Buzinadelas da vida

O dia começou como outros tantos no quotidiano velopático.

O Velopata deixou o conforto do lar para se deslocar até lá onde ele afincadamente labuta como quem afincadamente labuta mesmo, ao comando da sua Cappuccino que importa reiterar como quem reitera mesmo, é uma Bicicleta dobrável de roda 20″.

Aproximando-se da primeira intersecção alcatroada que encontra no percurso, o Velopata foi forçado a deter-se na traseira de um enlatado que também aguardava pela oportunidade de se lançar a uma das mais movimentadas estradas da urbe farense – a Avenida Calouste Gulbenkian.

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Imagem da marafada intersecção, gentilmente cedida pelo Google Maps.

Olhando para a esquerda, o Velopata apercebeu-se que seguir-se-ia um daqueles intermináveis momentos onde aparenta esperar-se uma meia hora, que na realidade mais não são que aí uns cinco minutos, por uma brecha que lhe permitisse esgueirar-se por entre o tráfego enlatado.

Qual Vin Veloz & Furioso Diesel, o enlatado na frente velopática, acometido daquele modus operandi “a minha pressa é maior que a tua”, protagozinou um daqueles arranques onde os pneus chiam no alcatrão e simpáticas quantias de fumo são libertadas do tubo de escape, deixando na atmosfera aquele saboroso snif-snif a conspurcante combustão.

Pode também dar-se o caso de não ser apenas pressa e efectivamente o moçe não dominar básicas técnicas de condução, como o Ponto de Embraiagem, mas adiante.

O acelerado enlatado lá seguiu com sua entrada na Avenida, impondo-se sobre alguns dos outros enlatados que até detinham a prioridade, não conseguindo evitar lançar umas buzinadelazecas perante tanta pressa.

Assim, chegou a vez velopática de aceder à referida Avenida mas não sem antes sentir o blasfemo roncar de um outro enlatado atrás de si.

E os enlatados que continuavam surgindo na direcção velopática, galopando a Avenida a alta velocidade…

É importante o Velopata abrir aqui um parêntesis para uma ressalva técnico-táctica.

A Cappuccino, para além de linda (não são todas?), e utilitária Bicicleta, encontra-se dotada de uns pedais em alumínio que não os originais aquando de sua compra, substituíndo uns de manhoso plástico que se revelavam uma complicação de pedalar naqueles dias em que essa rameira do São Pedro não colabora (aproximadamente trezentos e sessenta e cinco dias por ano), enviando pluviosidade em monte.

Acontece que, quando o Velopata dá aquele primeiro impulso para arrancar e dependendo do tipo de sapato civil escolhido para o dia, por vezes é complicado virar o pedal esquerdo de modo a encaixar corretamente o sapato civil nas ranhuras deste, permitindo manter o pé fixo e assim produzir todo o FTPmax do lactato aeróbio necessário a uma eficaz pedalada.

Regressemos à situação; apesar dos enlatados na Avenida ainda se encontrarem a uma razoável distância, o Velopata, sendo um moçe a quem estar vivinho e de boa saúde até é coisa que assiste, optou por não correr desnecessários riscos ao lançar-se à Avenida para depois não conseguir engatar corretamente o pedal, arriscando o atropelamento. Como corolário a toda a situação, ele até sabia que os sumáfros lá no horizonte brevemente passariam a encarnado, ou vermelho e aquele pulular de enlatados cessaria de modo a permitir a sua salutar entrada na Avenida e…

FFFFFOOOOOOOOOOONNNNNNNCCCCCCCCC!

Uma buzinadela que certamente até os Astronautas da Estação Espacial Internacional ouvistaram.

Uma buzinadela que havia disparado os detectores do Instituto Português de Sismologia, registando um abalo na região de Faro, portantos, farense.

Se nas redondezas e imediações alguém dormia o soninho recuperador bom, agora estaria certamente acordado.

O Velopata olhou para trás, tentando identificar o autor da buzinadela que ecoaria durante gerações – uma Besta Munida de um Wagon (vulgarmente reconhecido pelos demais utilizadores da via pública como BMW), aguardava sua vez para aceder à Avenida, esbracejando e vociferando na direcção velopática como quem esbraceja e vocifera mesmo.

Interpretando seus movimentos bocais, o Velopata entendeu que palavras como “Alho” estavam sendo berradas no interior da lata.

Quereria o moçe a famosa receita velopática de Alho à Brás?

Ou Alho à Bráz, dependendo da variante do Acordo Ortográfico isento de glúten que o mui querido leitor opte por utilizar.

E foi então que uma daquelas famosas epifanias, que tantas vezes acometem a maionese cerebral velopática, sucederam.

O moçe não buzinava ao Velopata.

O moçe buzinava sim, à sua vida.

Cheio de vida e objectivos aquando das vinte primaveras de idade (o energúmeno aparentava aí um meio século de idade), agora tão longe e afastado e coiso que dir-se-ia ser a vida de outra pessoa.

Buzinar à vida.

O Velopata mais não era que um bode expiatório de ocasião.

O moçe buzinava sim, à sua respectiva, à sua Mulher; outrora uma fêmea que todos os amigos diziam ser natural de Ermesinde mas que com o passar dos anos e o instalar da monotonia e saturação monogâmica se transformou num camafeu tendo substituído todas aquelas multicoloridas cuequinhas fio dental que ele tanto gostava por cuecões da Avó, ainda para mais, todas naquela desenxabida côr que simula pele. Com a prática do amor bom remetida ao esquecimento, ele buzinava à estranha volta que a relação havia dado – aquando do casamento, ele acarditava ser esta a Mulher de sua vida, agora até o som que ela faz enquanto sorve esparguete o irrita profundamente.

O moçe buzinava sim, à sua Filha; outrora a menina de seus olhos mas que a entrada na adolescência os afastou a um ponto onde passa todos os jantares agarrada ao telefone esperto, contabilizando todos os likes nos milhares de milhões de selfies que partilha onde evidencia sua prateleira e bum-bum, para depois se fechar no quarto sem trocarem uma única palavra. Buzinava à educação falhada; era idéia que sua menina se transformasse numa bela Doutora mas a maior ambição desta é participar na próxima edição da Casa dos Estercos ou lá o que é, mesmo apesar de já ter tentado a inscrição por três vezes e a própria produção do programa a ter rejeitado por acreditar que existem limites à devassa emitida.

O moçe buzinava ao Namorado de sua Filha; um típico exemplar de adolescente mitra cujo ídolo é o Cinquenta Cêntimos (50Cent, em cámone), tem vários lindos cortes nos pêlos de uma das sobrancelhas e anda sempre munido de uma bolsa da Lacoste presa ao pescoço, qual São Bernardo nativo de Chelas, com a óbvia diferença do que lá é transportado – o canídeo transporta água, já o mitra transporta várias porções de haxixe. Ele buzinava sim, ao vídeo caseiro realizado pelo mitra e partilhado por toda a internet, onde sua Filha protagonizava várias cenas de amor bom.

O moçe buzinava sim a seu Filho; outrora o varão e herdeiro da família mas que a entrada na adolescência serviu apenas para trazer à superfície todos os seus problemas de identidade de género – o filho afinal quer ser filha, mudar o nome para Kátia Vánessa, sendo seu objectivo de vida transformar-se no primeiro transexual a participar na Casa dos Degredos ou lá o que é. Para complicar ainda mais, pouco depois da chegada da puberdade, não só começou a toma de hormoinas como também descobriu ser alérgico ao glúten.

O moçe buzinava sim, ao Namorado de seu Filho; um negão brasileiro chamado Vanderlei (conhecido por entre seus párias como Pé de Mesa), cujo sonho de vida é ser dançarino exótico numa qualquer danceteria cujo nome consiste em derivações de trocadilhos básicos e badalhocos com palavras como “verga” e “chouriço”.

O moçe buzinava sim, a sua Filha, Namorado de sua Filha, Filho ou Filha e coiso, Namorado de seu Filho ou Filha e coiso; pelas suas opções de carreira – tanto havia sacrificado no crescimento e educação destes e agora, os trabalhos de sonho e objectivos de vida escolhidos por estes mais não são que contribuir para o enaltecimento da humanidade através de presenças em danceterias.

O moçe buzinava ao Cão da família; outrora um belo exemplar de Golden Retriever que nunca aprendeu que a mobília não é para roer, sofá e cama não são locais indicados para mictar.

O moçe buzinava sim, a sua Sogra, a fêmea que constantemente o critica e culpa pela falhada educação de sua progenia, o desleixo de sua Mulher e a carreira falhada, fechado num escritório empestado com o cheiro de bichos humanos e tinta de impressora, resignado a transformar números que chegam em emails em números de um qualquer software de computador.

O moçe buzinava sim, a seu Sogro, um rijo veterano ultramarino que também o critica e culpa pela falhada educação de sua progenia, o desleixo de sua Mulher (na sua opinião, a Mulher, portantos sua Filha, merecia muito mais que ele), a carreira falhada e o facto de nunca o ter acompanhado a visionar jogos do SLB no tasco – quem nunca levou sua progenia a visitar o Estádio do Glorioso não pode ser pessoa de boa índole, certo? Culpa-o ainda pelo escalafrar de sua carreira profissional porque é uma pessoa mole.

O moçe buzinava sim, a seu Colega de Trabalho; um moçe cujo perfume de eleição é o Sovacum e que constantemente repete as mesmas piadas secas e passa os dias a contando pormenores da sua espectacular colecção de Filatelia.

O moçe buzinava sim, a seu outro Colega de Trabalho; um moçe cujos desejos para a prática do amor bom são constantemente despoletados em qualquer fêmea que cruze o olhar com ele e todas as segundas-feiras tem sempre histórias para contar das suas escapadelas de fim de semana – ao contrário dele, que mais não fez senão enfiar-se nas entediantes filas de um qualquer Centro Comercial para comer produtos que lembram comida enquanto estoura balúrdios do orçamento familiar em saias que parecem cintos para ambas as duas Filhas, já o Colega, se não foi passear para um cruzeiro de dois dias pelo Mediterrâneo é porque esteve em África construíndo uma Escola para jovens orfãos pro bono.

O moçe buzinava sim, à Estagiária; uma novinha moçinha de Ermesinde com quem tentou, por uma única e singela vez, umas quantas piadolas badalhocas minadas de segundas intenções apenas para terminar com uma queixa de assédio na A.C.T.. O moçe buzinava sim, à impressora onde encontrou umas estranhas manchas, depois do Colega Engatatão (acima referido), ter ficado a “trabalhar” até mais tarde com a Estagiária.

O moçe buzinava sim, a seu Chefe; um irascível energúmeno convencido que as técnicas de motivação utilizadas pelos Centuriões das Legiões Romanas é que geravam bons exércitos e soldados – porrada e mau-viver; assim impedindo-o de progredir na carreira porque o considera mole, sem qualquer iniciativa ou proactividade.

 

Compadecendo-se com aquela Besta Munida de um Wagon, o Velopata não conseguiu evitar ser invadido por um je ne sais quois de pena.

Claro que até podia não ser nada do que o cérebro velopático dissertou – o moçe podia apenas e só ser uma besta ao volante mas permitam ao Velopata acreditar que não.

sumáfro mudou para vermelho, ou encarnado, a horda de enlatados cessou e o Velopata pode lançar-se à Avenida em segurança.

Ou relativa segurança pois a Besta Munida de um Wagon, que provavelmente também não dominava a correta técnica de Ponto de Embraiagem, efectuou um daqueles sonoros e chiantes arranques, aproveitando para passar uma razia ao Velopata para lembrar quem é que manda no alcatrão.

Talvez a única coisa na sua miserável existência em que mande.

Mas… Vai na volta… Aquele moçe era apenas e só uma besta iletrada desconhecedora das diferenças físicas do impulso gerado por uma enlatado motorizado e uma Bicicleta.

Porque costumávamos acreditar que a estupidez humana simplesmente advinha da falta de acesso à informação – a internet e as redes sociais vieram provar o contrário.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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