Como desmotivar um Ciclista

Toda esta nova era moderna terá provavelmente tido a sua génese com o Mister desse desporto menor da bola que é José Mourinho.

Para os que regularmente acompanham esse ridículo desporto que são vinte e dois moçes correndo e chutando e pontapeando e cabeçeando um objecto esférico de poliuretano de um lado para o outro, a razão que desmarcou este fora-de-série Mister dos restantes será sobejamente reconhecida; o facto de conseguir transformar até então desconhecidos atletas em super-ilustres máquinas produtivas de golos e campeonatos e taças e ligas e coiso.

O grande segredo do Mister José Mourinho?

Motivação.

Não tardou para que muitos percebessem que se encontrava ali a galinha dos ovos dourados, tendo-se multiplicado os vendedores de banha da cobra como Gustavo Santos & Cia., defecando “livros” que promoviam a motivação e auto-ajuda, sendo que esta última o Velopata sempre achou um piadão que alguém necessite de ler “livros” e obter conselhos de outrém para atingir a “auto”-ajuda, assim atribuíndo todo um novo e inteiro significado à palavra “auto”.

Também não muito tardou para que as grandes empresas, patrões e esclavagistas no geral, percebessem que podiam atirar areia para os olhos dos seus Traba… Funcio… Colaboradores, promovendo acções de pomposa nomenclatura como team building workshops get togethers trainings e coiso para os convencer que são indispensáveis ao sucesso da empresa, mesmo quando lhes pagam um salário mensal equivalente ao ordenado mínimo do Ruanda, nunca esquecendo que apenas e só por acaso, o salário até nem é a maior fonte de energia motivacional da força laboral…

Bem… Sempre é melhor assim, recorrendo a miseráveis salários que com bordoada, como era prática correnta desde tempos imemoriais e, segundo relatórios do Observatório Internacional dos Direitos Humanos, ainda é o método motivacional em voga e preferido pelos capatazes de grandes multinacionais com arraiais assentes em países como Chinas, Birmânias e Vietnames, mas que ninguém quer saber pois o que importa é que as t-shirts continuem a custar menos que tuta e meia na Primark.

Adiante.

Até porque caso contrário lá virá o mui político leitor opinar que o Velopata é um ganda comuna quando, na realidade, ele (o Velopata), não se identifica com esquerdas ou direitas (apesar de canhoto), e sim com… Bom Senso.

Seria de esperar que os membros da bicharada humana da Ordem Velocipediae, que todos os fins de semana se lançam em duras pedaladas pelas serras deste cantinho à beira mar mal plantado com eucaliptos em monte, fossem especialistas em motivação – que outra força pode existir para um moçe ou moça se alevantar numa gélida e chuvosa manhã de Janeiro, lançando-se ao alcatrão ou trilhos para gladiar contra si próprio numa boa dose daquele sofrimento bom auto-infligido que só uma bela pedalada consegue proporcionar?

Sendo especialistas em motivação e nunca esquecendo que qualquer Ciclista que se preze adora um boa dose de auto-bajulação (para manter o elevado nível, o Velopata optou por escolher “bajulação” e não uma outra palavra que rima com “ão” mas mais relaccionada com satisfação sexual autónoma), sobre as suas incíveis e duríssimas e difíceis e sofríveis e angustiantes e encarochantes e destruidoras de pernas pedaladas, (nota velopatóide: esta é uma característica partilhada com outros membros dos bichos humanos como os Caçadores e Pescadores. Por exemplo, um Ciclista dirá “epá, aquilo era uma subida horrível e interminável, foram na boa uns cinco quilómetros com dezasseis por cento de inclinação!”; quando todos sabem que na realidade trataram-se de quinhentos metros com três por cento de inclinação), esperar-se-ia que os Ciclistas fossem também capazes de suportar uma crítica ou reparo com tanta rigidez como só o carbono de alto módulo consegue proporcionar.

Errado.

Ao contrário dos restantes adultos da espécie de bicho humano, a vasta maioria dos Ciclistas que coabitam o Universo Velopático Conhecido apresentam uma capacidade de suportar uma boa crítica ou reparo tão rija como… As licras que vestem.

Como os mui queridos seguidores deste espaço de referência velocibernética já saberão, este vosso companheiro, palhaço e amigo do duro circo da vida do pedal que é o Velopata não é moçe dado a modas, portantos, hoje ele chega até vós com uma série de ideias que representam uma antítese à mentalidade geral dominante – a desmotivação.

Eis algumas ideias e técnicas às quais podem recorrer, não importando se o vosso intuito seja apenas desmotivar um Ciclista ou pura e simplesmente colocá-lo nos eixos.

  • Roubar o KOM/QOM.

Técnica auto-explanatória e de efeitos imediatos e garantidos, exceptuando se o alvo em questão se preocupar tanto com o nirvana strávico que é o KOM (ou QOM, na versão feminina), como o Cláudio Ramos gosta de fêmeas. Esta é uma técnica particularmente eficaz se o alvo pertencer às elites ressabiadas – quando lhe chegar aquela mensagem strávica que acabou de perder o KOM ou QOM, o espumar de raiva será tanto que até os Bombeiros equacionarão usar aquela boca para combater incêndios.

  • O encarochamento civil.

Reza a lenda que a última encarnação terrena de Sua Santidade Joaquim Agostinho foi descoberta para o mundo da velocipedia deste modo.

A equipa do Sporting Clube de Portugal seguia no seu treino com suas melhores Bicicletas e licras vestidas, quando um moçe munido de uma Pasteleira vários quilogramas mais pesada, sem licras e com um garrafão de cinco litros às costas (dizem as más línguas que era água mas todos sabemos que o seu conteúdo só podia ser tintol do bom), os encarochou a todos de tal modo que semanas depois, Nosso Senhor Joaquim Agostinho já encarochava em corridas profissionais.

(Nota velopatóide: sorte tiveram os atletas sportinguistas da época pois se isto sucedesse há uns mesinhos atrás, todos sabíamos como terminava a história – a mando do ex-Presidente leonino aqueles Ciclistas seguiriam todos para uma visita às Urgências hospitalares mais próximas, uma simpática cortesia motivacional da claque verde e branca.)

E isto que Nosso Senhor Joaquim Agostinho fez aos pobres coitados, também o Velopata já experienciou e é uma sensação absolutamente indescritível.

Eis o modus operandi para dar cabo da motivação do “alvo”.

Répticiamente seguimo-lo até bem perto de uma subida, vendo como ele pedala fresco e airoso com o seu capacete que pelo preço deve conter diamantes Swarovski a servir de esponjas protectoras, licras daquelas em carbono full aero carbono da Rapha, sapatos de encaixe com solas full aero carbon de alto módulo, montado na sua Canyoncoiso topo de gama, último modelo da nova geração já toda montada em Sram Red eTap com quinze velocidades na cassete (se já são fabricadas cassetes de doze velocidades, o Velopata nem quer imaginar onde isto vai parar), e… Enfim… Todo aquele conjunto é coisa para custar o PIB de vários países africanos juntos.

Quando o mui querido leitor sentir que é chegada a hora H, fazer-se mostrar que está ali para ressabiar, ultrapassando-o naquele tom desafiador, para depois lhe pregar a carocha da vida dele.

Tudo isto a bordo de uma B´Twin dobrável de roda 20″ e envergando apenas umas sapatilhas básicas (Ténis é um desporto!). Verdade seja escrita, poucas são as sensações velocipédicas tão boas como a que o Velopata sentiu naquele dia em que encarochou um poderoso enlicrado.

Já o “alvo” não pareceu achar muita piada e olhando para a sua face, o Velopata percebeu que hoje, ele só consegue escrever estas linhas porque o moçe provavelmente lembrou-se que o homicídio é ilegal.

  • O encarochamento feminino.

Em teoria, esta é uma técnica desmotivante em tudo semelhante à anterior, simplesmente é praticada por uma fêmea sobre um pelotão de machos, não importando se a sua WLD (Weapon of Leg Destruction, em cámone), é uma Pasteleira ou o último modelo da… Bem, pode ser qualquer máquina menos Specialicoiso ou Canyoncoiso.

Verá que encarochar um grupo de machos numa dura subida, notando que em algum momento deverá mostrar que está a sofrer para os sovar e fazendo questão de lhes acenar e cumprimentar com um rasgado sorriso, é a sensação mais próxima de um orgasmo velocipédico a que alguma vez chegará.

A não ser que seja daquelas moças que opta por pedalar sem selim e no pavê.

Mas nesse caso, prevalece a Lei Velopática – cada um sabe de si e Nosso Senhor Joaquim Agostinho trata do resto.

  • Questioná-los se realmente têm um Treinador.

Actualmente conhecidos como Pêtês, os outrora Treinadores ganharam uma importância fulcral no seio da comunidade velocipédica amadora de fim de semana contemporânea.

Sem eles, seria impossível um comum mortal poder aspirar à brilhante classificação de 499º num granfondue onde participaram três mil mafarricos.

A lógica é bastante simples; após espetar um enorme empenão ou carocha sobre o alvo, esperar que este chegue junto do grupo, mais morto que vivo, para incrédulamente o questionar se não foi para evitar este tipo de sovas que contratou os serviços do seu Pêtê.

  • Melhor ainda, questioná-los para que serve um Treinador.

Auto-explanatória, devendo notar-se que a reacção do alvo será exponencialmente superior à que foi explicada no ponto anterior, se depois de o encarochar à grande e à avec, o questionarmos se o Pêtê também serve para ensinar a ser empenado e encarochado.

  • A ausência de pandã.

Uma das milenares e ancestrais técnicas de desmotivação que consiste em casualmente comentar, por exemplo, como os peúgos que o alvo enverga não fazem pandã com as suas tampinhas de guiador.

  • O pódio.

Todos conhecemos o herói fanfarrão ressabiado que nos dias seguintes à sua participação na Maratona do Raid do Granfondue do Challenge do Desafio da Rota faz questão de partilhar incessantemente e em todas as redes sociais conhecidas, a sua espectacular presença no pódio. Questioná-lo se para o próximo ano também está a pensar participar novamente na versão minifondue e não na distância dos homens a sério é garantia de uma boa festa daquelas à anos noventa onde o que não faltava era espuma, com a diferença que esta será proveniente daquela boca não mais fanfarrona.

  • O Bike Fit.

Esta é uma técnica recente na história da Velocipedia, tendo surgido quando as rodas deixaram de ser quadradas e os Ciclistas tornaram-se mais moles, ficando susceptíveis ao aparecimento de mazelas pelo simples acto de pedalar e se algum mui desconfiado leitor tem dúvidas, basta observar com atenção o ciclismo profissional World Tour e verá que aquilo é só asma e problemas de rins e coiso e as muito comuns Saddle Sores (bilhas, nalgas e trizes maltratados em bom português).

O truque é simples, consistindo em fazer-se notar que está observando a postura de pedalada do alvo para depois lhe confirmar que necessita urgentemente de um Bike Fit.

Pode dar-se o caso do alvo já ter um Bike Fit no seu currículo, assim a desmotivante alternativa é sugerir umas aulas de Yoga ou Pilates, justificando que vários estudos indicam que esta é a melhor maneira de “melhorar a postura”.

  • A depilação.

Estão todos em amena cavaqueira na solarenga esplanada do tasco serrano, apreciando a merecida pausa durante a domingueira volta de grupo. O mui querido leitor fixa o olhar sobre as rijas e musculadas e depiladas pernas do alvo, fazendo notar que as observa atentamente. Quando este questionar porque razão está fixado suas pernas, indagar porque razão ele faz a depilação.

Após a óbvia resposta de que tal facilita a massagem pós-volta bem como a limpeza e desinfecção das feridas após uma queda, casualmente questionar se costumam fazer isso muito.

Isso o quê? – perguntará o alvo.

Dar muitas quedas.

  • Aquele novo equipamento ou componente.

Quando na pedalada de fim de semana, o alvo surge todo motivado, fresco e fofo como uma alface do Pé de Salsa adquirida na Mercearia das Moças, com seus novos e luzidios sapatos de encaixe, questionar se na loja não existia em stock o outro modelo, aquele que já é produzido com antimónio. Porquê? Porque toda a gente sabe que o antimónio aumenta a rigidez lateral.

  • O aero é tudo.

Esta é uma técnica cujas origens remontam à ancestral arte do Pica-Miolos.

O modus operandi é bastante simples; quando o alvo referir que gosta muito das suas novas fitas de guiador da 3T, afirmar que ele só acardita em tal porque ainda não experimentou as novas da 4T.

4T?!?!?! – irá o alvo questionar.

Sim, é a versão em mais aero da 3T.

  • A chacota do record.

Todos sabemos que o Strava conta para muita coisa, principalmente para… Nada, nunca esquecendo que o Velopata não se refere aos movimentos que fazemos para evitar o afogamento e sim para o simples facto que no alcatrão e trilhos, quando a chinela canta e a estrada empina a sério, é que se assiste ao real valor do atleta de baixa competição.

Assim, é aguardar o oportuno momento em que o alvo faz referência ao PR obtido num determinado segmento durante a última pedalada, seguidamente questionando-o sobre o tempo que fez. Quando este indicar as horas, minutos ou segundos, acenar negativamente e questionar se nesse dia ocorria muito vento frontal.

  • O IGC.

Eh lá, equipamento novo, todo bonito! – referirá o mui sarcástico leitor.

É fixe, não é? É daqueles já com a esponjinha em carbono e tudo!. – explicará o motivado alvo.

Pois, pois… Só não tenho bem a certeza em relação ao ajuste…

Como assim, o ajuste?

Parece que te fica um bocado apertado, quando foi a última vez que mediste o teu Índice de Gordura Corporal? – rematará o mui desmotivante leitor.

Seguir-se-à silêncio constrangedor, azedas trocas de olhares mas fica assim assegurado que nas pedaladas seguintes, a dúvida “estarei mais gordo?”, roer-lhe-à a mente até à exaustão, culminando na completa desmotivação.

Como nota e por óbvias razões, o Velopata não recomenda que tentem esta aproximação desmotivante com uma fêmea.

  • O ritmo.

Outra ancestral e milenar técnica de angustiante desmotivação.

Não importa se estão em pleno tasco serrano, pausa obrigatória da pedalada domingueira, ou se a mesma já atingiu seu término e enchem uma citadina esplanada com o irritante som das travessas no piso, licras apertadas demais para serem ouvistas pelas crianças das transeuntes famílias.

O que importa é ter colocado o alvo em sofrimento durante toda a pedalada, ocasionalmente deixando-o para trás, forçando os bofes de fora para recuperar as rodas do grupo, um miserável estado encarochado que até alevantar a min da mesa pelos seus próprios meios deverá ser tarefa hercúlea.

Estavas a ficar para trás ali nesta e naquela zona… – casualmente notar.

Epá, este ritmo está muita forte! – referirá o alvo por entre soluços e golfadas de ar.

Que ritmo? Isto hoje foi uma volta de recuperação!

É garantido que tão cedo não o voltarão a ver na volta domingueira.

  • A pechincha.

O alvo aparece para a pedalada domingueira ao comando da sua nova pomposa montada; uma Specialicoiso topo de gama daquelas em carbono que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono, com rodas topo de gama da Zipp daquelas em carbono que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono, toda montada em Dura-Ace Di5, o novo protótipo que já nem pedaleiro tem (ou então tem quatro pedaleiros, dependendo do que as marcas inventarem a seguir), e pemite uma cassete de vinte velocidades, afirmando que adquiriu a mesma pela módica pechincha de vinte mil euros.

Apesar do mui desmotivante leitor poder experimentar todas as técnicas já descritas acima, há uma que permite rápidos resultados e a margem de erro é mínima.

Consiste em espetar-lhe a soma de todos os empenões, principalmente durante uma dura subida, para depois o questionar se a sua “pechincha” tem algum problema que não o está a permitir acompanhar, como por exemplo, se a corrente tem óleo suficiente.

 

prontos.

Estas são algumas das técnicas internacionalmente reconhecidas pela UCI que podeis recorrer á confiança para desmotivar por completo um comparsa de pedalada.

Muitos dos mui assertivos leitores poderão questionar a ausência de muitas outras técnicas desmotivantes, especialmente as empregues pelas respectivas fêmeas de um Ciclista, no entanto, devem notar que o Velopata optou por enaltecer as técnicas recorrentes entre Ciclistas em detrimento das utilizadas nas relações conjugais.

Até porque todos sabemos como é fácil uma fêmea desmotivar a pedalada domingueira do seu respectivo macho.

Basta que enquanto nos tentamos escapulir de fininho do quentinho dos lençóis, elas sussurrem algo como “volta para aqui que estou com tanto frio…”, enquanto alevantam ligeiramente os lençóis, revelando que estão sem cuequinha.

Já o contrário, o macho tentar desmotivar a fêmea de sair pedalando com recurso a técnicas de semelhante teor erótico-badalhoco, o mais que vos pode obter é um estalo e uma queixa por assédio.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

 

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