Os Dez Mandamentos Velocipédicos – versão urbana

Foi encontrado morto em sua casa.

A Jardim da Escócia (Scotland Yard, em cámone), tomou conta do ocorrido, registando o óbito a 5 de Novembro do Ano de Sua Ainda-Desconhecida e Futura Santidade Joaquim Agostinho de 1922.

Lorde Carvanon, um reconhecido antropofilíaco obstinado com relíquias egípcias, batia a bota.

Atónitos com a macabra cena que presenciaram ao arrombar de portas da luxuosa mansão do aristocrata, os agentes da autoridade que acorreram ao local matutavam sobre o que escrever no relatório oficial a entregar na esquadra.

Como justificar que um homem são, setenta e poucos anos, macho heterosexual, reconhecido como mecenas de estudos na arqueologia e história dos cámones, que é como quem diz, encher museus com bugigangas arqueológicas roubadas de outros países, fosse encontrado prostado sobre uma bicicleta e empalado por um espigão de selim, cujas posteriores análises espectrofotométricas revelaram ser num material até então completamente desconhecido?

(Nota velopática: aprofundados estudos realizados muitos anos depois chegaram à conclusão que o espigão de selim era efetivamente carbono de alto módulo, daquele que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono)

Teria sido suicídio?

Os remediados desta vida ainda se entende que sofram de depressão e se suicidem, agora os ricos, mesmo muito ricos, aliás, o Velopata nem escreve sobre aquela malta rica que pedala de Pinarello FP25 com Dura-Ace Di5 e rodas tubulares Mavic Space Carbon Strike Elite Cosmic durante o fim de semana, apenas para ser descarregados com inclinações de 0,0005%. Estes são ricos tipo quadro da Aston Martin, equipado com Full-Dura-Ace Di5+ e rodas tubulares Mavic Space Carbon Strike Elite Cosmic. Só que tudo em full aero carbon.

Para esse tipo de ricos, o suicídio é algo fora de questão.

O que teria levado a morte tão atroz; um gigantesco espigão de selim a entrar por onde o Sol não brilha, rasgando tripas e carne até saír pela boca numa grotesca exibição de horror draculeano?

De imediato, as teorias da conspiração se alevantaram pelos meandros do mundo.

E o Velopata vasculhou os estranhos e obscuros meandros da deep dark e coiso web, partilhando agora com os mui queridos leitores, os conhecimentos adquiridos em mais uma jornada deste vosso espaço de referência velocipédica.

Ainda por cima uma investigação velocipédica sob enorme pressão; telefonemas estranhos a ainda mais estranhas horas da noite ou enlatados que seguem perto demais, mantendo sempre aquela nada-confortável distância, fazendo o Velopata sentir-se um raríssimo repórter de investigação, daquela a sério onde a cada aprofundar investigativo claramente se percebia que metia a sua linda aeropenca onde não era minimamente chamado.

Os agentes da Jardim da Escócia não sabiam o que escrever, desconhecedores das mais recentes notícias bombásticas que à época chegavam dos reinos arenosos das arábias – o túmulo de Moisés havia sido descoberto.

E quem havia pago toda esta expedição ao Egipto, ou Egito, na versão mais actualizada do Acordo Ortográfico?

Lorde Carvanon, pois claro.

Não que ele tenha estado lá, mãos na massa. É a vantagem dos ricos, pagam a quem o faça e depois colhem os lucros. À época, até nomenclatura técnico-táctica egípcióromana já existia para estes moços, eram os Stagiarius precarium.

Lorde Carvanon, não querendo mexer na massa, contratou um estag… Colab… Trabalhador precá… Escra… Moço de nome Howard Carter, que liderou a expedição ao Vale dos Reis, tendo descoberto a tumba de Moisés aquando de um dos seus muitos passeios de fat bike ter terminado em queda.

Como é que alguém cai de uma fat bike é uma questão que intriga o Velopata, mas certo é que o pavê é só para quem tem unhas como os belgas, e indignado com o estado do pavê dos ainda rudimentares projectos de estrada da época, Lorde Carvanon processou em nome de Howard Carter, a J.E.T.F. (Junta de Estradas do Tempo dos Faraós), obrigando esta a pagar uma boa indemnização pela morte do seu Stagiarius precarium, para além da garantia que aquele troço de estrada seria arranjado.

Adjudicada a obra para remediar aquele pedaço de estrada após o que deve ter sido o quíntuplo do orçamento (o Presidente de Câmara e o único Contrutor Civil eram primos e ainda por cima portugueses emigrados), qual não foi o espanto do explorado proletariado quando, durante as escavações, se encontraram perante as lápides indicadoras de um túmulo.

O procurado túmulo de Moisés.

Nos anais da história velocipédica cá está mais uma pérola revelada pelo Velopata a toda a sua comunidade de milhares de milhões de seguidores, strávicos incluídos – foi atribuída a Lorde Carvanon a descoberta do túmulo perdido de Moisés, esse Homem que se diz ter bebido directamente da fonte da inspiração velocipédica. Que privou com Joaquim Agostinho; Bicicleta, Pai e Ciclista, no topo do Monte Sinai, naquela última mítica etapa do Tour da Crucificação.

Factos históricos que o Velopata já comprovou, com extensa bibliografia, aqui.

Moisés foi mais um caso de iluminismo silenciado precocemente, à semelhança de Copérnico, Nikola Tesla e Kurt Cobain. Marcou a sua sina naquele momento em que se embrenhou Monte Sinai acima, apesar do restante pelotão neutralizado e abandonando a etapa à base de porrada geral, uma vez que naquele tempo não existiam registos de asmáticos no pelotão e era só malta rija sob ordens dos sempre afáveis e preocupados chicotes dos Comissários Centuriões Romanos.

Mas o que muitos não saberão, e mais uma vez Velopata a contribuír como quem contribui mesmo para a vossa sabedoria velocipédica, é que Moisés não desceu com apenas 10 Mandamentos.

Quando iniciou a tortuosa e vertiginosa descida do Monte Sinai, Moisés trazia consigo Os 20 Mandamentos.

“Vinte Mandamentos?!?!” – questionará atónito o querido leitor.

Sim.

A tentacular e frutóloga máfia das quadrigas e dos cavalos (sempre com protestos das associações dos Direitos dos Animais da época), é que muito conspirou para que Moisés fosse esquecido, afinal de contas não era para menos dado que o seu lobby status quo encontravam-se sob ameaça.

Moisés trazia consigo duas grandes placas em carbono, daquele que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono, onde estavam inscritos pela própria mão de Joaquim Agostinho, os dois conjuntos de regras que deviam reger a humanidade velocipédica. Os 10 Mandamentos dos Enlicrados e os que tentaram esconder, Os 10 Mandamentos dos Ciclistas Urbanos.

E se dúvidas têm em como ninguém foi na cantilena de Moisés, olhem pela janela e vejam o resultado, aproximadamente 1000 anos depois – é enlatado por tudo o que é rua, estrada, avenida, beco ou ruela.

E tudo isto porque Moisés teve o azar de não se ter juntado à crescente moda dos travões de disco na sua bicicleta de rodas quadradas, infelizmente ainda equipada com uns básicos V-brake (ainda por cima, estudiosos da época acreditam que por cortes no orçamento da sua equipa, a Carpintarias do Zé – Enchidos Kosher de Tel Aviv Pro Cycling Team, equipava as suas máquinas com travões de bicicleta de hipermercado).

O problema é que já à época, os serviços da J.I.F.E.R. (Junta Imperial Fascista das Estradas Romanas), já deixavam muito a desejar e sabendo da pouca afluência que aquela descida do Monte Sinai tinha por parte das quadrigas, para além de que não decorria a época de eleições autárquicas, estavam-se cagando para o arranjo do que ainda nem um projecto embrionário de pavê era que pudesse ser apelidado de estrada.

Uma curva de trajectória mal calculada e Moisés, que se assemelhava a Thibault Pinot a descer, quase sai fora da pseudo-estrada, mas foi incapaz de segurar com unhas e dentes justamente aquela placa que mais falta faria à humanidade.

Talvez por isso, o descrédito de Moisés tenha sido maior; sem provas de que Nosso Senhor Joaquim Agostinho não só tinha leis para partilhar com os enlicrados que usam a bicicleta com fim desportivo-ressabiante, como também leis para enaltercer e guiar o ciclista urbano na sua diária labuta casa-trabalho-casa, a tarefa do jugo opressor da máfia das quadrigas foi facilitada, condenando Moisés e o uso da bicicleta como o mais sustentável e amigo-do-ambiente transporte alguma vez inventado pela humanidade ao olvidamento histórico.

Como tantos outros portugueses o fizeram quando se viram a mãos com cursos universitários completos, auferindo menos que o ordenado mínimo do Curdistão na dura labuta de um call-center, ou um pseudo-restaurante de junk-food ou até mesmo numa padaria portuguesa, sem qualquer tipo de preocupação por parte dos incompetentes governadores Coelhos & Portas romanos, Moisés também emigrou.

Para o Egipto.

Ou Egito, na mais recente actualização do Acordo Ortográfico.

Onde morreu, cumprindo um horrendo e penitencioso e irónico e carregado de humor negro final de vida enquanto ciclista de riquexós. Uma humilhação para o que havia sido um dos mais brilhantes ciclistas não asmáticos de sua geração.

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Uma das últimas fotos públicas conhecidas de Moisés (em primeiro plano, à esquerda), liderando uma manifestação convocada pelo Sindicato da União Cooperativa dos Riquexós contra o que era considerado o estatuto ilegal da Uber.

No seu leito de morte, apenas acompanhado da sua quinta esposa, Moisés preparava-se para a mudança final de residência para junto do Criador, quando uma estranha visita lhe apareceu à porta.

O Estranho que o procurava contou a sua história.

Enquanto rebento, o que aquele estranho homem queria mesmo era estudar Bailado e Danças Contemporâneas, mas após aquele encontro com Moisés nas encostas do Monte Sinai, a vida do seu pai nunca mais havia sido a mesma. O Goat Boy que havia salvo a vida de Moisés, providenciando-lhe leite, tábuas de queijos variados e partes cozinhadas de cadáveres de desgraçadas cabras, havia sido processado por parte das várias sociedades protectoras dos animais, resolvendo assim passar todo o seu negócio e tudo o que tinha em seu nome para o filho, de maneira a escapar à escrutinante inspecção do fisco fascista romano.

E lá se tinha ido o sonho do Ballet.

Herdando o negócio do pai, o filho do Goat Boy passou então muitas noites ao relento, até que numa das suas muitas noites a sós com as pobres cabras nas encostas do Monte Sinai, o que motivou também muitos protestos por parte das sociedades protectoras dos animais porque já se sabe que ideias um solitário pastor de cabras tem por actividades recreativas nocturnas, o moço já tinha bebido uns canecos e fumado umas ervas aromáticas, preparando-se para recolher ao quentinho do seu bivy bag acompanhado de uma sortuda cabra, quando tropeçou e caíu redondo no chão. Uma ressacada inspeção na manhã seguinte e qual não foi o espanto do filho do Goat Boy quando percebeu que não era uma rocha qualquer a razão de sua queda.

Era uma placa com estranhas inscrições.

Parecia referir algo sobre bicicletas e meios de transporte do passado, presente e futuro e mobilidade sustentável e coiso.

No bivaque que servia de casa à caída em desgraça família do Goat Boy, um intrigado filho do Goat Boy mostrou a seu pai aquelas estranhas placas, que mesmo com o passar dos muitos anos foram imediatamente reconhecidas por um Goat Boy pai de lágrimas nos olhos.

“Isso só pode ser obra do Moisés! Leva-me essa merda daqui que esse gajo só trouxe miséria a todos os que com ele se cruzaram.” – berrou por entre baba e ranho.

E lá foi o filho do Goat Boy numa das primeiras aventuras de que há memória de bikepacking até ao Egipto. Ou Egito.

Sentados frente a frente, era agora a vez dos olhos de Moisés se cobrirem de lágrimas ante a visão do filho do Goat Boy;

“Tendes aí os meus Mandamentos?” – questionou um soluçante Moisés.

“Não. Estão no meu saco de quadro da Blackburn que adquiri na G-Ride.” – respondeu o filho do Goat Boy.

“Podeis ir buscá-los?”

“Não.”

“Como assim?”

“Primeiro tendes de realizar a profecia, ou achavas que isto ia ser assim à papo-seco?”

“Sério? Qual profecia?”

“Voltar a treinar e regressar ao Tour da Crucificação para o vencer de uma vez por todas.”

“Sois louco. Eu estou velho.”

“Tomas coiso.”

“Hã?”

“Fazes como o outro, Aquele-Cujo-Nome-Não-Se-Diz. Dizes que te arrancaram um tintim e este é o teu regresso à glória.”

“Isso é que não! Os meus tintins estão cá todos.”

“Então vá… Dizes que tens asma.”

“Epá… Treinar ainda acho que estas velhas pernas aguentam mas dopar-me?”

“Quem é que vai voltar a treinar o quê?” – entrou em cena uma vociferante quinta mulher de Moisés.

Moisés era conhecido no lugarejo que habitava por se encontrar já na quinta mulher, não porque o restante quarteto tivesse sucumbido a alguma maleita como sífilis ou tifo, mas porque nenhuma havia aguentado a obsessão de Moisés com as bicicletas.

Com muitas jornadas de discussão e meses com solitárias noites de Moisés no sofá da palhota, esta quinta esposa conseguiu vergar a obsessão velocipédica de Moisés, domesticando-o. Aquele tal de um filho de um tal de um pai que era um tal de pastor de cabras estava a lixar-lhe os planos de uma reforma calma e sossegada.

Moisés treinou.

Os treinos permitiram afastar o gélido abraço da morte que sobre ele pairava.

Depois treinou mais.

Calcorreou em séries, as mais duras subidas do Egipto, ou Egito, e arredores.

Inscreveu-se em alguns granfondues amadores e venceu.

A sua antiga equipa, convencida pelo generoso patrão romano e seus capangas a aceitar Moisés de volta com base na oferenda de alguns filhos deste como escravos, tendo Moisés escolhido seis dos seus muitos filhos, fruto da tumultuosa relação com a sua segunda mulher que era uma megera apenas interessada no alto ordenado auferido por Moisés enquanto ciclista de riquexós.

Depois treinou ainda mais.

A sua quinta mulher, à semelhança das outras quatro Marias anteriores, pediu o divórcio após uma última e violenta discussão entre o casal, daquelas reconhecidas pelos vizinhos quando se ouvia o som de loiça de barro voar pela atmosfera da palhota.

Por entre baba, choro, muito azeite e outros impropérios que o Velopata não pode aqui escrever que este quer-se um espaço de referência para menores de idade, foi então que a futura ex-quinta mulher de Moisés proferiu aquela que é a razão de toda esta cultura velocipédica que o Velopata aqui expõe para gáudio dos seus mui queridos seguidores;

“Nunca ninguém vai ler esses mandamentos, ouvistess? Não vais vencer Tour da Crucificação nenhum e vais acabar velho e sozinho, com uma reforma de merda e os teus outros onze filhos a odiarem-te pelo que fizeste àqueles seis, percebestess? E te digo mais! Um dia, só os que são obcecados como tu por essas porcarias das bicicletas é que vão poder ler essa merda desses mandamentos que só deram é chatices! Grandes males vão caír sobre todos os não-ciclistas que os leiam! Esse veículo vai ser removido do futuro histórico, vais ver!”

Mulheres.

Aparenta ser uma premissa embebida no DNA das fêmeas do bicho humano, esta relação de ódio-ódio com os parceiros e suas bicicletas.

Chegado o dia, Moisés marcava presença entre as fileiras dos ressabiados ainda não enlicrados que se amontoavam e empurravam na linha de partida , ávidos de ressabianço velocipédico ao mais alto nível. Por isso e porque a traseira do pelotão era a que mais sofria com o estalar dos chicotes dos sempre afáveis Comissários Centuriões Romanos.

Moisés ganhou?

Essa fica uma história para outro dia que esta publicação já passou a fase de longa.

“Ó Velopata… E os Mandamentos?” – questionará o atento leitor.

Um lapso temporal que à hora de publicação o Velopata ainda não havia conseguido deslindrar neste pedaço de história humana esquecida, é o que se passou entre aquela última mítica etapa de consagração do Tour da Crucificação e a efetiva morte de Moisés. Sabe-se apenas que foi enterrado com a sua placa de carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono, com os 10 Mandamentos Velocipédicos para os Ciclistas Urbanos. Ao que tudo indica, a sua sepultura foi cavada em local incerto pelos próprios filhos que nunca o desculparam por ter doado uma parte deles para a escravidão, de modo a manter o vício velocipédico.

Encontrada pela falecido Howard Carter, a placa com Mandamentos foi enviada para Londres porque lá está, por alguma razão os cámones acreditavam que as coisas encontradas no Egipto, ou Egito, eram suas para exibir em museus próprios, enchendo-se de eirios à grande.

Lorde Carvanon recebeu os Mandamentos em sua mansão e procedeu à sua leitura.

Grande erro.

É que Lord Carvanon, sendo o típico lorde bife com a mania que é mais que os outros porque é Sir, era um acérrimo defensor desse meio de transporte primitivo que era o enlatado.

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Uma das últimas fotos conhecidas de Lord Carvanon acompanhado da sua 13ª mulher, durante uma manifestação do Sindicato dos Enlatados contra o absurdo e ridículo valor do limite de velocidade de 110 km/h que o Governo inglês queria estabelecer no interior das localidades.

Com maldições de fêmea, ainda para mais, fêmea esposa e furibunda, não se brinca e a verdade é que Lord Carvanon arriscou – a maldição chegou com tudo e assim terminou o azarado Sir; empalado por um espigão de selim de carbono de alto módulo, prostado sobre uma bicicleta pasteleira.

Segundo a lenda, trazida agora à luz da lupa velopática, consta que os grandes monges da Ordem Velocipédica levaram consigo esta amaldiçoada placa, escondendo-a em local incerto mas, segundo os vários éxpertes consultados pelo Velopata, desconfia-se que esta placa foi dissimulada por baixo de um paralelipípedo da localidade francesa de Roubaix.

E ninguém viveu feliz para sempre.

Os 10 Mandamentos Velocipédicos do Ciclista Urbano

I – Amar a Bicicleta sobre todos os outros meios de transporte.

Simplesmente auto-explanatória.

II – O primeiro mandamento aplica-se, mesmo quando a climatologia não é favorável.

Sempre.

Mesmo quando há o espalhafato jornalístico do AntiCiclónótórnadófuracão David.

Mesmo quando a Srª Velopata olha pela janela, enquanto beberica o café da manhã e nos mostra como o caos se desenrola lá fora; a ira de São Pedro está bem patente nas árvores torcidas, a estrada assemelha-se a uma banheira entupida e o alcatrão está encharcado com manchas de vil e repugnante óleo enlatado, e nos questiona;

“Vens comigo de carro?”

“Que pergunta é essa?”

“Já viste o tempo?”

“O Velopata é como o Gandalf, nunca chega atrasado, chega…”

“Parvo, não é esse tempo. Já olhaste pela janela?”

“Já.”

“Vens comigo de carro?”

“Ele não pode.”

“Que parvoíce é essa?”

“Uuuuuaaaaaaaahhhhhh!!!!” – dispara o Velopatazinho do interior do berço, aquele aterrador som que surge do vazio do quarto matinal enquanto o casal Velopata se prepara na cozinha, em tudo indicando que algo ou alguém está a atentar contra a vida do mais-que-tudo rebento.

Afinal é só a chucha que lhe escapou da boca.

“Vês?” – ataque em cadência da Srª Velopata.

“Uai, vê o quê? Lá fora? Já te disse que ele já viu.”

“Não. Vês? A tua estupidez já acordou o teu filho. Vens de carro comigo?”

“Ele é o Velopata. Ele tem obrigações. O que diria quem o visse, a destruir o precioso ar que respiramos apenas porque está uma ligeira tempestade. O exemplo dá-se é nos maus momentos e nas horas do tudo ou nada, pedalar em bom tempo é sempre mais fácil.”

“Vês?”

“Uai, mas vês o quê?”

“Com bom tempo é mais fácil porque é como o Gandalf.”

“Hã?”

Metáfora futebolística – autogolo do Velopata.

Mesmo quando no local onde ele afincadamente labuta todos questionam o Velopata se veio labutar de bicicleta.

“Uai, mas de que outro modo querias que viesse?” é a primeira resposta velopática.

“Com este mau tempo podias vir de carro com a tua mulher.”

“Não existe mau tempo. Só mau equipamento.” – isto é o Velopata a marcar golo, correndo pelo estádio e silenciando a plateia.

Por norma os civis ou só sorriem, ou abanam a cabeça negativamente e sorriem, indicando Caso Perdido.

Como poderia o Velopata perder a piada e adrenalina que existe numa cavalgada na sua Cappucino, levando com rajadas anticiclónotórnadófuracónicas de todas as direções, manobrando uma dobrável em alumínio, nada aero ou leve aluminium, roda 20″, com o alcatrão forrado de água a lembrar as ondas do Canhão da Nazaré do McNamara, detritos e lixo em monte nas bermas, as crateras do costume que se transmorfaram em piscinas e nunca esquecendo, claro, os enlatados. Em estado selvagem porque está de chuva. E vento. E é chato para eles coitados, obrigados a conduzir protegidos pelo falso aconchego da lata.

E corriam notícias que podiam cair árvores em cima das latas nos parques de estancionamento.

Enlatados à solta e andem em pânico com as suas latas.

Para o Velopara parece só Justiça Divina.

III – Respeitarás e homenagearás as ciclovias.

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Mesmo quando são uma merda.

Que são a vasta maioria.

Mas nunca esquecer que podemos sempre construir mais.

Muitas mais.

MESMO MUITAS MAIS.

O primero país do mundo totalmente forrado a ciclovias!

Um Velopata pode sonhar, não pode?

É de notar que homenagear uma ciclovia e pedalar nela são actividades completamente distintas.

O Velopata pode, por exemplo, homenagear a existência de marcas de bicicleta como as Specialicoisas e as Canyoncoisas pela tentativa de produzirem o mais nobre meio de locomoção do planeta, no entanto, jamais compraria qualquer uma pois são ambas as duas… O mui atento leitor entende a metáfora. Coiso.

IV – Respeitarás o Código da Estrada.

À medida que os números de bravos e guerreiras que se juntam às fileiras da licra e da mobilidade sustentável na luta contra o tirânico jugo opressor do enlatado aumentam, também o aperto das leis aumentará.

É consequência inevitável quiça condição humana, olhando para o historial desta nossa espécie que já mostrou ser difícil aprender com os erros do passado, e se dúvidas o leitor tem, o Velopata tem duas palavras. Sí-ria.

Liderar pelo exemplo, parece ao Velopata a filosofia e modus operandi assertivo.

V – Honrarás outros Ciclistas Urbanos com que te cruzes.

Se juntos combatemos o opressor e tirânico jugo do lobby enlatado, só faz sentido que mutuamente mostremos respeito uns pelos outros, reconhecendo-o e praticando.

Especialmente no particular caso de nos cruzarmos com uma fêmea Estudante de Erasmus.

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Um exemplar de Estudante de Erasmus com quem o Velopata teve o prazer de se cruzar. Uma simpatia de moça.

VI – Encarocharás e ressabiarás à grande. 

Reza a lenda que a última encarnação terrena de Nosso Senhor Joaquim Agostinho foi descoberta para a dura vida profissional velocipédica quando, no decurso do seu commute diário em Casalinhos de Alfaiata, se cruzou com a ainda-não enlicrada e com bicicletas a rondar os 20 quilogramas de peso, troupe do Sporting Clube de Portugal.

E que um por um, encarochou-os todos.

Com uma bicicleta de hipermercado da época, aí umas 10 quilogramas mais pesadas que as dos profissionais de então.

E com um garrafão de vinho de 5 litros às costas com água porque havia lá escudos para comprar bidons aero.

Honrando esta milenar tradição, todo o Ciclista Urbano que cruze alcatrão com um enlicrado de fim de semana, seja ele bêtêtista ou estradista, deverá ressabiar com todas as suas forças, mostrando que os enlicrados podem botar discurso nas montanhas e vales dessas serras, mas no alcatrão urbano quem manda são os que lá vivem o dia-a-dia velocipédico.

Até porque nada dá mais prazer que encarochar um enlicrado pançudo munido de uma Pinarello FP25 montada com Dura-Ace Di5+ e rodas tubulares Mavic Space Carbon Strike Elite Cosmic, tudo em full aero carbono, com uma bicicleta em full aluminium, dobrável e de roda 20″, vestindo somente roupa civil.

No caso do Ciclista Urbano se deslocar com recurso a uma single speed, ou apresentar problemas ao nível da depressão e suicídio, sendo este tipo de Urbano identificado por recorrer a uma fixie para sua mobilidade urbana, este mandamento é de uma importância vital. É que humilhar um gajo com uma bicicleta cheia de mudanças tem um je ne sais quois ressabiante muita forte.

VII – O Capacete é opcional.

Ui.

O Velopata até hesita em analisar este delicado mandamento.

Andem por aí uns Ofendidos do Capacete que acreditam este adereço de protecção crânio-cerebral ser um dos Pais de Todos os Males Velocipédicos que agem como elemento persuasivo e impeditivo e coiso para muito bicho humano não se converter ao recurso à bicicleta como meio de transporte.

Isso é só estúpido.

Se em Cachopo o Ti Manél precisar de capacete para pegar na sua Yé-Yé de 30 quilogramas do século passado para se deslocar até ao tasco mais próximo onde bebe três ou quatro copos de vinho tinto de pacote de penálte, enquanto vê o seu amado clube de futebol na televisão, a única coisa que o Ti Manél vai conseguir é ser gozado.

Gozado pelos restantes companheiros do tasco sobre o facto de andar por ali com um penico esquisito em esferovite esquisita enfiado na cabeça.

Mas para quem todos os dias labuta contra esse tirânico e opressor jugo enlatado no nosso alcatrão, a única forma certa que tem de se estar mais ou menos 100% protegido é esta;

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Equipamento de proteção standard do Ciclista Urbano europeu.
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Equipamento de proteção standard do Ciclista Urbano amaricano.

Mas como ainda ninguém se lembrou de inventar a versão em carbono de alto módulo dos elementos de proteção rodoviária velocipédica acima expostos, parece ao Velopata de bom senso recorrer sempre ao uso do capacete quando se tem de sobreviver às tentativas de atropelo diárias e uma paisagem alcatroada que lembra a Lua, crateras em monte.

Até porque lá está, o Velopata é de todo adepto de qualquer ideologia fascizóide e por ele tanto se lhe dá como se lhe deu – o capacete usa quem quer e a seleção natural trata do resto.

VIII – Tu não és um Bike Ninja.

Não sejas estúpido.

Usa luzes na bicicleta.

Aquela vermelhinha atrás e à frente um farol tão potente que encandeie os enlatados à grande.

Porque eles vão dizer à mesma que não virem o ciclista.

IX – Todo o enlatado te vai tentar matar. 

A regra de carbono para todos os que desejam sobreviver neste jardim zoológico que podia muito bem ser uma selva.

Não importa de que direcção venha, que direcção vá tomar, a que velocidade venha, a que distância vá passar, se há triângulos ou sinais de stop, se no interior ou fora de uma rotunda, se vens pela direita, se já se estabeleceu contacto visual… O Enlatado vai-te sempre tentar matar.

Se o enlatado não te conseguir apanhar, então será um cão, um gato, peões ou a bela da cratera que não viste que te vão tentar matar.

Até já 2 pombos diferentes tentaram matar o Velopata.

Por isso ele não exagera quando diz que tudo o que existe no ambiente alcatroado da cidade te vai tentar matar. A partir do momento em que isto se entranhe na mente do ciclista urbano, tudo o resto será uma pedalada no parque. Free your mind and your legs will follow, dizem os cámones.

Atingido este estado kármico de comprimento de onda cerebral, o ciclista urbano pode então apreciar tudo o que a bela cidade tem para oferecer; os nauseabundos cheiros dos vis escapes enlatados e aquela loja de simpáticas costureiras que fizeram novas as suas escalafradas luvas aero da Assos, pós-traumatizante Odisseia Algarvia de 2018.

X – A soma dos cadeados é igual à hipotenusa das correntes.

É tipo Lei da Termodinâmica Velocipédica ou lá o que é; se enquanto lês estas linhas a tua bicicleta não está perto de ti e se encontra presa num qualquer suporte na rua, há certamente um marafado moço que a observa com um só pensamento.

Dar-te a banhada à bina.

Do alto de toda a sua experiência velocipédica, qual guru das bicicletas, o Velopata partilha aqui com a sua fiel legião velopática, as conclusões das suas importantes observações in situ.

Existem dois grandes métodos anti-contraceptivos contra quem nos tenta fecundar a bina.

Este;

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A única maneira do Velopata alguma vez ousar sequer pensar em deixar uma das suas adoradas montadas no meio ambiente sem a sua pessoal supervisão.

E o preferido do Velopata;

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O método preferido pelo Velopata. Essa aí da foto não é a Cappuccino, que é semelhante mas em muito mais bonita. E pesada.

Como se deixar um nobre velocípede fora do seu ambiente natural que é o alcatrão já não fosse dose suficiente de humilhação e degredo, há por aí muito ciclista urbano que teima em deixar o seu corcel preso com o mínimo dos mínimos das proteções, um só cadeado chega.

Nem o selim retiram.

E depos admiram-se.

O Velopata chegou mesmo a conhecer uma moça que já ia na quarta Órbita, uma pasteleira negra de geometria vintage, bem bonita (a bicicleta!), fruto do furto do restante trio.

Analisando todos estes factos, o Velopata chegou a uma só conclusão sobre cadeados – enquanto o preço destes se encontrar abaixo do valor da bicicleta, não existirão cadeados 100% eficazes no combate a essa maleita da sociedade moderna que são os ladrões de bicicletas, esses bichos humanos ao qual está reservado um lugar especial no Inferno.

“Não compres uma bicicleta desdobrável que isso não vale nada! Vais-te arrepender!” – dizia um companheiro de métier velopático há alguns anos atrás.

Primeiro, é dobrável que se fala e escreve, não desdobrável.

A vasta maioria da elite ressabiada enlicrada de fim de semana parece ter uma questão qualquer por resolver com as bicicletas dobráveis. Afirmam sempre que lhes lembram bicicletas de brincar ou algo semelhante.

Mas este humilde meio de locomoção que súou para obter o seu duro e conquistado espaço na comunidade velocipédica é na sua mais real epistemologia da palavra, o verdadeiro velocípede urbano.

Prática de arrumar no conforto do lar ou no local de labuta, levam-se cerca de 10 segundos a transmorfar aquele prático Trolley numa poderosa máquina de mobilidade sustentável e coiso.

Com a enorme vantagem que pode ser transportada no interior de um transporte público, para todos aqueles que são forçados a partes do seu commute recorrendo a veículos ligeiramente mais eficientes que o enlatado individual.

 

Uma importante nota revelada ao Velopata perto da hora de publicação deste texto – parece que Moisés afinal não foi vencedor daquela última e mítica etapa do Tour da Crucificação. Um jovem ciclista emergiu do pelotão com uma capacidade de ressabio jamais ouvista até então.

O seu nome era Ben-Hur.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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