Dorsal #34

De entre os muitos milhares de milhões de mui veneráveis leitores, poucos há que têm o mais ou menos privilégio de privar com este vosso companheiro, palhaço e amigo deste duro circo da vida do pedal que responde pelo cognome de o Velopata.

Entre esses, ainda menos há que sabem o que é a Trancontinental Race.

Não que o Velopata já não lhes tenha pregado uma valente xaropada com a sua hercúlea ideia de recorrer a este alucinado espaço velocibernético para reunir os apoios necessários a tamanha proeza.

Que ele um dia fará.

Isto é tão certo como Shimano Dura-Ace Di2, não importa o que a Srª Velopata proteste.

Quiçá depois publicar um livro contando os porquês, os quems, os ondes e os comos da sua aventura (que a avaliar pelo tamanho das publicações antevê-se coisa pouca, algo no estilo de Os Maias), e em antes que até o menos querido leitor venha já daí gozar com um pobre Velopata, afirmando que o que ele faz eficazmente é arranhar teclas, lembre-se que até o Gustavo Santos e o Éder publicaram e/ou publicam livros.

(Nota velopática: se lerem a última frase acima fazendo do e/ou a onomatopeia do som de um jumento, aquela está uma piada ainda mais bem esgalhada.)

Pelas altas horas da madrugada, gratuitamente o Velopata labutava no capítulo final dos rabiscos da sua Cicloperegrinação, quando nos intervalos para inspiração velopática (resumos do Tour, resumos dos resumos do Tour, os comentários do Apóstolo Flecha ao resumo do Tour, o resumo dos comentários do Apóstolo Flecha ao resumo do Tour), materializaram-se no seu feed facebookiano essas três simples letras do Abêçê que tantas vezes levam um Velopata a sonhos molhados de índole velocipédica.

TCR.

A Transcontinental Race de 2018, a sua sexta edição, ia começar.

O resto da vida velopatóide passou para segundo plano enquanto o Velopata devorou toda a informação disponível para consumo.

Se em coma nos últimos cinco anos, é provável que o mui adormecido leitor não conheça as agruras da que é considerada uma das mais duras corridas do calendário não-World Tour para homens de barba rija e alguns nem perna depilada, mas não desespere que o Velopata, sempre pronto a contribuir como quem contribui mesmo, explica.

É tipo ser um itinerante amolador só que munido de uma bicicleta cara e toda artilhada para a autonomia, uma espécie de vagabundo do pedal qual David Kung Fu Carradine, só que em carbono.

Durante quatro mil quilómetros.

Q-U-A-T-R-O M-I-L Q-U-I-LÓ-M-E-T-R-O-S.

A rota é definida pelo próprio atleta, sendo apenas obrigatório picar o ponto em um dos cinco Checkpoints (termo anglo-saxocamónico para Postos de Controlo).

Claro que a malta da organização e patrocinadores são umas jóias de moços e como se não bastasse, juntam aos Q-U-A-T-R-O M-I-L Q-U-I-LÓ-M-E-T-R-O-S o facto de os Postos de Controlo se localizarem naqueles locais onde para lá se  chegar quase tem de se levar uma garrafa de preciosa mistura de ar, dado o desnível positivo acumulado.

E com tempos limites para neles passar, pois a dada altura o Posto de Controlo fecha e… Já foste.

Os únicos apoios permitidos são aqueles que se encontrem disponíveis para todos os atletas; cafés, tascos, supermercados, profanas bombas de combustível, danceterias, hotéis e paragens de autocarro, sendo que estas últimas parecem ser um must entre a comunidade TCRiana no que à escolha de locais para pernoitar respeita.

Se ainda assim o querido leitor tem dúvidas que o grandioso vencedor desta prova é moço mais rijo que carbono de alto módulo, é só questionar um dos mais ilustres membros da Divisão Velopata, único português que o Velopata mais ou menos conhece que ultrapassou esta provação boa, Rui Rodrigues.

Actualmente, o recorde é detido por um professor belga, de seu nome Kristof Allegaert.

Que não pertence ao mais grandioso clube strávico que é a Divisão Velopata mas enfim… Ninguém é perfeito.

Oito dias.

O-I-T-O D-I-A-S.

Q-U-A-T-R-O M-I-L Q-U-I-LÓ-M-E-T-R-O-S em O-I-T-O D-I-A-S.

Façam as contas a isto.

Como habitual, a organização providenciou várias fotografias dos bravos moços e moças de todas as etnias, castas, raças e coiso de bicho humano que se lançam à aventura de uma vida, muitos deles por alcatrão nunca antes pedalado.

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O típico Transcontinentaliano.
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Claro que os Ultra Pro Ressabiados também marcam presença com as suas Canyoncoiso.
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Também a ala geriátrica marca presença com este ultra adepto velocipédico na idade do já-devias-ter-juízo.
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Se cidadãos de etnia africana é sempre bom de vislumbrar em provas velocipédicas, lembrando que este é um desporto que tanto peca pelo elitismo do europeu branco (alguém dê uma bicicleta daquelas de carbono, mesmo só carbono, totalmente em carbono, 100% carbono, full aero carbono a um daqueles catraios etíopes, filho de um qualquer campeão de maratonas e vão ver…), este moço peca por se munir de uma Specialicoiso e o de uma coisa o Velopata tem a certeza; findos os Q-U-A-T-R-O M-I-L Q-U-I-LÓ-M-E-T-R-O-S, aquela pançoca já terá minguado há muito.
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Uma das muitas moças que deseja participar na TCR, tendo ficado este ano de fora pois o seu ardente desejo é participar no ano em que o Velopata lá fôr picar o ponto.
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Os Rastafari e a malta das ganzas também marca presença.
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Como se escreve sobre ganzas, eis a fissureira equipa enviada pelo Bloco de Esquerda (são permitidas duplas).
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Já que se escreve sobre casais, este é aquele que estará desfeito, separado e divorciado à base de estalo, findos aqueles Q-U-A-T-R-O M-I-L Q-U-I-LÓ-M-E-T-R-O-S.
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Um dos muitos borrachos que pululam pela TCR.
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Uma fotografia que tão bem depicta a dureza das montanhas e vales que a TCR atravessa.

Curiosamente o Velopata não detectou nenhuma BH, Bicicleta de Homem, por entre as opções velocipédicas dos participantes, o que só pode ser interpretado como mais um claro sinal do Além Velocipédico em como a BH se esforçará para apoiar o Velopata, presenteando-o com uma daquelas G-qualquer-coisa que eles fabricam. Até pode ser toda montada em Ultegra mecânico que o Velopata não é moço esquisito.

Por entre os cerca de duzentos e cinquenta e sete afortunados que conseguiram um bilhete de ida para o que promete ser um empeno de outra dimensão, eis que o Velopata se depara com este participante.

E isto não é nenhuma foto para a galhofa, fake news e coiso.

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O dorsal número trinta e quatro.

Então o Velopata percebeu.

O ciclista número trinta e quatro havia desfeito toda e qualquer esperança de nomes como o já aqui referido deus-em-forma-humana Kristof Allegaert, Josh Ibbett e outros, de experienciar novamente o nirvana de se sagrarem vencedores de tamanha demanda velocipédica.

O dorsal número trinta e quatro vai certamente levar o caneco para casa, distribuíndo carocha atrás de carocha sobre a concorrência pois fazer-se munir de uma carregada bicicleta dobrável de roda 16″ para percorrer os Q-U-A-T-R-O M-I-L Q-U-I-LÓ-M-E-T-R-O-S e uma sabe-Deus-Nosso-Senhor-Joaquim-Agostinho-quantidade-de-acumulado de um só estalo (daqueles com as costas da mão que não só doem no corpo mas também na alma), é de herói.

É que isto é de um nível tal de velopatia aguda… Em tudo milhares de milhões de vezes superior ao velopático.

E em choque até à hora desta publicação, o Velopata não mais conseguiu escrever.

 

Podem acompanhar este mais grande evento que é The Transcontinental Race aqui.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

Um comentário sobre “Dorsal #34

  1. assim, aos de repentes, quando vi o gajo do dorsal 34 mais o seu canhão, o tamanho das rodas é apenas uma particularidade, até esclamei: “Olha, queres ver, o Valter ressuscitou a Dahon!” Mas não, o gajo tem um capacete em vez do cigarrito na ponta dos dedos!

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