Dia de pausa

Pausa.

Substantivo feminino.

Suspensão de acção ou movimento. Interrupção momentânea. Intervalo.

in Diccionário Priberam da Língua Portuguesa, versão apta para glutenofílicos

 

Todos precisamos de uma pausa.

Pelo menos é o que diz a ancestral sabedoria popular.

Particularmente, todos precisamos de uma pausa da pedalada porque estamos cansados. E todos sabemos que pedalar cansado pode originar maleitas relaccionadas com sobretreino que, por sua vez, pode resultar na morte do artista e quiçá até coisas bem piores como posteriormente a respectiva vender as Bicicletas do finado pelo preço que ele disse terem custado.

Mas… E se não precisarmos de uma pausa?

E se efectivamente, necessitarmos pedalar mais?

Mais rápido?

Mais forte?

Mais produção de FTPmax na cadência do lactato?

Há muito tempo atrás, esquecidas eras onde as rodas das Bicicletas nem quadradas eram, os bichos humanos davam-lhe forte e feio, sem meias medidas ou rédeas. Era o tudo ou nada, ou vai ou racha. Diáriamente lutavam. O descanso chegava pela noite sob forma do soninho bom recuperador – não existiam cá dias de pausa ou descanso. Eram dias onde se lutava para sobreviver, uma guerra que diáriamente se iniciava bem em antes da madrugada.

Nas deambulações velopáticas, ele (o Velopata), aprecia sentar-se à parte, observando a bicharada humana enquanto matuta como quem matuta mesmo sobre quantos seriam capazes de sobreviver a um só dia de sério esforço na luta pela sobrevivência. No mundo da Velocipedia, particularmente no rarefeito mundo strávico; quantos destes heróis seriam capazes de suportar e sobreviver a uma só rigorosa semana de intensa pedalada, alcatroada, nos trilhos ou no “conforto” dos rolos de treino, commutes e mais commutes, sessões de core e crossfit com uma cria de dois anos sempre ávida de semear o caos, uma respectiva que em nada apoia ou motiva devaneios velocipédicos.

O Velopata dá por ele obtendo sempre a mesma resposta: basicamente… Todos.

Todo o bicho humano é capaz dos mais extraordinários esforços – é de uma tremenda falsidade afirmar que só quando as fichas do jogo estão todas em baixo se descobre de que cepa é um Homo sapiens sapiens feito. Todos conseguem sobreviver e a maioria até prosperar quando as condições são árduas e brutais; quando se luta por paparoca, companheirismo, abrigo. A competição é apenas a última bolacha do pacote.

Isto pode ser ouvistado por todo o lado; ruas, escritórios, lares.

Os Sem-Abrigo mais não são que bichos humanos normais que, por infame obra do destino ou opção, encontram-se numa quotidiana guerra pela sobrevivência. São tão ou mais rígidos que carbono de alto módulo, daquele que é mesmo só carbono de alto módulo, 100% carbono de alto módulo, totalmente full aero carbono de alto módulo, capazes de discernir mente e pensamentos, inovar e inventar soluções a partir de objectos e ideias triviais, inequívocos juízes de outros bichos humanos e do ambiente circundante. São isto e muito mais, não porque sejam de algum modo especiais, mas porque são… Bichos humanos.

Mentes distorcidas por álcool, drogas e outras tóxicóindependências quiçá até maleitas do foro psicológico, talvez, no entanto, são rígidos para além de qualquer quadro fabricado pelos melhores artesãos, tão rígidos a um ponto que se tornam… Comuns, normais.

Os moles dentro de seus enlatados com aquela falsa protecção que só a lata de uma tonelada consegue proporcionar não são excepção. Deixai-os passar fomeca, sentir a verdadeira larica das laricas durante uma semana, privai-os do conforto de um lar, colocai-os a viver com um meia dúzia de eirios e um cobertor por baixo de uma qualquer ponte, viaduto ou escadaria e vaiam ver se não adquirem a rigidez de um diamante bruto. O mui querido leitor incluído.

Não se descobre de que cepa é feito um bicho humano quando este está na mó de baixo, fossa mais profunda que das Marianas. Quando nestas obscuras regiões, o bicho humano é bruto, cruel, rijo e resiliente, caso contrário, a alternativa é só uma. Morte.

Descobre-se de que cepa é um bicho humano feito quando este se encontra na mó de cima; quando têm o tempo, os eirios, a confiança e a envolvência da comunidade para fazer o que bem lhes aprouver. É neste ponto que o carácter brilha e os bichos humanos se diferenciam e distinguem.

É nesse ponto que o privilégio, preguiça, auto-satisfação, cobiça e ganância tomam conta, podendo assim vislumbrar-se sua verdadeira natureza.

Haveis pedalado muito ontem?

Muitas contas para pagar?

Compra a Bicicleta.

Deixa o conforto do lar e sai pedalando sem objectivo definido mesmo que por estradas ou trilhos tantas outras vezes pedalados. Há sempre algo novo para ver.

Continua sem olhar para trás.

Brevemente e sem que te apercebas, estareis fazendo uma longa e indeterminada pausa.

 

PS velopático: este texto é dedicado a… Ele sabe quem é.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

2 comentários sobre “Dia de pausa

  1. Amilcar Santos

    Caríssimo Velopata

    Revejo-me tAnto nAs suAs mui sábias palavras…

    Sejam de um dia, uma semana ou um mês…quando a vida nos disser que é tempo de dar a volta, que é tempo de fazermos uma pausa, nada mais podemos fazer senão dar-lhe ouvidos…

    Saudações
    A.Santos

    Curtido por 1 pessoa

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