A tomada da Mítica EN2 – parte III

Tendes a certeza que aquilo são relâmpagos?

O Velopata questionava o Agente da Autoridade Anónimo numa extenuante luta entre conseguir injectar golfadas de precioso oxigénio nos pulmões tentando não bolsar quiçá até regurgitar as anteriores opções alimentares proporcionadas pela visita ao McDonald´s biseuense forrada pelas sobremesas gentilmente fornecidas por Professor Carochas, no decurso de uma excruciante subida para Fail, incontornável localidade a quem se lança à fama, fortuna e glória velocipédica ao longo da Mítica Estrada Nacional 2, e cuja nomenclatura anglosaxocamónica só poderia ser interpretada como um arauto da desgraça.

Não que bifesismos cámonices inscritos em letras negras sobre um fundo branco fossem capazes de abater a chama velocipédica que o dueto sentia; rijos como estes dois vossos companheiros, palhaços e amigos do duro circo da vida do pedal são, Velopata e AAA cerraram dentes no guiador e fizeram a única coisa que um atleta pode fazer quando confrontado com a adversidade sob a forma de um precipício.

Dar um passo em frente.

Se bem que tal, fazem os praticantes desse desporto menor que é a bola.

Os Ciclistas dão uma pedalada em frente. Assim é que é.

Então mas se não são relâmpagos, o que achas que são aqueles flashes? – indagou AAA.

Podem ser OVNIS. Sabeis que existem muitas histórias de Objectos Voadores Não Identificados a pulular pelas serras portuguesas.

Uhm… Não me parece. Até porque só tu é que fumas esses tabacos esquisitos de enrolar e eu também estou a ver as luzes.

Erh… Pois ele vai fingir que não percebeu a piada que tentáveis esgrimir mas olhai, sabeis que em longínquos tempos idos da infância velopática, existia uma danceteria na vizinhança de seu lar que nas noites de festa rija apontavam holofotes para o céu. Não será isso?

Não me parece que aquelas flashadas sejam luzes de uma discoteca.

Radares a fotografar enlatados prevaricadores?

Só se já andarem por aí carros voadores.

Quê?

Carros, carros voadores.

Hã?

Latas! Latas voadoras.

Ah pois… Nesse caso, não será fogo de artifício de alguma terreola em festa?

Acho que ainda estamos na época em que isso está proibido devido aos incêndios.

Ah! Eureka!

Então?

São paparazzis que vêm fotografar a passagem da caravana velopática!

Pois… Essa é a hipótese que faz mais sentido sim. Uma coisa é certa, aquilo é tudo menos mau tempo.

Certamente, pois estais esquecendo a importante deontologia velopatóide.

Que é?

Não existe mau tempo, só mau equipamento.

Actualmente, volvidas semanas após estas palavras proferidas pelo Velopata, mais do que nunca ele equaciona dar ouvidos às recomendações da Srª Velopata, aprendendo que, por vezes, é melhor ele manter os seus bonitos lábios cerrados, ficando calado. É que certamente essa meretriz do São Pedro estava à escuta e preparava já uma daquelas lições de vida para aplicar a esse armado ao ultraciclista Velopata mas lá está, não vamos queimar etapas que isto não é a organização da Volta a Portugal.

Com essa premonitória terra de Fail para trás, seguiam-se uns quilómetros descendentes e rolantes até ao que se previa um complicado momento de orientação e navegação por Garmin e Strava e GPS coiso; a pedalada pela zona onde os jericos das Estradas de Portugal & CIA. acarditaram que a Mítica Estrada Nacional 2 devia ser transformada em IP3, um blasfemo troço de alcatrão no qual apenas o opressor enlatado pode circular.

Neste ponto do espectacular texto velopatóide, é importante salientar que o Velopata atribuíu a AAA a crucial tarefa de desenhar o percurso, rota e coiso, não apenas por AAA já contar no seu currículo com uma tentativa falhada de glória velocipédica atravessando a Mítica Estrada Nacional 2 em um só registo strávico (sem a companhia velopática e com um moçe por entre as fileiras desse pelotão cujo nome de guerra velocipédico era Enlatadomeu, como esperava AAA que aquilo chegasse a bom porto?!?!), como também por este ter convencido o Velopata que aquilo não era bem uma estrada que se faria sempre em frente, facto que o Velopata já tinha ouvisto na internet ser referenciado por outros intrépidos aventureiros das duas rodas sem motor.

Mas nada podia preparar um Velopata para o que se seguiria.

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O intrépido dueto prepara a entrada no marafado IP3 coincidindo esta com o início da pedalada nocturna; Estrela Vermelha e Cigarra são equipadas com faróis e luzes, coletes reflectores são vestidos, óculos de visão nocturna são colocados e um cigarrito é fumado pelo Velopata (como é óbvio).

Se por um lado AAA havia irrepreensivelmente preparado toda a sua logística necessária a tamanha epopeia, como já referido na primeira épica parte desta longa jornada (não faz sentido estar a ler a segunda sem a primeira que podem encontrar aqui), trazendo consigo um infindável número de mudas de roupa, um ainda mais infindável número de peças suplentes, ferramentas, bugigangas velocipédicas e, imagine-se só, até recuperadores e proteínas e coiso daquelas uéi, o que poderia um Velopata opinar quando o track da rota do percurso e coiso estavam ausentes do seu Garmin?

Muitas paragens, inversões de marcha, depois mais paragens com mais inversões de marcha e um Velopata desaustinou como quem desaustina mesmo;

Atentai Agente da Autoridade Anónimo, tendes a certeza que eles estão no caminho certo?

Acho… Acho que sim.

Achais ou tendes a certeza?

Acho que sim… Fazemos esta estradinha aqui, mais lá à frente viramos, depois temos mesmo de fazer um ou dois quilómetros no i pê três, depois saímos e viramos à esquerda, depois à direita e uns quilómetros depois entramos novamente no i pê três e… – AAA começava a rambiar como quem rambia mesmo.

Olhai que ele tem uma ideia. – o Velopata interrompia a sessão de rambianço.

Então?

Porque não fazer logo o i pê três de seguida?

Epá, ó Velopata, pedalar no i pê três é proibido.

Proibido devia ser desenhar estas borregadas alcatroadas, além de que lhe parece que estais esquecendo que a Bicicleta tem o Divino Direito de poder pedalar onde bem lhe aprouver.

Isso é tudo muito bonito mas e se aparecer a Polícia?

Uai, não acreditais que podeis falar com vossos colegas de métier e deixar passar essa prevaricação impune? Ou tendes medo que sejam daqueles policiais que todos os policiais odeiam, tipo os bufos e chibos dos Assuntos Internos? É que seria muito azar se andasse para aqui um enlatado dos Assun…

Isso não existe cá em Portugal.

O que é que não existe?

Isso dos Assuntos Internos.

Bem, de que tendes medo então?

Olha, neste momento tenho medo de andar aqui a perder tempo, às voltas e perdido.

Devias ouvir o que ele diz, seguir pelo i pê três e pronto.

Estou a ver que o Velopata é teimoso e de ideias fixas. E se aparece a Polícia pá?

Pode-se sempre tentar a cena deles serem estrangeiros lá de fora.

Como assim?

Fala-se com os policiais em estrangeiro, o Velopata pode dizer algo como Dimmu Borgir Burzum Satyricon e tu respondes Marduk Gorgoroth Amorphis. – o Velopata carregava no que seria uma espécie de sotaque sueco, uma fraca tentativa de imitação do celebrado Chef dos Marretas.

O que raios foi isso que tu disseste?

São nomes de bandas de metal nórdico daquele do Demo mas passam bem por linguagem dos estrangeiros lá de fora, contando que nenhum dos policiais seja metaleiro.

Epá, temos mesmo de parar.

Uai, que foi agora?

Acho que virei ali da outra vez.

Então pá?!?! Estão perdidos? – berrou O Facho da entretanto também já imobilizada Lata de Apoio Velopático.

Não, em primeiro lugar eles nunca se perdem, estão simplesmente gármicamente desorientados! Depois o Agente da Autoridade Anónimo acha que temos de virar aqui! – ripostou o Velopata.

Vem aí a bófia?!?! Onde? – O Facho virava a cabeça em todas as direções, notóriamente gazeado.

Mas quem é que falou em bófia pá… O Agente da Autoridade Anónimo é que acredita que devem virar aqui!

Hã?

O Amílcar. O Amílcar acha que tem de se virar aqui!

Ah, prontos! Mas olhem que o GPS do carro diz que é para seguir em frente! – avisou O Facho, visivelmente almariado por a lata se encontrar mal estancionada numa curva no breu nocturno de… Bem, sabe-se lá onde eles se encontravam, uma vez que a única placa que o Velopata conseguia vislumbrar no horizonte indicava que Valverde seria o lugar civilizacional mais próximo e que, por sorte e fruto do gazeanço que o dueto sentia, escapou impune às piadas velopáticas dedicadas a esse Ciclista murciano que, desconfia o Velopata, é de algum modo aparentado ao moçe daquela película do Brad Pitt e o borrachinho Cate Blanchett, o estranho caso de um tal de Benjamin Botão.

Jamais um Velopata confiará num outro GPS que não o Garmin e muito menos um gêpêésse proveniente de uma lata! – informou o Velopata.

Pôrra pá… – bradou AAA como quem brada mesmo.

Que foi?

Acho que o track que tenho é o errado.

Define errado.

Trouxe o track da outra tentativa, quando andámos aqui às voltas e com estes ecrãs pequenos não consigo perceber nada.

mui orientado leitor nunca poderá ver, exceptuando se algum dia privar uma bela pedalada com o Velopata, mas a sua resposta a esta última afirmação de AAA mais não foi que um contundente silêncio acompanhado de um fulminante olhar digno de uma Euronews – no comments. Ignorando aquele fulminante olhar que o Velopata aprendeu com a Srª Velopata, sempre que ele fala sobre adquirir uma nova montada, AAA continou;

Acho que só há uma solução. Vou tentar a georeferenciação da cache pela orientação do Strava através do satélite dos dados móveis da navegação online do mapping e bluetooth do percurso.

(Nota velopatóide: a transcrição acima não é de todo a mais fiel ao que AAA proferiu, é apenas o que o Velopata percebeu.)

Ah… Faz isso sim. Ele vai aproveitar e fazer uma outra coisa muito importante.

O quê?

Fumar um cigarro.

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Certamente que por terras de Madeira Sagrada (Hollywood, em cámone), há produtores que terminando a leitura deste texto equacionam a realização de uma películazorra de aventura, acção e mistério com um pomposo título como “Em Busca da Nacional 2 Perdida” ou “E tudo o IP3 levou”, sendo Velopata e AAA representados por actores menos bonitos e com menos cabelo, como um Jason Statham ou Vin Diesel, mas capazes de descobrir a Mítica EN2 sem recurso ao Garmin e sim à bordoada, esbofeteando javalis, cobras e um ou outro incauto bambi que não queiram desembuchar sobre que rota seguir.

Já sei! – exclamou um extasiado AAA após o que pareceu uma eternidade a um Velopata que equacionava já o fumo de um outro cigarro.

Então?

É por aqui mesmo, afinal tinha razão! Temos de virar aqui à direita e depois é sempre na mesma estrada até Penacova!

Tendes a certeza? É que aquela não parece uma estrada lá muito simpática até para os padrões de um comum enlatado, quanto mais para uma Bicicleta…

É por aqui sim, siga!

De acordo com o Diccionário Português, versão Acordo Ortográfico isento de Organismos Genéticamente Modificados, a palavra “Aventura” é um substantivo feminino que significa colocar-se em risco, sujeitando-se à ventura.

Lançado como ia Agente da Autoridade Anónimo por aquela pseudo-estrada de uma largura tão mínima que um só enlatado lá mal caberia, com restos de árvores, galhos, ramos, troncos, raízes e pedras em monte, aquilo não parecia própriamente uma sujeição à ventura aos bonitos olhos castanho-esverdeados velopáticos, aparentando-se mais com um jogo de Playerstation onde o objectivo consistia em sobreviver às curvas cegas e sinuosas descidas, desviando-se nos últimos instantes dos referidos obstáculos.

E se este era um cenário qual Pac Man velocipédico, o que dizer quando o que só pode ser interpretado como o Boss de Nível (termo anglosaxocamónico utilizado pela pequenada na infância velopática para descrever aquele computadorizado adversário que era mais lixado de ultrapassar que o Malhão engatado na talega), tentou atirar o Velopata ao chão?

Como se já não bastassem os pombos da baixa farense, agora era a vez de uma Coruja (Strix aluco), tentar derrubar pelo alcatrão as aspirações velopáticas à fama, fortuna e glória velocipédica.

Sorte velopática que através da nítida visão periférica proporcionada pelos espectaculares óculos de visão nocturna da Decathlon da B´Twin (ou será da B´Twin da Decathlon?), no último instante o Velopata conseguiu desviar o seu espectacular Kask Mojito, que até pandã faz com a Estrela Vermelha, sobrevivendo assim a um Encontro Imediato Nocturno de Rapinácio Grau entre a sua bonita face e a coruja, finalizando imaculado este atroz segmento da epopeia, não deixando de registar duas importantes notas mentais;

  • proibir AAA de ficar responsável pelos percursos, rotas e coiso;
  • procurar uma loja de memorabilia policial vintage e tentar adquirir um cacetete daqueles com a peçinha em metal junto da pega, para depois descobrir quem foram os responsáveis por esta asinina manobra de transformar a Mítica Estrada Nacional 2 em IP3, chamando aquela borregada alcatroada de “alternativa”.

Com os relógios digitais dos Garmin (como será o plural de Garmin? Garmins? Garmines? Ou por ser uma palavra não oxitonofílica ou lá o que é, mantém-se Garmin? E como consegue um Velopata dormir o soninho recuperador bom com estas fulcrais questões humanitárias a perturbarem sua mente?), a indicarem vinte e duas horas do dia vinte de Outubro deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito, o dueto via Penacova aparecer no horizonte.

Olha, o Velopata está aqui a pensar com o fecho éclair do seu colete reflector.

Uhm… Não sei se vem daí coisa boa. – atacou de imediato AAA.

Esperai e ouça o que ele tem a propôr. Como o Professor Carochas disse, eles agora vão entrar numa série de subidas bem duras e por território inóspito e pouco civilizado. Tendo em conta que já são dez da noite, se calhar não era má ideia procurar aí algum tasco onde se pudesse fazer uma refeição séria e quente, não?

Vai na volta e tens razão. É boa idea sim, paramos aqui em Penacova então.

É claro que é uma boa ideia! Alguma vez haveis ouvisto o Velopata ter más ideias?

AAA seguiu a estratégia que tantas vezes a Srª Velopata segue (há aqui um padrão…), e não respondeu, tendo o dueto abandonado por fugazes quilómetros o alcatrão da Mítica Estrada Nacional 2,  lançando-se na demanda de um tasco penacovense que lhes pudesse providenciar o conforto estomacal que já muito mereciam.

Passando a ponte que delimita a fronteira da Mítica Estrada Nacional 2 com a entrada em território penacovoense, Velopata e AAA ouvistaram um pequeno tasco refundido por entre umas habitações, destacado por um ajuntamento de cidadãos da brigada geriátrica à porta, o problema é que mal o aventureiro dueto vislumbrou o interior das instalações do tasco, a ideia com que ambos os dois ficaram é que certamente o departamento da ASAE de Penacova está em défice de pessoal.

Questionados os penacovienses à porta do como-é-que-isto-ainda-não-foi-fechado tasco sobre um local que pudesse providenciar uma séria e quentinha refeição ao trio, por entre muitos soluços bafientos de alcoól misturados com o que parecia simples eructação ou um estranho sotaque do estrangeiro do norte do país, Velopata e AAA conseguiram perceber que na habitação imediatamente a seguir poderiam encontrar o que tanto buscavam.

O Restaurante Côta D´Azenha.

Só existia um problema.

Onde deixar as nobres montadas, Estrela Vermelha e Cigarra?

Deixá-las no exterior, longe do supervisionante olhar velopático estava terminantemente fora da equação, tendo o Velopata sugerido que o trio se alimentasse por fases; enquanto dois davam ao serrote, outro esperaria no exterior.

Como ninguém liga pêvas ao que o Velopata diz ou escreve, AAA decidiu fazer usufruto do seu bom senso, simpatia e sagacidade certamente adquiridas no decurso das suas funções enquanto distribuidor de bordoada com crachá, para além da melhor apresentação visual que a do Velopata (com lóbulos dilatados, tatuagens de simbologia esquisita e uma magreza somali, aos olhos dos nativos ele não passaria de um miserável tóxicóindependente estrangeiro por ali perdido), e tomando as rédeas da situação seguiu para o interior do restaurante, tentando apurar se o dueto poderia de algum modo fazer ali a sua refeição com as nobres montadas sempre sob supervisão.

Os mui queridos leitores saberão, pela já vasta experiência de leitura, que o Velopata é um moçe muito hesitante quanto à generosidade e empatia e coiso dos nativos deste terceiro calhau a contar do Sol, no entanto, raras vezes há em que os bichos humanos mostram um altruísmo tal que um Velopata mais não pode senão sentir-se esbofeteado pela parca esperança que nasce nos recantos mais escuros – o que dizer dos donos de tão humilde estabelecimento que, provavelmente conhecendo as agruras que aguardavam o intrépido dueto, permitiram o acesso à cave do referido espaço, podendo deixar aí as suas nobres montadas em salvaguardado descanso?

A juntar a toda esta bondade, foi ainda permitido o acesso aos lavabos, tendo o Velopata reparado que parece existir um qualquer recalcamento nos estrangeiros do norte do país, quanto ao posicionamento habitacional dos quartos de dar banho.

Porque razão, exceptuando no quarto triplo do hotel de uma só estrela, felizmente Michelin, em Chaves, todos os quartos de dar banho visitados pelo Velopata no estrangeiro do norte do país se localizam em pisos diferentes do resto das divisões? Porque razão era sempre necessário subir e descer infindáveis patamares de escadas para dar vazão à bexiga ou à tripa? Que paranóia com os declives seria esta?

Enquanto o Velopata matutava nestas importantes questões filosófico-sociais, ele entrou no salão do restaurante Côta D´Azenha, questionando-se ainda se em Penacova o vegetarianismo também seria considerada uma doença quando a voz dO Facho entoou um aviso;

Cuidado que ainda arranjas para aí um torcicolo…

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Se algum dos mui queridos leitores se encontrar ao pedal em Pénacova, este é um local de recomendação velopática para dar ao serrote e como o mui rebarbado leitor verá já de seguida, com alguns motivantes extras incluídos.

Quando o Velopata virou aquele seu pescoço que apesar da viril barba todas as fêmeas sentem vontade de encher de beijos, o primeiro pensamento que percorreu a velopática mente foi que de algum modo ele encontrava-se literalmente com o pé na cova, tendo falecido no decurso do tenebroso segmento do constante entra-e-sai do IP3 e nem se apercebendo disso estaria agora no que só poderia ser uma espécie de Além Velocipédico ao estilo islâmico, não obstante a diferença que elas aparentavam ser muita coisa menos virgens – uma mesa únicamente composta de moças boas, daquelas boas, mesmo, mesmo boas e que nem pareciam ser provenientes de Ermesinde.

Ante a visão daquela maravilhosa mesa, baba escorria pelos queixos do trio (exceptuando AAA pois a Srª AAA também lê estes textos e o Velopata não lhe quer arranjar problemas conjugais, muito menos desfazer esta espectacular dupla), quando a simpática Funcio… Trabalh… Colaboradora do Côta D´Azenha se aproximou da aventureira mesa para recolher os pedidos da esfomeada troupe;

Então, já escolheram?

Já sim, para mim pode ser um Bitoque. – informou AAA.

Olhe, para mim podem ser os Secretos de Porco Preto. – afirmou O Facho.

Olhe, ele fica-se por um rodízio naquela mesa! – o Velopata apontava na direção das boas, mesmo, mesmo boas.

(Nota velopatóide: como é óbvio o Velopata jamais seria capaz de proferir semelhante brejeirice rebarbada, nunca esquecendo que ele é tipo cão a pilhas estilo Pincher miniatura – ladra muito mas não morde; mas se ele escrevesse que esta espécie de herança genética de trolha que habita em todos os viris machos de bicho humano não lhe fez passar pela cabeça semelhante badalhoquice, estaria a mentir e isso é algo nada desejável neste espaço velocibernético.)

Mentalmente anotando os pedidos de AAA e O Facho, a Garçonette repousou o olhar sobre o Velopata que continuava a sua inglória busca através do cardápio em formato livro que tinha servido de guia ao bárbaro pedido dos seus comparsas; um pobre bovino ou suíno chamado Bitoque, assassinado, retalhado e cozinhado encontrava-se fora das opções gastronómicas, já suíno de côr (o Velopata não partilha do racismo dO Facho), ainda por cima partes secretas do cadáver desse mesmo suíno, era algo ainda mais fora de questão.

Olhe, ele pede desculpa mas não tem nada para comer que não seja cadáver? – questionou o Velopata.

Como? Desculpe mas não percebi… – retorquiu a Garçonette.

Não ligue que isto é esquerdalha com a mania que é evoluído e não come animais. Tem alguma coisa que dê para um vegetariano comer? – interviu O Facho.

Posso falar com os cozinheiros e eles fazem uma omelete. Pode ser? – mui prestável, a Garçonette também era gira. Não como as de Ermesinde mas com o seu je ne sais quois, nunca esquecendo o milenar provérbio chinês – deitadas e no escuro aquilo é tudo igual.

Depende, sabe a proveniência dos ovos?

Isso sei sim, os ovos vêm das galinhas criadas pelo dono do nosso restaurante.

E são bem tratadas? Vivem ao ar livre e vêm horas suficientes de luz solar?

Penso que sim.

Então pode ser, venha daí essa mixórdia de abortos galináceos.

Como?

Nada, nada… Já agora, podeis juntar uns cogumelozitos ou algo assim mais substancial à omelete?

Sim, claro, sai uma omelete de cogumelos então. E o que vão desejar para beber?

Um jarro grande de tintol da casa, não? – propôs o Velopata à restante mesa.

Para mim pode ser uma Cola se faz favor. – respondeu AAA.

Uma Fanta. – pediu O Facho, devendo o mui educado leitor notar que à semelhança de tantos outros bichos humanos portugueses, também O Facho tem ausente do seu léxico palavras como “por favor” ou “se faz favor”.

Olhe, pode ser uma Cola para ele também se puder fazer o obséquio… – pediu um comiserado Velopata.

Com a Garçonette longe da mesa, foi AAA quem desferiu o primeiro ataque;

Mas tu és maluco ou quê? Achas que me vou pôr a beber vinho tinto antes do que nos espera?

Devíeis saber que os grandes Ciclistas de outrora bebiam alcoól para amortecer as dores corporais e…

Se bebesse um copo de tinto que fosse, metia a Cigarra no carro e ia mas é dormir! – interrompeu AAA.

E eu provavelmente ainda vos atropelava… – sublinhou O Facho.

Fracos… – murmorou um Velopata entredentes até porque a sua atenção foi automaticamente desviada pelo disparar do seu Radar de Trolha, avisando a rebarbada visão velopática que uma das boas mesmo, mesmo boas, alevantava-se da respectiva mesa e desfilava pelo salão do restaurante; alardeando aqueles negros saltos altos, pernões que se anteviam torneados pelos bonitos e apertados leggings, bumbum safadão naturalmente empinado, prateleira saliente parcamente envolvida por um decote que deixava perceber que aquelas glândulas ainda apontavam para cima.

Epá Velopata, tendes de ter calma… – pensou o Velopata para com o fecho éclair do seu jersey – Nem o Velopatazinho se babava tanto quando os dentes começaram a nascer.

Pouco tempo depois, a Garçonette regressou com as opções gastronómicas penacovuenses do trio, lançando-se os três a um frenesim alimentar que faria inveja a um qualquer cardume de tubarões famintos.

Se dúvidas existissem entre quem seriam os Ciclistas à mesa e quem seria o moçe do apoio e civil que não pedalava, bastaria um rápido vislumbre pelos pratos do trio para perceber; AAA e Velopata de pratos vazios, só não lembendo os dedos, pratos e talheres pois tal gesto podia terminar mal interpretado pela mesa das boas mesmo, mesmo boas, já O Facho deixava um sem número de restos do cadáver de suíno de côr, provavelmente aquelas partes que indicavam tratar-se de um macho, daí serem apelidadas pelos Chefs que as cozinham de secretas.

Alevantada a louça da mesa da caravana velopática, chegava a vez da Garçonette apresentar as sobremesas e…

Mas será que à semelhança dos chavenses, também os penacoviuenses não têm um doce tradicional? Será Penacova uma localidade tão desenxabida que o único produto exportado é saudável e basicamente é… Água?

Xarengado, desaustinado, almariado e coiso, um Velopata juntou-se aos restantes comparsas na recarga cafeínada, deslocando-se depois até ao exterior para aquele que o mui viciado leitor entende, o cigarrinho pós-refeição com aquele sabor especial e enquanto regressava ao interior, a bexiga velopática começou a retesar como quem retesa mesmo, indicando que estava na hora de descer um infinito patamar de escadarias, tarefa sempre facilitada quando se utilizam sapatos de encaixe com solas full carbon aero carbon.

Recorrendo a toda a sua destreza, o Velopata descia aquele lanço de intermináveis escadas qual cauteloso pinguin, quando atrás dele ouviu um outro conjunto de cleats que deslizavam pelo escorregadio mármore. Questionava-se o cérebro velopático sobre que outro pelotão de Ciclistas poderia encontrar-se ali a descer as escadas quando o Radar de Trolha voltou a disparar – um trio de moças da mesa das boas mesmo, mesmo boas seguia-o para os lavabos em amena cavaqueira, percebendo-se pelas feromoinas que emanavam que vinham alcoolizadas.

E o Velopata pensou a única coisa que um másculo Ciclista podia pensar.

Estava ali a sobremesa tradicional que Penacova ia proporcionar ao Velopata.

Contando que elas sobrevivessem à fragância que o Velopata emanaria, quando loucas de luxúria o despissem e livrassem dos full aero bib shorts já com umas valentes horas pedaladas.

Ah! Ah! Ah! Já viram? O Senhor Ciclista parece nós a descermos as escadas! Vai todo torto! – comentou uma das boas mesmo, mesmo boas para as outras, lembrando um Velopata das semelhanças que existem entre Ciclistas que tentam mover-se a penantes e fêmeas que recorrem a saltos altos para a sua locomoção sexy.

Gargalhada geral e como um Velopata já desconfiava que elas vinham de lá com ideias de fazer uma órgia no quarto de dar banho, não resistindo à sua bela aeropenca e espadaúdo corpo somali, pelo sim, pelo não, ele optou por trancar a porta dos lavabos para não as desiludir explicando que no conforto do lar farense, uma querida Srª Velopata aguardava o seu regresso, preferencialmente inteiro.

Ocupado com a redução do seu nível hídrico e o besuntamento das partes viris com o mágico creme da Assos, o Velopata foi surpreendido por alguém que batia à porta;

Quo vadis? – questionou o Velopata.

Hã? – o Velopata reconhecia a voz de AAA do outro lado da porta.

Ah, és tu. Ele pensou que pudessem ser umas boas possuídas de desejo carnal.

Então?

Algumas delas estão aí no quarto de dar banho do lado. Desceram as escadas com ele, fazendo piadolas sobre ele parecer uma noz.

Queriam-te partir todo? – indagou AAA.

Pois, devia ser isso.

Lastro foi deslargado, níveis hídricos foram reduzidos, creme foi besuntado e equipamentos foram aprimorados, aproveitando o dueto para trocar umas impressões sobre o restante cardápio da nocturna pedalada que os aguardava;

Bem, estás pronto para começar a subir a sério? – questionou AAA.

Uai, até agora eles subiram a brincar?

Não é isso. Passando Góis, temos aí uma subida que vai levar uma hora ou mais a ultrapassar.

Estais esquecendo outra importante regra do Código Deontológico Velopático.

Que é?

Ele nasceu pronto.

Boa, boa. Então não será preciso avisá-lo da descida para Pedrógão.

Sabeis que essa é uma terra que mexe com os sentimentos velopáticos?

Como assim? Por causa da cena dos incêndios?

Não, porque nenhuma palavra em português tem dois acentos como Pedrógão tem, o acento agudo no o e o til no a.

Deve ser devido à descida.

Uai, mas o que tem essa descida?

Logo vês, logo vês…

Notificando os Colaboradores do excelente estabelecimento Côta D´Azenha que o dueto estava pronto para pegar em suas nobres montadas e partir à aventura, eis que o próprio dono do restaurante, um simpático cidadão sénior penacovauense escoltou o dueto até à adega, fazendo questão de questioná-los sobre porque razão andavam por ali, pedalando a altas horas da noite.

Explicando que se encontravam em busca da fama, fortuna e glória velocipédica percorrendo a Mítica Estrada Nacional 2 de um só registo strávico, a reacção do dono foi semelhante à de muitos outros – um arrebatado silêncio de difícil interpretação; seriam humanos feitos de outra rija cepa ou pura e simplesmente mafarricos sem um pingo de noção e bom senso?

Despedidas feitas com votos de boa viagem, o intrépido dueto deixou a refundida cave para procurar a Lata de Apoio Velopático estancionada à porta do restaurante, repondo água e bebida isotonofílica nos bidons, recarregando bolsos com barras e barrinhas de energia para salvaguardar alguma quebra açúcarada.

Rapidamente AAA lançou-se ao alcatrão seguido pelO Facho e no exacto momento em que também o Velopata se preparava para lançar a Estrela Vermelha nos quatrocentos e oitenta e nove vírgula dois quilómetros que faltavam percorrer, eis que o Santo Padroeiro da Rebarba (cujo nome o Velopata desconhece), abençou-o com a saída do restaurante da alcateia das boas mesmo, mesmo boas.

Óbviamente que o Velopata não podia simplesmente partir – teria de aguardar e assistir à passerelle de belas pernas, traseiros empinados e prateleiras salientes que desfilavam na sua frente.

Rebarbados minutos depois, as boas mesmo, mesmo boas desapareciam nas suas latas e o Velopata, limpando a baba que humedecia a viril barba (não vá descobrir-se com alguma daquelas experiências científicas da internet que a produção de baba para cima dos quadros e componentes prejudica a durabilidade e performance), pode então lançar-se ao alcatrão, encontrando AAA e O Facho imobilizados perto do início da ponte que marcava o retorno à Mítica Estrada Nacional 2, no entanto, ambos os dois não estavam sós.

Actualmente, um Velopata ainda desconhece as razões que levaram aos acontecimentos a seguir relatados; um jovem moçe, visivelmente mócado ou alcoolizado, berrava bem na face de AAA;

Olha lá… Queres andar à porrada ou não?

Não, não… Deixa estar. – frisava AAA.

Vá lá, anda lá à porrada um bocadinho… – insistia o janado.

Não posso agora.

Deixa lá a bicicleta e anda andar à porrada!

Epá ó Amílcar, isso é esfregona, não ligues. – intervia O Facho do interior da Lata de Apoio Velopático (se o mui desconhecedor leitor não sabe o que é uma esfregona, clique neste link da Cicloperegrinação e trate de se cultivar).

Mas que raios se passa aqui? – questionou o Velopata, recém chegado junto da troupe.

Olha, outro ciclista. E tu? Queres andar à porrada? – o moçe desviava a atenção de AAA para o Velopata, desafiando-o.

Deixa estar esse gajo e anda daí. – sentenciou AAA enquanto engrenava o sapato de encaixe e lançava a Cigarra na direção da Mítica Estrada Nacional 2.

E do mesmo modo como aquele gazeado moçe que procurava zaragata com dois Ciclistas pelas onze horas da noite de sábado em Penacova entrava nesta aventura, assim de rompante e sem o Velopata perceber que razões o haviam levado a querer experimentar a envergadura de asa e tamanho de bíceps para além dos dotes de bordoada policial de AAA, desaparecia no horizonte traseiro do dueto.

Que depressa se voltou a transformar em horizonte traseiro gaseificado, com o dueto a repetir as doses de flatulência descontrolada, sempre com aquele intuito de fortalecer a camaradagem e amizade.

Com Penacova já longe no horizonte, cerca de duzentos e quarenta e sete vírgula três quilómetros pedalados em quatorze horas, trinta e três minutos e quatorze segundos, o dueto atingia as primeiras duras rampas que levariam até Góis.

E aquelas luzes no horizonte?

Não eram luzes de uma danceteria, radares que capturavam prevaricadores enlatados em flagrante delito ou mesmo OVNIS. Verdade seja escrita, São Pedro encontrava-se a atravessar uma difícil fase do seu ciclo menstrual e uma iminente tormenta estava prestes a desabar sobre estes dois vossos companheiros, palhaços e amigos do duro circo que é a vida do pedal.

Mas isso são outros quinhentos (quilómetros).

noite10
Velopata e AAA continuam a sua demanda da conquista da Mítica Estrada Nacional 2, embrenhando-se no breu de territórios inóspitos, à mercê da intempérie que São Pedro se preparava para descarregar.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

 

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Um comentário sobre “A tomada da Mítica EN2 – parte III

  1. Pingback: A tomada da Mítica EN2 – a não assim tão épica conclusão – Blog do Velopata

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