Uma Escapadela Altimétrica – finalmente, o Capítulo Final

– Estás bem?

– Não. Ele sente-se que nem um esfregão da louça esquecido ao Sol durante vários dias.

–  Pois, costumas subir melhor…

– Cada centímetro que ele subiu foi como tentar espremer um litro de água desse esfregão da louça ressequido.

 

No cume do topo mais em alto de Portugal Continental, a mítica Torre, o Velopata tentava justificar as razões do seu monumental empenão enquanto o asini… Intrépido dueto observava a magistral paisagem – uma cruz daquelas da religião do moçe comuna muito em antes do seu tempo, que com aquela cantilena do “amai-vos uns aos outros” acabou espetado nessa mesma cruz, um Parque de Estancionamento para enlatados (é claro, caso contrário lá se queixava o comércio local que sem lugares para estancionar as latas, os clientes não vão aparecer por geração espontânea), e a principal razão que leva milhares de bichos humanos a tão remota localização – o Shopping Center.

Porque razão o foram construír em local tão em fora de mão é coisa que um Velopata jamais entenderá mas, verdade seja escrita, se não fosse a dinâmica gerada pelo Shopping, que outra razão teriam os bichos humanos portugueses para se deslocar até ali?

Até porque é senso comum que um Shopping Center assenta bem em qualquer paisagem, principalmente num Parque Natural, Reserva Protegida e coiso.

– É como aqueles mamarrachos abandonados. – salientou o Agente da Autoridade Anónimo (AAA).

– Que mamarrachos abandonados? – inquiriu o Velopata.

– Não viste? Há por aí com cada edifício abandonado… Com tanta coisa da Serra da Estrela ser Parque Natural e tudo, já demoliam aquelas aberrações na paisagem, não?

O Velopata era forçado a concordar com AAA.

Apesar de, em toda a honestidade, ele (o Velopata), não poder confirmar que efectivamente viu os tais mamarrachos com olhos de ver – durante os últimos atrozes vinte e quatro quilómetros pedalados, o Velopata estava mais preocupado em sobreviver.

– Isso só mostra uma coisa. Que até na Corrupção somos um povo fraquinho. – explicou o Velopata.

– Como assim?

– Então, facilmente vários intervenientes privados e públicos sacavam aí uns bons milhões às custas da negociata para as obras de remoção de um qualquer mamarracho desses.

– Realmente… – anuiu AAA como quem anui mesmo.

– O que só prova como até na Corrupção, o português pensa sempre em pequenino.

– Por falar em pequenino, sabes quem é que se vai sentir pequenino agora?

– Quem?

– Nós. Atenção a esta descida que é técnica, tem muitas curvas em cotovelo.

– E as pedras? – notou o Velopata.

– Que pedras?

– As pedras que os enlatados atiram para a estrada quando fazem aquelas curvas à Vin Diesel. Ainda há pouco tempo ele apanhou uns enlatados destes do rali a treinar no quintal algarvio e foi uma dor de cabeça, pedalar aos ziguezagues pelo alcatrão por entre tanta pedra que deixaram na estrada.

O contraste: a lastimosa e deplorável velocidade de subida comparada com a vertiginosa descida.

No momento em que iniciou aquele segmento strávico de vinte e quatro quilómetros ascendentes logo após a última curva para a direita na saída de Manteigas (que podeis recordar clicando aqui), escassos infinitésimos de segundo decorridos da engrenagem da Talega para o Prato Pequeno da Estrela Vermelha, o Velopata percebeu que pedalava na direção de um empenão na categoria dos que ficam engravados na memória.

O contraste: a frescura encarochante de AAA e o arrastar encarochado do Velopata.

Algo que se tornou óbvio desde o quilómetro zero do aclamado segmento strávico – AAA não daria tréguas e dispararia carochas grandes e gordas em todas as direções.

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A selfie de AAA na tórrida travessia do Vale Glaciar, comprovando a não presença velopática na roda, há muito abandonado para trás na sua miséria carocheira.

Apesar de totalizar aproximadamente menos cem quilómetros que os cumpridos pelo Velopata na demanda altimétrica da noite e dia e noite anteriores, pairava na atmosfera aquela sensação de que algo mais se escondia no frenético ritmo de AAA.

Avassalado por todo aquele choque técnico-táctico-paisagístico-encarochado-empenado, o Velopata só tardiamente percebeu que deve urgentemente tentar modificar o conteúdo dos seus sonhos ou pesadelos.

Como por exemplo, sonhar com a chave do Jackpot do Euromilhões em vez de sonhar com uma Cannondale Synapse toda Ultegra ou até mesmo a Ana Malhoa a turbinar em privado com ele (ele, o Velopata).

É que todo aquele horripilante pesadelo da Carocha Gigante que babava comprimidos de ibuprofeno mais não tinha sido que uma premonição deste tórrido dia.

AAA é gramíneofilíaco ou lá o que é.

Tem alergia às plantas gramíneófilasportantos.

Só na noite anterior, aquando da dormida em camas individuais no hotel paulense, AAA confessou ao Velopata ser essa uma das poucas maleitas que o afligiam e os níveis de pólen que o dueto encontrara na sua viagem estavam a cobrar seu alérgico preço.

Acometido daquele espírito nobre e altruísta, o Velopata tratou de providenciar um comprimido de ibuprofeno, algo que ele traz sempre consigo nas parvoí… Aventuras, refundido no interior de um pequeno e singelo estojo de Primeiros Socorros.

(Nota velopática: trata-se de uma pequena bolsinha contendo algumas gazes, pensos, um frasquinho amostra de Betadine e um outro idêntico só que de Peróxido de Hidrogénio em forma aquosa.)

E assim AAA ludibriava Velopata, recorrendo à desculpa tantas vezes usada por outros Ciclistas – o clássico da maleita e o medicamento dopante.

(Nota do autor para o próprio: substituír os comprimidos de ibuprofeno por supositórios que é para os gramíneófilícos verem como é que é.)

Rectificação do contraste anterior: o ritmo ibuprofênico encarochante de AAA e o arrastar encarochado do Velopata.

O Velopata sentia o Sith que existe em cada Ciclista despertar no seu interior, emergindo sentimentos ressabiados que prometiam arrastá-lo para aquela espiral depressiva e coiso que outros tantos levados ao limite experienciam – ele dava as primeiras pedaladas na direção desse fosso obscuro que é o Lado Negro da Velocipedia.

O metrónomo das pernas já não funcionava, cada pedalada apenas suficiente para Estrela Vermelha e Velopata não se esbardalharem no escaldante alcatrão, quais vagens de alfarroba para lá de maduras.

Para fornecer aquela dose de motivação extra, até o Garmin Edge 830 Explore questiona o Velopata se deseja terminar a gravação, uma vez que está parado há tanto tempo…

Seria de esperar que a poesia de toda aquela paisagem, de algum modo auxiliasse um desgraçado armado ao herói que se lança naqueles malogrados vinte e quatro quilómetros de desnível positivo, levando o cérebro para locais mais agradáveis e afastados do sofrimento e dor, no entanto, o problema é algo que o Velopata já está farto de dizer e escrever – o chavão “paisagem de cortar a respiração” foi certamente inventado por um Ciclista.

Porque quando os bofes estão à beira da expulsão involuntária, o calor derrete e a desgraçada da rameira do São Pedro não colabora, é nesse ponto rebuçado que um Ciclista se sente… Vivo.

No final de um segmento alcatroado em mais duro que os restantes, um grupo de fêmeas suspende o seu passeio para saudar e gritar palavras de encorajamento ao hesitante Velopata – pelos semi-cerrados bonitos olhos castanho-esverdeado ensopados em cáustico súor, ele ficou na dúvida se aquelas não seriam fêmeas de Ermesinde, pelo rápido avaliar de suas compleições físicas.

Uma miragem?

O primitivo cérebro de macho rebarbado a toldar a visão, sua mente sofrendo partidas do arco-da-velha? E neste caso, não deveria o Velopata escrever “partidas do arco-das-boas”?

Nada disso importa e as fêmeas desaparecem, ofuscadas pela gloriosa silhueta da Torre que já espreita por entre gigantes penhascos e escarpas de tonalidades cinza e castanho.

(Nota velopatóide: AAA confirmou a existência de fêmeas que também o aplaudiram e motivaram durante a subida. Só não consegue corroborar se eram nativas de Ermesinde.)

Uma hora, cinquenta e dois minutos e trinta e seis segundos.

O lastimável tempo velopático a completar o segmento strávico de subida à Torre pelo Vale Glaciar.

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O Velopata naquela conhecida pose, fingindo que está tudo bem e não acabou de ultrapassar um dos maiores empenões de sua vida.
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A selfie aaática no ponto mais em alto de Portugal Continental, com aquele sorriso de Ciclista babado que vê sua nobre montada, A Cigarra, finalmente perder os três neste duro segmento strávico.

Selfies tiradas, barras de recuperação emborcadas, muita água ingerida e no caso velopático, dois cigarrinhos de tabaco aquecido (o segundo justificado pela complicada privação pulmonar a que tinha sido sujeito), mas principalmente a ausência de um tasco onde pudessem servir-se de umas merecidas médias, levaram o dueto a despedir-se da Torre para se lançarem na complicada descida para a Covilhã.

Novamente o contraste da noite anterior: a tímida velocidade de descida velopática comparada com a quase-suicida de AAA.

mui atento leitor terá estado alerta para o facto do Velopata não ter ainda efectuado uma única menção ao comportamento dos enlatados no decurso de todas estas publicações dedicadas à Escapadela Altimétrica.

Existe boa razão para tal.

De um modo geral, o comportamento enlatado foi moderado, tendo em conta que todos parecem circular a bem mais de cem quilómetros por hora naquelas apertadas estradas nacionais do refugo do reino alentejano porque lá está – como todos sabem que aquelas estradas são perigosas (têm curvas e coiso), há que as fazer o mais depressa possível.

Exceptuando-se uma ou outra manobra labrêga por parte de um enlatado ainda em mais labrêgo, o Velopata pouco tem a apontar ao comportamento dos enlatados nestas regiões do estrangeiro do sul e centro do país.

Se por um lado é verdade que o Velopata muitas vezes se esquece que no interior daquela tonelada de chapa segue um Bicho Humano, verdade seja escrita, nada o podia preparar para o que sucederia durante a descida para a Covilhã.

AAA tinha desaparecido há muito do horizonte velopático, lançado que seguia na sua íngreme descida. Já o Velopata, alembrando-se que é em boa parte sua responsabilidade educar um Velopatazinho até à glória World Tour, tomava todas as cautelas deste e do outro mundo, exactamente porque ele preferia não visitar já esse outro mundo munido de um bilhete de ida.

Findo mais um cotovelo que obrigava a todo o empenho das pinças do Santo Padroeiro Sram Red, o Velopata foi surpreendido por dois enlatados tipo Vanette que saltaram dos ermos para o alcatrão, apinhados em fãs dessa blasfêmia que são os enlatados do rali.

mui querido leitor civil certamente não saberá mas em segmentos strávicos negativamente inclinados e de elevada tecnicidade, uma Bicicleta é e será sempre em mais rápida que qualquer enlatado.

Para piorar toda a situação, os condutores das Vanettes seguiam em ritmo de amena cavaqueira, algo que também o Sentido de Velopata não descurou, ecoando pelo cérebro velopático com lembranças de uma outra pedalada em que ele (o Velopata), tinha cruzado alcatrão com alguns fãnzocas do blasfemo “desporto” enlatado e o comportamento destes, certamente excitados e motivados pelo que tinham assistido, deixou muito a desejar, nomeadamente, desejar não ter deixado a GoPro asiática no lar. Muitos eirios teria o Estado Português auferido se o Velopata filmasse o que nesse dia lhe foi feito e reportasse às autoridades.

E durante vários quilómetros lá teve o Velopata de aguentar ambas as duas Vanettes na sua frente, sem uma única oportunidade de ultrapassagem e constantemente recorrendo a todo o poder de Santo Sram Red para evitar saír voando pelas escarpas covilhãoenses ou mesmo pintar a traseira de uma Vanette num glorioso vermelho-vivo, se bem que escrever “vermelho-morto” não estaria totalmente incorreto.

Até que o impensável aconteceu.

As dores que tanto pressionar das manetes provocavam nas manápulas tornavam-se avassaladoras. O Velopata equacionava já esquecer tudo, deslargar os travões e deixar-se ir enquanto rezava a Nosso Senhor Joaquim Agostinho para que no Além existisse Eurosport e que findo o seu enterro, a Srª Velopata não vendesse as nobres montadas velopáticas pelos valores que o Velopata lhe disse terem custado.

As dores. A urgente vontade de descansar as mãos.

Nem no auge de seus tempos de contagem telheira, enquanto imberbe adolescente, as mãos velopáticas doíam assim.

Quando toda a esperança de conseguir um bom registo strávico nesta descida parecia perdido, eis uma travagem ainda em mais forte que até então – no alcatrão, as Vanettes detinham suas marchas pois um dos enlatados da organização do rali recolhia algumas publicidades presas ao raile direito. Um outro enlatado seguia no sentido contrário, não permitindo que Vanettes ou Velopata cumprissem seus destinos.

E é então que o Velopata vê uma aberta.

Ele só tem de ultrapassar em antes que as Vanettes retomem sua descida.

Num louco acto de desespero, o Velopata balbuciou para a a janela aberta da Vanette dianteira;

– Por favor… Deixe-o passar…

mui querido leitor pode nem acarditar mas… Então não é que o condutor da Vanette largou um rasgado sorriso na direção do Velopata enquanto lhe indicava que podia ultrapassar em segurança?

Por fugazes momentos, na restante descida até chegar ao perímetro civilizacional da Covilhã, o Velopata foi acometido de uma estranha felicidade e euforia, acarditando que esperança ainda existe para alguns dos que vivem sob o tirânico jugo opressor do vil enlatado.

Esperança essa que terminou completamente enxovalhada quando, já bem dentro do perímetro covilhãeonense, à saída de uma rotunda, o Velopata viu AAA quase abalroado por uma enlatada que desconhece a lei da atribuição de prioridade ao veículo que circula no interior de uma rotunda.

(Nota velopatóide: há males que vêm por bem. Matutando na tecnicidade da descida pela Covilhã, o Velopata não pode deixar de agradecer às Altas Eminências Velocipédicas por todas as alterações ao simples plano em antes delineado – subir à Torre pela Covilhã não parece de todo tão agradável como pelo Vale Glaciar, na medida em que a pouca largura da faixa de rodagem e os constantes traços contínuos são claros indicadores que o stress enlatado deve ocorrer em monte.)

 

– Então, sempre vens comigo de comboio, certo?

Esta era a pergunta para queijinho que AAA lançava ao Velopata equanto Estrela Vermelha e Cigarra eram colocadas a descansar junto à parede do terminal ferroviário covilhãnense.

Encarochado e empenado, mas sentindo-se ligeiramente melhor (o esfregão já não estava tão ressequido, conseguir-se-ia retirar umas gotículas de H2O), o Velopata matutou como quem matuta mesmo se seria capaz de percorrer a solo os aproximadamente quinhentos quilómetros de regresso até ao conforto do lar, ainda por cima sem o traque importado para o Garmin Edge 830 Explore.

– Pelo menos até Lisboa ele vai contigo. Já lá vão muitos anos que o Velopata colocou seus chispes no interior de um comboio e é verdade aquilo que dizes da ferrovia poder ser uma óptima ajuda às aventuras em autonomia. Assim, ele acredita ser boa ideia experimentar o comboio, mais não seja porque se algum problema técnico-táctico-ferroviário ocorrer, estás lá tu com a tua experiência para safar a coisa.

– Sim, porque andar de comboio tem cá uma ciência…

– Mas é claro que tem. Há toda uma ciência em torno de como e onde resguardar a Estrela Vermelha, se fica sempre debaixo de olho, se não enjoa com todos aqueles saltos e solavancos, se estão disponíveis extintores e mantas apaga-fogo por perto, nunca esquecendo esses crápulas que apodrecem num cantinho especial do Inferno, os Ladrões de Bicicletas!

– Sim, já percebi… Então mas e depois, em Lisboa, como vais fazer para regressar?

Já esta pergunta era toda uma peça circular cheia de queijinhos.

E nem o Velopata sabia a resposta.

 

– Queres ficar em minha casa a dormir? – AAA esboçava um plano.

– Dais-lhe mesmo esse privilégio?

– Qual quê?!?! O privilégio é meu, quantos podem dizer que tiveram a Estrela Vermelha a pernoitar em sua casa?

– Realmente, sois um afortunado. – notou o Velopata.

– Depois logo vês como queres fazer na segunda de manhã, se apanhas o barco para o outro lado e segues viagem de Bicicleta ou metes-te no comboio até ao Algarve.

Se o Velopata pode pedalar sem o comparsa AAA?

Poder até pode, mas não é a mesma coisa.

 

Com os bilhetes adquiridos, alevantava-se uma importante questão – quais as coordenadas strávicas para uma prazerosa esplanada covilhãonense onde o cansado dueto relaxaria na companhia de umas médias quiçá aproveitando para petiscar uma qualquer iguaria?

Uns quantos quilómetros às voltas pela urbe covilhãniense e o Velopata, deixando sua aeropenca labutar como um cão pisteiro, farejou uma Hamburgueria da Baixa, em tudo idêntica à congénere do reino algarvio que ele tão bem conhece.

Sendo um tasco reconhecido pelas inúmeras variedades de cevada fermentada, para além de por entre tanta barbárie carnívora aqueles Chefs conseguirem confeccionar um hambúrguer vegetariano de qualidade top e coiso, o Velopata já lambia os bonitos beiços ante a visão daquela iguaria evoluída de quinoa, vegetais salteados e muita CoEnzima Q10 nunca esquecendo o poder de uns pózinhos de Alcachofra de Léon.

E se dúvidas o dueto ainda tivesse se aquele seria o local perfeito para dar início às hostilidades técnico-tácticas de recuperação gastronómica lambona, o facto de a Empregada que atendia na esplanada vestir uns calções com um comprimento tal que indicava a sua naturalidade de Ermesinde, desfizeram quaisquer objecções que alguém pudesse alevantar.

Como o Velopata é um moçe cheio de sorte, a Empregada de Ermesinde deve ter terminado seu turno pois Velopata e AAA acabaram atendidos por um moçito cuja face ainda apresentava aquelas marcas de acne juvenil e a respectiva contagem de telhas.

Neste filme, a fotografia seguinte não é bonita.

Dois alarves devoram os hambúrgueres que lhes são colocados na mesa enquanto pedem dose e mais dose de cevada fermentada, chegando a um ponto tal que ambos os dois acarditaram ser melhor reduzir o nível de copofonia pois o terminal ferroviário ainda distava alguns quilómetros da Hamburgueria da Baixa e seria necessário pedalar equilibrados sobre ambas as duas rodas até lá.

Fartos que nem uns abades e findas as hostilidades gastronómicas de recuperação, Velopata e AAA pedalaram até ao terminal ferroviário, não podendo o Velopata deixar de matutar em como seria em mais rápido se tivessem apenas rebolado até lá.

E pelas dezoito horas e quarenta e cinco minutos, tal como a CP havia prometido, no horizonte aparecia o comboio e respectiva carruagem que levaria o dueto até Lisboa.

– Lembrai-o de acender uma velinha de tofu quando chegar ao conforto do lar. – notou o Velopata.

– Então? – inquiriu AAA.

– Isto é um milagre de Santo Anquetil.

– Hã? Do que estás a falar?

– O comboio chegou a horas, não está atrasado nem foi suprimido. Que outra explicação tendes para isto senão a de que eles acabaram de presenciar um milagre? – explicou o Velopata.

Com o comboio parado na linha, Velopata e AAA carregaram Estrela Vermelha e Cigarra para o interior da sua carruagem e…

Mas que raios era aquilo?

Certamente existia ali um engano qualquer…

No site da CP, o Velopata havia ouvisto que a mobilidade sustentável e coiso é uma das prioridades da empresa, logo, nunca esquecendo que o bilhete adquirido indicava a existência de uma carruagem especial destinada ao transporte de Bicicletas, ele esperava encontrar uma espécie de serviços mínimos como isto;

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O contraste: no site da congénere da CP dinamarquesa, nenhum destaque é dado à mobilidade sustentável e coiso (se o é, o Velopata confessa que também não sabe porque aquilo é gente que escreve com duäs bølinhäs pør cimä do Ä e cørtä øs Øs cøm träçøs), agora o que parece ao Velopata é que enfiar um gancho na parede do comboio para que os Ciclistas pendurem lá as Bicicletas que assim seguem viagem a abanar mais que secas vagens de alfarroba ao vento… É que tais movimentos pendulares devem fazer maravilhas pelo carbono e principalmente pela integridade técnico-táctico-estrutural das rodas.

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Ó pobre Estrela Vermelha, onde o Velopata te foi meter agora?

Ainda nem o comboio tinha percorrido um só quilómetro e o Sentido de Velopata já ecoava pelo cérebro, avisando que aquele sacudir da Estrela Vermelha de um lado para o outro faria a delícia de suas rodas – mais uma vez o Velopata não pode deixar de agradecer o facto de ser um escravo mal pago lá onde ele afincadamente labuta, de outro modo teria adquirido outras rodas que não aquelas Ultegra à prova de Terceiras Guerras Mundiais e sim umas daquelas em carbono, totalmente em carbono, 100% carbono, full aero carbono, o que levaria toda esta situação de transporte ferroviário a um só inevitável desfecho – o Velopata apresentando queixa nos escritórios da CP, apresentando como prova uma roda dianteira em carbono totalmente estraçalhado.

Claro que a queixa só seria efectuada depois de um telefonema à SIC, propondo a realização de um episódio especial daquela série que muito incêndio indignado tem feito deflagrar pelas redes sociais – “E se fosse com a sua Bicicleta?”

A viagem seguiu sem sobressaltos (exceptuando os saltos que Estrela Vermelha e Cigarra davam nos seus miseráveis suportes), nenhum descarrilamento ocorreu, nenhum fogo se alevantou e nenhum Ladrão de Bicicletas concretizou suas infames actividades.

O contraste: parece que todos os Bichos Humanos enlatados têm um qualquer problema com as distâncias aos Ciclistas mas… Quando estão TODOS efectivamente enlatados no interior de uma carruagem… Porquê razão ninguém se assentava perto do dueto?

Casualmente, o Velopata farejou o ar com sua aeropenca e toda e quaisquer dúvidas sobre tal comportamento foram desfeitas.

Para reduzir o peso a transportar em suas nobres montadas, Velopata e AAA optaram por levar um mínimo de licras, assim significando que há mais de dois dias pedalavam com a mesma jersey (ao contrário dos bib shorts onde vários foram levados, uma vez que tanto Velopata como AAA nutrem um carinho especial pelas respectivas partes viris).

A fragância emanada pelo dueto era de um je ne sais quois muita forte e intenso.

Até o Pica, enquanto verificava os bilhetes do dueto, pareceu manter uma distância higiénica de segurança superior à que é dada pelos Técnicos de Laboratório e Cientistas e coiso que lidam com estripes de vírus e bactérias mortais.

 

– Sabes, acho que os quilómetros que mais vão custar a pedalar serão estes, entre a Gare do Oriente e a minha casa. – AAA informava o Velopata sobre a pedalada que ainda faltava cumprir até chegarem ao lar aaático.

– Pois… Sabeis… Ele está um pouco hesitante e até nervoso sobre pedalar na noite domingueira lisboeta.

– Isso é sem stress, não te preocupes. Daqui até à minha casa é quase sempre na boa porque está cheio de ciclovias.

– Ciclovias ou ciclocoisas?

– Epá… Pois, se calhar vais achar que são mais a puxar à ciclocoisa. Vamos ter de subir alguns passeios bem altos e há ali um pequeno segmento que nos permite poupar uns quilómetros mas é em gravel.

– Graquê?

– Gravel.

– Hã?

– Terra batida. Temos de passar por uma parte de terra batida.

– Ó AAA, com todo o respeito, atentai às rodas e pneus da Estrela Vermelha. – apontou o Velopata.

– O que têm?

– Por acaso parecei-vos que aqueles Vittoria Rubino Pro Graphene dois ponto zero foram pensados e construídos com terra batida em mente? Parecei-vos que aquelas rodas Ultegra foram desenhadas para suportar calhaus e terra?

– Uhm… Se calhar dava um toque à minha mulher para nos vir buscar à Gare do Oriente.

– Se a Senhora AAA pudesse fazer esse obséquio, o Velopata ficaria muito agradecido. até porque calhaus e terra certamente fariam as delícias do já muito esfarelado cubo da roda traseira da Estrela Vermelha.

Segundos depois, já AAA comunicava telefónicamente suas intenções à Srª AAA, que se mostrou de uma simpatia inacreditável pois… Quem é que no seu perfeito juízo deixa o conforto do lar pelas onze da noite de domingo para se enfiar no caos do trânsito enlatado alfacinha para dar boleia buscar dois raros autocolantes velocipédicos que deliberadamente se haviam metido naquela confusão?

– ´Tá safo! A minha mulher vai-nos buscar. – confirmou AAA.

– Sabeis que ele não conhece a Srª AAA mas já gosta muito dela.

– Então?

– Se o Velopata fizesse um pedido parecido à Srª Velopata… A esta hora os restantes passageiros desta carruagem e do comboio já teriam exigido que eles fossem expulsos na paragem seguinte.

– Mas porquê? Do nosso smell?

– Não. Já não aguentavam os berros dela do outro lado do telefone.

 

O comboio reduzia sua velocidade, os passageiros alevantavam-se e o Velopata percebeu que a viagem encafuada e o suplício pendular da Estrela Vermelha encontrava-se prestes a terminar – o Velopata ainda não sabia mas encontrava-se na iminência de embarcar naquele que seria o maior dos em maiores contrastes experienciados durante toda a Escapadela Altimétrica.

O contraste: todos aqueles locais de uma beleza natural indescritível que foram visitados e pedalados e… Lisboa.

Velopata e AAA subiam as escadas que permitiam deixar o terminal ferroviário oriental para trás, carregando Estrela Vermelha e Cigarra naquela espécie de versão demoníaca de break dance, pois escadarias e travessas de sapatos de encaixe são uma combinação sui generis e não muito amigável no que à integridade carbonatada respeita.

E foi então que o Velopata se deteve no passeio de calçada, alembrando-se da razão pela qual, muitos anos volvidos, ele decidiu deixar a capital deste nosso recanto à beira-mar mal plantado com eucaliptos em monte para rumar ao reino algarvio.

Era Bichos Humanos e enlatados por todo o lado.

Depois existiam ainda em mais Bichos Humanos e em mais enlatados por todo o lado.

Para onde quer que os bonitos olhos castanho-esverdeado velopáticos se desviassem… Bichos Humanos e enlatados em monte.

Fumar um maço de cigarros convencionais de estalo ou ficar ali especado, apenas respirando aquele ar, eram certamente actividades que surtiam o mesmo efeito a nível pulmonar.

Por sorte, nem cinco minutos decorridos de todo aquele choque técnico-táctico-urbano-depressivo e a Srª AAA chegava para salvar Velopata e AAA das poluentes garras da urbe alfacinha.

Apresentações feitas, restava ainda uma última provação sofrida pela Cigarra e Estrela Vermelha – seriam transportadas no tejadilho da lata de AAA.

– Não te preocupes que elas daqui não vão saltar e vou pedir à Srª AAA que conduza com cautela. – reconfortou AAA perante o ansioso olhar velopático.

Já que se escreve sobre provação, o Velopata vai apenas referir que deve ter sido uma experiência olfactiva muito interessante para a Srª AAA, transportar aqueles dois seres cuja fragância emanada faria definhar e murchar plantações inteiras.

Os mui queridos leitores podem questionar-se sobre como será transportar um Velopata enlatado – será ele um daqueles chatos que constantemente chama a atenção do condutor?

Nada podia estar mais longe da verdade.

Questionem a Srª Velopata e ela não hesitará a explicar – o Velopata é o pior pesadelo de pendura que um condutor pode pedir.

Já AAA… Bem, o Velopata vai apenas escrever que quando comparado com AAA, o Velopata é um menino do côro, daqueles que os Padres Católicos tanto apreciam, no que à actividade de aterrorizar condutores respeita.

“Mete o pisca.”

“Tira o pisca.”

“Aqui passa para a esquerda.”

“Cuidado, não te aproximes muito daquele que está a travar.”

“Põe o pisca.”

“Encosta-te à direita.”

“Desliga o pisca.”

O rol de chamadas de atenção que AAA esgrimia para a Srª AAA foi tal que, por breves momentos, o Velopata até se questionou se a Srª AAA seria efectivamente detentora de uma Carta de Condução…

Sobrevivendo ao pesadelo do caos enlatado lisboeta (mas será que na capital ninguém recolhe aos lares para descanso numa quase madrugada de domingo?!?!?!), AAA finalmente rejubilava por poder gritar ao mundo que a Estrela Vermelha se encontrava acomodada e prestes a pernoitar em sua casa, já o Velopata, pouco mais podia dizer a não ser que estava eternamente agradecido pelo facto de que à meia-noite de domingo, véspera de um dia de labuta para as Bichos Humanos “normais”, a Srª AAA ainda confeccionava um delicioso prato de massa com legumes salteados para que os dois heróis deste enredo pudessem praticar o soninho recuperador bom com o papo-cheio.

Mas não sem antes o Velopata ser apresentado à restante família aaática; o pequeno petiz que o Velopata descobriu ter recebido o mesmo nome do seu heteromónimocoiso (uma clara homenagem da família aaática ao blog, sendo irrelevante que o infante já tenha nove anos de idade e a amizade velopática com AAA, para além do próprio blogue, deterem apenas dois anos e uns trocos), a simpática adolescente filha do meio e a filha mais velha, já maior de idade e que o Velopata desconfiou ter sido feita durante uma visita do casal AAA a Ermesinde mas, por uma questão de respeito, ele optou por não comentar e ficar calado (os ensinamentos da Srª Velopata parecem começar a surtir efeito).

– Então e como é que vais fazer amanhã? Já sabes como vais regressar ao Algarve? – questionou AAA por entre dentadas num pequeno bróculo.

– Enquanto davas banho e ele fumava um cigarro de tabaco aquecido na tua janela, ele aproveitou para verificar a previsão metereológica para amanhã. A coisa não está muito famosa… Rajadas de Oeste e Sul na ordem dos cinquenta quilómetros por hora.

– Eh lá! Vais sofrer até casa.

– Pois a questão é mesmo essa. Com um vendaval desses para além de todo o empenão já sofrido… Torna-se perigoso por demais.

– Queres que te vá deixar ao comboio?

– Ele começa a acreditar que essa será a melhor opção, sim.

– Na boa, vou-te lá deixar mas temos de ir bem cedo que é para depois não apanhar toda a confusão do trânsito. Não posso chegar atrasado ao trabalho senão levo com um processo disciplinar.

Nunca esquecendo aquela diferença de compleição entre Velopata e AAA, foi emprestada ao Velopata uma espécie de pijama que a avaliar pelo tamanho Extra-XXL Large da parte superior, certamente pertencia a AAA quando este tinha para aí uns quatorze ou quinze anos de idade.

– Nada disso, essa t-shirt é da minha filha do meio. – clarificou AAA.

E minutos depois, já todo o lar aaático praticava o soninho bom recuperador.

 

Não voltando a contactar com a restante família aaática, o Velopata acordou na manhã seguinte para, ainda em antes de se lançar ao pequeno-almoço, verificar o estado do ciclo menstrual dessa rameira do São Pedro.

O contraste: calor em monte no resto do país e a capital com uma metereologia que dir-se-ia estarmos no pico do Inverno.

E uma ventania que só podia ser descrita como já dizia a ancestral sabedoria popular – o Demo andava à solta.

Comiserado, um cabisbaixo Velopata foi deixado às portas do terminal ferroviário de Entrecampos enquanto se trocaram despedidas e abraços com AAA que assim terminava a sua inesquecível participação na Escapadela Altimétrica. Votos de que brevemente teriam de repetir outra parvoí… Aventura foram feitos, para bem das suas sanidades mentais na fuga à insanidade das urbes e do quotidiano.

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A Estrela Vermelha embeleza a entrada do terminal ferroviário de Entrecampos.

Ainda nem o Velopata se encontrava no interior do terminal ferroviário entrecamponense e já as temíveis lembranças do que tinha sido viver na capital lisboeta durante sua juventude regressavam à tona da maionese cerebral.

O Velopata sentia-se um Salmo salar, navegando contra a enxurrada de Bichos Humanos que apressadamente deixavam o terminal ferroviário para trás.

Dirigindo-se à Bilheteira, outras recordações emergiam à medida que o Velopata percebia que a fila era longa quando, sem que o Sentido de Velopata tivesse sequer tempo de reagir, alguém pontapeava a roda traseira da Estrela Vermelha.

Num ápice, o Velopata saltou para verificar quem teria sido o energúmeno a cometer tal atrocidade – um imberbe adolescente mais preocupado com o seu telefone esperto seguia caminho sem um mísero pedido de desculpas ou semelhante.

E se isto já tinha desaustinado um marafado Velopata, imagine o mui querido leitor a tormenta que o Velopata passou quando um dos comboios apinhados de Bichos Humanos chegou, largou sua obreira carga e todos corriam na direcção velopática como se um qualquer animal selvagem e comedor de Bichos Humanos, escapado do Zoológico de Lisboa, os perseguisse.

E nas suas atarefadas correrias, foram tantos os pontapés na Estrela Vermelha que o Velopata perdeu a conta.

E nem um só bandalho foi capaz de parar e apresentar um simples pedido de desculpa por estar assim, pontapeando propriedade alheia, devendo notar-se que o Velopata levava a Estrela Vermelha pela mão e não era o último da fila.

Aquilo parecia propositado.

Não satisfeito por relembrar desde violento modo a empatia e respeito que os Bichos Humanos das grandes cidades tanto nutrem entre si, o Velopata ainda cometeu um crasso erro.

Enquanto esperava a sua vez de receber uma cafézada e o que parecia um suculento croissant de chocolate, préviamente pagos, o Velopata percebeu que o moçe que servia os produtos procurava uma Senhora que havia pedido um galão e uma tosta mista.

Percebendo que a Senhora estava imediatamente a seu lado no balcão, que aquele era o seu pedido mas estando distraída com o telefone esperto, não ouvia o chamamento do moçe, o Velopata teve a infeliz ideia de ser simpático e sinalizar ao moçe que o pedido era para a Senhora a seu lado.

O resultado?

Moçe e Senhora lançaram um furioso olhar ao Velopata, como se ele tivesse cometido um grave crime.

O contraste: a quantidade de imbecis por metro quadrado que as urbes apresentam quando comparadas com a quantidade de imbecis que habitam longe das grandes cidades.

E farto de toda aquela confusão, o Velopata procurou um cantinho onde pudesse passar despercebido enquanto aguardava a chegada do comboio que o levaria de regresso ao seu saudoso reino algarvio.

Onde também habita uma quantidade considerável de imbecis mas… Sempre são em menor quantidade.

 

A viagem de regresso não foi muito melhor que a anterior que ligou Covilhã a Lisboa, não obstante a notória diferença que o comboio chegou à estação entrecampionense com quase meia hora de atraso.

A roda dianteira da Estrela Vermelha voltou a sofrer das piores diabruras pendulares que lhe podiam fazer, a moça que se sentou na cadeira ao lado do Velopata deve ter chamado muitos nomes feios aos familiares e antepassados de quem lhe vendeu aquele lugar (apesar de ter dado banho na noite anterior, a jersey velopática da G-Ride não foi lavada logo, aquela fragância mantinha-se senão piorava), nenhum descarrilamento ocorreu e nenhum Ladrão de Bicicletas fez das suas.

E assim terminou a Escapadela Altimétrica.

Com um Velopata fazendo aquilo que mais gosta findas as aventuras.

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Um brinde aos Bombeiros Voluntários de Almodôvar, Bombeiros Voluntários de Ferreira do Alentejo, Abominável Compadre-Javali, Coelhos Suicidas, Ciclistas maçaricos de Alcáçovas, Senhora do hotel em Paul, Anjo Velocipédico e outros que o PDI velopático já não permite recordar.

Como a única coisa planeada para essa tarde seria aterrar no sofá e descansar, o Velopata permitiu-se um outro brinde, este dedicado à Srª AAA e restante família por terem feito este humilde parv… Aventureiro, sentir-se em casa mesmo estando a quilómetros desta.

E claro, como ainda sobravam eirios na carteira, o Velopata permitiu-se um terceiro brinde – ao mais grande comparsa de pedalada que um Velopata podia pedir – o Agente da Autoridade Anónimo.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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