Por uma educação com pedalada

Não será nenhuma novidade para os mui queridos milhares de milhões de seguidores que durante os já cerca de dois anos e uns trocos de existência deste vosso espaço de referência velointernético, o Velopata recebeu inúmeras mensagens com os mais variados tópicos.

Desde auxílio na incessante busca pelo nirvana velocipédico a básicas questões em relação a componentes e equipamentos, dúvidas strávicas ou simplesmente fêmeas ávidas de desejo carnal na sua profana demanda de desencaminhar o Velopata dos monogâmicos caminhos da Srª Velopata, o que não faltam são moçes e moças fazendo chegar mensagens a este vosso companheiro, palhaço e amigo do duro circo que é a vida do pedal.

Tudo começou durante uma aula teórica com o Velopatazinho, estudando e analisando o resumo alargado da Volta à Comunidade Valenciana na Eurosport, quando o ícone de mensagens do telefone esperto se alumiou, tendo o Velopata cometido o crasso erro de imediatamente verificar o que Papa-Figos fazia chegar aos bonitos olhos castanho-esverdeados velopáticos – um pedido de ajuda acompanhado da partilha de uma notícia.

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Print screen da mensagem enviada por Papa-Figos e a notícia avançada pelo Sul Informação.

Ante a rápida leitura, só uma reacção velopática seria possível, semelhante à de tantos outros moçes e moças que pululam pela atmosfera facebookiana… O Velopata sentiu-se ofendido.

Mas que escandaleira vem a ser esta?

Até parecia que o Velopata estava assistindo à reunião entre as entidades e pessoas e coiso que tomaram esta asinina decisão de premiar os alunos que se deslocassem para a escola de Bicicleta com… Um sumito e uma sandocha.

Professor 1: Epá, temos aqui uns subsídios da União Europeia disponíveis e que me davam mesmo jeito para umas obras lá em casa. A minha mulher não pára de me chatear para fazermos uma Mezzanine na sala, só que o construtor com quem falei, como sabe que trabalho para o Estado, está a orçamentar a coisa no dobro ou triplo do real valor. Deve ser hábito.

Professor 2: Pois pá, também já vi esses subsídios. E eu que até precisava de comprar um carro novo para a minha filha que está quase a fazer dezoito anos poder ir às compras com as amigas!

Professor 3: Realmente, confesso que também me dava jeito uma ajuda para pagar as aulas de Pilates lá no Ginásio.

PF1: Então temos mesmo de arranjar aqui um esquema manhoso de modo a que os chatos lá da União Europeia não desconfiem que lhes ´tamos a dar banhada.

Ocorre um minuto de silêncio enquanto os três matutam como quem matuta mesmo.

PF2: Os subsídios são para o quê mesmo?

PF1: É uma cena de apoios à mobilidade ou lá o que é.

PF3: Mobilidade tipo cenas de acesso e coiso para os aleijadinhos? É que já não é a primeira nem a última que ia caindo por causa de uma dessas rampas deles!

PF2: Yá, tipo isso não é daquelas coisas para os deficientes?

PF1: Não pá. É mobilidade daquela tipo andar a pé e de bicicleta e assim.

PF2: Já sei!

PF1: Diz lá.

PF2: Quem é que mais anda de bicicleta?

PF3: Os ciclistas?

PF1: Não é isso Professor 3. Eu acho que o Professor 2 está a falar da classe social que mais usa a bicicleta.

PF3: Então já sei outra vez!

PF2: Diz lá.

PF3: Os ricos!

PF1 e PF2 em uníssono: Os ricos?!?!?!

PF3: Sim, quem anda de bicicleta só podem ser os ricos que ainda no outro dia eu fui à Sportathlon e bem vi os preços das bicicletas! Uma delas chegava mesmo a custar cem euros! Ora quem é que vai dar cem euros por uma bicicleta? Só podem ser os ricos!

PF1: Sabes, Professor 3, eu acho que é mais ao contrário. Quem mais anda de bicicleta são os pobres.

PF2: Pois, também acho.

Novamente o silêncio toma conta da sala enquanto os três voltam a matutar como quem matuta mesmo.

PF3: Eureka!

PF1: Então que ideia tens agora?

PF3: Oiçam bem com atenção.

PF2: Desembucha pá!

PF3: O que é que os pobres mais têm?

PF1: Pobreza?

PF2: Roupas feias, velhas e pior… Em segunda mão?

PF3: Não pá, o que os pobres mais têm é… Fome!

PF1: Fome?

PF3: Sim, fome!

PF2: Epá, tens a certeza disso? Fome tipo… De comida mesmo?

PF3: Sim, o que os pobres mais têm é fome! Por isso oiçam lá o meu plano. A gente mandamos vir os subsídios e dizemos que é para promover a mobiliosidade e coiso dos alunos. Como só meia dúzia de pobres é que vêm de bicicleta para a escola basta a gente dar-lhes uma refeição a mais ou quê e ficamos com o resto do dinheiro!

PF1: Vai na volta e até nem é má ideia.

PF2: Pois não mas… Epá, uma refeição a mais para cada pobre ainda sai caro.

PF3: Epá, nem é preciso ser mesmo uma das refeições importantes tipo almoço. A gente damos-lhes tipo lanche ou assim. Olha, pode muito bem ser uma sandes e um copo de leite ou algo do estilo.

PF1: Pode ser sumo? É mais barato que o leite.

PF2: Acho que pode sim, os putos até preferem e assim não temos a Professora de Saúde à perna, que deve ser daquelas queimadas do Bloco de Esquerda porque está sempre a defender as vacas e os animais e a chatear porque diz que beber leite faz mal.

PF1: E a sandes? Fazemos fiambre, queijo ou mista?

PF2: Mas tu estás cá um mãos largas… Já me vistes bem o preço do fiambre e do queijo? Levam com uma sandes de manteiga e só de um dos lados!

PF3: Sabem, acho que isto vai ser uma ideia genial para promover a mobilidade nas nossas escolas.

PF1 e PF2 em uníssono: Também acho.

Portantos, a ver se o Velopata entendeu corretamente o conceito; andam por aí Estados-Nação e Uniões Europeias gastando milhares de milhões de euros dos contribuintes em estudos de profissionais e especialistas qualificados, escrevem-se livros, publicam-se teses de mestrados e doutoramentos para tentar perceber como se pode promover e educar as populações a colocar de parte o vil enlatado e optar por meios de transporte tão evoluídos e suaves como a Bicicleta quando afinal…

Afinal bastava um sumito e uma sandocha.

Como a imaginação dele não tem limites, até parecia que o Velopata já estava a ver o quotidiano destes petizes.

Mãe: Então filho, onde vais com a bicicleta nesta manhã fria e chuvosa e horrível e desagradável de Janeiro?

Filho: Vou para a Escola!

Mãe: Ó meu filho, então mas vais para a Escola de bicicleta? Mas nós não somos pobres, temos carro, porque não vens conosco que é mais confortável, sequinho e quentinho?

Filho: Eu prefiro ir de bicicleta porque assim tenho direito a um sumo e uma sandes durante a tarde.

Mãe: Mas ó meu filho, nós não somos pobres e podemos dar-te dinheiro para comprares esses sumos e sandes. Se quiseres até te podemos dar dinheiro para chocolates, batatas fritas, um Red Bull e olha, até te podemos dar a mais para gastares em ganzas.

Filho: Ó Mãe, até parece que não queres que vá de bicicleta…

Mãe: Já pensastes bem no que vão as amigas da Mãe e amigos do Pai dizer se souberem que não te vamos levar à Escola de carro e que vais de bicicleta? Vão dizer que somos pobres! E isto para não falar da tua segurança que a Mãe e o Pai bem sabem como conduzem, quanto mais os outros. É perigoso.

Filho: Achas mesmo que é perigoso?

Mãe: Claro que é!

Filho: Mas o meu amigo Chico tem uns pais que são todos amigos do ambiente, vai sempre de bicicleta e nunca lhe aconteceu nada. E olha que é um dos melhores alunos da Escola!

Mãe: Diz-me lá uma coisa filho… Os pais do Chico têm carro?

Filho: Acho que não. Às vezes eles vão lá buscá-lo e também vão sempre de bicicleta.

Mãe: O Chico por acaso tem o último modelo da Playerstation?

Filho: Acho que não.

Mãe: Alguma vez viste o Chico no Centro Comercial com os pais carregados de sacos de compras das lojas? Alguma vez viste o Chico usar ténis daqueles com luzinhas na sola?

Filho: Acho que não.

Mãe: Sabes porquê?

Filho: Não.

Mãe: Porque os pais do Chico devem ter a mania que são de esquerda mas não. O que eles são mesmo é pobres.

E é mais ou menos isto que o petiz que se sinta motivado a recorrer à Bicicleta como o seu meio de transporte escolar vai ter de ouvir da progenia.

Tentar motivar as futuras gerações que herdarão este já semi-destruído Terceiro Calhau a contar do Sol a recorrer ao mais nobre meio de transporte que é a Bicicleta, através da suplementação alimentar à base de um sumito e uma sandocha parece só ao Velopata um mau gasto de erário público, digno de figurar nas futuras edições de um Sexta às 9 como mais um método que alguns larápios engendraram para surripiar subsídios.

Ó Velopata, só sabes criticar e não te chegas à frente com boas ideias? – questionará o mui assertivo leitor e certamente também Papa-Figos.

Claro que não.

Depois de muito matutar como quem matuta mesmo, o Velopata deslarga neste seu espaço de referência, uma série de ideias que eficazmente promoveriam a mobilidade urbana e sustentável dos nossos petizes, motivando a geração de amanhã a recorrer ao mais nobre meio de transporte inventado pela bicharada humana – a Bicicleta.

  • Reforço positivo pela avaliação

Se um petiz se desloca até à Escola de Bicicleta e sobrevive, então existem uma série de disciplinas e matérias leccionadas nas quais ele certamente é um ás. Assim, é proposta velopática que ao longo dos períodos ou semestres (ou seja lá de que maneira se divida o actual calendário lectivo), o aluno obtenha a classificação máxima a várias disciplinas como;

Educação Física – esta é óbvia e o Velopata nem precisa explicar.

Trabalhos Manuais – deslocando-se de Bicicleta, o aluno mostrou boa coordenação motora para além de já conhecer as agruras de desmontar um pneu, trocar uma câmara de ar ou mesmo afinar um desviador.

Educação Visual – o aluno provou saber reconhecer cores e formas, mostrando conhecer e identificar os sinais de trânsito mesmo aqueles onde tem prioridade mas tentam atropelá-lo na mesma.

Informática – o aluno sabe registar as suas pedaladas no Strava bem como partilhar selfies no Instagram.

Língua Portuguesa – o aluno mostra boa sintaxe e conhecimento gramatical ao empregar complicada prosa poética como “Ó meu grande filho da p#$a, achas que a estrada é toda tua?” no decurso do seu commute diário.

Matemática e Física – ao evitar colidir com um enlatado de uma tonelada a bem mais de cinquenta quilómetros por hora, o aluno mostra bons conhecimentos de cálculo matemático bem como das leis da Física. Saber identificar e distinguir um quadro aero de um quadro full aero também deve estar entre as capacidades aprendidas pelo aluno no decorrer dos seus commutes.

Química – o aluno mostra conhecer as vantagens metabólicas da Beterraba, do EPO, das anfetaminas, do Tramadol, do Salbutamol e quais os melhores medicamentos para combater crises asmáticas. Também conhece os vários tipos de mortalhas para além de saber reconhecer as variadas formas sob as quais a Cannabis lhe é apresentada juntamente com as melhores técnicas para enrolar e fumar. Também sabe distinguir as qualidades e idiossincrasias dos vários materiais utilizados na construção de quadros; aço, alumínio, alumínio daquele da Cannondale, carbono, carbono de alto módulo.

Educação Moral e Religiosa – o aluno reconhece que Senhor só há um. Chama-se Joaquim Agostinho e está no Além Velocipédico rodeado dos restantes Apóstolos; Coppi, Bartali e Anquetil entre outros.

História – o aluno provou conhecer factos importantes da história da Velocipedia, como por exemplo, o número de vitórias de Nosso Senhor Joaquim Agostinho em etapas do Tour.

Geografia – para além de saber de cor e salteado as inclinações das subidas no seu percurso, o aluno sabe desenhar rotas no Strava. Também sabe apontar no mapa mundo a localização geográfica de locais sagrados como o Passo Stelvio, Mont Ventoux, Alpe d´Huez, Malhão, Fóia, Senhora da Graça ou a Torre.

Língua Estrangeira – Inglês – particularmente importante quando se reside no Algarve, o aluno mostra bom conhecimento gramatical, sintaxe e sotaque ao produzir elaboradas frases como “F$#k you, the road is not yours ó bife do car#$&o!” durante os seus commutes veraneantes.

Língua Estrangeira – Francês – sendo adepto da Velocipedia, o aluno sabe empregar complicados termos avecs como Peloton, Soigneur Maillot Jaune.

  • Reforço positivo pela recuperação

O aluno sobrevive no seu commute até à escola, chegando suado, cansado e derreado.

Como incentivá-lo a repetir a dose no dia seguinte?

Todos sabemos o poder recuperador que uma boa massagem tem, como tal, é proposta velopatóide que as escolas contratem massagistas ao estilo de uma Érica Fontes (para eles), ou até um qualquer sósia do CR7 (para elas e contando que este, ao contrário do original, saiba o que em português significa a frase “não metas isso aí”), para auxiliarem à recuperação dos mini-atletas para a etapa seguinte do seu quotidiano lectivo.

No entanto, deve notar-se que o Velopata não pretende excluir ninguém da sua teoria tal como as Escolas também não o devem fazer, assim, os petizes que mostrem já tendências homosexualofíliacas podem ter como massagistas o Gustavo Santos (para eles), e a Mariana Mortágua (para elas).

  • Reforço positivo pela suplementação

Um sumito e uma sandocha não puxam carroça ou carbono nenhum.

Neste campo da alimentação, a proposta velopatóide é simples – os alunos que optem pela Bicicleta para as suas deslocações escolares devem ter acesso a um batido de proteína uéi para além de uma barrinha de recuperação.

Como muitos revelar-se-ão autênticas marabuntas à mesa (à semelhança do Velopata que come aí por uns dois ou três civis), os mini-commuters devem ainda ter direito a repetir as doses providenciadas pelas refeições na Cantina quantas vezes quiserem e necessitarem.

  • Refoço positivo pelas mais valias

E porque não a Escola celebrar um protocolo com um Centro de Estética e premiar os alunos e alunas que se desloquem de Bicicleta com vales de desconto para a depilação?

Estas são só algumas das ideias que o Velopata tem que, sem qualquer sombra de dúvida, colocariam nossas crianças e adolescentes (até mesmo aqueles na idade do armário e que só lá parecem ir à chapada), a não mais encarar a Bicicleta como um brinquedo arcaico e sim como o único e glorioso meio de transporte.

Mas há mais.

Como muitos dos mui assertivos leitores terão notado no exemplo acima apresentado pelo Velopata no diálogo entre Mãe avantesma e filho, um dos grandes entraves à petizada deslocar-se de Bicicleta são os próprios pais. Como tal, revela-se também necessário intervir junto destes.

Eis algumas ideias velopatóides que poderiam mitigar os efeitos que uma vida inteira enlatada provoca, mudando o paradigma dos progenitores.

  • Reforço positivo pela boa.

Todos os progenitores machos cujos filhos se desloquem para a Escola de Bicicleta, ganham o direito de poder realizar reuniões de pais em privado com aquela Professora Estagiária que é daquelas boas mesmo, mesmo boas.

  • Reforço positivo pelas mais valias.

Todas as progenitoras fêmeas cujos filhos se desloquem para a Escola de Bicicleta ganham vales de desconto para gastar em lojas de sapatos e malas.

Agora digam lá, mui querido leitor e Papa-Figos, a entrarem em vigor estas directrizes propostas pelo Velopata, não era já amanhã que a área circundante das nossas escolas ia parecer uma qualquer movimentada rua holandesa?

Até com o mesmo cheiro a ganza no ar e tudo.

 

Nota velopática: de modo algum o Velopata pretende ofender essa classe tão importante para a nossa espécie como os Professores o são, nunca esquecendo que a bicharada humana só chegou até este ponto evolutivo e tecnológico porque uns ensinaram outros. E é claro que o Velopata não vê com maus olhos (castanho-esverdeados e bem bonitos), a ideia que a Escola Pinheiro e Rosa avançou; tentar motivar a miudagem a encarar a Bicicleta como o melhor meio de transporte tem de começar por algum lado e todas as iniciativas são de louvar.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

 

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