À conversa com… Alberto Contador

Nesta fase da vida deste pequeno recanto velointernético, já será do conhecimento do mais-que-tudo leitor; o casal Velopata não partilha do gosto e prazer que a vasta maioria dos leitores possuem, apesar de tal facto não tornar o leitor menos fofucho.

O Velopata escreve sobre o consumo de cadáveres de animais.

Seus bárbaros.

E ainda por cima, coscuvilheiros depravados.

Julgavam realmente que o Velopata escrevia sobre a vida amorosa do casal velopático?

Adiante.

Recentemente o casal Velopata descobriu no Reino dos Algarves, a existência de um Talho Vegetariano.

Um Talho.

Que é vegetariano.

Se estas duas palavras juntas fazem algum sentido, não é esse o tema que nos traz aqui hoje. O que realmente interessa é o facto de enquanto o trio Velopata, Srª Velopata e Velopatazinho aguardarem a sua vez na fila, casualmente o Velopata desviou o seu olhar para observar/coscuvilhar os vários clientes daquele espectacular talho, que é vegetariano, e eis que… Quem estava na fila do lado, aguardando a sua vez?

Nada mais, nada menos que o recém-reformado El Dopalero Alberto Contador.

Obviamente que o Velopata não poderia deixar passar incólume o encontro com um moço desta raça, alguém que já tanto deu ao mundo velocipédico.

Velopata: Ei, usted éres El Dopalero, non és?

Alberto Contador: Que? Que me has llamado?

VP: Pistoleiro! Usted éres El Dopa… El Pistoleiro, non?

AC: Si, Si. Soy yo.

VP: Epá, éres un eniorme prazier encontriar usted aquí.

AC: No te entiendo.

VP: Epá mas que mania que ustedes têm de dizer isso do “no te entiendo”.

AC: Mi disculpa pero no te entiendo.

VP: O melhor é fazermos assim, ele fala em português, tu respondes em espanholito e depois logo se traduz mais ou menos qualquer coisa para os leitores, pode ser?

AC: Si, se a ti te gusta.

VP: Ó si carinho, a mim me encanta.

AC: Como?

VP: Nada, não ligues. Era a obrigatória deixa seguinte nos filmes de acção da juventude velopática do Canal 18.

AC: Mas de que estas hablando?

VP: Ignora. Ele já percebeu que deves ter passado a vida toda a pedalar e nem tempo para ver uns filmes de acção devias ter, caso contrário, lá se ia a testosterona.

AC: Oh si, vida de ciclista és muy dura. Mas quien és ello?

VP: Ah, essa é outra que deves ignorar. Ele é… O Velopata.

AC: Velopata? Usted eres el Velopata?

VP: Sim, é ele.

AC: No te entiendo.

VP: Mau… Isto não está a começar nada bem…

AC: Pero, puedes esperar un pouquito?

VP: Claro, vai-te lá aviar.

O Velopata assistiu enquanto o Velasco carregou à grande o saco de compras; vários bifes de soja, medalhões de tofu, tranches de lentilhas e secretos de seitan.

VP: Ele tem de admitir que é uma enorme e até agradável surpresa encontrar-te aqui. Só uma questão; viraste vegetariano?

AC: Pero si, diesde dos mil e once que no hay tocado en chicha.

VP: Ah pois, foi da barracada do Clenbuterol.

AC: Si, fue una tremienda injusticia.

VP: Uai, injustiça?

AC: Injustiça si, han sido dos años de mucho trabajo para poder ganar el Tour e el Giro e después lo to retiran…

VP: Então mas do que é que estavas à espera? O teu veterinário enfiou doping nos bifes e querias que não acontecesse nada?

AC: Yo no hai tomado nada!

VP: Vamos por partes. O Clenbuterol é um fármaco para melhorar a respiração, amplamente difundido entre os asmáticos, certo?

AC: Si.

VP: E o bife que comeste era de…

AC: Vaca.

VP: Então queres mesmo que a malta acredite que andava por aí uma vaca asmática a quem um latifundiário qualquer aplicou Clenbuterol antes de a assassinar, retalhar e servir em bifes?

AC: Mis fans sabem lo que és mi real valor.

VP: Lá isso é verdade, os fãs de ciclismo são um pouco como os eleitores portugueses.

AC: No te entiendo.

VP: Mau… Outra vez? Bem… Em Portugal podes ser um Presidente da Câmara corrupto, és julgado e cumpres pena por corrupção, daquela à grande e à francesa, mas podes candidatar-te à mesma que depois da pena cumprida… Votam em ti. No ciclismo é igual, és um drogado e um dopado, és catado e quando regressas após a expulso, a malta continua a achar que és o maior.

AC: Usted ha visto mis carreras? Mis vitórias en el Tour, Giro e Vuelta?

VP: Sim, por acaso ele até viu; viu quando fizeste o segundo melhor tempo de sempre na subida do Martim Longo ou lá como se chama aquele monte no Giro de 2015, retirando uma data de tempo ao ranking outrora dominado por uma cambada de enxaropados. E fizesteze-o limpinho, não foi?

AC: Presupuesto.

VP: Ah! Ah! Ah! Ah!

AC: Mas pero de que usted esta rindo?

VP: Do “presupuesto”. É que essa é outra que vocês espanholitos passam a vida a dizer.

AC: Mi desculpa pero… No te entiendo.

VP: Sabes, o Velopata às vezes fica tão cansado… Mas vamos é seguir esta conversa senão os mui queridos leitores ficam mais-que-aborrecidos pois o Velopata descontrola-se a falar e a escrever; sempre te vais reformar ou és “rockstar” como o Bradley Wiggins? É que pelo que o Velopata conseguiu apurar, parece que afinal já não vais acabar a carreira na Vuelta.

AC: Presupuesto.

VP: Mmmmffffghdmm. (onomatopeia do Velopata a conter o riso)

AC: Voi a acabar mi carrera em Japón.

VP: O quê? Chámon? É impressão do Velopata ou és assim a puxar para o preconceituoso? Vês um gajo com piercings e tattoos e é logo a cravar chámon?

AC: Que és… Xámon?

VP: Pois, pois… É como a história do Clenbuterol, se ainda corresses e acusasse positivo a charutos, ias dizer que a culpa era dos produtores hippies que tinham contaminado o teu seitan ou tofu com a Maria Joana, não era?

AC: Pero qui és Maria Joana? No te entiendo.

VP: Ai o… Então sempre é verdade que vais fazer uma última corrida no Japão.

AC: Si, corrir en Japón será mi última carrera, después me voi a reformar.

VP: Não tens medo?

AC: De qué? De mi reformar?

VP: Não, do sushi.

AC: Porqué habría miedo del sushi?

VP: Não vá existir por lá algum peixe oriundo de Fukushima que também tenha asma.

Fez-se silêncio enquanto o Velasco lançou um olhar carregado de farpas na direção deste vosso amigo. A verdade é que o Velopata estava só a ser simpático, avisando o moço pois ao que tudo indica, os testes anti-dopagem são efectuados a atletas, anos volvidos após deixarem a alta competição.

VP: Então e conta lá aos queridos leitores velopáticos, pois são muitos os que ainda acreditam que usted tinha pernas para colocar muito menino a sofrer no World Tour, porque razão o grande El Dopa…. Pistoleiro se vai reformar?

AC: Los fans e equipo hay pedido que corrió más un año pero estoy cansado. Después de cair dos veces en esto Tour hay tomado mi decísion.

VP: Pois foi, caíste duas vezes durante este Tour. Não achas que isso pode ter estado relacionado com teres mudado para a Treco, essa manhosa marca amaricana de bicicletas?

AC: Hai alguna cosa errada con el Trek?

VP: Bem, os pais do Velopata sempre lhe disseram que o seu avô tinha ido desta para melhor por causa de um Treco logo, essa marca não é de fiar.

AC: Pero, presupuesto que yo hai caído con outras bicis.

VP: Sim, mas antes pedalavas de Specialicoiso que também não é muito melhor, afinal de contas, no que os amaricanos são mesmo bons é a fazer bombas e eleger presidentes aventêsmas.

AC: Entonces que bici recomendavas?

VP: BH, claro! Bicicleta de Homem.

AC: Bici de hombre?

VP: Claro, até porque é uma marca espanhola e vocês costumam ser assim todos um bocadinho a puxar para o facho-nacionalista como se viu agora, a afiambrarem malta de todas as idades e géneros lá na Catalunha.

AC: Voy a ver si las BH, si.

VP: Olha, voltando à vaca fria, e isto sem querer fazer nenhum trocadilho infame com a tua vaca asmática, cá para o Velopata parece é que já percebeste que com o Froomster e o seu exército de Robocops, não vais ter grandes hipóteses de ganhar seja o que fôr, por isso é que te vais reformar.

AC: Pero no, quiero dedicarse más tempo a mi família, mi mujer Macarena, mis hijos e a los chicos de mi Fundación.

VP: Dale a tu cuerpo alegria Macarena, que tu cuerpo es pa’ darle alegria, why cosa buena, dale a tu cuerpo alegria, Macarena, hey Macarena! Áááááiiii!

AC: Que te da?

VP: Nada, não ligues, foi só mais uma memória da juventude velopática que o nome da tua respectiva despoletou. Já agora, quem é o Chico?

AC: Chico?

VP: Sim, disseste que querias dedicar mais tempo à tua mulher, filhos e ao Chico.

AC: Presupuesto que estava hablando de los chicos de mi Fundación.

VP: Espera, não digas e deixa o Velopata adivinhar… Os putos passam a vida a comer bifes, certo?

AC: Mientras que no te entiendo.

VP: Sabes, o Velopata começa a acreditar que vocês espanholitos já dizem isso de propósito porque sabem que é profundamente irritante para a molécula de quem está a dialogar com ustedes… Mas não vais fazer aos putos o mesmo que fizeram contigo, pois não?

AC: Que han hecho conmigo? De que estás hablando?

VP: Irra, mas lá estás tu a fazer-te desentendido! Mas tu não iniciaste a carreira mais a sério no World Tour, na equipa daquele-cujo-nome-não-se-diz?

AC: Estás hablando de quén?

VP: Epá, tu sabes, aquela equipa que tinha um veterinário com aspecto de médico louco nazi.

AC: Estás hablando de Astana?

VP: Sim, essa mesmo.

AC: Yo no tengo nada a ver com lo que lo riesto del equipo ha echo.

VP: É isso… Portantos, a equipa estava toda enxaropada menos tu, é nisso que queres que a malta acredite?

AC: No tiengo la culpa do que Vinokourov ha echo con el equipo. Ellos han sido punidos.

VP: Ui, do que tu foste lembrar o Velopata… É verdade, para além de teres corrido na equipa daquele-cujo-nome-não-se-diz ainda correste com esse outro tóxcóindependente!

AC: Mas de quién estás hablando?

VP: Aquele-cujo-nome-são-se-diz, pá! O gajo que venceu sete Tours de seguida todo carcomidinho!

AC: Estás hablando de Lance Armstrong?

VP: Nããããooooo…

O Velopata gritou tarde demais, em vão tentando impedir que aquele nome condenado ao esquecimento fosse proferido.

O solarengo dia viu do nada chegarem espessas nuvens negras que cobriram toda a luz solar. Cães nas redondezas uivaram, as flores, plantas e árvores nas redondezas definharam, pardais e gaivotas atiraram-se em suicídio contra a vitrine do Talho que é vegetariano. No exterior, sem que nada o previsse, vários enlatados chocaram em cadeia, felizmente sem demais consequências para os condutores. Um ciclista urbano que calmamente pedalava, caíu da sua montada com ambos os dois pineus furados. No interior do Talho, que é vegetariano, a senhora ao lado do Velopata, sem razão aparente, viu rasgar as asas do seu saco de compras para espalhar uma mixórida de lentilhas e couves pelo chão. Uma outra senhora sentiu-se mal com falta de ar. A televisão instalada a um canto do Talho, que é vegetariano, passava uma qualquer publicidade a hamburgueres de tremoço, quando os seus leds irromperam em chamas, estilhaçando o ecrã. Até o Velopatazinho, do interior do seu ovinho em carbono, começou a chorar.

Para que o leitor perceba o real poder do tenebroso nome que, por razão alguma, deverá ser pronunciado.

 

Lentamente o ambiente deixou de sentir aquela terrível pressão atmosférica eritropoetiana, regressando ao normal.

Quem não regressou ao normal foi o Velopatazinho, continuando de sanfona ligada e, claro está, imediatamente a Srª Velopata lançou um daqueles olhares ao Velopata, indicando que ou o Velopata se despachava, ou arriscava o regresso ao conforto do lar a penantes.

VP: Bem Dopa… Pistoleiro, o Velopata tem de ir. Foi um prazer.

AC: Lo placer fue mio.

VP: Antes de ir, ele tem de dizer uma coisa. Apesar de todos os dissabores, o Velopata vai ter saudades de te ver a pedalar. Verdade seja dita, poucos existem como tu que sabiam sempre arrancar uma corrida do marasmo, nunca baixando os braços à luta velocipédica.

AC: Muchas gracias. Pero existen uns chicos que están empezando ahora, como Zakarin que és mui bueno.

VP: Se ele é mui bueno ou não isso o Velopata já não sabe pois ele não partilha esses gostos. O que ele sabe sim é que aos 18 anos de idade esse mafarrico já tinha sido catado e expulso pelo uso de esteróides daqueles que se administram ao gado. Já agora, é impressão do Velopata ou a prozada parece ter aí um fetiche qualquer com químicos de uso pecuário e principalmente, bovino?

AC: Mira que no te entiendo.

VP: Que cansaço… É melhor mesmo ficarmos por aqui.

AC: Presupuesto, si a ti te gusta.

VP: Ó si carinho, a mim me encanta.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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