Edição Especial – Um Conto Natalício

Há muito, muito tempo atrás… Aliás, há tanto tempo atrás que já ninguém neste Terceiro Calhau a contar do Sol se alembra da data, numa longínqua cidade belga cujo nome é tão difícil de pronunciar que também já vivalma consegue alembrar-se onde foi, era uma vez um petiz de nome Eddy.

Eddy era orfão, sendo sua tutoria entregue a uma Tia-Avó que era aquilo que se pode chamar de… Uma grande Besta. Rígida e avarenta, a cada refeição que providenciava ao pobre petiz, consistindo numa singela taça de arroz, era ouvi-la queixar-se como a vida não estava fácil e impunham-se sacrifícios para sobreviver.

Mesmo estando Eddy inscrito na Escolinha de Ciclismo local e tendo inclusivé já vencido alguns Critérios e Granfondues regionais e até nacionais no seu escalão de idade, a marafada Tia-Avó continuava a não lhe querer adquirir uma Bicicleta melhor, uma daquelas novas já em carbono, daquele que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono.

E assim, lá continuava Eddy pedalando com sua Bicicleta de Aço Inoxidável, um cangalho que nem reciclado serviria para produzir caixilhos de janelas para o lar de uma qualquer família pobre.

Em toda a cidade, todos conheciam a madrasta Tia-Avó; sabia-se que recebia uma choruda reforma do falecimento do Avô, um subsídio da Segurança Social pela tutoria de Eddy, uma pensão por invalidez (obtida através de conluio com os responsáveis da Junta Médica local), para além de se contar que algures, o raio da velha tinha escondido um peúgo cheio de moedas de ouro suficientes para passar o resto da vida a viver em hotéis de cinco estrelas e a comer de manhã à noite as mais caras iguarias oriundas de todos os continentes confeccionadas por Chefs de cinco Estrelas Michelin.

Mas todos os dias lá estava na mesa em frente de Eddy a famigerada taçinha de arroz.

E branco.

Sem manteiga.

O único acompanhamento resumindo-se aos enervantes suspiros da Tia-Avó e a lenga-lenga que a vida não estava fácil.

Sovina e unha-de-fome como era com dinheiro, a Tia-Avó até tinha conseguido uma redução de preço e desconto na inscrição de Eddy na Escolinha de Ciclismo o que, impulsionado pelos seus excelentes resultados, levava ao ódio ressabiado dos restantes pais e coleguinhas de equipa para além do Treinador que não poucas vezes vexava Eddy em praça pública, nunca perdendo uma oportunidade de motivar os coleguinhas de equipa a uma boa sessão de bullying.

Eddy era tão miserável como as pedras do pavê que compunham as estradas da cidade, mas apesar de toda esta porrada e mau-viver, Eddy até gostava de sua Tia-Avó.

Excepto no Natal, época na qual via todos os outros petizes e famílias em celebração, imagens que o levavam a desaustinar como quem desaustina mesmo, desculpando-se à Tia-Avó com um treino e saíndo para pedalar, apenas para se deter num qualquer ermo onde chorava convulsivamente.

 

O dia era a véspera de Natal, 24 de Dezembro.

Como todos os anos, a cidade rejubilava com a prova velocipédica que percorria suas estradas – o famoso Granfondue de São Nicolau – trazendo consigo a fina-flor e elite velocipédica de todos os escalões nacionais belgas e inclusivé algumas equipas internacionais como a Brexit Cycling Academy (oriunda das ilhas bifes), ou a Le Pen Aryens Cycling (equipa avec).

Contrariado mas sabendo que Eddy poderia distribuir sérias carochas sobre a concorrência, assim fazendo publicidade e trazendo notoriedade a sua Escolinha, o Treinador optou por não deixar Eddy fora da lista de convocados mesmo sob pressão dos restantes pais que não queriam ver seus filhos encarochados por um pobretanas munido de uma miserável Bicicleta de Aço Inoxidável.

Com um inverno rigoroso e severo como só o belga sabe ser, mesmo nesses longínquos e esquecidos tempos, a rameira do São Pedro não colaborava e preparou para o cardápio da prova, uma explosiva e encarochante mistura de chuva e vento lateral em monte, para além de um frio de rachar.

Juntando-se na linha de partida, Eddy não conseguia senão bater o dente de tanto frio – é que todos os pais dos outros petizes tinham consultado os mais importantes sites de metereologia e prepararam seus filhos para a intempérie que se abateria sobre seus capacetes – desde capas impermeáveis para a chuva a luvas quentes, por todo o pelotão o que não faltava era indumentária Wind Tex Stooper Rain Force Gore Power Carbon Rain Full Carbon.

E Eddy ali, tremendo de frio, apenas munido de umas velhas folhas do jornal Dica da Semana por baixo do jersey já velho, roto e manchado de muitas outras súadas pedaladas, nem mesmo implorando sua Tia-Avó uns manguitos lhe havia comprado.

Claro que a crueldade dos outros petizes não tardou e em antes do tiro de partida, o que mais se ouvia eram jocosas e injuriosas ofensas dirigidas a Eddy que aparentava nada ouvir – sua única preocupação era soprar quente bafo sobre as mãos de modo a manter os dedinhos menos frios, tal não era o gélido ar que trespassava suas luvas sem dedos, também já coçadas e rotas de muito uso e abuso velocipédico.

Eddy sabia que sua Tia-Avó nunca veria a partida, quanto mais a chegada, como tal, não contava com qualquer apoio na multidão que se reunia na berma das estradas.

BANG!

Um tiro de pistola e o pelotão do Granfondue de São Nicolau lançava-se à estrada.

As tentativas de encarochanço não tardaram – nem o primeiro terço da corrida estava cumprido e já as equipas dos especialistas em bordures (para o mui querido leitor civil, “Bordure” é o correcto termo do léxico técnico-táctico-velocipédico para os temidos ventos laterais), tentavam descarregar os mais fracos, expondo-os aos maquiavélicos ventos laterais que fustigavam a prova.

Puxando de toda sua FTPmax da cadência do lactato, Eddy conseguiu manter-se no grupo da frente mesmo sem o auxílio de um único coleguinha de equipa que, por uma espécie de jurisprudência e castigo divino, todos ficaram para trás.

Os quilómetros eram devorados a alta velocidade, as equipas dos principais candidatos tudo tentavam para encarochar rivais e aqui e ali, lentamente um e outro Ciclista iam sendo descarregados consecutivamente.

Mas não Eddy.

Eddy mantinha-se firme.

Nem mesmo quando um rufia, moçinho conhecido do pelotão por já ter sido expulso de outras escolas por conduta imprópria, um tal de Bouhanni, lhe tentou desferir valentes punhadas, Eddy não vacilou.

Ou até quando um tal de Cavendish, moçinho também conhecido do pelotão por desferir cabeçadas em professores, o tentou cabeçear para fora da estrada, Eddy manteve sua roda firme.

Por ironia do destino, Bouhanni e Cavendish, ambos os dois pertencentes a equipas rivais, engalfinharam-se entre si e deixaram Eddy em relativa paz à medida que o grande final chegava – a chegada em alto a um dos sobejamente conhecidos Murs belgas, uma excruciante subida de dois intermináveis quilómetros em famigerado pavê.

Sobrevivendo até aos limites que sua VO2max permitiam, Eddy aproximou-se da frente do já esfrangalhado pelotão à beira do encarochamento final.

Sua Bicicleta de Aço Inoxidável chocalhava quem nem um velha chocolateira ante tanta produção de FTPmax.

Só mais um esforço, só mais uma carocha final e Eddy faria todos aqueles putos mimados e ingratos e mal-educados sentir quem era o máior.

E foi então que Eddy o viu.

Destacado da multidão que vibrava com a iminente entrada nos quilómetros decisivos do Mur, um pequeno petiz descalço e envergando apenas uma esfarrapada túnica branca encontrava-se encolhido debaixo de uma árvore. Parecia soluçar e chorar, indefeso enquanto exposto ao frio e a violência dos elementos.

Eddy não pensou duas vezes.

Deixando o que restava do pelotão gladiar entre si pela vitória, Eddy saíu de estrada, atravessando a multidão, para ir ao encontro do pobre petiz.

– Que se passa? Porque choras? – indagou Eddy.

– Perdi-me dos meus pais. Sei o caminho para casa mas tenho tanto frio e estou descalço. – explicou o petiz.

Eddy não necessitou ouvir mais.

Num ápice já Eddy oferecia sua Bicicleta de Aço Inoxidável ao pobre petiz para além de trocarem suas roupas – as licras esfarrapadas de Eddy podiam não oferecer grande protecção contra a intempérie mas sempre eram melhorzinhas que aquela malograda túnica.

– Obrigado! Não te vou esquecer! – retorquiu o pobre petiz enquanto se afastava, as lágrimas transformadas em sorrisos pelo nobre gesto de Eddy.

Com o pobre petiz já desaparecido no horizonte, Eddy desceu à realidade.

Como raios ia ele explicar à megera da Tia-Avó o sucedido?

E como reaveria sua querida Bicicleta de Aço Inoxidável se nem tinha questionado o pobre petiz de sua morada? Conseguiria Eddy encontrar o moçinho pelo seu perfil de Facebook? Instagram?

A caminho de casa, descalço e ferindo os pés nas duras pedras do pavê belga, Eddy não pode deixar de reparar em como o petiz que havia socorrido era estranhamente parecido com o menino Jesus Cristo cujas representações pululavam pela cidade decorada com espírito natalício, não obstante o facto do moçinho que Eddy auxiliou apresentar um tom de pele em mais escuro que caril e as representações mostrarem sempre um louro de olhos azuis.

 

– MAS TU ÉS ATRASADO MENTAL OU QUÊ?!?!?!

A Tia-Avó berrava com Eddy como ele nunca a tinha ouvisto.

– Estamos cheios de dinheiro para andares para aí a distribuir bicicletas e licras, não estamos? Pois agora podes ir tirando o cavalinho da chuva e dizer adeus aos teus amiguetes e à tua escolinha de ciclismo que não te vou comprar nem bicicletas nem licras! E sabes que mais? Já para a cama, hoje não jantas que é para aprenderes a dar valor às coisas que te compro com tanto sacrifício!

A Tia-Avó ainda alevantou sua encarquilhada mão para descer uma valente bofetada mas sabendo que arriscava perder o subsídio da Segurança Social por ser tutora de Eddy,  não fosse alguém filmar e partilhar o vídeo pelas redes sociais, deteve-se.

– Ouvistesss?!?!? Já para o quarto!

Comiserado como quem comisera mesmo, Eddy refugiou-se no seu quarto para chorar baba e ranho, sabendo que não apenas dormiria o soninho bom recuperador sem uma refeição digna de recuperação de todo o esforço velocipédico desse dia, como também provavelmente seria forçado a abandonar precocemente toda sua promissora carreira no mundo das duas rodas sem motor.

 

Com um enorme nevão durante a noite, chegou a manhã do dia 25 de Dezembro, celebrava-se o Natal.

Eddy, apesar de acordado, não se tinha alevantado da cama pois seu coração ainda pesava de toda a comoção da véspera e…

– MAS QUE PORCARIA VEM A SER ESTA?

Os gritos de sua Tia-Avó ecoavam pelas paredes do lar.

Eddy enxugou as lágrimas e correu na direcção da voz de sua Tia-Avó apenas para a encontrar de olhar estarrecido, fixo na antiga chaminé da lareira.

Por baixo da lareira encontrava-se a mais linda Bicicleta em carbono, daquele que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono, que Eddy tinha ouvisto. A seu lado, as mais requintadas licras da Assos, Castelli e Rapha, aptas para todas as épocas do ano, estações e condições metereológicas. A juntar a todo aquele milagre, dois capacetes; um standard full aero e um de Contra-Relógio, sapatos novos de encaixe, enfim… A perder de vista, todo o material que um Ciclista necessita para atingir a fama, fortuna e glória velocipédica.

Presa ao guiador de sua nova Bicicleta, uma pequena carta;

Porque a tua bondade merece um Natal inesquecível.

E mais umas letrinhas pequeninas que Eddy não perdeu tempo a ler – queria apreciar todas os detalhes do quadro full aero de sua nova Bicicleta, vestir e experimentar todas suas novas licras.

– Isto deve ser bicicleta para custar um dinheirão! – referiu a Tia-Avó enquanto se aproximou para investigar de perto a nova Bicicleta de Eddy.

E pegando na sua velha e torcida bengala, a Tia-Avó deu uma leve pancadinha no quadro apenas para sentir o estofo do material e…

CRAC!

Assim como se havia materializado, a nova Bicicleta de Eddy abria uma enorme racha no quadro que alastrando, inutilizava e destruía por completo a Bicicleta.

De lágrimas nos olhos, Eddy via enquanto o sonho e milagre que tinha ouvisto se desfazia na sua frente até se transformar em míseros graõs de pó. Só então, pegou novamente na carta e leu as letrinhas pequeninas,

Desculpa lá mas o Espírito Santo lesou o nosso dinheiro todo e só consegui comprar-te uma réplica. Cuidado que a roupa e os capacetes também não são originais.

 

FIM

 

Abraços velocipédicos natalícios,

Velopata

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