carbono).

Substituição do Pulmão esquerdo por um artificial (o Velopata voltou a regatear, balbuciando se não conseguiam arranjar um que debitasse maior VO2max).

Substituição de Fígado e Rins por artificiais, óbviamente proibindo o consumo de líquidos provenientes da fermentação de cevada, uva ou malte.

Complicadas cirurgias de enxertos serão necessárias para tentar repôr alguma pele na face, tentando que o Velopata volte a parecer um bicho humano comum e não deixe crianças e bebés que o ouvistem a chorar e com pesadelos para o resto de suas vidas, isto se alguma vez voltar a sair à rua.

Ossos das manápulas e chispes pulverizados, acarditando os Veterinários que mais vale poupar uns trocos ao Ministério da Saúde pois, uma vez que ele está tetraplégico mesmo, não compensa sua substituição.

Genitais estropiados, não se encontrando nenhum dador compatível de etnia africana.

Constantes perdas de memória; a um tal ponto que quando assiste à cerimónia de vitória do Velopatazinho (entretanto já um Velopatão), no Tour, Giro e Vuelta do mesmo ano, o Velopata exclama “muito giro, quem é?”.

Para piorar, os Veterinários ainda descobrem que o Velopata desenvolveu uma alergia ao glúten.

O único ponto positivo é que talvez, e com uma probabilidade muito remota, o Velopata deixasse de fumar.

O resultado?

Jamais um Velopata voltaria a pedalar; sua existência renegada para uma espécie de bolorento vegetal e confinado a uma cama onde diáriamente grita por socorro sempre que uma estranha (a Srª Velopata), lhe mexe nas partes baixas para mudar a algália.

Mas que esfarrapada amostra de vida seria esta?

O que o Velopata mais desejaria é que algúem lhe fizesse o favor de providenciar uma rápida passagem só de ida para o Além Velocipédico.

 

Se como o Velopata és Ciclista, então conheces bem demais os perigos que enfrentamos sempre que deixamos o conforto do lar para o simples acto de dar ao pedal.

E nem toda a sorte do mundo nos pode livrar de um fatídico acontecimento como o acima exposto.

E se esse dia chegar…

(pausa para aquelas três pancadinhas no carbono para afastar o azar)

O que mais quererás de outro bicho humano é compaixão e que te providencie uma sossegada transição para aquela Eterna Pedalada.

Vai na volta e era mesmo sobre isso que Dave Mustaine dos Megadeth cantava naquela sua voz de estridente sanfona rachada;

À tout le monde

À tout mes amis

Je vous aime

Je vois partir

These are the last words

I´ll ever speak

And they´ll set me free

E se um não pode optar por terminar com sua miserável vida…

Mas que Liberdade é esta que tanto apregoam?

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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