A tomada da Mítica EN2 – parte I

O Velopata acordou em Chaves com aquela sensação de garganta escalafrada e aeropenca entupida, fruto das alternantes temperaturas de final de estação veraneante que se fizeram sentir pelo reino dos algarves e arredores, ao contrário dos seus gloriosos tempos de juventude onde acordar nestes trânmites era sintomático de uma véspera de copofonia e fumanço em monte.

Ai que isto está bonito está… – comentou um Velopata.

Então? – questionaram O Facho e o Agente da Autoridade Anónimo (doravante mencionado como AAA, pois como o mui querido leitor saberá, o Velopata é poupadinho no palavreado), estando AAA já acordado e cumprindo os rituais pré-pedalada (descarga de lastro, duche, etc.), e O Facho ainda no conforto do leito chavense, aproveitando as últimas horas disponíveis para se dedicar à ronha e ao modo de vida suspenso.

Ele está todo entupido, deve vir aí uma gripe daquelas por isso não estranhem se o virem a pedalar sempre de boca aberta – explicou o Velopata.

Já experimentaste assoar-te? – inquiriu AAA, claramente desconhecedor das capacidades sonoras da aeropenca velopática.

Ele não pode assoar-se aqui e muito menos a esta hora.

Como assim?

Alguma vez haveis ouvido a aeropenca em modo excretor de muco?

Acho que não.

Se um Velopata decidir assoar-se agora… O hotel será evacuado, a Protecção Civil de Chaves accionará o Plano de Emergência para Terramotos e os teus colegas da P.S.P. chavense serão mobilizados para procurar e identificar o prevaricador da ordem pública que anda para aqui a soprar vuvuzelas às seis e meia da manhã de sábado. E depois sabes bem como é, sai mais uma sessão de bordoada com os cacetetes ao contrário e… – o Velopata explicava o filme que se desenrolaria.

Isso já não existe. – interrompeu AAA.

O que é que já não existe?

Os cacetetes ao contrário. Temos uns novos que já não têm aquela peçinha em metal, para muita infelicidade de alguns dos meus colegas.

Infelicidade dos teus colegas e felicidade daqueles com quem vocês muito colaboram, os membros das claques da bola e os tóxicóindependentes! – notou o Velopata.

Não ligues à conversa desse comuna que ele é sempre assim. Isso é dos nervos. – notificou O Facho, sinalizando que havia deixado a letargia madrugadora.

Achas mesmo que são nervos? – inquiriu AAA.

Quais nervos pá! Isto é mesmo uma valente gripe que se avizinha no horizonte. – defendeu-se o Velopata.

Eu acho que são nervos. – continuou O Facho.

Eu acho que ele tem cagufa de não estar à altura do desafio a que se propõe. – pisou ainda mais AAA.

Ai é? Daqui a setecentos e trinta e oito vírgula cinco quilómetros, quando as carochas de todas as formas e feitios começarem a voar de todas as direções, logo se conversa sobre quem está e quem não está pronto ou à altura do desafio… – o Velopata terminou a conversa sobre cacetetes e excreção de muco nasal isolando-se no quarto de dar banho onde pode extravasar toda a fúria contida da sua aeropenca, seguidamente perscutando o exterior. Não se ouviam os alarmes do hotel, os poucos hóspedes não panicavam pelos corredores, sirenes não corriam tresloucadas lá fora e Chaves continuava na sua dormência madrugadora.

Rápido duche tomado e um Velopata estava pronto para se lançar ao primeiro desafio que o dia vinte do mês de Outubro deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito trazia – carregar no pequeno-almoço providenciado pelo hotel, mostrando aos donos de tão humilde estabelecimento porque razão não devem aceitar hóspedes de índole velocipédica, só eles capazes de originar prejuízo numa reserva de uma noite em quarto triplo com direito a morfes matinais.

Ele já percebeu porque tem esta unidade hoteleira uma só estrela. – comentou um Velopata por entre o festival de emborcanço gastronómico, lembrando a vespertina chegada ao humilde estabelecimento onde o trio passou a noite, presenteados com uma única estrela junto à porta de entrada.

Então? – questionaram O Facho e AAA em uníssono, devendo notar-se que apenas AAA acompanhava o Velopata na sessão de enchimento de pandulho.

É uma estrela Michelin! Já degustaram bem estes croissants? São uma maravilha!

Não sei como consegues comer tanto logo de manhã. Já vais em quantos croissants? Quatro? – notou O Facho.

Seis! Já cá cantam seis croissants e parece-lhe ainda existir espaço para mais. E a resposta à sua questão é simples, ele tem setecentos e trinta e oito vírgula cinco quilómetros para fazer de Bicicleta.

Vês como valeu a pena esperar e não saírmos tão cedo antes do pequeno-almoço? – notou AAA.

Amén. – agradeceu o Velopata.

Já no exterior da unidade hoteleira que providenciou pequenos-almoços dignos de fazer um Ljubomir Stanisic vociferar a alta voz, o Velopata aproveitou para a inalação do fumo de um cigarrinho enquanto sentia a sua garganta desescalafrar e os pulmões abrirem-se ao fresco ar matinal chavense. Uma vez que as previsões para o ciclo menstrual de São Pedro não eram de todo favoráveis à indumentária veraneante, Velopata e AAA cedo perceberam que os bib shorts e os jerseys leves e frescos teriam de ser acompanhados por algo menos frugal e que permitisse não entrar em hipotermia logo às primeiras pedaladas do dia.

Ou pelo menos, o Velopata percebeu isso do alto dos seus metro e oitenta e quatro de formosura somali. Já AAA, cuja envergadura de ombros ultrapassa largamente a do Velopata, avisou que recorreria a muito menos roupa sob o pretexto de levar menos peso, ganhando assim uns pontos ao nível do mesociclo do lactato do aero e coiso.

Mas ó Velopata, não estais armado em organização da Volta a Portugal e queimando aí umas etapas na épica história com que hoje nos brindais? – questionará e muito bem, o mui assertivo leitor.

Como quase sempre, o mui prestável leitor tem razão e o Velopata, provavelmente ainda sentindo os efeitos psicológico-somáticos de tamanha pedalada, esqueceu que esta jornada da tomada da Mítica Estrada Nacional 2, debutou muitas horas em antes sequer de um Velopata se confinar ao falso e vil conforto da Lata de Apoio Velopática, calcorreando por autoestradas (aquela abominável invenção dos bichos humanos onde as Bicicletas não podem circular), os quilómetros que separavam o trio da sua mais ou menos gloriosa epopeia que teria início no quilómetro zero, em Chaves.

Portantos, vistas bem as coisas, a saga velopática tem início pelas dezoito horas e trinta e seis minutos e vinte e três segundos do dia dezoito deste mês de Outubro do ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito, hora à qual o casal Velopata e Srª Velopata, sempre acompanhados de perto pelo mini terror ambulante que só um Velopatazinho que já aprendeu a deslocar-se em mais ou menos modo bípede atabalhoado consegue proporcionar, jogando a mão a tudo o que não pode e ao que terminantemente não pode, descansavam findo um árduo dia de labuta.

Bem, ele já partilhou uns salutares momentos de ligação afectiva e brincadeira entre progenitor e cria logo, com licença que ele tem de ir preparar as coisas para a épica jornada que o aguarda. – notificou o Velopata.

Onde é que pensas que vais? – inquiriu a Srª Velopata, sobrancelha já franzida e carregando a atmosfera de uma electricidade estática tal que nem era necessário consultar um qualquer site de metereologia para saber que uma intempérie se avizinhava no horizonte.

Gigong utá. – sublinhou ainda o Velopatazinho.

Uai? Ele vai preparar as tralhas que necessita para a viagem e ainda dar uma limpezazeca na Estrela Vermelha.

Ai é? E o jantar de anos da minha irmã?

O que tem o jantar de anos da cunhada?

Uté, utá. – o Velopatazinho também aparentava torcer a sobrancelha , mostrando assim que à semelhança do popular ditado filho de peixe sabe nadar, filho de Srª Velopata sabe protestar, aparentando ter escolhido o lado da barricada de sua progenitora.

Não me digas que te esqueceste que temos hoje o jantar de anos da minha irmã?!?! – bradou a Srª Velopata.

Sabes, não é bem esquecer… É mais… É… É uma questão de prioridades e glória velocipédica e fama e fortuna e…

SABES QUAL VAI SER A MINHA PRIORIDADE SE NÃO ME AJUDARES A VESTIR E DESPACHAR O TEU FILHO PARA IRMOS AO JANTAR DE ANOS DA MINHA IRMÃ?

Fez-se silêncio enquanto o velopático trio trocou olhares, qual cóbóiada do esparguete do Sergio Leone. À falta de uma harmónica, o Velopatazinho pegou na sua roca e rocou aquilo como se a sua vida dependesse disso, carregando de alta tensão um já electrificado ambiente, capaz de fazer uma tempestade Leslie sentir-se uma simples brisa.

Qual vai ser a prioridade mesmo? – questionou o Velopata, pois findos todos estes anos, ele ainda não aprendeu que brincar com o fogo é perigoso, ainda para mais quando esse fogo tem a forma de uma fêmea almariada.

QUERES VER AS PORCARIAS DAS BICICLETAS SAÍREM A VOAR PELA SACADA?

O Velopata tinha de dar a manete à palmatória; aquela era uma grave ameaça à integridade do aço, carbono e alumínio das várias montadas velopáticas, ainda para mais quando se atenta ao facto do Velopata habitar no quarto andar que, quando observado do lado exterior, mais se parece com um quinto andar.

Vamos despachar sim… – retorquiu um comiserado Velopata.

A refeição nocturna de celebração de mais uma volta em torno do Sol por parte da Cunhada velopática foi bastante divertida, ainda para mais quando se atenta ao facto que o Velopatazinho tem uma prima, também ela já apta na sua autónoma mobilidade bípede, no entanto, uma vez que ambos os dois ainda são maçaricos nestas andanças, as suas mobilidades são bastante atabalhoadas e a sensação que se tem é que se está efectivamente a tomar conta de dois bêbados.

(Nota velopatóide: em antes que venham daí os ofendidos e indignados da internet e dos beijinhos nos avós achincalhar um Velopata por ele escrever aqui que tomar conta de uma criança é semelhante a cuidar de um bêbado, lembrem-se; tanto o alcoólatra como o petiz apresentam inúmeras semelhanças – sérios problemas ao nível da mobilidade bípede, só querem fazer asneiras e pouco ou nada se percebe do que dizem.)

Se bem que foi notado pela Srª Velopata e sua irmã que na realidade, ambas as duas sentiam que estavam era a monitorizar as actividades de quatro bêbados – Velopatazinho, prima do Velopatazinho, Velopata e o seu Cunhado.

E pela uma hora e meia da madrugada de sexta-feira, o casal Velopata regressou ao lar, sinónimo que o Velopata teria apenas cerca de… Qua… Sei… Bem, já dizia o outro que três vezes seis é dezoito logo é só fazer as contas. E se tal serviu para ele, que era Ministro da coisa, não existe nenhuma razão para este nível de conhecimento matemático não servir um Velopata.

O que se passou em seguida não foi de todo, das tarefas mais fáceis em que um Velopata se viu embrenhado.

Arrumar toda a indumentária e parafernália velocipédica necessária a uma pedalada deste épico calibre quando se tem o corpo (que o Velopata reitera ser bem bonito e espadaúdo, sentindo-se em melhor forma que nunca), intoxicado em tintol pontuado com pequenas notas de aguardente Ponte de Marante, é tarefa quase tão hercúlea como a própria quilometragem que ele (o Velopata), se propunha a calcorrear.

Com o relógio digital do telefone esperto a marcar três horas e meia da manhã, o Velopata tinha tudo mais ou menos pronto para a chegada da Lata de Apoio Velopático que se daria pelas nove horas da manhã. Assim, com o escasso tempo para se poder dedicar à prática do soninho recuperador bom, o Velopata ainda passou uma hora e quinze minutos a dedicar toda a sua atenção à Estrela Vermelha, não só limpando-a mas também acendendo uns incensos de soja e tofu, juntamente com umas rezas às Altas Entidades Velocipédicas, como Santo Coppi e Santo Bartali, pedindo-lhes que, ao contrário das últimas aventuras velopáticas, esta chegasse a bom porto.

E só pelas quatro horas e quarenta e cinco minutos da manhã, o Velopata pode dizer ao mundo que tinha toda a indumentária e parafernália pronta, a Estrela Vermelha limpa e abençoada.

Então mas ó Velopata, se sabias do aniversário da Cunhada, não podias ter orientado as tralhas nos dias anteriores? – questionarão os mui organizados leitores.

Poder, ele até podia, mas não seria a mesma coisa, nunca esquecendo que apesar de se considerar um cidadão do mundo, o Velopata é nascido, criado e educado em Portugal, como tal seria uma vergonha para com todos os seus antepassados se não cumprisse com a solene e milenar tradição de deixar tudo para a última da hora.

Com apenas uma hora e uns trocos de soninho recuperador bom no lombo e já um Velopata abandonava o confortável quentinho dos lençóis para se dedicar a uma última fase preparatória da aventura, esta de uma importância fulcral para a salutar prática da nobre arte velocipédica mas mais importante ainda para as selfies, fotos e aquilo que parecemos perante os outros membros desta espécie de bicho humano enquanto Ciclistas que somos.

E também para gáudio das fêmeas que acompanham este alucinado espaço velocibernético, adeptas destas modernices.

A excisão dos apêndices pilosos.

Depilação, portantos.

Finda aquela excruciante hora e meia de evisceração de um ou outro bife velopático, brindado aqui e ali com um iminente corte da jugular, o Velopata estava finalmente pronto para tudo com que a Mítica Estrada Nacional 2 o pudesse presentear.

Nove horas da manhã de sexta-feira, dia dezanove do mês de Outubro deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito, e lá estava o toque do telefone esperto indicando que a Lata de Apoio Velopático conduzida pelO Facho se encontrava nas imediações do lar velopático, aguardando a descida do Velopata ao que se esperava ser um Inferno Enlatado de muitas horas.

Com a Estrela Vermelha e restante tralha protegida e blasfemamente acomodada no interior da Lata de Apoio Velopático, o dueto fez-se à estrada com o intuito de sempre dentro dos Limites de Velocidade, chegar a Santarém perto da hora de almoço onde o rendez vous com AAA teria lugar.

Então, que música haveis trazido para a viagem? – questionou o Velopata.

Epá, trouxe aqui sons mesmo fixes; David Gueta e um remix de Top Disco Night Sound Party! – retorquiu O Facho.

Ele acha que não percebeste… Ele disse Música… Que Música haveis trazido?

A atmosfera enlatada deu por si acometida de um desconfortável silêncio enquanto O Facho e o Velopata trocaram desafiantes olhares.

O que vale é que Velopata prevenido vale por dois! – atacou o Velopata enquanto sacava da uma flash drive pen usb coiso, carregada préviamente com música. Daquela a sério.

Sério que vou ter que gramar com essa música de gajos de esqueda queimadinhos do cérebro? – atacou O Facho.

Antes música de comunas fritos que essa porcaria feita a metro e que só lembra é car… Carri… Enlatadozinhos de choque. E ele acha que não é preciso estabelecer aqui nenhum paralelo com a palavra choque… A estrada está molhada e o que é mesmo importante é um Velopata chegar vivo a Chaves! – com estas palavras e os primeiros acordes da magistral faixa Pact like sardines in a crushed tin box dos Radiohead, o Velopata evitou que a discussão evoluísse para outros termos.

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Seria de esperar que um Velopata, com apenas uma hora e meia de soninho recuperador bom, aproveitasse a horripilante viagem enlatada para dormir, deixando o Facho a mamar a bucha a solo, certo?

Talvez tenha sido da impura atmosfera que sempre se sente no interior de um enlatado, ou apenas da crispação política que parece moldar a relação entre Velopata e O Facho, mas certo é que ele (o Velopata), não arroxou à grande e à avec no decurso da tenebrosa viagem enlatada e incapaz de ferrar como quem ferra mesmo (e ainda bem, caso contrário, ainda hoje, duas semanas depois dos factos aqui relatados, O Facho encontrar-se-ia a limpar as manchas de baba velopática dos estofos), o dueto lançou-se num festival onde extravasaram suas ideias e opiniões numa complicada discussão sobre as organizações sociais de bichos humanos, a actualidade política deste recanto à beira mar mal plantado com eucaliptos em monte, pontuando-a com uma ou outra referência à aventura a que se dirigiam, nunca esquecendo que aqui e ali, o Velopata chamava a atenção dO Facho para a velocidade a que a lata circulava.

Epá, ó Velopata, não me digas que és daqueles penduras chatos, sempre a opinar como quem opina mesmo, sobre os procedimentos de quem vai a conduzir? – questionará o mui enlatado leitor.

Não, o Velopata não é um pendura chato.

É pior.

Sem nenhum percalço digno de registo, exceptuando quando O Facho afirmou que em certas faixas, a voz de Thom Yorke lhe lembrava um carneiro a balir (ignóbil e inculta provocação que o Velopata deixou passar impune), o relógio digital da lata marcava doze horas e quarenta e cinco minutos de sexta-feira, dia dezanove de Outubro deste ano de Nosso Senhor Joaquim Agostinho de dois mil e dezoito, quando o dueto encontrou a estação de comboios santareonense ficando um Velopata a matutar em como algo errado se passava.

Onde estava toda a malta vestida de preto?

Por todo o lado ele havia ouvisto placas sinalizando que Santarém era a Capital do Gótico mas… Cadê os Góticos? Pior ainda… Cadê as Góticas, com aqueles corpetes a realçar as voluptosas prateleiras e meias rendilhadas bem sexys quiçá até rasgadas para dar aquele toque rebelde a uns belos presuntos (à falta de melhor metáfora vegetariana para um belo par de pernas)?

Ocupado com estes e outros devaneios típicos de um mestre na arte da rebarba, eis que o dueto passava a trio quando o rendez vous com AAA finalmente ocorreu e claro, em modo celebratório, o trio fez a única coisa que quaisquer machos de bicho humano podem fazer para festejar – a degustação alcoólica de três belas mins acompanhadas de uns salgadinhos cacahuetes.

Até O Facho se presenteou com uma min, apesar do reprovador olhar velopático.

Porque é que estás a olhar assim para mim? – indagou O Facho.

Nada, nada…

Deve ser por estares a beber alcóol. – notou AAA.

Sério? Mas isto é só uma min…

Só uma min… – notou o Velopata – Tudo começa assim, é só uma min, depois é só mais outra e daqui a pouco vai-se a voar sim, mas não é para Chaves. É de encontro ao raile mesmo!

Epá, tu és cá um exagerado. – atacou O Facho.

Realmente… Ó Velopata, deixa lá o homem beber uma min. – sublinhou AAA.

Mas também tu, meu filho? E um Velopata que ia jurar que vossemeçê era Agente da Autoridade…

E um Velopata mal podia adivinhar mas estes seriam dias onde constantemente ele assistiria a prevaricações das mais variadas espécies protagonizadas pelO Facho, com o aval e a conivência de AAA.

Com a Cigarra prostada e acomodada sobre a Estrela Vermelha, promiscuidade inter-velocípedes que deixou um Velopata nervoso e de entranhas às voltas, o trio podia novamente lançar-se à estrada para calcorrear, reiterando o Velopata que sempre dentro dos Limites de Velocidade impostos pela Lei, os quilómetros que os separavam de Chaves.

Estás bem aí, Amílcar? Pareces apertado. – questionou O Facho.

Não se preocupem comigo que estou bem. – retorquiu AAA, por entre as aero barras de guiador da Estrela Vermelha que quase lhe vazavam uma vista e o cepo das rodas full aero carbon da Cigarra que lhe matraqueavam as vértebras à passagem de cada cratera alcatroada.

Se quiseres trocar e passar para a frente… – notou um Velopata sempre com aquele espírito de sacrifício em prol do bem comum.

E deixar passar a oportunidade de estar mais próximo que qualquer outro ser humano esteve da mundialmente famosa Estrela Vermelha? Nem pensar!

Olha que dois se foram juntar… – comentou O Facho em antes de continuar – Mas olhem lá malta, e que tal pararmos para almoçar?

Boa ideia, sim, aqueles amendoins já abriram o apetite. – anuiu AAA.

Óptima ideia! – anuiu também o Velopata como quem anui mesmo – Descubram aí um sítio com esplanada onde dê para dar ao serrote mas mantendo sempre a lata debaixo de olho.

Hã? – questionaram AAA e O Facho em uníssono.

Como assim, hã? O que não perceberam?

Tens de comer a olhar para o carro? – indagou o Facho.

O Papa faz cocó no mato?

Olha lá Velopata, não achas que está um pouco desagradável para almoçarmos numa esplanada? Está frio e vento e chuva e…

AAA não chegou a terminar o seu raciocínio pois o Velopata entendeu que o melhor seria resolver este impasse rapidamente e com um só ataque, desferindo uma cadência tal que o pelotão jamais seria capaz de acompanhar;

Caros companheiros, isto é algo que não está aberto a discussão. O Velopata jamais deixará a Estrela Vermelha desamparada e longe de sua vista. Isto é tipo Lei Velocipédica do Universo. Nem que ele tenha de almoçar sozinho no interior da lata, debaixo da sua vista é que a Estrela Vermelha não sai.

Uns desconfortáveis minutos de silêncio depois, foi O Facho quem quebrou o silêncio;

Amílcar, conheces aí algum sítio onde se coma bem?

E barato. – notou ainda o Velopata.

Malta, Santarém não é bem a minha praia. – retorquiu AAA.

Olhem, o Velopata lembou-se de um sítio que nunca falha. Não é bem comida a sério mas desenrasca e principalmente… Ele não sabe se já disse mas… É barato.

Onde?

McDonald´s.

A busca pelo restaurante que serve produtos parecidos a comida não foi própriamente rápida, voltando o Velopata a questionar-se porque razão havia deixado o cálculo do percurso e rota da Mítica Estrada Nacional 2 para AAA, no entanto, pela lógica, esta seria sempre em frente e não inspirava cuidados maiores, ao contrário do McDonald´s, cuja descoberta fez o trio sentir-se como uma espécie de Colombos enlatados.

Finalmente descoberto esse lugar que oferece os melhores alimentos para curar ressacas, e um Velopata sentiu a respiração acelerar aliada a um aperto no peito – o parque de estancionamento encontrava-se a abarrotar de enlatados.

Seria esta a razão pela qual o Velopata não havia ouvisto góticos (e góticas, que era mesmo o que ele queria ver), nas ruas de Santarém, Capital do Gótico? Estariam todos eles a alimentar-se no Mcdonald´s? O McDonald´s santaroenense serviria asas de morcego em vez de asas de frango?

Alheio a todo este devaneio na maionese velopática, O Facho desesperava por encontrar um lugar onde estancionar a Lata de Apoio Velopática, até que acometido pelo desespero, decidiu que o passeio seria lugar mais que suficiente.

Bem, tenho de deixar o carro aqui. Fica em cima do passeio mas não atrapalha ninguém. – comentou O Facho.

Sim, não haverá problema. Não estás a atrapalhar a passagem mesmo. – notou ainda AAA.

MAS ESTÁ TUDO MALUCO? – bradou um Velopata regressado à realidade, mente desviada de impuros pensamentos com prateleiras e espartilhos rendados.

O que é que foi agora? – questionaram AAA e O Facho em uníssono.

Primeiro; não lhe parece que do interior do pseudo-restaurante, o Velopata consiga visualizar a Estrela Vermelha. Segundo, sendo ela uma Bicicleta mundialmente famosa, e está aqui o Agente da Autoridade Anónimo que não deixa um Velopata mentir, isto é um chamariz para a ladroagem, uma oportunidade única para deitarem as manápulas à Bicicleta das Bicicletas. Por último, depois dos larápios levarem a Estrela Vermelha, vêm de lá os comparsas do Agente da Autoridade Anónimo e rebocam a lata depois de passarem a bela da coima. Que raios de aventura vai ele depois escrever no blog?

Ante a certeira dissertação velopática, AAA e O Facho pouco ou nada podiam responder que virasse a razão para seu lado, como tal, tomaram a única opção sensata – virar costas ao Velopata e seguir para encher o pandulho com produtos que lembram alimentos.

Comiserado, o Velopata seguiu atrás de ambos os dois para o interior do Mac, só ficando mais descansado e podendo apreciar a sua pseudo-refeição quando O Facho lhe confirmou que de onde se encontrava sentado, conseguia verificar o estado e integridade da Lata de Apoio Velopático.

Infelizmente não existiam góticas em monte no interior do quase-restaurante, apenas um turbilhão de bichos humanos normais, aqui e ali uma ou outra fêmea digna de registo que dir-se-iam vindas de Ermesinde, onde todos sabem que é onde as há boas daquelas mesmo boas.

Finda aquela coisa disfarçada de refeição e o trio lançou-se novamente às autoestradas, rapidamente devorando (sem nunca passar dos cento e vinte quilómetros por hora, é claro!), os quilómetros que separavam Santarém, Capital do Gótico, de Chaves, Capital de sabe-se lá o quê.

Atravessando bonitas paisagens que faziam as pernas velopáticas tremer ante a previsão do que o aguardava no dia seguinte, rapidamente se penetrou no estrangeiro do norte do país, quando pouco depois de Vila Real, uma labareda por entre o arvoredo surpreendeu o trio;

Já viram ali? Parece um incêndio a começar, não? – apontou o Velopata.

Sim, dá para ver as labaredas e tudo. – anuiu O Facho.

É mesmo, aquilo não tem pinta de ser uma queimada. – sublinhou AAA.

 

Seguiram-se uns momentos de silêncio que o Velopata pode agora apenas interpretar como sendo um sinal de cérebros já fatigados de tanta hora enlatados. Mas foi o próprio Velopata a quebrar o silêncio;

Ó malta… Esta não é aquela parte em que alguém liga para o cento e doze?

É. – notou O Facho.

Pois. – concordou AAA.

 

Novo segmento silencioso. E ainda há os que duvidam da capacidade que os enlatados têm de moer o cérebro a quem passa muitas horas… Enlatado.

Então e… Ninguém vai ligar?

Esperem, eu ligo! – confirmou AAA.

Atento o Velopata ouviu a chamada;

Estou sim? (…) Boa tarde (…) Queria avisar que estou na à vinte e quatro em direção a Chaves, pouco depois de Vila Real (…) Aí uns oito quilómetros (…) Estou a ver o que me parece ser o início de um incêndio (…) Sim, vê-se muito fumo e algumas labaredas altas (…) Ok, muito obrigado e boa tarde.

Já estão em cima do acontecimento, parece que mais alguém já telefonou. – notificou AAA enquanto guardava o seu telefone esperto.

Epá, mas que desilusão… – comentou o Velopata.

Hã? Desilusão?

Sim pá. Acabas de destruír algumas ideias e conceitos que o Velopata tinha de vocês, malta da Autoridade.

Como assim? Explica lá isso.

Então, um Velopata estava à espera de ouvir algo do género – o Velopata imitava uma voz meio Tropa de Elite, meio CSI Miame – daqui XK38 para avisar que a porca entrou no chiqueiro no FT35… E tu sais-lhe com um telefonema assim desenxabido, como um comum civil?

Não ligues Amílcar. Isto é dos nervos por já estarmos a chegar a Chaves. – rematou O Facho.

Mas quais nervos pá!

Justamente quando a discussão sobre quem estaria nervoso ou não começava a aquecer, sabendo Nosso Senhor Joaquim Agostinho como aquilo descambou até chegar ao encobrimento de Tancos, passando pelo Robles e as ligações que tudo isto teria com o Caso Camarate, a placa indicadora que se entrava em território chavense apareceu no horizonte.

E mais uma vez o Velopata hesitou como quem hesita mesmo, ante a mestria de navegação de AAA, que novamente fez a Lata de Apoio Velopática andar às voltas, qual Bill Murray velocipédico só que Lost in Chaves, até o trio finalmente descobrir onde ficava o tão célebre hotel de uma estrela Michelin.

Já com as pernas desalmariadas de tantas horas enlatadas, os cérebros do trio pareciam retomar o seu normal consumo de precioso oxigénio sem poluentes atmosféricos misturados, com expeção dO Facho;

Bem, vamos lá ver se vos deixam entrar com as bicicletas para o quarto.

Uai, como assim? – indagou o Velopata.

Achas normal a malta andar com bicicletas pelos corredores dos hotéis? Tenho sérias dúvidas que vos deixem meter as bicicletas lá dentro e…

Se não deixarem um Velopata dormir com a Estrela Vermelha por perto então tendes um sério problema. – notificou o Velopata.

Que problema? – questionou AAA, chegado ao grupo após ter sido voluntariado para tratar do check-in.

O Facho diz que a Estrela Vermelha não poderá pernoitar na mesma divisão que o Velopata e se assim for vós tendes um problema, ambos os dois terão de pagar o quarto triplo que arrendaram porque o Velopata insiste que isto é tipo Lei Fundamental da Trigonometria, jamais ele deixará a Estrela Vermelha longe de si, muito menos em território inóspito e desconhecido como Chaves.

Olha, tens bom remédio, vais dormir para o carro! – riu O Facho.

Epá, eu nem perguntei mas acho que não há problema. – tranquilizou AAA.

É claro que não há problema, que razões poderiam ter os donos de tão humilde estabelecimento para desaustinar assim um cansado viajante? – um esperançoso Velopata acreditava que tendo já feito aventuras semelhantes em outros milhares de milhões de vezes em antes, nunca uma unidade hoteleira conhecida havia tentado separar Ciclista de sua Bicicleta.

Óbviamente que o simpático moço da recepção, notificou o trio que poderiam guardar suas Bicicletas junto de si no respectivo quarto, mencionando mesmo que muitos outros aventureiros da Mítica Estrada Nacional 2 já lá haviam pernoitado e que discutir com estes sobre onde pernoitarem suas nobres montadas que não junto deles era tarefa hercúlea da qual ele já havia desistido.

Ouvindo essas doces palavras do Recepcionista, o Velopata não pode evitar aquele olhar do tomaincha e vai buscar, na direção dO Facho.

Estrela Vermelha, Cigarra e restantes tralhas acomodadas no interior do quarto triplo, foi unânime decisão do trio que as horas que os separavam da janta seriam passadas a passear amenamente por Chaves, podendo mesmo passar pelo quilómetro zero da Mítica Estrada Nacional 2 para uma espécie de reconhecimento a penantes.

Olha lá ó Velopata – pelo tom de voz, o Velopata percebeu que O Facho engrenava já uma mudança mais pesada para se lançar ao ataque – vais mesmo passear por Chaves e deixar a Estrela Vermelha aqui sozinha no quarto?

Realmente Velopata… Essa atitude nem parece uma coisa dele. – pisou ainda mais AAA.

Não se preocupem.

Então?

Ele já averigou e o quarto está bem protegido. A porta é sólida e de boa fechadura, as janelas têm grades, existem alarmes de incêndio por todo o lado e o moço da recepção tem aquela pinta de hooligan adepto do Chaves logo, se alguém que não o Velopata passar com a Estrela Vermelha, ele certamente defenderá a idoneidade deste humilde estabelecimento, até mesmo com a sua vida se tal for necessário! Podeis descansar que a Estrela Vermelha fica sã e salva.

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Agente da Autoridade Anónimo (à esquerda), e Velopata (à direita), vestidos á civil posam junto do marco do quilómetro zero da Mítica Estrada Nacional 2. Ou posam junto do que resta do marco, uma vez que se a malta dos clubes desse meio de transporte primitivo que são as motas não se acalma, qualquer dia aquele marco parecerá só um calhau forrado a autocolantes que ninguém consegue identificar…

Chaves parece uma cidade muito gira e pacata, excepção feita à absurda quantidade de pavê que de bom grado, o Velopata trocaria toda aquela monstruosidade inimiga de carbono pela existência de mais fêmeas boas daquelas mesmo, mesmo boas, ainda por cima quando se atenta ao facto que o Strava indica que Ermesinde até nem fica assim tão distante.

O trio descobriu uma rua onde se pareciam aglomerar os estabelecimentos de diversão nocturna chavense, e novamente o Velopata pode constatar que por aqueles lados, não só aquela moderna maleita das calças apertadas e preparadas para a apanha da amêijoa afectava muitos dos machos presentes, além de utilizarem boné mesmo depois do nosso querido astro já iluminar outras zonas deste calhau, também a presença de fêmeas boas mas mesmo, mesmo boas era escassa para não escrever… Miserável.

Findas as festividades por terem sobrevivido à excruciante viagem enlatada, com recurso a cargas de cevada fermentada e uns cacahuetes, chegava a hora da janta, sendo já do conhecimento velopático que as piadolas dos bárbaros carnívoros iriam ter início a qualquer momento;

Não sei se eles têm erva para comeres.

Será que servem capim?

Vais comer só a salada, certo?

Sabias que os cogumelos também têm sentimentos?

A lista de piadolas foi toda ela desbravada pelO Facho e AAA, tendo ambos os dois deliciado-se selvaticamente com umas dantescas postas de cadáver de bovino fêmea mirandês enquanto o Velopata, à falta de opções mais evoluídas nestas terras do estrangeiro do norte do país onde se acardita que ser vegetariano é uma doença qualquer, foi forçado a alimentar-se de um cadáver de Salmão (Salmo salar).

Tudo regado com tintol em monte, auxiliando assim a chegada do soninho recuperador bom.

Mas faltava ainda uma última descoberta sobre Chaves que iria deixar um Velopata xarengado como quem xarengou mesmo.

Finda a refeição, o Garçom aproximou-se da mesa, questionando sobre a vontade do trio de se dedicar á degustação de sobremesas;

Desejam mais alguma coisa? Sobremesas, café? – indagou.

Olhe, isso é que é falar! O que tem por aí de sobremesas típicas de Chaves? – abordou o Velopata já salivante de açúcares, sentindo-se um hamster que acumula comida para um rigoroso inverno.

Como assim, sobremesas típicas? – respondeu o Garçom.

Uai, não sabe o que são sobremesas típicas? Quase todas as terras, terrinhas e terróides portuguesas têm na sua gastronomia, uma qualquer delícia conventual e coiso, tão carregada de açúcar que um diabetofílico, só de as cheirar, é logo acometido de um fanico! O que tem  por aí para este grupo carregar as mitocôndrias para amanhã? – explicou o Velopata.

Olhe, você não come carne, certo?

Sim, certo. Ele é evoluído.

Pois a única coisa parecida a sobremesa que temos típica de Chaves é mesmo o Pastel de Chaves mas leva carne e presunto. Quer provar?

Como é óbvio o Velopata não provou semelhante Pastel bárbaro e foi necessária muita força de vontade para não verter umas lágrimas (o tintol, para além da vontade do soninho recuperador bom, também tem este efeito no Velopata, a choradeira descontrolada), em prol da comunidade chavense que não sabe o quão triste é uma vida sem açúcar, ovos, farinha e tudo aquilo que os diabéticofilíacos não podem nem cheirar.

Sem sobremesa, foi um almariado Velopata que nessa noite adormeceu sem saber que os seus sonhos seriam assaltados com premonições do que o dia seguinte traria; Viriatos, Salamandras, Cães de Guarda e uma tomada certamente adquirida nas lojas do Chinês.

 

Fim da Primeira Parte

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

 

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2 comentários sobre “A tomada da Mítica EN2 – parte I

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