N.R.I.J.D.V.C.B.B.

Apenas dois sons enchiam o ambiente.

Aquela respiração ofegante, própria de quem tenta a todo o custo gladiar com a incansável gravidade, simultâneamente lutando para que um pulmão não salte pelos cantos da boca, e o miserável metrónomo de uma lastimável cadência que há muito tinha perdido o seu vigor – era o conhecido Efeito Malhão; essa interminável subida de três quilómetros onde para ultrapassar aquelas malogradas paredes de treze por cento, qualquer marafado que lá se lance tem de pagar portagem com tudo; corpo, mente e alma.

O Velopata arrastava a Estrela Vermelha pelo alcatrão, tendo há muito perdido a esperança de conseguir registar o seu octagésimo sétimo melhor tempo de sempre nessa excruciante subida quando, sem que nada o fizesse prever, um outro Ciclista ultrapassou o Velopata a uma velocidade tal que até a deslocação do ar por ele provocada abanou as resinas aglomerantes do carbono da Estrela Vermelha.

Por fugazes momentos a atenção velopática desviou-se daquela sensação pré-fanico para o Ciclista que o encarochava; quem seria aquele avião?

Só podia tratar-se de um qualquer ressabiado de fim de semana, atentando ao facto que nem um mísero Bom dia tinha proferido, não vestia indumentária profissional e escalava aquelas temíveis paredes a uma vertiginosa velocidade.

Com aquele acelerado moçe desaparecendo no horizonte, o Velopata voltou a concentrar-se na árdua tarefa a que se tinha proposto nessa manhã – atingir o topo do Malhão sem ser acometido de um colapso cardiovascular e tentando conservar algumas das suas capacidades velocipédicas, regressar mais ou menos vivo ao conforto do lar.

A placa indicativa que o suplício e a tormenta chegavam ao fim surgiu no horizonte, acompanhada pela angelical imagem daquela solarenga e convidativa esplanada quando o Velopata viu – o moçe que o tinha encarochado à grande e à avec estava parado no topo da mítica subida, aproveitando os raios da nossa querida estrela para umas selfies.

E só então o Velopata o reconheceu.

Era Carl Grove.

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Carl Grove. Outrora conhecido como o nonagenário campeão amaricano de Perseguição em Pista.

Ó Velopata… Quem é esse tal de Carl Grove? – perguntarão os mui infoexcluídos leitores, devendo o Velopata notar que nesta altura do campeonato, é inadmissível que desconheçam esta pérola da velocipedia, particularmente quando se atenta ao facto que até no Correio da Manhã, este ciclista amador de noventa e dois anos (92!), especialista nas artes velocipédicas de pista, foi notícia.

O pior é que a notícia, parafraseando o grande mestre da bola e bordoada Jaime Pacheco, posteriormente revelou-se como uma faca de dois legumes.

Se por um lado Carl Grove era uma inspiração por ainda vencer títulos e categorias em duras provas velocipédicas, mesmo auferindo em ambas as duas pernas noventa e duas primaveras, por outro lado foi o facto de ter sido apanhado nas teias do doping, tendo acusado no seu sangue a presença de Epitrenbolona, um metabolito resultante da decomposição da Trembolona, esteróide anabolizante recorrentemente utilizado na veterinária como intensificador do crescimento muscular e apetite do gado, que lhe borrou a pintura toda.

(Nota velopática: uai, mas onde é que o Velopata já viu uma história semelhante?)

Óbviamente que tendo ali o próprio à sua frente, o Velopata não podia deixar passar a oportunidade de partilhar vários dedos de conversa com esta avent… Personalidade.

Velopata: Olhe, desculpe lá estar a incomodar mas… Você é Carl Grove, correto?

Carl Grove: Sou sim. Porquê? Deseja tirar uma selfie comigo é?

(Nota velopática: toda a seguinte conversa foi travada em língua cámone, no entanto, atentando ao facto que em tempos o Velopata tentou globalizar este espaço de referência velocipédica escrevinhando em língua de bife, o coiro de protestos que se alevantou foi tal que ele se viu forçado a abdicar dessa triste ideia, partilhando assim a conversa seguinte já traduzida.)

Velopata: Não, não… Deixe estar. É apenas porque ele tem mesmo de lhe dar os parabéns!

Carl Grove: Peço desculpa mas quem tem de me dar os parabéns?

VP: Ele! O Velopata! Não conhece?

CG: Assim de repente não estou a ver quem seja…

VP: Não faz mal. Ele até costuma dizer que o mundo da velocipedia se divide em dois grandes grupos, os Ciclistas que conhecem o Velopata e os Ciclistas que ainda vão conhecer o Velopata.

CG: Se você o diz…

VP: Ele queria mesmo era dar-lhe os parabéns. É que certamente não é para todos a sua proeza que até no Livro de Recordes do Guinness devia estar como o Ciclista mais velho do Universo e arredores a ser apanhado com doping e despojado do seu título. Como é que conseguiu?

CG: Não foi nada fácil.

VP: Explique lá isso.

CG: Quem é que liga pêvas a ciclismo de pista, ainda para mais quando praticado por cidadãos séniores como eu?

VP: Bem, técnicamente ninguém liga a ciclismo de pista ou de estrada, sejam os atletas malta nova e nos píncaros da capacidade ressabiante ou mesmo aqueles que já tinham idade para ter juízo. A malta só quer mesmo é bola, mas continue.

CG: Epá nós sofremos tanto como os pros. Usamos as mesmas bicicletas, os mesmos métodos de treino, a mesma alimentação, a mesma suplementação, os mesmos protocolos de descanso… Por exemplo, acreditas que o Froomster é melhor ciclista do que eu?

VP: Uai, há dúvidas disso?

CG: Bem, é claro que é, no entanto, para a minha idade, sou tão bom como o Froomster, se não melhor até!

VP: Isso é um pouco como se a avó tivesse tintins… Era avô?

CG: Mais ou menos, sim. De qualquer maneira, não interessa. O que importa sim é que me esforcei, treinei muito, gastei balúrdios em algálias, venci um título nacional na modalidade de perseguição em pista de séniores e achas que a Ciclismo a Fundo, a Bike Magazine, a Cristina Ferreira ou o Goucha vieram entrevistar-me?

VP: Deixe o Velopata tentar adivinhar… Não?

CG: Claro que não!

VP: Isso é realmente terrível. Nem o Correio da Manhã?

CG: Óbviamente que não. Depois de vencer aquele título, enviei milhares de milhões de comunicados à imprensa. Contratei um agente publicitário. Fiz publicações por todo o lado, por todas as redes sociais, pelas páginas dos meus amigos, pelas páginas dos lares da terceira e quarta idade onde vivem os meus amigos. Contactei empresas produtoras de algálias. Vê bem que até ao cromo do nosso Presidente Trump e ao teu Marselfie enviei cartas. Sabes quantas respostas com nem que fosse um mísero “Obrigado pá!” eu recebi?

VP: Tipo zero?

CG: Ora nem mais. Ninguém respondeu e foi por isso que tive de recorrer a métodos mais drásticos.

VP: Ah! Foi então que haveis tido a ideia do teste de doping positivo!

CG: Exactamente! E funcionou, não? Repara que agora até estou a ser entrevistado por blogs de qualidade duvidosa.

VP: Pois mas é que… Sabe… Você não está sendo entrevistado pelos melhores motivos… Isto vai ser um bocadinho tipo crítica ao facto de se ter dopado para efectivamente vencer uma prova.

CG: Isso são especulações e acusações ridículas!

VP: Uai, como assim?

CG: Eu era o único gajo em prova!

VP: Pois mas pelo seu registo strávico olhe que você tem um tempo canhão. Média superior a trinta e oito quilómetros por hora para uma idade onde a maioria dos comuns mortais já estão mortos há uns bons vinte anos…

CG: O que é que você está a querer insinuar?

VP: É assim, ele não está a querer insinuar nada… Agora que na sua roda fica um cheiro estranho a electrólito de bateria…

CG: Mas você acha mesmo que eu era capaz de usar um motor, é isso que está a dizer?

VP: Se o capacete serviu…

CG: Jamais seria capaz de usar uma coisa dessas na minha biciclete! Os motores são batota!

VP: Porque já os químicos na veia ou em supositórios… Já não são assim tão batota, certo?

CG: Olha lá bem para mim amigo. Acha mesmo que precisaria de um motor?

VP: Realmente… Agora que o diz… Você ainda tem a dentição inteira, intacta e branca, a careca é luzidia e a pele de textura firme. Sim, você facilmente passaria por mais novo, com muito menos idade, tipo aí uns oitenta e dois ou oitenta e quatro anos e assim não precisaria de um motor.

CG: Oh pá… Mas você acha mesmo que me ia dopar para assegurar que me vencia a mim próprio?

VP: O que é certo é que a Autoridade Anti-Dopagem diz que você acusou positivo.

CG: Sim, mas eles também admitiram que o problema estava no bife que comi na véspera. Estava contaminado como o de El Pistoleiro.

VP: Não queria dizer El Dopalero?

CG: Quem?

VP: Ou mesmo Aquele-Cujo-Nome-Não-Se-Diz?

CG: Quem?

VP: Você sabe, aquele que venceu oito vezes a Volta a França para depois se descobrir que pedalava movido a xarope e tosse não era o seu problema…

CG: O Lance Armstrong?

VP: Nããããoooo….

O Velopata não conseguiu impedir que Carl Grove proferisse aquele blasfemo nome e de imediato, negras núvens cobriram o céu, obliterando os quentes raios de sol, a atmosfera ficou pesada e de difícil respiração, cães uivaram nas redondezas e alguns pardais, pôpas e pêgas (a passarada, não aquelas fêmeas de profissão da qual ninguém tem dúvidas), se lançaram em voos suicidas contra as janelas do tasco.

VP: Sabe, aqui entre nós… O que parece ao Velopata é que você queria aquele título a todo o custo, não olhando a meios para encarochar o seu único rival nonagenário contra o qual competia.

CG: Olha lá, mas você vai ou tenho de mandá-lo?

VP: E assim fez aquilo que os Ciclistas fazem quando sabem que não têm pernas para terminar o trabalho. Você dopou-se para encarochar a competição. A melhor parte é que sabia que o moçe que encarochava não se ia chibar de todo esse dopanço.

CG: Epá, desculpa lá mas esta conversa é uma palhaçada, o teu blog é uma palhaçada e tu és uma palhaçada. Fui.

Da mesma maneira que Carl Grove encarochou o Velopata na subida do mítico Malhão, novamente um Velopata saía encarochado, mas agora na descida, fruto da mestria e espectaculares reflexos que só as bonitas noventa e duas primaveras de idade permitem.

Cansado, um Velopata perdeu Carl Grove no horizonte, não conseguindo deixar de matutar como quem matuta mesmo, se esta publicação não devia ser incluída numa nova categoria do blog, dedicada exclusivamente a N.R.I.J.D.V.C.B.B. – Narcisistas Ridículos com Idade para ter Juízo que se Dopam para Vencer Corridas a Brincar às Bicicletas.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

 

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2 comentários sobre “N.R.I.J.D.V.C.B.B.

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