Os Mandamentos Velocipédicos

Esta é uma história que inicia com uma tempestade daquelas de fazer Harveys, Katrinas, Irmas e Ophelias parecerem uma pedalada na ciclovia. Ciclovia holandesa, claro está, pois pedalar na maioria das ciclovias deste país à beira-mar plantado é uma aventura per se.

Segundo os registos dos historiadores, os acontecimentos que o Velopara a seguir descreve terão ocorrido na última etapa do Tour da Crucificação, uma dura prova velocipédica que percorria a área da antiga Judeia, calcorreando estradas de gravel e como se tal facto não fosse suficiente para fazer desta uma das mais difíceis provas do calendário Pilatos Tour (percursor do actual World Tour), o querido leitor deverá notar que nesta fase da humanidade, as rodas das bicicletas ainda eram quadradas e os quadros fabricados em ferro. OK, era ferro hidroformado smartweld, contudo, não deixava de ser castigador para o corpo apesar da rigidez lateral ser aí uns 300% superior às actuais mariquices em carbono.

Ainda assim, segundo alguns investigadores que trabalharam em antigas sepulturas, alguns desses mesmos quadros forjados em ferro apresentavam já sinais de uma preocupação com o aero por parte dos artesãos da época.

Naquela última etapa do Tour da Crucificação, prova na qual o vencedor da geral ganhava o direito a sobreviver e o restante pelotão era crucificado (mais uma daquelas fofinhas actividades inventadas por esta simpática espécie que habita neste terceiro calhau a contar do Sol), a luta pela camisola amarela encontrava-se renhida entre os dois principais candidatos à vitória; de um lado o experiente Ben-Hur que ocupava o primeiro lugar, do outro lado da trincheira velocipédica e a uns escassos seis segundos de diferença, um maçarico que muito prometia, de seu nome Moisés, sobre o qual caíam grandes expectativas.

Partindo da cidade de Belém, que não deverá ser confundida com Belém em Lisboa (provavelmente nem existia nesta época, ou a existir chamar-se-ia Belémum, Pax Belém ou mesmo Caer Belém), ou muito menos confundida com a Belém do estado brasileiro do Paraná (esta então ainda nem tinha sido “descoberta” pelos sempre amigáveis conquistadores – há que manter um rigor histórico nestas crónicas velopáticas!), a última etapa era sempre aguardada com elevada expectativa pelos civis sobreviventes à lepra, varíola, sífilis, tifo e outras maleitas que matavam em monte, dirigindo-se todos ao sopé do Monte Sinai para assistir à chegada em alto e descobrir quem seria o sobrevivente de mais uma edição.

Reza a lenda que quando o já esfrangalhado pelotão atingiu a base do Monte Sinai, a equipa de Moisés, a Carpintarias do Zé – Enchidos Kosher de Tel Aviv Pro Cycling Team, carregou na frente, preparando o território para o seu chefe de fila que, segundos depois, não se fez rogado lançando-se num ataque cheio de panaché, numa tentativa de roubar aqueles marafados seis segundos que o separavam de Ben-Hur, garantindo assim que não terminaria esta edição da prova pregado a uma cruz.

O regozijar do público que vibrava na berma do single traque não durou muito tempo pois à medida que Moisés ganhava vantagem sobre o pelotão, uma dantesca tempestade abateu-se sobre a montanha, forçando o pelotão a colocar a sandália de encaixe no chão.

Mas não Moisés.

Pela primeira vez na história do ciclismo, a UVJCI (União dos Velocípedes de Júlio César Internacional, organismo em tudo semelhante à actual UCI), se viu forçada a colocar em acção o protocolo de clima extremo para intempéries meteriológicas, cancelando a etapa. Os corredores seriam então linchados e crucificados de acordo com a sua classificação no momento da paragem. Ocorreram alguns protestos por parte das várias equipas mas a vida naquela época era assim.

Talvez pela inexistência de rádios, ou apenas porque viu a sua vida pedalar para trás, Moisés acelerou sozinho montanha acima, na direção dos raios e coriscos que se alevantavam lá no alto dos 2285 metros de altitude. Alguns membros do Colégio de Centuriões que acompanhavam, monitorizavam e chicoteavam quem quer que tentasse sabotar a prova ainda berraram na direção de Moisés, tentando demovê-lo, mas o súbito ribombar da própria montanha e a queda de pedregulhos que bloquearam a estrada levou a que ninguém fosse atrás do mafarrico, que parecia voar na sua bicicleta de rodas quadradas na direção do sopé do Monte Sinai que nem se conseguia vislumbrar, tal a violência da tempestade.

Ben-Hur foi consagrado campeão do Tour da Crucificação, o restante pelotão foi crucificado e Moisés foi dado como M.I.P. (em inglês, Missing In Pedalating), ou seja, morto.

Cerca de 21 dias depois qual não foi o espanto de um goatboy; profissão muito fashion na época, consistindo em pastar cabras (semelhante aos cowboys que actualmente ainda pastam vacas pelas planícies amaricanas), que nas veredas opostas às da famosa subida por onde o Tour da Crucificação acedia ao Monte Sinai, viu saír do nevoeiro que cobria o sopé um lançado Moisés que bateu todos os KOM respeitantes à descida. Até o Nibali se consideraria um menino do côro se tivesse ouvisto aquela descida que Moisés fez.

Moisés desceu com uma larica daquelas e muito frio (ainda não tinham sido inventadas as barrinhas de energia ou corta-ventos – vamos lá manter o rigor histórico!), tendo recuperado com a ajuda do goatboy que o aconchegou e aqueceu por entre umas quantas cabras enquanto Moisés mamou o recuperador leite quentinho de algumas tetinhas, facto que posteriormente motivou protestos de algumas associações vegetas da época.

goatboy desceu à cidade e a notícia espalhou-se tão depressa como uma doença venéra – Moisés afinal estava vivo e trazia consigo uma importante boa nova que deveria ser espalhada pelos quatro cantos deste sétimo calhau a contar de Uranus. Ou oitavo pois parece que há por aí um nono planeta neste nosso código postal galáctico.

O povo acorreu ao Jordão (não confundir este nome de rio com o jogador da bola angolano), para ouvir Moisés discursar, disurso esse que o Velopata não tem tempo ou capacidade para traduzir, caso contrário, esta publicação que já se prevê longa, duraria muito mais e depois lá vinham os mais-que-tudo leitores mandar vir com o Velopata porque este escreve descontroladamente e em monte.

Moisés fazia-se acompanhar de umas placas num estranho e desconhecido material que, dizem os defensores da Teoria dos Antigos Astronautas, era carbono de alto módulo HMF Factcoiso – certos investigadores afirmam mesmo que estas placas até já eram em aerocarbono. Segundo Moisés nelas se encontrava escrita pela própria mão de Deus, com quem ele tinha passado os 21 dias anteriores em amena cavaqueira, as leis que deveriam reger toda a humanidade no que ao seu transporte diz respeito. Grosso modo, o discurso de Moisés assentava na ideia que Deus lhe tinha aparecido e explicado que a bicicleta deveria ser o único bem imaterial a ser reverenciado como Sua representação fidedigna na Terra. Que só a bicicleta e uma bela pedalada permitiriam atingir o nirvana. Que o reino dos céus abriria as suas portas a todo o ser humano que abraçasse a bicicleta como modo de vida. Que até para os ressabiados velocipédicos haveria lá um lugarzito para poderem ressabiar para toda a eternidade.

Claro que o lobby das quadrigas e dos criadores de cavalos não poderiam deixar Moisés acabar com as suas negociatas em PPRPs (Parcerias Público-Romano Privadas), e como tal, trataram de conspirar, deturpando toda a história que o Velopata acima partilha com os seus queridos leitores, fruto de inúmeras horas a vasculhar na deep dark e coiso web.

Anos mais tarde apareceram uns gajos que ainda conspurcaram mais a lenda com a alucinante ideia que afinal o que Moisés trazia escrito nas placas era tudo uma questão de amar o próximo, comunismo em monte e tal e houve até um moço que tentou transmitir esse exemplo a esta tão amorosa espécie, no entanto, não foi lá muito bem sucedido e acabou… Crucificado.

Verdade seja escrita; avaliando os mafarricos que o Velopata encontra por aí nas suas montadas ao fim de semana, parece-lhe de uma extrema importância voltar a espalhar a boa nova que Moisés bem tentou transmitir, nunca esquecendo que afinal de contas, não passamos de gajos com crises de meia-idade e presuntos enrolados em licras que andam para aqui a brincar às bicicletas após deixar para trás uma vida de ócio, boémia e peso corporal excessivo.

Os 10 Mandamentos Velocipédicos

I – Amar a bicicleta sobre todas as coisas.

Uma boa casa. Uma boa lata. Um bom smarthpone. Nenhum destes bens materiais se deverá sobrepôr à bicicleta cujo valor gasto na sua aquisição e manutenção deverá sempre ser superior ao gasto nos supérfulos bens acima descritos.

Importante também é mantê-la um mimo e um brinquinho. Evitar aparecer para uma group ride com a bicicleta a produzir sons que lembram uma chocolateira e muito menos, como o Velopata já tantas vezes viu, cagada até ao âmago do eixo pedaleiro. Nestas condições só duas conclusões se podem retirar; ou és um porcalhão ou na véspera deste numa de belga e a pedalada foi à chuva, vento e frio, quando todos os outros não foram para a estrada, feitos uns moles. Ainda assim passar um paninho na bina não te ficava mal. És um badalhoco, portantos.

Guardar a bicicleta na varanda está terminantemente fora de questão. O Velopata até sabe que brevemente um dos próximos episódios da célebre rubrica da SIC do programa “E se fosse consigo?” é exatamente sobre este tema.

II – Não pedalarás em vão.

Saír para uma volta de bicicleta implica súar as estopinhas e regressar ao conforto do lar todo rôto. Andar erecto sobre as duas pernas deve ser difícil e sentar-se deve ser um lento e angustiante processo dadas as dores na musculatura.

Se assim não fôr – estás a fazer isso mal e percebeste tudo errado.

Somos ciclistas e não comuns mortais que se deslocam de bicicleta. Mais ninguém aprecia sofrer tanto como nós. E ainda por cima, sofrimento deliberadamente procurado e auto-infligido.

Tirando claro a malta do sado-maso e aquela moça dos livros que aqui há uns tempos estavam na moda. Aquela que era secretária do gajo rico que só pelo facto de ser rico é que não foi manchete no Correio da Manhã como mais uma série de livros sobre violência doméstica.

III – Respeitarás e homenagearás os dias santos; Sábados, Domingos e Feriados.

Fruto da agitada vida social e laboral os dias de semana são de pedalada difícil.

Os dias santos nas quais a labuta não domina o horário, a pedalada é obrigatória.

IV – Não proferirás o nome de Suas Altas Eminências Velocipédicas em vão.

Anquetil, Coppi, Bartali, Merckx, Agostinho. Estes grandes homens que se sentam à mesa no grande salão do nirvana velocipédico não deverão ser referidos em vão.

E não.

Aquele-cujo-nome-não-se-diz que por sete inglórias vezes venceu o Tour de France nunca lá terá um lugar. Os dopados, enxaropados e afins têm um lugar especial reservado no inferno.

V – Não encarocharás e muito menos ressabiarás.

Combinar uma group ride com os comparsas para depois passar a pedalada toda a tentar deixar toda a gente para trás e engolir monumentais carochas só comprova que há por aí muito ressabiado com problemas ao nível do ego por resolver.

Pedalar em grupo é prazeroso pelo espírito de convívio que daí advém e o Velopata não está a ver que confraternização pode existir quando é cada um por si com os bofes de fora e o coração à beira de um fanico. Óbvio que cada um tem o seu ritmo mas não é por isso que se deverá deixar os mais lentos para trás com o intuito de os fazer sentir-se ainda pior.

Até porque ninguém anda aqui a fazer corridas. Isso é coisa de profissional e em antes que questionem o Velopata com um “Mas ó Velopata, então e os granfondues?”, lembrem-se; as organizações fazem sempre notar que aquele é um evento não competitivo. Apesar de existir um pódio e prémios para os três primeiros ressabiados que passem a meta. É aquela lógica.

VI – Não empenarás.

Este é um mandamento auto-explanatório. Deverás sempre munir-te de barras, barrinhas, barritas e barróides de energia bem como géls ou géis e coiso. Qualquer outra forma de nutrição enquanto se pedala é terminantemente proibida.

Notar que se deverá evitar o consumo excessivo destas iguarias velocipédicas, correndo o risco de ver a inimiga balança mostrar um peso excessivo, para depois justificar-se perante os párias que se tem fisionomia de sprinter ou rolador quando, na realidade, é-se só e apenas… Gordo. No pelotão amador não existem especialistas, todos somos ciclistas completos.

Completos a fazer tudo completamente mal.

VII – Cumprirás as tradições velocipédicas.

Faz cá uma confusão ao Velopata ver machos de presuntos enrolados em licra com as pernas num deplorável estado piloso que, por momentos, o Velopata até se questiona se não será o Tony Ramos que decidiu virar ciclista.

Se acham que a depilação vos afeta a masculinidade então é porque (felizmente), ainda não se esbardalharam à grande e à francesa pelo alcatrão, necessitando de um desbridamento. O Velopata vos garante que aí vão agradecer. E berrar, chorar e uivar menos.

Outra que mexe com a molécula velopática é a mistura de kits que se vê por essas estradas fora. Jerseys da Sky com bib shorts da Movistar, peúgos da Lotto-Soudal, luvas da Tinkoff e bicicleta da Treco. É que é cá uma misturadela…

Tenham respeito pelo equipamento que vestem, nunca esquecendo que os equipamentos das equipas profissionais SÃO PARA OS PROFISSIONAIS e se ao menos os vão usar – sejam coerentes!

Uma tradição velocipédica que parece ter caído em desgraça e desuso é a de acenar e cumprimentar um companheiro de métier. Muito por culpa do ressabiamento que ocorre por essas estradas fora, há por aí malta que acredita que tirar a manápula do guiador e acenar como sinal de respeito para um comparsa, faz perder o aero ou a potência da FTP da cadência do mesociclo ou lá o que é.

Não faz.

Estás só a ser mal-educado.

É que até os profissionais, com quem o Velopata já se cruzou na belíssima serra algarvia, respondem ao aceno, sorrindo e tudo.

E o que dizer daqueles que, passando por um colega parado na berma em apuros, optam por olhar para o lado, seguindo caminho e fingindo que não o viram? Esta dá cá uma irritação velopática que o querido leitor nem imagina…

VIII – As pernas falam mais alto que a goela. E o Strava.

Pescadores, caçadores e ciclistas. Poucas outras categorias de humanóides exageram e aldrabam tanto como estas três aqui apresentadas.

Não adianta que sejas o maior a relatar as tuas conquistas velocipédicas ou que tenhas mais KOMs e PRs no Strava que qualquer outro mafarrico da tua aldeia.

Quando numa group ride a chinela canta, o ritmo enrigece e o alcatrão aperta, aí se vê de que de que cepa és feito. Tudo o resto são balelas.

IX – Não cobiçarás a bicicleta do próximo.

A tua bicicleta é a melhor do mundo. Ponto final parágrafo.

A menos que seja uma Specialicoiso. Nesse caso joga essa porcaria fora e compra uma bicicleta a sério.

X – Não nadarás nem correrás.

Um ciclista só deverá nadar para evitar o afogamento e correr no caso de se encontrar a ser perseguido (por exemplo, por um Fiscal das Finanças que tenta perceber como se comprou uma Pinarello F10 auferindo apenas o ordenado mínimo), e se a bicicleta não se encontrar por perto. Qualquer ciclista que não cumpra este escrupuloso critério deontológico deverá ser expulso da ordem velocipédica e passará a ser reconhecido como Testemunha de Batráquio, praticante de Batraquismo, devendo identificar-se como tal quando solicitado.

Isto é algo que o Velopata jamais entenderá; já sendo nós, comuns mortais amadores, lastimáveis num só desporto, porque razão lançar-se a praticar três?

Além de que nadar é estar fora do habitat natural do ciclista que é o alcatrão e correr… Uai, para que raios recebemos a bicicleta como dádiva dos deuses? Não foi para deixar de usar os xispes dessa forma animalesca?

 

No caso de falharem ou não cumprirem os importantes mandamentos acima, não é necessário desesperar. Ajoelhem-se perante a vossa amada montada, enquanto esta descansa no pedestal no conforto do lar, e peçam o perdão divino com a reza que o Velopata aqui partilha.

Oração para ciclistas pecadores e arrependidos

Avé Agostinho cheio de cadência,

O FTP máximo é convosco,

Bendito sois vós entre os ciclistas,

Bendito é o carbono que nos suporta.

Santa Shimano, Sram e Campagnolo,

Rogai por nós amadores,

Agora e na hora da nossa pedalada,

Amén.

 

Depois não digam que o Velopata não é vosso amigo e gosta muito, mas mesmo muito de contribuír. Como quem contribui mesmo.

 

PS velopático: Na realidade Moisés trouxe consigo várias placas que perfaziam um total de 20 Mandamentos; 10 Mandamentos aplicados aos ciclistas de baixa competição (aqui apresentados), e outros 10 que deveriam reger os ciclistas urbanos, ou commuters como a malta anglofagófona muito gosta de lhes chamar. Quanto a esses mandamentos, o Velopata promete abordá-los numa outra publicação.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

4 comentários sobre “Os Mandamentos Velocipédicos

  1. Pingback: Os Dez Mandamentos Velocipédicos – versão urbana – Blog do Velopata

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