Um mal nunca vem só

“Onde é que vais?” – inquiriu uma Srª Velopata ainda estremunhada do que terá sido uma noite de sono menos conseguida.

“Vou treinar.” – retorquiu um Velopata, esgueirando-se repticiamente da cama do casal, ainda a luz matinal não penetrava pelos estores.

“Não tens vergonha nenhuma, pois não?” – a Srª Velopata estava agora de olhos bem abertos, emanando raios, coriscos, relâmpagos e outras tormentas na direção do Velopata.

“Então mas o que foi agora?”

“Ainda tens a lata de perguntar? A tua mãe vem visitar-nos e deixa-la aqui sozinha comigo e com o teu filho para ires andar de bicicleta?”

“Diz-se pedalar.”

“Hã?”

“Técnicamente é pedalar que se diz e não andar de bicicleta.” – como o querido leitor já saberá, o Velopata gosta de arriscar, viver no limite, corda bamba e coiso.

“Vai sim, mas um dia destes não te venhas queixar quando o teu filho já não te reconhecer!” – a Srª Velopata aprendeu muito com El Dopalero Contador, sempre ao ataque, mesmo quando a etapa parece perdida.

“Até parece, não é meu Velopatazinho mais lindo?” – o Velopata babou-se para cima do berço, onde o futuro vencedor de grandes voltas acordava de mais uma reparadora noite de soninho bom – ser bebé bonito e fofo também cansa.

“Isso, acorda-o e vai-te embora. Depois eu é que tenho de ficar a aturar a goela desgovernada dele!”

“Mas não percebes? Quantas vezes tem ele de dizer? I am Velopata! Ele tem responsabilidades para com os seus leitores, fãs e coiso.”

“Ah… Tem responsabilidades para com gente que não conhece de lado nenhum mas para o filho, mulher e mãe é isto… deixá-las ao abandono!”

Vitória por nócáute.

Se as discussões do casal velopático fossem combates de boxe, o Velopata nem sobreviveria ao primeiro round.

Nessa madrugada até o iogurte biológico com aveia biológica, condimentado com uma pitada de variadas sementes biológicas e uma colherada de mel biológico, utilizando uma colher biológica e uma tigela biológica, sentado na cadeira da mesa da cozinha (ambas de madeira biológica), soube mal. A única hipótese de salvar aquele azedume matinal seria a bela cafézada (também o café, cápsulas e máquina são biológicas), na sacada cuja tijoleira, desconfia o Velopata, também deverá ser de origem biológica.

Faltando o outrora habitual e nojento cigarrito, o Velopata aproveitou para dar uma vista de olhos pelo seu Facebook e Strava, enquanto sorvia o café, estudava a metereologia, vento e sua direção.

“Ó Velopata, não te esqueças de descarregar os treinos do fim de semana!”

“Sentes-te fraco ou estás doente?”

“Tens algum problema no GPS?”

A lista de apupos era interminável. Verdade seja escrita, o Velopata só colhia o que semeou; muitos textos houve em que troçou da restante troupe velopática após estar sempre nos lugares cimeiros da sua querida Divisão Velopata mas, no fim de semana antecedente, dada a visita da Avó Velopata e a constante pressão da Srª Velopata para que o Velopata não desse largas à sua obsessão, a quilometragem colocada nas pernas ficou muito aquém da desejada e como bons e queridos ressabiados que são os membros do clube… “Abébia” é palavra que não se encontra no dicionário velocipédico desta malta. Choveram palavras de enxovalhanço velocipédico nas redes sociais.

Após a dose de (des)motivação internética, alimentada a Gata Gorda e passeio matinal da Cadela Descontrolada cumprido, o Velopata preparou-se; verificou a pressão dos pineus da Estrela Vermelha, passou um paninho pelo quadro para o deixar sempre limpinho e a brilhar, sujou-se com óleo de corrente e equipou-se com o seu melhor equipamento aerochronocarbon onde até o fecho éclair da jersey é carbono, daquele que é mesmo só carbono, 100% carbono, full aero carbono.

Se quando o Velopata passeou a Cadela Descontrolada não mexia uma folha no pouco arvoredo existente na vizinhança do lar velopático, dir-se-ia que o São Pedro efetivamente tem algum tipo de arrufo com este vosso amigo. Levantou-se um vento norte que, apesar de não ser daqueles vendavais que certa vez quase cuspiram o Velopata para longe do alcatrão, era suficiente para que até a durante as descidas, os bofes velopáticos quase fossem expelidos. O Velopata relembrou a sua nota mental – caso algum dia consiga conhecer quem quer que seja o padroeiro da metereologia lá nos reinos do Além, não esquecer o espigão de selim em aço para ter um simpático, curto e conciso tête-à-tête.

Se o treino se previa duro, o facto de São Pedro ter deixado a porta escancarada não ajudou; com passagem pelas duras rampas da Cova da Muda, Porto Nobre, Cruz da Assumada e Parragil, as pernas velopáticas transmitiam aquela sensação de polpa, findos poucos quilómetros de pedalada.

Crac. Crac.

Um estranho som proveniente da região frontal da Estrela Vermelha.

Croc. Crac. Croc. Crac.

O som continuava em ondas, particularmente quando a qualidade do alcatrão não era das melhores.

Crac. Crac. Croc. Crac.

Uma bicicleta quando se encontra de boa saúde não produz qualquer ruído que não o belo som da borracha do pineu a deslizar pelo alcatrão e o ocasional restolhar mecânico dos desviadores em trabalho.

Crac. Crac. Cric.

Definitivamente algo não estava correto com a Estrela Vermelha e o Velopata viu-se na obrigação de fazer o que qualquer ciclista odeia; colocar o sapato de encaixe no alcatrão e inspeccionar a sua montada.

Rodas, tudo impecável.

Travões, check.

Apertos rápidos, tudo em ordem.

Forqueta, sempre linda e resplandescente.

Guiador, bem bonito com estas novas fitas Fi´zi:k.

O Velopata passou a manápula pela testa do quadro da Estrela Vermelha e definitivamente algo não estava correto, a testa estava quente demais anunciando um estado febril e doente.

O Velopata prosseguiu a sua inspeção.

Avanço.

Pelo amor de Santo Agostinho!

O avanço em carbono da Pro, que é mesmo só carbono, 100% carbono, totalmente fabricado em carbono, full aero carbono… Aparentava duas enormes rachas!

avanço1
O Velopata assegura o querido leitor que pedala muito melhor que fotografa. No interior do avanço podem ver uma malograda linha branca que corresponde à racha.

Terror, medo, horror e tremores percorreram o escanzelado corpo velopático.

Lágrimas inundaram os lindos olhos castanho-esverdeados do Velopata.

Era oficial, a Estrela Vermelha estava doentinha.

Era mesmo só o que faltava ao Velopata, neste dia que desde o alevantar da cama até então se tinha revelado um mimo.

Abortar o treino e regressar ao lar, por receio de ruptura do avanço e consequente mudança de dentição velopática, por si só, já era um pesadelo tornado realidade. Explicar à Srª Velopata a razão de ir gastar novamente uma boa soma de eirios em carbono seria um outro pesadelo de categoria extra, particularmente quando esta teria o apoio incondicional da Avó Velopata. Nócáute garantido em antes do término do primeiro round.

“Tenho de levar a Estrela Vermelha à oficina.” – o Velopata tentou que o seu comentário passasse despercebido durante o familiar jantar velopático.

“Então o que foi agora?” – remataram Srª Velopata e Avó Velopata em uníssono.

“Acho que ela tem o avanço partido. Provavelmente terei de comprar e montar um novo.”

“Isso deve ser um balúrdio, não?” – questionou a Avó Velopata, desconfiada dos preços do mundo velocipédico carbonatado, fruto das inúmeras queixas da Srª Velopata.

“Não deve ser muito, aí uns 100 eirios devem chegar para comprar um novo.”

“100 euros?!” – novamente o Velopata foi brindado com uma resposta em uníssono.

“E as vacinas?” – continou a Srª Velopata a solo, a Avó Velopata ainda estava em choque com a perspectiva de uma peça tão pequena custar tantos eirios.

“Uai, que vacinas? A Estrela Vermelha tem todas as vacinas em dia.”

“Não sejas estúpido. As vacinas do teu filho que vão ser um balúrdio! Não achas que devias poupar dinheiro para isso em vez de ir a correr comprar mais peças das bicicletas?”

“E vou deixar a Estrela Vermelha assim, em sofrimento?”

Um sepulcral silêncio abateu-se sobre a mesa mas não era necessário à Srª Velopata e Avó Velopata proferirem quaisquer palavras. O Velopata já pedala nisto há uns anos sabendo reconhecer aqueles olhares de desaprovação, raiva, fúria e coiso.

3 dias de labuta seguiam-se, não podendo o Velopata levar a sua mais-que-tudo Estrela Vermelha ao Hospital e claro, o querido leitor ao ler estas linhas já sabe o que tal significa – noites mal dormidas. Um mau estar e azia velopáticas constantes, aquela ressaca velocipédica sobre a qual o Velopata já aqui escreveu.

avanço2
Como é possível uma noite descansada quando se sabe ter um dos componentes da sua mais-que-tudo neste lastimoso estado?

Chegadas as 18 horas de sexta-feira, o Velopata saíu lançado de onde ele afincadamente labuta para se dirigir ao Hospital Velocipédico que é a G-Ride Concept Bike Store.

O choque foi unânime. Jamais alguém havia ouvisto um avanço de uma bina de estrada rachar do mesmo modo que o avanço Pro da Estrela Vermelha.

“Dá pena porque este avanço é bem bonito… Mas é o problema destas peças mistas.” – notou o cirurgião de serviço, o Pantera, enquanto desmontava o famigerado avanço escaqueirado.

“Mistas? Tipo queijo e fiambre?” – questionou um Velopata atónito, observando nervosamente toda a operação.

“Este avanço é uma mistura de carbono e alumínio. Por vezes a conexão entre os materiais não fica bem feita e dá nisto.”

Estava entendido o problema. Parece que os senhores da Pro haviam decidido conspurcar um belo naco de carbono misturando-o com alumínio. O sacrilégio. Com gente desta como podem esperar algum dia existir paz no mundo?

“Bem, vou ver que avanços tenho ali para te safar.”

“Ele só tem dois requisitos.”

“Ele? Quem?”

“O Velopata.”

“Ah…”

“O avanço deve ter cento e vinte milímetros e tem de ser aero.”

Pantera afastou-se durante breves minutos para inspecionar a montra onde vários avanços aguardavam a chegada do seu dia de glória velocipédica. Regressou para junto do Velopata e da desnudada e combalida Estrela Vermelha com um avanço de côr negra onde se destacavam as letras “KCNC”.

“Com cento e vinte milímetros só tenho este. Sabes, não é uma medida que se venda muito.”

Passando o avanço para a manápula velopática a sensação ao toque foi estranha.

“Isto é carbono?” – questionou o Velopata.

“Não, é um alumínio novo, ultra-leve.”

“E que marca é esta?”

“KCNC. É uma excelente marca de componentes taiwanesa.”

“Chinesices na Estrela Vermelha é que não!” – bradou um Velopata.

“Não é chinesice coisa nenhuma. Até é mais leve e rígido que o que tinhas aí.”

O Velopata sentiu o peso do avanço KCNC. Realmente os senhores da Pro haviam metido água; aquele avanço em alumínio era muito mais leve que o Pro que outrora tinha feito as delícias do Velopata durante muitos quilómetros. Que afinal não era carbono, daquele que é só carbono, 100% carbono, totalmente em carbono, full aero carbono, e sim uma espécie de avanço tosta mista.

0,00005 gramas mais leve. Com certeza traduziriam um ganho marginal tremendo.

Se o Velopata ainda estava em dúvida quanto ao avanço KCNC, estas foram desfeitas quando observou bem os desenhos embutidos no avanço.

Umas asas, qual anjo velocipédico.

Era um sinal que com este avanço, o Velopata ia voar.

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As asas velopáticas no novo avanço KCNC. Que é em alumínio.

E lembrando o famoso chavão velocipédico “nem tudo o que reluz é carbono” ou mesmo “nem tudo o que é carbono é de ouro”, o Velopata assistiu enquanto Pantera montou o avanço em alumínio ultra leve na Estrela Vermelha que pareceu ficar satisfeita por estar novamente completa.

Uma noite com a felicidade do xixi e aquela vontade de sair para o alcatrão e experimentar a renovada Estrela Vermelha traduziu-se novamente numa noite mal dormida.

Assim que possível, o Velopata saíu para a estrada e…

Crac. Cric. Croc.

Mas que raios? E esta agora?

Crac. Crac. Crac. Croc.

Aquele barulhinho continuava. Do avanço não podia ser – este KCNC até ficava bonito e o Velopata sentia a laterally stiff vertically compliant coiso ser bem melhor que o avanço tosta mista Pro.

Que se passaria agora com a Estrela Vermelha?

Colocando o sapato de encaixe no chão, o Velopata inspecionou a restante Estrela Vermelha.

E foi então que percebeu que o incomodativo som ouvisto era proveniente de um dos parafusos do suporte de bidon frontal que, por alguma sinistra razão, se soltava, produzindo assim aquele restolhar enervante.

Mas isso o Velopata ainda conseguia resolver.

30 minutos a tentar perceber qual das suas muitas chaves da peça multi-funções serviria e voilá.

Agora sim, a Estrela Vermelha estava como nova.

avanço3
A Estrela Vermelha repousa no seu pedestal, sempre cheia de pinta!

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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