A tomada da Mítica EN2 – a não assim tão épica conclusão

Velopata e Agente da Autoridade Anónimo seguiam lançados de tal maneira que quem os visse jamais acarditaria que ambos os dois haviam cumprido e pedalado os setecentos e trinta e oito vírgula cinco quilómetros da Mítica Estrada Nacional 2 assim, de estalo em um só registo strávico.

Frescos e fofos que nem uma alface do Pé de Salsa (são melhores que as do Lidl por serem biofílicas ou orgânicofílicas ou lá o que é), nenhuma dor ou dormência corporal importava, suas almas obstinadas (obstipadas não seriam certamente, a avaliar por toda a flatulência deslargada até então), em sentimentos de fama, fortuna e glória velocipédica, olhares focados quais predadores do asfalto, perscutando o horizonte por aquele marco em Faro (se é de Faro, é farense), que pontuaria o final da sua epopeia e cuja procura não seria de todo fácil, pejado como dever-se-ia encontrar de autocolantes de grupos e adeptos desse meio de transporte menor que são as duas rodas que necessitam de um primitivo e básico motor de combustão para a sua propulsão.

Foi então que o Velopata viu.

Quem teria sido o responsável pela organização da festa celebratória da chegada do intrépido dueto a Faro, o Velopata não sabia, mas que se tinham esmerado como quem se esmera mesmo, era facto inegável, irrevogável, inequivocável e coiso – ladeando aqueles últimos quilómetros de alcatrão, uma enorme multidão composta exclusivamente por fêmeas saúdava a chegada do dueto, lembrando um Velopata daquelas festas que os ricos e as elites dos lobbys fazem nos seus iates privados pois todas as moças envergavam pouca ou nenhuma roupa, mostrando seus bonitos seios.

Com regaços de todos os formatos e tamanhos (grandes e muito grandes), pululando na berma da estrada, a organização da recepção ao intrépido dueto tinha-se esmerado ao convidar nada mais, nada menos que a própria Ana Malhoa que toda besuntada em azeite mais ou menos cantava os seus ritmos tropicais-urbanos sobre uma Bicicleta turbinada (pareceu ao Velopata ser uma daquelas novas Canyoncoisas, pois o guiador parecia um estendal de roupa), tinham disponibilizado um varão onde Dânia Neto mostrava todos os seus dotes de actriz, a própria Cate Blanchett marcava presença, recitando uns trechos de O Senhor dos Anéis, o que se revelava tarefa inglória pois fazer-se ouvir por entre os possuídos gritos de ardente desejo carnal da horda feminina era extenuante (deviam ter convidado a Cristina Ferreira que também é boa só que em mais histérica), e através da sua vista periférica, o Velopata conseguiu ainda ver que a inconfundível vencedora de um prémio AVN (conhecidos como os Óscares dos filmes de acção daquela boa), Érica Fontes marcava presença, trazendo consigo uma placa onde se podia ler “Velopata! Faz-me um Velopatazinho!”.

Só depois o Velopata reparou que nem todas se encontravam desnudadas; não esquecendo os companheiros de aventura velopática, a organização de tão espectacular recepção havia vestido muitas outras fêmeas com fardas de policial em latéx daquele bem luzidio e apertadinho, outras ainda com fardas também em latéx mas da felizmente extinta Moçidade Portuguesa, para respectivos deleites do Agente da Autoridade Anónimo e O Facho.

Pobres coitadas; regressariam a seus lares sem levar nada do Agente da Autoridade Anónimo que é muito respeitador e coiso (lembre-se, mui esquecido leitor, que a Srª AAA lê estes textos), para além de que O Facho, fazendo jus à mística que a sua alcunha acarreta, muito provavelmente leva-las-ia para seu lar, fechando-as na cozinha porque já se sabe como é a facharia – fêmea fora da cozinha é turismo.

A cada pedalada que aproximava Velopata e Agente da Autoridade Anónimo do seu monumental objectivo, a multidão feminina rejubilava, seios pululando em todas as direções que deixavam um Velopata quase hipnotizado até que algo se destacou por entre tanta bonita glândula, enchendo-lhe os bonitos olhos castanho-esverdeados de lágrimas – a Srª Velopata assentada em cima do marco farense (óbviamente vestida, que ela não é nenhuma badalhoca).

Enquanto o Velopata desmontava da Estrela Vermelha, sentindo que a qualquer momento as suas capacidades bípedes podiam falhar devido à muita quilometragem embutida, a Srª Velopata aproximou-se, olhou-o nos olhos, e em antes de lhe encher os lábios com um ardente e besuntado bejio com direito a língua e tudo, afirmou;

Parabéns meu amor mais lindo! Conseguiste superar-te! Como prémio podes agora deleitar-te com todas estas mulhe…

 

ACORDA PÁ!

Hã? Quantas são? – antes os berros e safanões do Agente de Autoridade Anónimo (doravante apenas referido como AAA porque o texto é longo e o Velopata tem de ser poupadinho no palavreado), era um estremunhado Velopata que acordava no falso conforto proporcionado pelo lugar do pendura da Lata de Apoio Velopático.

O quê? Quantas são? Mas estás a falar do quê? – questionou AAA.

Erh… Uhm… Haveis percebido mal… Ele questionou quantos são… Quantos quilómetros são até à tal descida para Pedrógão? – o Velopata achou melhor não conspurcar a apaixonada mente de AAA pela Srª AAA com as rebarbadas imagens de magotes de seios desnudados no sonho do qual acordava. Já O Facho, continuava alheio a tudo o que decorria no interior da lata, rocando à grande e à avec no lugar do condutor.

São muito poucos quilómetros, a descida vai começar já aí à frente. – explicou AAA.

Pois isso é chato… Ele continua cheio de frio e assim nem vai dar para aquecer.

Mas já estás bem desperto ou não? Podemos seguir? É que já não está a trovejar e devíamos aproveitar.

Epá, desculpai-o. Ele estava mesmo a deixar-se dormir e…

Ó Velopata, tu não te estavas a deixar dormir, tu estavas já a roncar à grande. – notou AAA.

Foi?

Sim.

Sabeis que esse é um privilégio que poucos têm?

Que privilégio?

Ouvir a imitação dele da máquina de auto-tortura dos rolos.

Ah… Não tinha pensado nisso assim, sem dúvida que agora me sinto ainda mais especial mas vamos ou não? – sentia-se sarcasmo na voz de AAA, talvez fruto das já muitas horas passadas a pedalar na companhia velopática –  É que a descida para Pedrógão é complicada e é preciso que estejas mesmo acordado.

Podem seguir sim, ele só necessita fazer uma coisa primeiro.

Então?

Fumar um cigarro.

Outro?

Este é para ajudar a acordar, não sabeis que a nicotina é um estimulante da concentração?

Ai é? Epá, então se calhar também fumo um cigarrito.

Deixai-te de ideias. Isso lá faz algum sentido…

Como assim?

Para parvo neste dueto já basta um Velopata.

Acordando O Facho, o dueto voltou a lançar-se ao encharcado alcatrão da Mítica Estrada Nacional 2, nervosos pelo desafio que se apresentava no horizonte – a longa e sinuosa descida para Pedrógão.

Ei, ei, ei, ó Velopata! Não estás aí a queimar etapas na jornada? No texto de há duas semanas estavam ainda à saída de Penacova e agora já vão na descida para Pedrógão? Não faltam aí uns quantos quilómetros? – questionará o mui ávido leitor de relatos aventureiros.

Como habitual, o mui assertivo leitor tem razão (se duvidais, é só clicar aqui), e o Velopata fará agora um daqueles momentos qual película de Madeira Sagrada (Hollywood, em cámone), em que o filme recua rapidamente, com a diferença que ele não vai escrever tudo o que se passou em acelerada velocidade e ao contrário (o WordPress tem as suas limitações técnico-tácticas), inserindo a analepse directamente para aquele fatídico momento em que deixando Penacova para trás, Velopata e AAA começavam a experienciar todo o poder do almariado ciclo menstrual dessa rameira padroeira da metereologia que é São Pedro.

Que se devia encontrar sofrendo uma TPM daquelas.

Tudo começou com uma chuvinha molha-parvos.

A terminologia com que os antigos adjectivaram esta forma de pluviosidade assentava que nem ginja de Óbidos, afinal de contas que outro nome se poderá apelidar um dueto de mafarricos sem um pingo de noção e bom senso que seguiam mais ou menos lançados por inóspito território da Mítica Estrada Nacional 2 pela meia noite de domingo, agora já dia vinte e um deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito? Talvez porque a sorte protege os audazes, esta chuvinha molha-cromos-raros-com-a-mania-que-são-ultraciclistas não foi suficiente para forçar Velopata e AAA a trocar suas indumentárias velocipédicas para algo mais Gore Wind Tex Rain Carbon Trek Stopper e coiso, foi sim suficiente para deixar o alcatrão bem molhado, forçando o duo a manter seus pandeiros sobre os selins, uma vez que as rodas traseiras da Estrela Vermelha e Cigarra derrapavam a cada pedalada que tentavam dar erectos (terminologia técnico-táctica para pedalar de pé ou em pé, não devendo o termo “erecto” ser confundido com um qualquer efeito psicomotor provocado pelas boas mesmo, mesmo boas penacovenses), e devendo o mui trepador leitor notar que se até Professor Carochas avisou que aquelas eram duras paredes difíceis de ultrapassar, quanto mais o seriam para dois simples comuns mortais já com duzentos e tal quilómetros no corpo?

Traseiros bem fincados sobre os selins, Velopata e AAA foram subindo, depois subindo mais, depois subindo ainda mais na direção de Góis onde, segundo rezam as lendas internéticas dos que já sobreviveram às provações com que a Mítica Estrada Nacional 2 presenteia os que nela se venturam, aguarda uma subida que leva cerca de uma hora (sessenta sofridos minutos!), a transpôr. Isto em ritmo confortável, claro, pois em ressabiados ritmos, o sofrimento deve ser semelhante só que em mais rápido.

Mas nem Góis ainda se avizinhava no horizonte velopático quando São Pedro ficou totalmente descontrolada e a chuva molha-parvos se transformou num dilúvio tal que o próprio Noé desaustinaria, certamente correndo (ou nadando!), para se juntar aos estivadores em greve por falta de condições de labuta para a construção da tal arca zoológica.

Epá, tenho de parar! – berrou AAA – Esta casaquito já não chega para aguentar esta carga de água!

Vá, mudai para vosso impermeável, rápido! – berrou de volta o Velopata, tentando com que os seus berros que lembravam um gato esfolado vivo (a metáfora vegetariana seria um seitan esfolado vivo, se tal tivesse algum sentido), se fizessem ouvir por entre as obesas gotas de água que fustigavam dueto e alcatrão.

Fazendo sinal aO Facho na Lata de Apoio Velopático, o trio parou na berma e enquanto AAA trocava para indumentária própria de sobrevivência a intempéries, estilo roupa de Bear Grylls só que em carbono, qual não é o espanto velopático quando os quatro faróis da frente de dois enlatados surgiam no horizonte, avançando na direção dos mais ou menos heróis?

De imediato o cérebro velopático começou a matutar; seria uma horda de bandidos que aproveitava a paragem da caravana em território afastado de qualquer civilização para fazer a folha ao trio, dando a real banhada à Estrela Vermelha, Cigarra, roupas, telefones espertos, cartões multibanco e até à Lata de Apoio Velopático? Seriam Velopata, AAA e O Facho manchete na edição seguinte do Correio da Manhã com uma mirabolante história de três mafarricos deixados nús e ao abandono no inóspito território de sabe-se lá que serra?

(Nota velopatóide: forçar AAA e O Facho à contemplação de um Velopata todo nú seria certamente algo capaz de os destruir psicológicamente, nunca esquecendo que o Velopata tem aquela herança genética africana de seu pai.)

Tratar-se-ia do janado de Penacova que, munindo-se de outros acelerados com álcool e drogas companheiros de métier tóxicóindependente, perseguiam a caravana em busca de uma prazerosa e agradável sesssão de punhada, testando assim os dotes policiais de AAA?

Ou seriam as boas mesmo, mesmo boas, que praticavam o stalking a um Velopata na esperança de o poder partir como uma noz ali mesmo, atrás de uma qualquer moita?

À rásca, o Velopata viu enquanto ambos os dois enlatados reduziam suas velocidades e cessavam seus primitivos motores de combustão, imobilizando-se ao lado da Lata de Apoio Velopático.

Está tudo bem? – gritou uma máscula voz do interior da lata que seguia na frente.

Est… Está sim. – retorquiu um tremelicante Velopata, estranhando como quem estranha mesmo o facto de uma voz surgir do interior enlatado (ele às vezes esquece que os enlatados têm bichos humanos no seu interior), e também porque razão a lata que seguia atrás ainda não tinha começado a buzinar devido à paragem sem razão da lata dianteira, comportamento típico da selvajaria enlatada sempre cheia de pressa.

De certeza? Não precisam de ajuda? – insistia a voz.

Sim, está tudo bem. Eles estão só a mudar de roupa que esta chuvada não está a dar tréguas! – explicou o Velopata.

Ah, ok. Então façam boa viagem!

Obrigado e igualmente!

E assim como se haviam materializado nesta história, ambas as duas latas desapareceram serra acima.

O que não deixa de ser impressionante é este comportamento esquizofrénico dos enlatados; se a cena em questão fosse diurna, o Velopata até aposta que aqueles condutores passariam uma daquelas razias que abanam carbono, cérebro e esfíncter, mas sendo noite escura e chuvosa até pararam para saber se tudo corria sobre duas rodas. Vá-se lá entender isto… Mas estes importantes temas da Psicologia Enlatada não são o alvo desta publicação e, como tal, o Velopata deixará estas e outras dissertações para publicações oportunas.

Lançando-se novamente ao já encharcado alcatrão, os quilómetros seguintes sucederam-se em silêncio, fruto da concentração necessária para ferrar dentes nos guiadores durante as excruciantes subidas mas principalmente devido às descidas e aos comprimidos e retesados esfíncteres, que seguiam em tal estado amedrontado pior que o de um macho heterosexual que dá por si num concerto dos Frankie Goes To Hollywood (Francisquinho Vai A Madeira Sagrada, em português).

Com o alcatrão transformado em viscosa manteiga, não como aquelas mixórdias da Becel e coiso que as mui saudáveis respectivas fêmeas dos leitores adquirem porque são ricas em ómegas e coiso, o dueto lá foi sobrevivendo e agradecendo à santa jurisprudência e intervenção divina de Santo Dura-Ace (Cigarra), e Santo Sram Red (Estrela Vermelha), que sob a forma de travão de ferradura nunca deixaram Velopata e AAA adquirir velocidades suficientes para se esparramarem no alcatrão e saírem deslizando e voando pelo que se adivinhava serem profundos precipícios que adornavam as bermas da estrada (se bem que tal também daria uma espectacular manchete no Correio da Manhã).

Atentai! Ele está a ficar ensopado até aos peúgos! – bradou o Velopata por entre o ensurdecedor dilúvio que se adensava, concentrado em manter a Estrela Vermelha perpendicular às muitas piscinas olímpicas formadas no alcatrão.

Pois eu também! Se calhar é melhor pararmos e vestir as cenas impermeáveis mais pesadas, não?

Olhai! – o Velopata apontava na direcção daquela que ele leu ser um must entre a comunidade ultraciclista – É melhor eles abrigarem-se e mudarem suas indumentárias ali naquela paragem de autocar… Autoca… Autocar…

Autocarro?

Sim!

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Como os velocinéfilos (e secos!), milhares de milhões de seguidores podem já ver no vídeo partilhado pelo Velopata que resume esta mítica epopeia (está aqui), o dueto aproveitou a paragem de autoenlatado para trocar suas indumentárias. Resta ao Velopata salientar que a comunidade ultraciclista tem efectivamente razão – há um qualquer je ne sais quois de confortável nas paragens de autoenlatado. Pelo menos naquelas onde não cheira a urina como na vasta maioria das citadinas que o Velopata conhece.

Peúgos trocados, capas impermeáveis para chancas de encaixe calçadas, casacos Wind Core Trex Carbon Full Rain Stopper Wind Trek coiso vestidos e o dueto estava pronto para se lançar novamente à mercê da violenta borrasca que continuava a fustigar como quem fustiga mesmo.

Mais uns quilómetros de ofegantes subidas e acagaçantes descidas e atingia-se Góis onde, fruto dos muitos quilómetros já embutidos nos pistons aliados à adversa metereologia, a moral da caravana velopática começou a minguar.

Verdade seja escrita, ainda hoje, volvidas várias semanas sobre esta marafada pedalada, Velopata e AAA se questionam sobre o encontro que decorreu nessa passagem por Góis que lhes devolveu a motivação perdida, devendo o mui querido leitor notar que não se tratou de um encontro com membros dessa elite das forças secretas das polícias das operações especiais dos militares e coiso, mestres e ases nas artes da bordoada e cujo nome pelo qual respondem só pode indicar que sejam nativos desta região mas sim… Bem, um Velopata não consegue encontrar explicação para a razão de um moçe munido de uma Bicicleta de Supermercado aguardar a passagem da caravana velopática num cruzamento em Góis, pela uma hora da manhã de Domingo, vestindo apenas fato e gravata sob uma intempérie daquelas.

Seria intervenção divina sob forma de um mensageiro de Nosso Senhor Joaquim Agostinho, quiçá uma espécie de anjo velocipédico? Se assim o era e tendo em conta que as asas dos anjos têm forçosamente de ser produzidas em full aero carbon (menor peso, maior rigidez lateral), porque razão ele trocou suas asas por uma básica Bicicleta de Supermercado?

Ou tratar-se-ia de uma pura e simples alucinação que ambos os dois estavam a experienciar devido à maleita que muitos ultraciclistas referem na internet, a privação de soninho recuperador bom?

Como bem notado por AAA, existia ainda uma terceira opção –  tratar-se-ia de mais um fã por entre os muitos milhares de milhões de seguidores deste espaço velointernético que fez questão de marcar presença para saudar a passagem da caravana velopática?

Analisando como que analisa mesmo as opções colocadas, muito provavelmente esta última era a correta e assim, desde já o Velopata agradece a este fã que enfrentou a tormenta góianense apenas para dar aquela força motivacional ao dueto, esperando um Velopata que onde quer estejas, se estiveres a ler estas linhas, naquela marafada noite tenhas chegado vivo, são e salvo lá para onde quer que fosses.

Nunca esquecendo que deveis trocar esse andaime chinês com rodas a que chamas de Bicicleta, comprando uma a sério.

De preferência uma Bicicleta de Homem.

Com aquele sui generis Encontro Imediato de Velocipédico Grau para trás, o intrépido dueto sentiu que se aquele moçe pedalava por ali a altas horas da noite sob uma intempérie daquelas, Velopata e AAA não se podiam dar ao luxo de falhar ou mesmo deixar a moral seguir ralo abaixo, devendo continuar a carregar nos pedais de encaixe como quem carrega mesmo, atingindo assim a base do segmento strávico seguinte; a excruciante subida Góis – Alto N2 (uns belos tabefes merecia o moçe que denominou este segmento… Onde já se viu essa nomenclatura… Alto N2?).

Uns intermináveis quinze quilómetros de ascensão pontuada com quatro, cinco e seis por cento de inclinação, sempre acompanhada de um dilúvio que também ele parecia estar para durar e, como se tal fosse possível, piorar.

Tentando manter um ritmo confortável, o intrépido e encharcado dueto foi subindo aqueles desgraçantes quilómetros tentando manter a mente afastada do suplício que ultrapassavam, recorrendo à troca de opiniões sobre películas (de acção daquela boa e das outras), música e outras formas de arte inferiores à velocipédica quando…

BRUUUMMMMMM!

Até os próprios Viquingues tremeriam de medo nos seus drakars (mesmo não sendo produzidos em carbono), e equacionariam se, à semelhança dessa meretriz do São Pedro da religião católica apostólica greco-romana e coiso, também o seu pagão Deus do Trovão, um tal de Thor, não passaria de um almariado travesti (ao que o Velopata conseguiu apurar à hora desta publicação, uma fêmea envergando indumentária de machos também recebe o substantivo de travesti), ressabiando nos píncaros do seu ciclo menstrual – uma dantesca tormenta desabava sobre Velopata e AAA sob a forma de vento e chuva e raios e coriscos e trovoada e relâmpagos em monte que pareciam querer deitar pelo alcatrão seus desejos de fama, fortuna e glória velocipédica.

Estavam assim desfeitas as dúvidas velopáticas; aqueles flashes que percorriam o nocturno céu no início da noite não eram radares capturando fotos de enlatados prevaricadores, OVNIs ou mesmo danceterias em festa, tratava-se efectivamente de todo o violento poder de uma tremenda tempestade.

Por entre flashes de relâmpagos que pareciam cair cada vez mais perto dos mais ou menos heróis desta história, o Velopata ainda conseguiu sorrir; primeiro por perceber que a marafada subida chegava a seu término, depois porque mais uma vez, os antigos que pedalavam por estas áreas geográficas nos imemoriais tempos das rodas quadradas haviam escolhido um nome mais que apropriado para a localidade que assinalava o final do segmento strávico.

Cabeçadas.

Porque sem dúvida, o que o intrépido dueto sentia é que tinham acabado de levar uma valente cabeçada, como se tivessem acabado de pedalar na companhia do próprio Mark Cavendish ressabiando a meia dúzia de metros da linha de meta.

BRUUUMMMMMM!

Eh lá, os relâmpagos estão a cair mesmo aqui! – bradou AAA.

Pois estão e isto está a deixar um Velopata bem acagaçado. – informou o Velopata.

BRUUMMMMM!

Sério? Não me digas que o grande Velopata tem medo de trovoadas?!?!

Não é medo, é… Coiso! Sabeis que em tempos idos da sua infância, um dia houve em que ele e uns amigos estavam na praia quando um temporal semelhante começou. Eles fugiram para as suas latas e quando seguiam na estrada já a caminho do conforto do lar viram um relâmpago cair na praia. Nessa mesma noite, no telejornal passou a notícia que uma moça faleceu atingida por um relâmpago quando corria molhada pela praia para entregar as chaves da lata a uma amiga. Só não se ficou a saber toda a história de vida da moça porque nessa altura não existia CMTv! – explicou o Velopata.

BRUUUMMMMMM!

Pois, e ainda há as histórias dos pescadores, não é? – atentou AAA.

Que histórias dos pescadores?

BRUUUMMMMMM!

Malta com canas de carbono que morre electrocutada com relâmpagos.

E ainda por cima os carretos deles também são Shimano, certo? – questionou o Velopata.

São sim.

Pois a transmissão da nobre Estrela Vermelha também é Shimano e…

BRUUUMMMMMM!

Depressa, vamos parar ali e esperar que isto amaine um pouco! – AAA apontava para uma vazia esplanada de um fechado tasco cabeçadaoense que aparecia no horizonte.

É melhor sim! – assentiu o Velopata.

BRUUUMMMMMM!

Sinalizando suas ideias e manobras aO Facho que seguia sempre confortável, seco e quentinho no vil conforto da Lata de Apoio Velopático, Velopata e AAA entraram no perímetro da esplanada do encerrado tasco cabeçadense quando;

ÃO! ÃO! ÃO! GRRRRRRR! ÃO! ÃO! GRRRRR…

(Nota velopátóide: esta é ou não uma publicação muita forte em onomatopeias?)

Pelo gutural ladrar e rosnar, o dueto entendeu que o tasco podia estar fechado mas de todo a esplanada se encontrava vazia, segurança entregue pelos donos de tão humilde estabelecimento a três titânicos cães de guarda que mostravam suas dentições destruidoras de carne e carbono ao dueto, aparentando-se com três mastins saídos dos mais refundidos confins do inferno.

Eh lá… Eu posso colaborar com drogados e gajos das claques mas com cães a conversa é outra… – informou AAA.

Ante aquela acagaçada afirmação de AAA, só uma opção restava ao Velopata – encher o peito de frio ar serrano, aguentar a amedrontada vontade de urinar pelos pernitos abaixo (já estavam encharcados e não se notaria mas depois ficaria tudo assim meio colante para além do cheiro…), e tentando ganhar alguma coragem, lenta e calmamente pousou a Estrela Vermelha, avançando depois na direção do que parecia ser o próprio Cérbero de Dante, tentando convencer suas cabeças que o Velopata seria pouco mais que ossinhos que nem para palitarem os dentes serviria, já AAA teria muito músculo e fibra, revelando-se uma refeição de chicha rija e trabalhosa demais para a dentição.

Qual Owen Grady enfrentando três Velociraptors (Velociraptor osmolskae), nessa aclamada película de bordoada jurássica, O Mundo Perdido, o Velopata avançou de braços em riste, tentando mostrar que o dueto não era uma ameaça;

Calma bichaninhos, calma… – a voz do Velopata revelava mais cagufa que firmeza.

Grrrrr. – os Mastins do Demo continuavam a rosnar.

Sabeis que ele até é vegetariano e não faz mal aos animais?

Grrrr.

Ele até tem uma Cadela Descontrolada que o espera de regresso a Faro são e salvo. Vejam só estas fotografias. – o Velopata lentamente sacou do seu telefone esperto e mostrou umas fotos da Cadela Descontrolada em poses menos próprias, rezando a Nosso Senhor Joaquim Agostinho para que o Síndroma da Rebarba também tivesse algum efeito sobre os machos da espécie canídea.

Gr. – as imagens badalhocas da Cadela Descontrolada surtiram algum efeito, reduzindo o maquiavélico tom daquele rosnar.

Queridos cachorrinhos, sabeis que ele até vota no PAN?

Não foi necessário dizer mais, ouvindo aquelas três iniciais ser proferidas pelos tremelicantes mas sempre bonitos lábios velopáticos, os três Mastins Infernais viraram caudas ao dueto e voltaram para as suas lides nocturnas que basicamente consistiam em… Dormir e até roncar, como Velopata e AAA posteriormente ouviram.

(Nota velopatóide: finalmente o Velopata entendeu esta lenga-lenga que surge sempre nas épocas eleitorais do voto útil!)

Com a Estrela Vermelha e a Cigarra protegidas da intempérie que seguia o seu curso no exterior da esplanada, o dueto pode relaxar um pouco; trabalhou-se o serrote, AAA trocou para indumentária mais seca (o Velopata já explicou nas anteriores publicações que AAA se munia de mais tralha e roupa que uma fêmea que passa umas noites fora de casa, tipo Srª Velopata que só não leva o fogão porque não cabe na mala), e o Velopata quase morreu de frio enquanto fumou vários cigarros. Apesar de todo o aparato provocado pela paragem da caravana, viva-alma apareceu do interior das pequenas habitações que ladeavam o tasco cabeçadasense, o que deixou Velopata e AAA mais descansados pois o que não faltam por estas remotas regiões são histórias de anciões que sentindo seus lares ameaçados, saem para a rua de caçadeira de canos serrados em riste, disparando em antes de questionar e… Bem, mais uma vez, Velopata e AAA tinham aqui a hipótese dos seus cinco minutos de fama sendo o alvo de outra espectacular manchete na edição matinal da pérola jornalística que é o Alerta CM.

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Uma valente cabeçada atingiu o intrépido dueto em Cabeçadas.

Encharcados, desaustinados e à beira da hipotermia, principalmente no caso do Velopata que é só pele e osso, ao contrário de AAA que sempre tem mais gordu… Músculo para o proteger, os relógios digitais dos Gármines não paravam de matraquear os minutos que ali se perdiam enquanto a chuva e o vento e os raios e os coriscos e os trovões e os relâmpagos enviados por um menstruado São Pedro não cessavam.

Foi então que Velopata e AAA tomaram a unânime decisão de se resguardar um pouco no interior da Lata de Apoio Velopático que sempre devia estar mais quentinha e aconchegante, aguardando que essa meretriz do São Pedro enfiasse um Buscopan em supositório para, pelo menos, mitigar um pouco que fosse suas óbvias cólicas menstruais.

(Nota velopática: o Velopata sabe que pode muito bem ter destruído sua reputação enquanto hater de enlatados mas em antes um Velopata vivo e quentinho que um Velopata frio e morto.)

Chega agora o momento da publicação em que o Velopata escreveria tudo em modo acelerado, no entanto, dadas as já referidas restrições técnico-tácticas do site WordPress que aloja este vosso espaço de referência velocibernética, ele inserirá a prolepse directamente para o momento no qual esta publicação começa pois findos alguns minutos em que a sua compleição etíope sentiu o quentinho calor que a lata proporcionava, os bonitos olhos castanho-esverdeados começaram a pesar, aliando-se ao som da chuva e vento e raios e coriscos e trovões e relâmpagos a embater metronómica e violentamente na chapa da lata e a algum cansaço que já começava a bater e…

O Velopata adormeceu e o resto os mui rebarbados leitores certamente se alembram.

Quinze minutos volvidos sobre a imitação velopática da máquina de auto-tortura e mutilação tibial que são os rolos de treino e AAA acordava um Velopata indicando que o Buscopan tinha começado a surtir os seus efeitos sobre a xarengada São Pedro, com as condições metereológicas cabeçadenses indicando que a violenta borrasca tinha seguido para outras paragens.

Com um total de duas horas perdidas devido à TPM de São Pedro, Velopata e AAA seguiam para o que prometia ser um dos mais complicados segmentos strávicos desta aventura pela Mítica Estrada Nacional 2 – os longos e sinuosos treze quilómetros de inclinação negativa, sempre acelerada e perigosa demais com curvas cegas e cotovelos alcatroados a noventa graus em monte, que separavam Cabeçadas da civilização seguinte de Alvares.

mui tecnicista leitor, exímio nas artes do Downhill e Enduro e coiso, o que per se prova que tem baixa auto-estima, um instinto de sobrevivência quase nulo e uma elevada apetência para o suicídio, poderá hesitar antes as palavras aqui escritas pelo Velopata, acarditando tratar-se apenas de puro exagero velocipédico-literário quando ele refere que esta foi uma das mais sofríveis descidas experienciadas em toda a sua vida mas, verdade seja escrita, uma rápida observação aos calços dos travões da Estrela Vermelha corroboram todos os adjectivos que o Velopata poderia aqui escrever – se no início da descida os calços encontravam-se todos supimpas e em bom estado, o que dizer quando findos aqueles temíveis treze quilómetros, era necessária uma lupa para encontrar algum material borrachóide a tocar nos aros?

Mas o pior nem foi o alcatrão encharcado, a ausência de um traço delimitante das faixas de rodagem que auxiliasse à navegação, a não existência de um único candeeiro, as curvas cegas e os cotovelos a noventa graus ou mesmo o gélido ar que se infiltrava por qualquer nesga nas full aero licras.

O pior foi aquele que ficará registado nos anais da história como… O Holocausto Salamandra.

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Como é óbvio para a vasta maioria dos mui sensatos leitores, não se trataram de Salamandras como a representada nesta fotografia, a tentar arruinar os sonhos de fama, fortuna e glória velocipédica do dueto quiçá até do trio pois certamente a Lata de Apoio Velopático sofreria graves (mas merecidas!), consequências ao embater numa destas peças de mobiliário caseiro mais rijas e pesadas que carbono de alto módulo.

Ainda hoje, volvidas várias semanas sobre os fatídicos acontecimentos daquela tempestuosa noite, muitos parentes e familiares das várias Salamandras (Salamandra salamandra), devem rumar em triste procissão ao local onde muitas foram mortas, aniquiladas, atropeladas e espezinhadas pelos pneus da Lata de Apoio Velopático, mesmo com os constantes avisos e sinalizações de Velopata e AAA. Devem contar histórias de terror entre si, sobre como muitas acorreram ao húmido chamamento alcatroado da Mãe Natureza apenas para terminarem à semelhança dos seus ancestrais primos répteis jurássicos, com a diferença que ao invés de um meteorito no focinho, levaram sim com um enlatado fascizóide. E se a malta do PAN e do seu braço armado IRA sabe disto…Enfim, o Velopata escreverá apenas que a coisa não terminará bem para a saúde dO Facho.

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A outrora abundante espécie na descida para Pedrógão, Salamandra (Salamandra salamandra).

Com os dedos, mãos e pulsos a latejar de tanto serem chamados ao trabalho durante a psicológica e fisícamente exigente descida, o intrépido e encharcado e gelado e cansado dueto festejou o final da mesma quando percebeu que se encontrava agora num novo segmento de parte-pernas que define a pedalada pelo centro do estrangeiro do país.

Celebratória flatulência deslargada e os quilómetros seguintes sucederam-se em silêncio e a alta velocidade (exagerada figura de estilo à qual o Velopata recorre pois nisto das longas distâncias a velocidade é só uma – confortável), querendo o duo compensar todo o tempo perdido e assim, pelas cinco horas da madrugada de Domingo, chegavam ao mais reconhecido utensílio culinário do país – a Sertã.

(Nota velopática: nos entretantos, ainda se registou um segmento strávico através de uma barragem que o Velopata não chegou a perceber qual era mas tinha uma subida tramada, uma rápida e fugaz passagem por essas míticas e ordinárias localidades de Picha e Venda da Gaita, sobre as quais o Velopata prefere não escrever ou opinar, uma vez que ele sempre preferirá Colo do Pito, o avistamento de um Javali (Sus scrofa), que calmamente atravessava a estrada deixando um Velopata apreensivo porque não conseguindo verificar em que fase do ciclo lunar se encontravam podia muito bem ser um lobisomem. Mesmo AAA insistindo que lobisomens por aquelas paragens era difícil, verdade é que o Velopata já ouvistou muitas histórias sobre o estado em que ficam os enlatados quando têm estes Encontros Imediatos de Suíno Selvagem Grau logo ele nem queria imaginar o que poderiam aquelas irritadas presas suínas fazer ao carbono da Estrela Vermelha, e claro, como há muito o duo não sofria de dúvidas, nada como umas trocas e baldrocas no percurso devido aos já sobejamente conhecidos dotes de orientação de AAA, mais uma vez forçando o dueto a uma paragem para verificar a navegação da cache do algoritmo do satélite ou lá o que foi dito por AAA e não entendido pelo Velopata. Lixado mesmo é que nesta paragem forçada nem para um cigarrinho deu tempo).

Chegados à Sertã, foi unânime decisão que apesar de ambos os dois não apreciarem assim tanto fritos, uma paragem para dar ao serrote, recuperar forças e principalmente tentar enxugar e aquecer o corpo era necessária em antes de se lançarem às que se previam duras subidas da região do marco geodésico deste pequeno recanto à beira-mar mal plantado com eucaliptos em monte.

O problema é que pelas cinco horas da madrugada, nao havia tasco, danceteria ou restaurante a fritar nada.

Nem gente frita pululando pelas ruas, finda a fritaria cerebral proporcionada pelas danceterias, consumo de álcool e drogas.

A conclusão era apenas e só uma – Velopata e AAA é que se encontravam efectivamente… Fritos.

Só um local existia que podia providenciar algum conforto e temperaturas ambientes próximas do agradável, devendo mesmo ser sua obrigação para com estes dois fatigados aventureiros, uma vez que ambos os dois integram essa classe social que é a plebe e nunca se deverá esquecer que foi essa mesma plebe quem pagou as extravagantes e desastrosas aventuras financeiras dessas agiotas elites – as casotas do multibanco.

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Uns derreados Velopata e AAA repousam no interior das instalações de um dos maiores cambalachos montados à humanidade – os agiotas legalizados.

Enquanto repousavam os combalidos corpos que já haviam sobrevivido a mais de trezentos e trinta e quatro quilómetros pedalados, Velopata e AAA trocavam impressões sobre o que ainda faltava subir até se atingirem os rolantes reinos alentejanos, quando o Velopata percebeu que para além de trazer um infindável número de peças de indumentária, ferramentas e bugigangas velocipédicas (a mala da qual AAA se munia parecia a do Sport Billy, sem fundo à vista desarmada), AAA trazia ainda vários tamparoéres;

Uai, mas que trazeis tu aí? – questionou o Velopata.

Isto é para fazer um batido de Whey para mim, queres que também te prepare um?

Depende.

Depende do quê?

Se tendes aí uéi de sabor a seitan com cogumelos e natas. Ou com sabor a caril de tofu. Isso é que agora marchava mesmo bem.

Acho que ainda não fazem Whey com esses sabores.

Então obrigado mas ele terá de recusar. Deixai-o degustar uma das suas FlapJack e beba você essa gosmice. Bom proveito.

Perdendo a noção do tempo que ali ficaram recuperando do choque pluvial, térmico e altimétrico que haviam experienciado, Velopata e AAA decidiram que estava na hora de se lançar novamente ao alcatrão quando os primeiros raios da nossa querida e entretanto saudosa estrela despontaram no horizonte.

Deixando as engordantes terras de fritura para trás, o dueto rapidamente deu por si em nova excruciante mas curta subida para logo de seguida se lançar numa descida que revelava belas paisagens pontuadas com o que parecia ser um fresco nevoeiro matinal, levando um Velopata a novamente amaldiçoar São Pedro por agora lhes estar a enviar um espesso nevoeiro quando…

Pffffff!

Aquele tenebroso som de uma câmara de ar vazante.

Merda! Acho que furei! – bradou AAA como quem brada mesmo.

Achais ou tendes a certeza?

Iá, tenho a certeza. Furei.

Pois ele não te disse nada lá em Chaves, mas ele sabia que mais cedo ou mais tarde teríeis problemas ao nível pneumático. – explicou o Velopata.

Como assim?

Estais equipando a Cigarra com pneus de etnias diferentes. Segundo o Código Deontológico Velocipédico os pneus dianteiro e traseiro devem fazer pandã e…

Deixa-te de filosofias de algibeira, tens aí uma câmara de ar que me emprestes? É que as minhas estão no carro. – talvez por se tratar de uma localidade com nome de frigideira só que em vintage chique, os muitos enlatados nativos da zona também revelaram um comportamento bem frito atrás do volante, tendo com a sua pressa habitual que todo o português conhece ser a hora de ponta das sete horas da matina na Sertã (o sarcasmo é forte no Velopata), forçaram a Lata de Apoio Velopático a ultrapassar e distanciar-se até desaparecer da vista do dueto.

Ele hesita pois tem sérias dúvidas que as câmaras de ar para as rodas da Estrela Vermelha dificilmente servirão nessas full carbon de perfil aero carbon que tendes aí. – explicou o Velopata.

Não agoures e deixa lá ver isso. – rematou AAA, já gladiando para retirar o pneu vazio do aro.

Se provas o mui hesitante leitor precisa para atestar que nunca ninguém liga patavina ao que o Velopata diz ou escreve, estas encontram-se aqui desfeitas. Num ápice, AAA desmontou sua roda traseira e confirmou que as câmaras de ar velopáticas não eram full aero carbon.

Telefonando aO Facho que seguia já uns bons quilómetros à frente, este regressou para junto do furado dueto, seguindo-se minutos de uma espectacular tecnicidade enquanto o Velopata pode ver em primeira mão toda a magia e destreza de AAA enquanto mudou uma câmara de ar em mais rápido que o Velopata já ouvistou muitos outros experientes mecânicos de lojas da especialidade velocipédica.

Com um dupla assim até dá gosto furar. – pensou um Velopata para com fecho éclair do seu casaco impermeável da B´Twin da Decathlon ou da Decathlon da B´Twin.

Furo resolvido, câmara de ar enchida com um vigorosidade tal que nem dir-se-ia AAA ser um moçe casado (os Ciclistas solteiros e divorciados parecem apresentar maior apetência para encher câmaras de ar com aquelas bombas miniatura), e minutos depois já o dueto ferrava novamente suas dentições nos guiadores, fruto das excruciantes subidas que abundam por estas remotas regiões do centro do estrangeiro do país, lembrando um Velopata das passinhas do reino algarvio e o sofrimento que é a mítica subida do Malhão – à semelhança dessa subida destruidora de pernas, também as subidas que o dueto atravessava pareciam transformar pernas em Nestum, não tendo fim à vista e se uma só r.p.m. falhasse, o Velopata acarditava que a Estrela Vermelha cessaria seu movimento e sem momentum ou lá o que é para poder desencaixar suas chancas dos pedais, certamente ele cairía para o lado que nem uma vagem de alfarroba há muito madura.

Finalizado mais um desses horríficos papo-secos que sucediam em catadupa, o Velopata sentiu que AAA começava a vacilar como quem vacila mesmo, desaparecendo da sua roda para muito provavelmente iniciar um tête-à-tête com o famigerado Homem da Marreta. E se a coisa já começava a parecer negra para AAA, o que pode o Velopata escrever sobre o que sucedeu em seguida?

São Pedro esqueceu o reforço da sua dose de Buscopan em supositório.

Uma nova carga de água irrompeu dos céus, desta vez com uma tempestuosidade tal que no Universo Velopático Conhecido é desconhecida a existência de uma loja da especialidade velocipédica que venda indumentária capaz de lhe fazer frente – em meia dúzia de minutos, o intrépido dueto estava novamente encharcado até às estopinhas, nem as coberturas impermeáveis das chancas de encaixe velopáticas, que já a muito sobreviveram e sempre mantiveram seus xispes secos, conseguiam impedir aquela sensação que agora brindava o Velopata – a cada pedalada parecia que estava a produzir mosto.

As negociações entre AAA e o Homem da Marreta previam-se muito complicadas pois nem nas descidas AAA conseguia acompanhar o ritmo velopático até que finalizada mais uma última excruciante subida, o Velopata avistou Abrantes no horizonte. Sendo bom compincha e lembrando toda camaradagem partilhada à base de sessões de flatulência deslargada até então, o Velopata aguardou a chegada de um visivelmente encarochado AAA, no entanto, não foram as barulhentas rodas da Cigarra que se fizeram ouvir na roda velopática – um mini pelotão de Ciclistas, provavelmente nativos da região, ultrapassava AAA e colava-se na roda do Velopata.

Bons dias! – berraram por entre a ensurdecedora borrasca.

Bom dia… Mas não lhe parece que isto esteja a começar como um bom dia não… – retorquiu o Velopata.

É, isto está estranho, quando saímos de casa não davam previsão de uma chuvada destas! Então e vocês vêm daonde? – o mini pelotão constatava o óbvio e algo que o Velopata há muito havia percebido; aquela chuvada mais não era que São Pedro tentando novamente boicotar a fama, fortuna e glória velocipédica da caravana velopática.

De Chaves. – retorquiu o Velopata.

Como assim, Chaves?

Chaves, aquela terra com nome de utensílio ou ferramenta para trancar e abrir portas que fica localizada no extremo norte do país. – explicou o Velopata.

Eh lá… Então mas para estarem aqui, a que horas saíram de Chaves?

Saíram ontem pelas nove da manhã.

A sério?!?!? – os moçes estavam incrédulos – A´tão mas e vão para adonde?

Para Faro.

Como assim, Faro?

Faro, aquela cidade no extremo sul do país com o mesmo nome de um dos cinco sentidos dos bichos humanos que é tipo o olfacto.

Mas isso são mais de setecentos e trinta e oito quilómetros?!?! – notou um dos agora embasbacados moçes.

Setecentos e trinta e oito vírgula cinco. – sublinhou o Velopata.

Ok, mas vão parar para dormir onde?

Eles não vão parar para dormir, estão a fazer toda a Mítica Estrada Nacional 2 de seguida.

Como assim, de seguida?

Bem, de acordo com o Dicionário português de seguida significa logo depois ou imediatamente. Tipo sem paragens.

Mas isso é alguma promessa? – questionou um dos membros do pelotão com pinta de ser um dos mais ressabiados pois munia-se de uma Specialicoiso.

Não, não, é só parvoíce mesmo.

Uma longa descida interrompeu o diálogo com os nativos, não podendo o Velopata deixar de reparar que se eles acarditariam que Velopata e AAA eram loucos por deliberadamente procurarem um empenão desta magnitude, o que dizer destes moçes que pedalavam sob uma intempérie daquelas sem um único adereço impermeável que lhes valesse.

Olha, façam boa viagem que nós vamos virar ali à frente e provavelmente cancelar a volta de hoje que isto está agreste demais. – notificou um dos moçes quando o grupo se reagrupou numa zona mais ou menos rolante (excepto AAA, que atrasado continuava suas conversações com o Homem da Marreta).

Obrigado. Eles têm de continuar que a glória velocipédica não se atinje sem uma certa dose de dor e sofrimento. – explicou o Velopata.

Hã?

Nada, nada. Fazei bom regresso!

Obrigado!

Coincidindo com o momento em que um encarochado AAA finalmente chegava junto do Velopata, o mini pelotão desapareceu no horizonte onde se materializava a placa indicativa que o dueto tinha sobrevivido até às rolantes planícies alentejanas – chegavam a Abrantes.

Para sorte de um Velopata e algum azar para o comércio local das várias urbes que a Mítica Estrada Nacional 2 atravessa, os moçes que gerem estas coisas das estradas de Portugal parecem ter encontrado alternativas sob a forma de variantes e circunvalações permitindo a um Velopata manter-se na rota mas evitando os famigerados centros pavimentados. Tendo em conta que à semelhança de AAA, O Facho sinalizava que também a Lata de Apoio Velopático necessitava de combustível para continuar, o trio acordou que a préviamente combinada pit stop em Abrantes teria lugar numa profana bomba de gasolina, contando que esta tivesse um café acoplado e bem apetrechado de paparoca, para além de um quarto de dar banho com um mínimo de condições para o dueto poder trocar suas licras já empachadas de muito súor, baba, ranho, chuva e gosma alcatroada.

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Cigarra (à esquerda), e Estrela Vermelha (à direita), repousam em Abrantes, encharcadas até à mais ínfima fibra carbonatada.

Num ápice já AAA ocupava o singular espaço do quarto de dar banho para, pela milionésima vez, trocar sua indumentária velocipédica, seguindo depois para o interior do café onde poderia carregar suas reservas de combustível açucarado e até proteico.

Mas só quando chegou a vez do Velopata e ele abriu aquela porta, espreitando para o interior do quarto de dar banho, ele percebeu porque razão AAA se tinha despachado tão rapidamente.

Aquilo só podia ser o quarto de dar banho da primeira cena da aclamada película de terror, Saw, só estando mesmo em falta os moçes presos às tubagens com algemas, um cadáver no chão e… Manchas de sangue? Bem… O Velopata vai só aqui escrever que algumas nódoas deixavam antever um passado onde aquelas paredes, chão e tecto já tinham presenciado muito acontecimento macabro.

Como uma aventura não é sinónimo de regressar ao conforto do lar carregando uma qualquer doença exótica ou mesmo venérea, o Velopata tomou a sensata decisão de irreparavelmente conspurcar para todo o sempre uma das cobertas de sofá roubadas à Srª Velopata para cobrir o espaço entre o carbono das nobres montadas aquando da viagem enlatada para Chaves, mentalmente rezando às Altas Eminências Velocipédicas para que ela não se lembre de trocar as actuais que embelezam e protegem o sofá das agruras provocadas pelo dia-a-dia com uma Cadela Descontrolada, Gata Gorda e Velopatazinho, podendo assim cobrir o imundo piso do quarto de dar banho sem colocar em risco a saúde velopática.

Enquanto o Velopata árduamente trocava sua indumentária, devendo o mui desconhecedor de licra leitor notar que despir licra encharcada é tão ou mais difícil quanto vestir aquelas calças de ganga da moda do skinfit e coiso, várias foram as vezes em que encontrando-se ele com o espadaúdo corpo somali exposto como aquando da sua triunfante chegada ao mundo, alguém tentava arrombar a porta.

Inicialmente ele ainda pensou que pudesse ser alguma das boas mesmo, mesmo boas penacovienses que o tivesse perseguido, acalentando uma réstia de esperança em arrancar um naco ao Velopata, no entanto, uma rápida posterior inspecção ao tasco e ambiente circundante revelou que o local era frequentado apenas por anciões abrantenses. Se eles eram maioritariamente homosexualofíliacos, querendo apenas rebarbar com o bonito corpo etíope velopático, como nos mitos urbanos de encontros entre fãs dos Francisquinho Vai A Madeira Sagrada em quartos de dar banho públicos, o Velopata não chegou a saber e ainda bem porque lá está, já cantava a Marcha Popular dessa ilustre localidade – Ié, ié, ié, no Colo do Pito é que é!

As horas seguintes foram aquilo que seria de esperar de dois mafarricos que já haviam calcorreado trezentos e oitenta e cinco quilómetros com mais de cinco mil metros de acumulado – encher o pandulho à grande e à avec com tudo o que era humanamente possível enfardar.

Findas as hostilidades gastronómicas, o peso da pançada falou mais forte e AAA informou que faria usufruto de uma das armas secretas das quais os grandes ultraciclistas do Universo e arredores não dispensam – a Power Nap.

Que é nomenclatura anglo-saxocamónica para dormir só que em poucochinho, aí uns quinze minutitos a meia hora no máximo.

Tendo concordado em deixar AAA recuperar algumas horas de soninho recuperador bom no vil conforto da Lata de Apoio Velopático, o Velopata aproveitou para se deixar ficar pela esplanada adjacente à profana bomba de gasolina, bebericando uma cola enquanto observava a fauna local de transeuntes abrantesenses para além de aproveitar (claro!), para fumar todos os cigarritos que pudesse enquanto AAA e O Facho (que também optou pela Power Nap), acordassem, caso contrário lá iriam lançar apupos e impropérios por o Velopata estar a dar azo ao seu nojento vício, cigarrinho atrás de cigarrinho.

Os relógios digitais dos Gármines marcavam treze horas da tarde de domingo, dia vinte e um de Outubro deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito, quando Velopata e AAA regressaram ao alcatrão, motivados mas não menos preocupados com os cerca de trezentos e cinquenta e oito vírgula cinco quilómetros que ainda tinham a percorrer.

Mas claro que São Pedro, como boa concubina  que é, guardava uma supresa na algibeira ou muito provavelmente, retirou-a de onde o Sol não brilha.

Um xarengado vendaval de Sul, exactamente a direção na qual o dueto faria todo o restante percurso.

Há ou não moçes com sorte?

Para além de todo o sofrimento que foi necessário o dueto aguentar, sempre alternando entre ambos os dois na frente de peito ao vento e fornecendo roda, lentamente destruíndo pernas e bofes, o Velopata não encontra muito mais que contar ao longo desta passagem da caravana velopática pelo Alentejo profundo.

A fotografia abaixo partilhada é bem exemplo disso.

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Pedalar pelo Alentejo profundo é mais ou menos isto só que em monte, longas e monótonas rectas pautadas com curtas subidas. Às vezes, nem árvores há tornando a pedalada ainda mais secante.

A única excepção feita a todo este tédio paisagístico assenta na qualidade das estradas, cujo alcatrão pareceu piorar para níveis mais próximos de uma qualquer urbe iraniana, foram os muitos cartazes revindicativos de condições de segurança ao longo da estrada que corre paralela a Montargil, algo que fez muita comichão cerebral ao Velopata – mas estes compadres estavam mesmo queixando-se das condições de segurança de uma estrada que mais não é que uma longa recta?

Só depois de alguns quilómetros lá pedalados o Velopata percebeu; os enlatados parecem convencidos que a Mítica Estrada Nacional 2, durante aquele paisagisticamente agradável segmento ladeado pelas águas montargiolenses, é efectivamente uma autoestrada e como tal, ele deixa aqui uma recomendação que jamais vos terá passado pela cabeça e que certamente auxiliará a reduzir a sinistralidade – experimentem conduzir dentro dos limites de velocidade da lei e não tentem manobras de asno!

A recarga de Buscopan em supositório que São Pedro tão tardiamente tomou surtiu os seus efeitos ao nível da pluviosidade, o dia despontou radiante até alevantando algum calor que forçou o dueto a uma paragem à saída de Montargil para se refrescarem com umas já mais que merecidas bujecas. Ou bejecas, de acordo com o sotaque vigente na região do país onde o mui alcoolizado leitor habite.

Foi então que durante uma casual passagem dos bonitos olhos castanho-esverdeados velopáticos pelo relógio digital do Garmin Edge 820 Explorer, o Velopata percebeu que tendo em conta a quilometragem que ainda tinham pela frente, uma segunda noite de pedalada seria necessária para o dueto atingir seu derradeiro objectivo. O que alevantava um sério problema – todas as baterias que alimentavam os faróis dianteiros da Cigarra e Estrela Vermelha encontravam-se depletadas de carga eléctrica.

Tropas reunidas e a conclusão e solução apresentadas foram unânimes e consensuais; Velopata e AAA continuariam a sua demanda contra o vendaval que soprava de Sul enquanto O Facho seguiria rápida e directamente para Montemor-o-Novo onde aguardaria a chegada dos dois certamente já derreados e de pernas feitas em fanicos heróis num qualquer simpático tasco a combinar, baterias já plenamente carregadas e preparadas para a acção nocturna.

Despedidas feitas, Velopata e AAA lançaram-se mais uma vez ao alcatrão, certos de que apesar do perfil altimétrico ainda por pedalar não se revelar de uma dureza tão extrema como a que já haviam ultrapassado, era mais que certo que aquele portentoso vento sulista não daria tréguas.

Os quilómetros sucederam-se com muito pouca conversa, a paisagem continou aquele tédio alentejano (o Velopata sempre preferirá montanhas pois como os mui trepadores leitores sabem, apesar de ser um Ciclista completo, na medida em que é completo a fazer tudo completamente mal, moçes de compleição somali com anorexia nervosa jamais serão bons roladores), e a qualidade das estradas piorava a cada quilómetro que os aproximava de Montemor-o-Novo.

Mas não só a qualidade alcatroada piorava, também o comportamento enlatado deixou muito a desejar pois se até então, salvo uma ou outra excepção, todos os enlatados que cruzaram caminho com a caravana velopática se haviam comportado de maneiras menos execráveis, o que dizer quando já vislumbrando aquele castelo montemor-o-novense no horizonte, um enlatado patrulha da Guarda Nacional Republicana passou a razia das razias a estes vossos dois companheiros, palhaços e amigos do duro circo que é a vida do pedal?

Se um enlatado da GNR é capaz de semelhante prevaricação, como pode um Ciclista esperar que a restante bicharada humana mostre algum respeito pela mais nobre das artes?

Como muitos afirmam no reino das caixas de comentários internéticas, parece faltar muita educação por reinos portugas e o Velopata concorda com tal, só no modo através do qual essa educação deve ser ministrada é que ele discorda… Se com anúncios televisivos e acções de sensibilização, Portugal mantém-se como um dos países onde mais pessoas que usam a Bicicleta continuam a morrer, talvez tenha chegado a hora de tentar uma nova abordagem educativa, trazendo de volta os cacetetes com aquelas peçinhas em metal na pega, distribuindo educativos corretivos à base de bordoada no lombo.

Pelas sete horas do final de tarde de domingo, Velopata e AAA chegavam a Montemor-o-Novo, procurando pelo agradável tasco onde O Facho havia indicado que se encontrava através de uma mensagem no telefone esperto. E foi neste preciso momento, mui queridos leitores e seguidores e fãs e coiso, que o Velopata sabe hoje que a Travessia da Mítica Estrada Nacional 2 deu uma volta de trezentos e oitenta graus, parafraseando a sempre culta e exímia língua de Camões da gíria futebolística.

Então, as baterias estão carregadas? – o Velopata questionava O Facho por entre o ensurdecedor som de muitos autoenlatados que pareciam não parar de chegar e partir da estação autoenlatada localizada ao lado do tasco onde a caravana fazia a sua última grande pit stop.

Já, não foi fácil mas não te preocupes.

Não foi fácil? – questionou AAA surpreendido.

Iá, como assim, não foi fácil? – sublinhou o Velopata.

Vocês vão comer aí, não vão?

Sim. – retorquiram Velopata e AAA em uníssono.

Então já vão ver…

Os mui atentos leitores já saberão que o Velopata, durante muitos anos labutou nessa complicada actividade que é o atendimento ao público, tendo assim aprendido que é regra de bom senso que os clientes sejam atendidos pela ordem de chegada.

Em frente de uma vitrine que se encontrava pejada de iguarias gastronómicas, uns fatigados Velopata e AAA babavam-se, ávidos de paparoca boa e preparados para ali realizar uma boa despesa, o problema é que o não-assim-tão-simpático compadre por trás do balcão, aparentando ser o Boss do não-assim-tão-humilde estabelecimento, parecia de tudo fazer para propositadamente atender toda a clientela, inclusivé a que havia chegado depois, em antes destes dois vossos companheiros, palhaços e amigos do duro circo que é a vida do pedal. Vai na volta e este compadre ainda era aparentado dos Guardas Nacionais Republicanos, partilhando com eles o notório respeito pelo Código da Estrada para além da óbvia boa educação.

Muitos ignorados minutos depois, já um Velopata explicava a AAA que a sua ideia era virar costas e seguir procurando outro local para dar ao serrote, quando o Boss ficou sem opções para os ignorar e lá os atendeu.

Porra pá. Que antipatia! – notou o Velopata por entre colheradas de uma quentinha e aconchegante sopa de legumes, já sentado na prazerosa esplanada recheada de gases de autoenlatados.

Pois então deviam ter visto a cara que o gajo fez quando lhe pedi para pôr as baterias a carregar. – notificou O Facho.

Também vieste aqui comer? – questionou AAA.

Sim. Pedi uma sopa e uma sandes de presunto e depois perguntei-lhe se podia colocar as baterias a carregar numas tomadas vazias que pudessem dispensar. O gajo fez tão má cara que até fiquei com medo, parecia que o tinha ofendido ou assim.

Epá… Mas haveis carregado as baterias ou não? – um já enrascado Velopata questionou.

Já te disse que sim!

Por incrível que pareça, com tanta antipatia e má vontade em servir, a sopa de legumes não azedou nem o pão se revelou mais rijo que carbono de alto módulo, podendo o dueto encher seus esfomeados estômagos e ainda repôr açucares (e gás), à base de Colas.

Findas as hostilidades culinárias, Velopata e AAA voltaram a esperar infinitos minutos pela sua vez de pagar, o visivelmente gazeado compadre Boss do estabelecimento de comida bastante agradável e simpatia deplorável, procastinando novamente o seu atendimento o que só levou um Velopata a acarditar que aquele xarengado compadre só podia sofrer de alguma maleita cerebral, passível de pertencer às categorias de graves transtornos psicológicos anti-Bicicleta e Ciclistas.

Preparando-se para uma última pedalada até reinos algarvios, uma rápida análise metereológica permitiu ao dueto exponenciar a sua motivação – no horizonte não se avistavam sinais de núvens carregadas de pluviosidade e o tremendo vendaval sulista tinha cessado.

Ao longo da sua vida, o Velopata sempre simpatizou bastante com os nativos da região vizinha do reino algarvio; os alentejanos são bons compinchas, apreciam boa vinhaça e comida (exceptuando a cena dos torresmos que é ligeiramente grotesca quiçá nojenta), e verdade seja escrita que em todas as passagens velopáticas por terras montemor-o-novienses, ele sempre foi bem e atendido devendo ainda notar-se que stress enlatado é inexistente pois todos sabem que as palavras “alentejano” e “pressa” colocadas numa mesma frase até soam estranhamente mal.

Portantos, o que dizer ou escrever quando ainda nem Montemor-o-Novo tinha desaparecido no horizonte traseiro e um enlatado armado em totalitária besta alcatroada decidiu ressabiar com a Lata de Apoio Velopático por esta não ultrapassar o intrépido dueto, buzinando e protestando, para no momento em que o traço passou a descontínuo, ultrapassar O Facho para depois guinar violentamente para cima destes vossos dois companheiros, palhaços e amigos do duro circo que é a vida do pedal, numa claramente ameaçadora e propositada manobra de aventesma?

A grande piada reside no facto de no interior da lata, para além do deplorável e cheio de pressa amostra de bicho humano que acardita que o alcatrão foi inventado para si, seguiam quatro pequenos petizes nos assentos traseiros – que belo exemplo para as gerações futuras ali estava!

Parcos quilómetros depois e a noite envolveu as belas planícies, podendo o dueto pedalar à vontade pelo alentejano âmago da Mítica Estrada Nacional 2 vazio de stressantes enlatados, concentrando-se apenas na qualidade do alcatrão que parecia transformar-se de urbe iraniana em paisagem lunar.

Mas o destino pregava uma valente partida ao dueto, ainda nem cinco quilómetros decorridos após deixar terras montemor-o-noveoenses para trás e já a primeira das baterias, tanto a do Velopata como a de AAA indicavam necessitar de chop-chop eléctrico.

Alcáçovas e o seu famigerado pavê, que o Síndroma de Stress Pós-Traumático não deixa um Velopata lembrar o suplício que é lá passar, ficaram para trás e já bem perto dessa marafada localidade que é o Torrão, carregava um Velopata na frente sentindo a adrenalina pulsar nas suas veias quando novamente AAA iniciou complicadas negociações com o Homem da Marreta.

Epá não dá para reduzires o ritmo? – pediu um visivelmente escalafrado AAA.

Vá, faltam menos de duzentos quilómetros! Isto agora é um tirinho até Faro! – tentou o Velopata motivar.

Sabes… Estou com medo do Caldeirão… Acho que não vou aguentar…

Alguma vez haveis feito a subida do Caldeirão por este lado? – questionou o Velopata.

Acho que não.

Então não vos preocupais. Comparado com o que eles já fizeram, aquilo nem é bem uma subida.

É, é… Já estou a ficar mesmo todo rôto… Nem sei se consigo chegar lá, quanto mais…

Por favor não o lixais agora. Não sentis já o cheiro na atmosfera a fama, fortuna e glória velocipédica? – o Velopata nem acarditava nas sensações que a pululante pelas suas veias adrenalina lhe transmitia, o seu bonito corpo etíope nenhuma dor sentia, dir-se-ia ter acabado de sair do conforto do lar para uma pequena pedalada.

A única coisa que sinto é o empenão. E a falta de sono está a dar cabo de mim. Podemos parar aqui no Torrão?

Já estais vendo duendes na berma da estrada ou bovinos voadores côr de rosa?

Hã?

Vês? Se ainda não estais alucinando é porque o corpo aguenta mais!

Epá, tenho mesmo de parar, beber um café e descansar um pouco.

Seja feita a sua vontade! – notificou o Velopata, enquanto percebia que mais uma das baterias para os faróis da Estrela Vermelha e Cigarra findavam sua actividade luminosa.

Com cafeína e açúcar embutida nos seus sistemas AAA pareceu melhorar ligeiramente, continuando com aquele xarengado discurso do se calhar não vou conseguir o Caldeirão vai ser muito duro para mim, levando um Velopata a equacionar modos e maneiras de ludibriar AAA para que o empenado moçe nem percebesse que estava a atravessar aquelas últimas duras rampas algarvias que finalizariam o acumulado de toda a jornada.

É que depois de tudo o que haviam passado e sobrevivido, desistir não era opção válida.

Novamente lançados ao alcatrão, o Velopata tentava manter a mente de AAA distraída do empenante chamamento do Homem da Marreta quando mais uma dose de baterias para os faróis terminava sua carga electrificada.

Mas que raios?… – pensou o Velopata para com o fecho éclair do seu colete reflector da B´Twin da Decathlon ou da Decathlon da B´Twin – Como é isto possível? Se as baterias foram carregadas na totalidade e cada uma leva quatro horas a gastar, como podem eles estar pedalando à três horas e já ter gasto três de modo a que ele e AAA já só têm uma disponível para cada um? Se três vezes seis é dezoito… Uai, mas queres ver…

E foi com Ferreira do Alentejo no horizonte que Velopata e AAA perceberam que a carga da última bateria encontrava-se pelas ruas da amargura e que esta não seria suficiente para atingirem seu destino.

Pela uma hora da madrugada de segunda-feira, já dia vinte e dois do mês de Outubro deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito, dois mafarricos armados de Bicicletas full carbon e um enlatado procuravam por um refúgio aberto em Ferreira do Alentejo que pudesse providenciar alguma corrente eléctrica para poderem alimentar suas depletadas e moribundas baterias.

Encontrando apoio junto da sempre presente e disponível corporação de Bombeiros Voluntários, estes revelaram-se de uma simpatia tremenda, fazendo esquecer os raros cromos montemor-o-novuenses ao presentearem o dueto com café e até uma cama caso se quisessem deitar por uns momentos.

Nem quinze minutos decorridos da electrificante alimentação das baterias e O Facho avisou, soando a sua voz como a de um arauto da desgraça;

Malta, não querendo ser chato mas… Vamos ficar aqui muito tempo?

Uai, eles vão ficar o tempo necessário a carregar as baterias. – explicou o Velopata.

Isso é mais ou menos quanto tempo?

Aí umas quatro horas?

Quatro horas?!?!?! – bradou O Facho.

Duzentos e quarenta minutos mais coisa, menos coisa. Porque perguntais?

Porque às nove da manhã tenho de estar em Faro e…

Como assim tendes de estarem Faro?!?!?!

Tenho uma reunião comercial muito importante. Não posso faltar.

Velopata e AAA trocaram olhares derreados.

Fazendo as contas (três vezes seis é dezoito), só pelas cinco horas da manhã o dueto poderia deixar Ferreira do Alentejo para trás para devorar os últimos cento e cinquenta quilómetros da jornada, implicando a notificação da reunião dO Facho que ambos os dois teriam de calcorrear essa distância em quatro horas.

E isso era só impossível.

Olhos marejados de lágrimas, o Velopata informou AAA que inclusivé após tanto tempo ali parados ao nocturno e inóspito frio alentejano, não existiam condições para continuar.

Estrela Vermelha e Cigarra novamente acomodadas na Lata de Apoio Velopático e o trio rapidamente procurou a entrada mais próxima da autoestrada e seguiu para Faro após despedir-se dos espectaculares Bombeiros, um Velopata tentando constantemente não irromper num choro pior que o do Velopatazinho quando as músicas do Canal Panda terminam, AAA há muito a trabalhar na sua imitação dos rolos de treino.

E sem seios pululantes ou fêmeas excitadas a travessia da Mítica Estrada Nacional 2 chegava ao fim.

O que terá acontecido para as baterias não se encontrarem carregadas na sua plenitude como O Facho referiu que as havia carregado, até hoje um Velopata não sabe, o que ele sabe sim é que para o próximo ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezanove, este é já um desafio na agenda.

E da próxima vez em autonomia, para que nada dependa de terceiros.

 

Epílogo

Só muitos dias depois do desastroso final da aventura, O Facho confidenciou ao Velopata que naquele fatídico final de tarde, ficou com sérias dúvidas que as baterias tivessem carregado completamente, tal o estado das tomadas que o antipático compadre do tasco montemor-o-novoeuense indicou para ele as colocar a carregar.

E só então, O Facho mostrou a foto que tirou.

tomadavelha

E é esta a razão de toda esta série de textos se intitular “A Tomada da Mítica Estrada Nacional 2”.

Alguém devia mandar lá a ASAE.

Só para castigo.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

 

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Um comentário sobre “A tomada da Mítica EN2 – a não assim tão épica conclusão

  1. Pingback: Uma Escapadela Altimétrica – parte I – Blog do Velopata

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