Porque odeia o enlatado – parte I

Recentemente, culminou uma mini-série de seis documentários no Cánau Dizcóveri (que lido em português correcto, ao contrário do estranho sotaque televisivo, será algo como Canal Discovery), que muito aprouve ao casal Velopata (à hora de emissão, o Velopatazinho já simulava rolos de treino no Vale dos Lençóis, ainda assim é firme convicção velopática que chegando a assertiva idade, também as crias devem visionar estes brilhantes documentários), deixando-o (a ele, o Velopata), a matutar como quem matuta mesmo.

Why We Hate.

Que grosseiramente traduzido do diccionário anglosaxocamónico será algo como “Porque Odiamos”.

Produzido por Steven Spielberg, esta é uma inspiradora viagem até às raízes da condição da bicharada humana, mergulhando em guerras ancestrais e conflitos dos tempos modernos de modo a entender o que leva ao ódio de um determinado grupo de bichos humanos por outro, assim permitindo analisar quiçá descobrir os mistérios deste primordial sentimento nos outros mas também em nós próprios e vice-versa e coiso.

É fime convicção, transversal a todos os intervenientes ao longo dos vários episódios, que talvez entendendo porque nos comportamos de determinado modo se torne possível alterar como agimos, característica que nos torna únicos por entre o reino da bicharada habitante neste Terceiro Calhau a contar do Sol – afinal, como é possível o bicho humano encontrar-se dotado de uma aptidão para empatia, compaixão e grandes feitos humanitários mas também a capacidade para as maiores atrocidades?

Findo aquele último episódio, onde algumas sementes de esperança são lançadas, óbviamente o Velopata não conseguiu resistir ao chamamento de sua maionese cerebral, opinando como quem opina mesmo sobre a manifestação de ódio com a qual mais contacto quotidiano tem.

O Ódio proveniente de enlatados.

A mais vil manifestação do Homo sapiens sapiens enlatadum.

Escrutinando como quem escrutina mesmo e estabelecendo uma espécie de paralelo com esta mini-série televisiva que o Velopata terminantemente recomenda o visionamento, hoje ele chega até vós, mui queridos milhares de milhões de seguidores, na tentativa de desconstruir o Ódio enlatado à semelhança dos vários episódios – esmiuçando como quem esmiuça mesmo suas origens, tribalismos, ferramentas e tácticas, extremismos e radicalismos, sem nunca esquecer todos os crimes já praticados contra a Humanidade Velocipédica, sempre com o fundamental intuito de, num avultado esforço de massa cinzenta, tentar compreender se alguma esperança pode existir para a salutar convivência entre demais utilizadores da via pública e o ignóbil enlatado.

Origens

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Pinturas rupestres encontradas em Tassili n´Ajjer, um planalto do Sahara localizado na Argélia e datadas do ano 1200 A.J.A. (Antes de Joaquim Agostinho), com recurso a Carbono-14 (uma variedade de Carbono de Alto Módulo), onde se confirma que o ódio pelos Ciclistas já se encontrava presente nos dinossauros.

À semelhança de Spielberg & Cia., também o Velopata optou por uma aproximação técnico-científica ao estudo desta questão, até porque o mui querido leitor já saberá que ele (o Velopata), não é moçe de andar para aqui a brincar com assuntos sérios.

Realizando inúmeras entrevistas, acesas discussões com colegas de métier, amigos e familiares, coscuvilhando conversas de café de terceiros e lendo muitos comentários nas caixas de internet para depois (chorando muito), recorrer a complicados algoritmos físico-químico-matemático-quânticos em conluio com alguns dos mais prestigiados investigadores académicos, o Velopata tentou compreender as ancestrais origens deste problema que só não consta na lista dos em mais graves de Saúde Pública porque… Coiso.

De todo é tarefa fácil localizar as origens do ódio enlatado nos anais da História, no entanto, inúmeros investigadores apontam para uma pérfida e alucinada tendência no seio de seu discurso – o Homo sapiens sapiens enlatadum encontra-se plenamente convencido que a estrada foi inventada apenas e só para si, naquela que só pode ser interpretada como uma distorcida ideia de Direito Divino.

Dir-se-ia mesmo que para o enlatado, a resposta a essa metafísica questão que tanto tem apoquentado filósofos e pensadores; “Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?”; é de uma simplicidade extrema – o enlatado acardita-se que o bicho humano é a última bolacha no pacote que é o Universo e de onde vieram? Não importa. Importa sim que chegaram de enlatado. Para onde vão? Não interessa, contando que possam fazer a viagem de enlatado e não tenham de pagar portagem ou estancionamento.

Infelizmente para o Homo sapiens sapiens enlatadum, toda esta concepção enlatada do Universo é desconstruída após uma cuidada análise do registo fóssil.

É unânime opinião entre a comunidade científica que as estradas ou vias, como eram apelidadas à época, são uma invenção Império Romano, encontrando-se aí definida como “a conexão de dois pontos atravessando uma extensão territorial na qual pessoas, animais e veículos se movimentam”.

Ora, se na sua grande maioria, as vias foram construídas a partir do ano 300 A.J.A. como pode o enlatado afirmar que as estradas foram inventadas para seu belo usufruto quando… O registo fóssil indica que os primeiros espécimens de enlatado só surgiram por este Terceiro Calhau a contar do Sol circa 1770 A.J.A.?

Estará o enlatado também equivocado quanto à aritmética básica?

Bem, é verdade que todos sabemos o enlatado nada vê de errado em deslocar uma tonelada de lata a cinquenta ou mais quilómetros por hora entre creches, escolas e outras zonas populadas por restantes utilizadores da via pública desprotegidos, mas isto também já parece abusar e levar ao limite os básicos conceitos matemáticos…

Acarditar-se-á o enlatado que as vias romanas, construídas sobre trilhos deixados pelos antepassados da bicharada humana, mais não foram que uma continuidade da brilhante visão futurista do Homo neanderthalensis, conhecedor do que aguardava seus futuros primos genéticos?

Cugnot's Dray
Escavações efectuadas em antigas sepulturas do que aparentam ser vítimas de atropelamento e fuga na França permitiram descobrir papiros onde se mostram imagens dos perigosos primeiros enlatados que deambularam pelo planeta. Datações por Carbono-14 permitiram apurar que estes papiros datam do ano 1770 A.J.A., assim deitando por terra a teoria enlatada em como estes acompanham a humanidade desde sua génese.

Mas se as irrefutáveis evidências científicas tudo teriam para demover esta concepção enlatada do Universo, o mui querido leitor esquece os anos de indoctrinação à qual a bicharada humana foi submetida – distribuídas por todas as épocas da História, encontram-se vilipendiantes referências aos adeptos das duas rodas sem motor e conceitos que defendem toda esta ideia que o Universo terá sido idealizado à imagem do enlatado.

Aliás, é sobejamente conhecido que a religião apostólica, católica greco-romana ou lá o que é, só não fez do seu símbolo um enlatado pregado numa cruz pois os especialistas em Publicidade & Marketing da época rejeitaram a ideia – crucificar um enlatado pareceria só uma actividade estúpida, para além de socialmente ser um logótipo menos impactante.

É consensual entre a comunidade científica que as mais antigas evidências se encontram por entre os hieróglifos cravados nas paredes dos templos e santuários de Carnaque, actual Egipto, depictando não apenas cenas da luta quotidiana contra a Bicicleta e seus utilizadores por parte do deus Enlatado-Rá que já tentava estabelecer uma série de regras e padrões de comportamento limitando seu uso – desde a proibição da entrada de Ciclistas nas Pirâmides à não construção de bicicletários para estes as poderem estancionar nos acessos às mesmas; os faraós egípcios mostravam já começar a preterir a gloriosa Bicicleta.

Ainda noutras paredes de Carnaque, alguns antropólogos chegam a afirmar que hiéroglifos existem onde se encontram depictadas evidências que suportam uma vil teoria – a vanguarda dos Colaboradores egípcios (à época apelidados de Escravos), que construíram pirâmides, esfinges, santuários e templos era essencialmente composta por Ciclistas que naquela longínqua época, já se destacavam como bichos humanos em mais rijos que os restantes, capazes de aguentar tudo e revelando-se como mão de obra económicamente viável pois conseguiam trabalhar durante inúmeras horas nutrindo-se de apenas uma barrinha de energia.

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Hieróglifos datados do século 360 A.J.A. mostram que os egípcios já olhavam com desdém para aqueles que recorriam às Fat bikes para calcorrear as areias do deserto, ideia comprovada pela saudação nazi que o moçe do hieróglifo esquerdo pratica à passagem do enlatado. Ou estaria apenas fazendo um manguito ao Ciclista? A discussão persiste entre a comunidade científica.

A par dos egípcios, também esta era a tendência do outro lado do Oceano Atlântico – estudos recentes sobre arte maia, inca e azteca deixada nas paredes e murais dos seus templos e santuários dedicados ao deus Quetzenlatadocoatl aparentam mostrar a predilecção que a família real tinha por essa salutar prática (infelizmente e à semelhança da tourada, em desuso), que eram os Sacrifícios Humanos de Ciclistas pois, nunca esquecendo que findo o atroz falecimento do indivíduo, a família real ainda se dedicava a outra salutar actividade humana que era o Canibalismo, sendo crença da época que carne melhor que a de Ciclista não existia, saborosamente divinal assim toda depiladinha e musculada.

Encontram-se mesmo relatos dos simpáticos Conquistadores Espanhóis, da existência de uma cerimónia de apaziguamento de Quetzenlatadocoatl onde mais de dez mil Ciclistas foram sacrificados.

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A pedalada não era fácil para os Ciclistas maias, incas e aztecas; não só tinham de sobreviver a perseguições de jaguares e afins nos trilhos como ainda tinham de tentar escapar à decapitação e posterior panela.

Portantos, não admira que por entre a plebe maia, inca e azteca, a Bicicleta fosse condenada ao olvidamento.

Teriam de se esperar mais uns séculozitos para se voltarem a registar tentativas de incepção da doutrina enlatada na psique colectiva dos bichos humanos. Infelizmente, estas surgiriam justamente por parte daqueles de quem não se esperava, pois como já referido, foram eles os principais responsáveis pela génese das estradas – os romanos.

Commudos, Imperador Romano circa 166 e 190 A.J.A., já rabiscava resmas e resmas de papiros com inúmeras referências ao mau-estar por entre os Quadrigueiros (condutores de quadrigas), provocado por esses foras-da-lei que eram os Ciclistas das Bicicletas com rodas quadradas – como estes atropelavam romanos e destruíam as maravilhosas estradas de pavê, ainda para mais, não contribuindo com um único sestércio através do Imposto de Circulação ou mesmo Seguro Obrigatório.

Apesar de à hora a que esta publicação chega ao mui querido leitor este ser um facto científico ainda não confirmado pelo Velopata, estima-se que Commudos terá inclusivé pago avultadas fasquias e oferecido um igualmente avultado número de escravas fêmeas a Ben-Hur, uma espécie de CR7 das corridas de quadrigas da época, para que este elaborasse uma sórdida campanha contra o uso da Bicicleta.

Ben-Hur terá assim implementado as quadrigas velocipédicas nas suas corridas do Circo Romano, assim transmitindo ao simpático plebeu romano (que adorava um bom festival de banhos de sangue nos Coliseus e coiso), a ideia que a Bicicleta mais não era que um veículo de escravos, gente de baixo nível ou sem qualquer hipótese de futuro histórico.

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De acordo com esta fotografia datada do Séc. I A.J.A., muitos foram os Ciclistas que perderam a vida nas arenas do Império Romano.

Por este Terceiro Calhau a contar do Sol encontram-se ainda muitos outros registos de actividades do vil jugo opressor tirânico do enlatado tentando conspurcar a mente do bicho humano comum, embutindo-lhe esta ideia do Direito Divino.

Em terras asiáticas, por exemplo, académicos como Enlatadofúcio (filósofo menos conhecido mas contemporâneo de Confúcio), um chinoca a quem muito tem a agradecer a mente colectiva do enlatado, escreveu inúmeras frases inspiradoras que ainda hoje ecoam pelo reino facebookiano do enlatado;

“Não importa o quão depressa vás,

o importante é não parar,

mesmo que atropeles, mates e estropies,

o enlatado é vida simples, para quê complicar com pedais.”

E muitos mais exemplos encontram-se pela arte, literatura e coiso, no entanto, um último é digno de nota velopática – toda esta delirante paranóia enlatada conhece seu apogeu aquando da publicação desse aclamado e com maior tiragem de sempre romance de Ficção Científica, a Bíblia, particularmente quando se atenta como quem atenta mesmo aos textos de um tal de Profeta Ezequiel.

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Fotografia do profeta Ezequiel, datada do século VI A.J.A..

Plenamente convencido da veracidade de sua Fé Enlatada, diz-que-disse que Ezequiel escreveu o seguinte;

“Arrependei-vos,

abandonai todos os vossos ídolos,

convertei-vos do vosso mau caminho e renunciai a toda e qualquer prática abominável!”

só que para a doutrina enlatada, esta afirmação não passou de um lapso de tradução. A correta frase, traduzida do aramaico ou hebraico ou lá o que era, dever-se-ia ler;

“Arrependei-vos,

abandonais todas as vossas Bicicletas,

convertei-vos do vosso vil caminho pedalante

e renunciai a toda e qualquer prática saudável de duas rodas sem motor!”

Assim, dotado deste esquizofrénico sentido de Direito Divino, que seu conspurcante motor de combustão deve ser privilegiado sobre todos os outros meios de transporte, o Homo sapiens sapiens enlatadum lança-se diáriamente no que sente ser uma verdadeira guerra urbana; seu espaço constantemente arrebatado pelos Peões que impunemente atravessam o alcatrão, Ciclistas que o forçam a deslocar-se a escandalosamente lentas velocidades por entre as avenidas das urbes e, para piorar toda uma já complicada situação, agora até os passeios, outrora locais de estancionamento de eleição, foram usurpados e ocupados pelas Trotinetes.

Com toda esta ameaça ao que s´acarditam ser a Ordem Natural das Coisas, o auto-proclamado Rei das Estradas lança-se então num outro comportamento típico dos bichos humanos quando sob uma ameaça externa, o reconhecido clássico Nós vs Eles – o Tribalismo.

Tribalismo

De acordo com estudos publicados no Wikipedia por Kanakasena Dekā; um moçe (ou moça, ou transexual, ou hermafrodita ou transexual alérgico ao glúten ou… Bem, o mui querido leitor entenderá que o Velopata não quer excluir nenhum género mas também não quer ultrapassar o limite de palavras imposto pelo WordPress, como tal, fica-se por aqui que para bom entendedor, meia pedalada basta), e do qual o Velopata não conseguiu encontrar qualquer registo googliano, apenas que existe uma marca tailandesa de chinelos com o mesmo nome, assim confirmando a veracidade dos factos científicos relatados; o Tribalismo pode ser definido como uma forte identidade cultural ou étnica que separa os membros de um determinado grupo de outro. De estrutura hierárquica relativamente simples, inúmeras vezes encontram-se tribos de bichos humanos onde não existe distinção social entre seus membros, apresentando estes uma maior lealdade à sua tribo que a qualquer outro grupo social onde se insiram.

Mas não interpretai erróneamente o Velopata – o Tribalismo e seus comportamentos decorrentes, de todo apresentam apenas e só efeitos nefastos para o bicho humano.

Tomemos como exemplo o programa televisivo do Gustavo Santos ou até os “livros” do Pedro Chagas Freitas. Graças ao sentido de comunidade tribal ainda presente na memória colectiva de muitos bichos humanos foi possível que muitos se conglomerassem sobre uma mesma bandeira contra os canastrões, assim sobrevivendo a estes duros eventos que poderiam ter levado ao completo declínio intelectual e evolutivo da espécie.

(In)felizmente, é justamente neste ponto que encontramos uma das maiores falhas do regime autoritário enlatado – este Tribalismo não é tão linear como se esperaria por entre o Homo sapiens sapiens enlatadum, assim revelando o quão complicados de se lidar são.

Extremamente territoriais, é comum verificarem-se arrufos até entre membros da sua tribo – discussões por lugares de estancionamento, ausência total de respeito pelas prioridades naquela alucinada versão do clássico “a minha pressa é maior que a tua”, ultapassagens perigosas, estancionamentos em segunda, terceira e o Velopata até já presenciou in situ quarta fila… A lista de alarvidades que os enlatados cometem entre si é interminável.

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O Velopata não consegue negar; situações como esta, quando enlatados se entregam à salutar actividade de punhada entre si, deixam-no sempre com aquele reconfortante sentimento na alma.

Mas pressentindo que a ameça é externa, rapidamente o enlatado se junta sob a mesma poluente bandeira.

Duvidai?

Atentai no seguinte exemplo; o conhecido comparsa velopático O Terror das Furgonetas, certa vez lançou o terror sobre uma furgoneta (daí seu nome de guerra velocipédico), abalroando-a por trás pois o jerico condutor desta acarditou-se poder cessar seu movimento sem qualquer tipo de aviso, apenas porque queria brincar com seu telefone esperto. De imediato, vários enlatados pararam junto do “acidente”, prontos a testemunhar junto das Autoridades contra O Terror das Furgonetas. Curiosamente na situação contrária, O Terror das Furgonetas seguia na sua pedalada junto à berma quando um enlatado passou bem perto demais ao ponto do seu espelho lateral direito embater no guiador dO Terror das Furgonetas e consequentemente atirando-o ao duro alcatrão – quantos enlatados pararam para testemunhar contra aquele outro asinino condutor? Ah, pois é. Zero. Bola. Nicles. Dos muitos enlatados que seguiam na estrada, curiosamente nenhum ouvistou o abalroamento do comparsa velopático.

E se ainda assim o mui querido leitor duvida, é porque estais esquecendo que podeis ser um violador, pedófilo e homicida em fuga num enlatado ao qual haveis dado a banhada, que reconfortantemente saberás poder sempre contar com a preciosa ajuda de outros enlatados – pululam pelo reino internético avisos e chamadas de atenção para as operações Stop policiais e seus radares.

Outro sui generis pormenor que demonstra este xarengado sentimento de compaixão e empatia exclusivo entre enlatados é algo que facilmente pode ser comprovado pelo mui querido leitor numa simples experiência social.

Os mui queridos leitores não-civis saberão que entre Ciclistas, o achincalho gratuito é garantido durante as voltas de grupo; ou se é gozado porque não se consegue subir, ou se é gozado porque não se sabe descer, ou se é gozado porque se é uma nódoa a rolar ou mesmo aquela simples e básica versão velocipédica do “a minha é maior que a tua”; o que não faltam são momentos de amena cavaqueira e galhofa – e ninguém fica ofendido, exceptuando-se talvez os ressabiados mimados mais… Vá, ressabiados.

Então, o mui querido leitor experimente afirmar a um condutor o seguinte;

– Epá, sabes uma coisa? Tu conduzes um bocado mal.

E é ver o Carmo e a Trindade colapsarem em pior que no Ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de 1775.

Isto é só do mais ofensivo que se pode proferir a um condutor, ficando-se com a sensação que estamos a ofender sua Mãe, seu Pai, antepassados, futuras gerações e tudo.

E se rodeados por mais condutores, então o mui querido leitor prepare-se para o puro vilipendiar de sua pessoa, saltando todos em defesa do pobre condutor verbalmente agredido numa alucinada espécie de E pluribus unum enlatadum e, nos casos de Tribalismo enlatado mais agudo, convém ao mui querido leitor tomar medidas para evitar uma salutar sessão de porrada. Pedir desculpa e prostar-se sobre o chão enquanto se soltam umas pequenas pinguinhas de urina sobre o próprio ventre parece resultar, acalmando o almariado turbilhão de enlatados ofendidos.

Porque será?

Que estranhas forças se movem no interior da maionese cerebral dos enlatados que originam este comportamento?

E lá regressamos ao mesmo fundamento ideológico – as estradas foram inventadas para o enlatado.

Ferramentas & Tácticas

Portantos, munidos daquela sua distorcida ideia de Direito Divino e sentindo a necessidade de aliar seus conspurcantes motores de combustão de modo a perpeturar sua dominância da via pública, o enlatado congemina para todos submeter à sua vontade, recorrendo a uma poderosa ferramenta quiçá até arma à disposição de qualquer grupo de bichos humanos – a Propaganda.

Infelizmente, por oposição ao dogma enlatado, a tribo dos Homo sapiens sapiens velocipedicus parece ainda não ter compreendido a importância desta – apenas nos intervalos das corridas de Bicicletas na Eurosport é possível ter um vislumbre do que poderá ser uma publicidade televisiva a Bicicletas, no entanto, estas são sempre do mais desenxabido que há – mas quem é que quer ver machos ressabiados de compleições semelhantes a etíopes com bulimia a pedalar Bicicletas que custam o equivalente ao PIB anual do Burundi?

Se encontrar um anúncio televisivo a Bicicletas por entre os canais generalistas é tarefa tão fácil como encontrar uma Virgem por entre as concorrentes da Casa dos Estercos ou lá o que é (o Velopata não se refere ao signo do Zodíaco, apesar de ser sua convicção que não devemos negar uma Ciência que à partida desconhecemos), já a doutrina enlatada, entendeu todo o poder que advém da publicidade.

E de que maneira.

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Um anúncio da marca de enlatados da Porsche, publicitando o facto de suas latas permitirem compensar a parca genitália dos condutores.

Qual regime totalitarista, o enlatado inunda todo e qualquer canal televisivo (o Velopata até aposta que a DogTv não escapou), tentando emprenhar as hostes dos mais mentalmente desfavorecidos telespectadores.

E o mui querido leitor não se deixe enganar – nem nossos petizes estão a salvo da doutrina enlatada, tendo o enlatado percebido há muito que a lavagem cerebral do público infanto-juvenil permite perpetuar o seu pestilento reino de tubos de escape.

Por sorte, temos uma Greta que promete dar luta ao opressor e tirânico jugo do enlatado, servindo como exemplo e auxiliando o re-educar de petizes. Mas sobre a Greta, o Velopata debruçar-se-á a seu devido tempo.

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A perfídia do enlatado não conhece limites, mostrando a nossos indefesos petizes que um tal de Faísca Mcqueen ou lá o que é, apesar de certamente não respeitar um único Limite de Velocidade imposto pelo Código da Estrada (como seu próprio nome indica), é um herói.

Quando escrutinadas à lupa, as técnicas de publicidade empregues pelo regime totalitário enlatado revelam-se de uma baixaria e péssimo gosto que um moçe não pode evitar questionar-se como é possível tanta distorção da realidade e tanto bicho humano engolir aquilo como inegável verdade.

Desde o status junto de restantes bichos humanos que só uma absurdamente cara lata de alta cilindrada permite ao condutor experienciar, à quantidade de fêmeas (ou restantes géneros que isso vai na de cada um), que conseguirá sacar, a saciar aquele complexo de inferioridade compensando o fraquinho tamanho de sua genitália; a lista de falaciosos argumentos regurgitados pelo enlatado é interminável.

No entanto, três argumentos se destacam, sendo responsáveis por um gozo tremendo ao Velopata aquando do confronto de ideias in situ com membros do grupo Homo sapiens sapiens enlatadum.

O primeiro é o Verde.

O mui querido leitor já reparou na quantidade de verde, belíssimas paisagens, estradas imaculadas e Natureza em monte que pululam nos anúncios enlatados televisivos?

Como se aquele tubo de escape fizesse maravilhas pela Natureza, fazendo-a crescer resplandescente à sua passagem…

Quanto a isto, o Velopata opta sempre pela mesma recomendação;

– Se acreditais que o que sai do teu tubo de escape é agradável, experimentai fechar-vos numa garagem com teu enlatado ligado.

Depois é a Liberdade.

Quem nunca ouviu alguém completa e totalmente subvertido ao enlatado, proferir;

– Ah, mas e a liberdade que o carro proporciona?

Ao que o Velopata responde sempre;

– Ele gosta da tua noção de Liberdade. És livre para viajar para todo o lado sim… Contando que pagues para aceder ao combustível, pagues o Imposto de Circulação, pagues o Seguro e tenhas a Inspecção em dia.

Regra geral, a discussão termina por ali e o adepto enlatado, percebendo o quão ridícula é a sua afirmação, das duas, uma; ou opta por colocar o enlatado no saco e dá ao slide, ou parte para o vilipendiar gratuito deste vosso companheiro, palhaço e amigo do duro circo que é a vida do pedal, assim mostrando o quão fácil é o diálogo com esta maralha.

Por último temos a pura e simples Intrujice.

Que mais não é que uma mixórida de ambos os dois anteriores argumentos.

Porque razão a vasta maioria dos anúncios enlatados mostra isto;

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O mui querido leitor reparou no Verde?

Quando na realidade, bem mais de 99,99% da experiência enlatada quotidiana é isto?

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E o Velopata nem vai referir isto;

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Quem, entre Ciclistas, não admite apreciar a visão de um bom engarrafamento enlatado que fure a última câmbra de ar.

Mas não apenas de infundados anúncios televisivos vive a propaganda enlatada.

O mui querido leitor já reparou na quantidade de programas televisivos dedicados à religião enlatada?

Ele é o “Volante”, o “Jóias Sobre Rodas”, o “Top Gear”, o “Pimp My Ride”, o “Loucos por Car… Carrr… Loucos por Enlatados”, até culminar num programa produzido com eirios provenientes dos impostos pagos por todos nós – o “Mundo Automó… Automóv… Mundo Autoenlatado” da RTP.

Como isto não revolta as hostes?

E porque não um programa intitulado “Guiador” ou até mesmo “Sapatilhas”, este último dedicado aos bichos humanos que se deslocam a pé pelas nossas urbes, ou “Jóias Sobre Selins” quiçá “Jóias Sobre Eixos Pedaleiros”, um “Top Pedal” ou até mesmo um “Pimp My Trotinete”?

Porque o enlatado tem e sempre terá necessidade de mostrar o amor que o bicho humano deve sentir por si e vice-versa e coiso – e ainda há os que se admiram quando assistimos a situações que dir-se-iam saídas de um qualquer episódio dA Quinta Dimensão.

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Condutores há que não olham a meios para partilhar com o mundo, seu amor pelo enlatado.

Não só através de aldrabada propaganda, o enlatado consegue manter seu conspurcante reino subjugando todos os restantes meios de transporte à sua vil dominância – é necessário mostrar no alcatrão quem é que manda nas nossas estradas.

Assim, debruçemo-nos sobre as tácticas empregues pelo tirano enlatado que, tal como os regimes fascizóides do qual parece ser acérrimo fã, são simples – Medo e Terror.

Exceptuando-se os habitantes dos países nórdicos (deficiência em solinho bom), os russos (compensações financeiras) e os japoneses (ausência de fêmeas), é com um amplo intervalo de confiança que o Velopata pode escrever que a vasta maioria dos bichos humanos não é lá grande fã de levar com uma tonelada de chapa em cima. Pela simples razão que, parafraseando o Velopatazinho, “é du dói-dói.”.

Um estudo recente, publicado numa premiada revista científica daquelas a sério que não o Facebook, revelou que as ondas cerebrais de um condutor enquanto enlatado e conduzindo, se encontram extrema e perigosamente próximas das produzidas por um bicho humano que maneja uma metralhadora, lança-mísseis ou bazoca – portantos, uma arma.

E é nesta particularidade cerebral que encontramos a razão por trás do comportamento do Homo sapiens sapiens enlatadum, permitindo-lhe semear Terror e Medo por todos os restantes utilizadores da via pública – dotado do poder para decidir sobre a vida ou morte de terceiros, o enlatado aleija, estropia e mata de modo a perpetuar seu regime totalitário, nunca esquecendo que para além de toda esta capacidade destrutiva, o enlatado providencia ainda uma falsa sensação de protecção.

O mui querido leitor duvida?

Atentai ao seguinte exemplo, ouvisto pelo Velopata in situ;

Uma fêmea de bicho humano aí nas suas quarenta primaveras de idade, lingrinhas e com aspecto de Tia “katurreira ´tá a ver?” seguia na sua lata quando um outro enlatado, que até tinha um sinal de Stop, se atirou para a sua frente, forçando a uma busca travagem de ambos os dois para evitar a colisão.

O Velopata assistiu enquanto a Tia “katurreira ´tá a ver?”, que nem face para aguentar duas lambadas bem afinfadas tinha, então teceu inúmeros impropérios na direcção do outro condutor, principalmente vilipendiando e excomungando sua Mãe.

A cereja no topo do bolo?

O outro condutor era assim… Vá, uma espécie de Hulk só que de Faro, portantos farense.

Por sorte, ao contrário da personagem da Marvel, o Hulk farense não saíu de sua lata e destruíu meio quarteirão, óbviamente depois de virar do avesso toda a caturreira daquela Tia.

Mas fica a questão – porque teria agido a Tia “katurreira ´tá a ver?” daquela maneira?

Se a mesma discussão tivesse surgido, por exemplo, numa fila de supermercado, com Hulk e Tia frente a frente e sem toneladas de chapa separando-os, seria ela capaz de produzir o mesmo vernáculo de Taberneiro, especulando sobre a profissão da Mãe de Hulk?

A sensação de protecção e poder que o enlatado faculta.

No decurso de sua investigação, o Velopata conseguiu ainda identificar um outro modo através do qual o enlatado evidencia perante a via pública, toda a sua capacidade destrutiva e mortífera.

A buzinadela.

Outrora apenas utilizada como último recurso em sinal de alarme e aviso, servindo para substituir gritos de “Cuidado!” e “Atenção!”, actualmente e numa espécie de paralelo com abreviações do léxico como “pq” que significa “porque, ou mesmo utilizada como um emoji da estrada, a buzina serve o propósito enlatado de poupança de palavras, auxiliando a reflectir estados de espírito como;

“Sai da frente ó palhaço!”

“Vê lá se queres que te passe a ferro!”

“Vai para o cesto de gávea no mastro mais alto de uma Nau portuguesa!”

“O que é que queres ó filho de uma meretriz?!?!?”

“Tu é que és pá! Vai tu pá!”

Sabendo que restantes utilizadores tremem de Medo e Terror perante o roncar do primitivo motor de combustão aliado à sanfona buzinante, o enlatado pode assim entregar-se de corpo, alma e chapa à sua actividade de eleição – semear o pânico por entre os restantes utilizadores da via pública, deleitando-se com comportamentos radicais e extremistas, infelizmente conseguindo trânspor as barreiras do alcatrão e inundar nossas vidas e redes sociais.

 

Fim da Primeira Parte

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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