Muda-fraldas 2 – A Chupeta contra-ataca

O Velopata preparou tudo. Bidons com água fresca e toalhas para limpar o súor. Sentou o Velopatazinho no rolo da Fisher-Pricecoiso, colocado ao lado da sua própria máquina de auto-flagelação da Tacx, e rematou;

“Filhote, siga carregar?”

E seguindo a ordem de comando, de imediato iniciou o seu treino. A seu lado o Velopatazinho manteve-se em silêncio mas não arrancou a pedalada. Perplexo com aquele comportamento, o Velopata questionou o Velopatazinho;

“Então filhote, não pedalas?”

“Não pai, não lhe apetece.”

“Como não te apetece? Sabes, às vezes também não apetece ao pai, especialmente quando são treinos de intervalos ou séries, mas um campeão tem de se submeter a estas sessões de tortura.”

“É que sabes… Ele…”

“Ele o quê, filhote? E porque falas sempre na terceira pessoa? És como o pai? Isto assim vai ser cá uma confusão para os leitores do blogue… Vá, podes falar sem medos, diz lá o que se passa.”

“Ele… Ele nã go´ta de bicicletas. Ele go´ta é de pópós.”

“Co… Com… Como é que é? O pai acha que ouviu mal.”

“Popós. Quando for g´ande ele quer ser piloto de pópós.”

O Velopata rapidamente desencaixou as chancas dos pedais e correu na direção da sacada, uma imagem bonita de ser ver pois todos sabemos que apenas o Froomster consegue correr com sapatos de ciclismo calçados, os restantes comuns mortais apenas se deslocam rapidamente com movimentos que lembram pinguins. Trancando-se na sacada de modo a que o Velopatazinho não assistisse ao degradante momento que se seguiria, o Velopata prostou-se de joelhos e bradou aos céus;

“NÃÃÃÃÃÃOOOOO… Onde é que ele errou?”

 

“Acorda sua máquina de serração!”

“Hã?” – questionou um Velopata estremunhado.

“Tu és mesmo impressionante. Sentas-te no sofá e se a televisão não estiver a dar as porcarias das bicicletas começas logo a roncar.”

“É sinal que o sofá é bom. Olha, onde está o Velopatazinho?”

“Mas que raios de pergunta é essa? Tu estás bem?” – a Srª Velopata deitada no sofá mostrava parte do seu barrigão onde o Velopatazinho ainda se encontrava em incubação velocipédica.

“Acho que ele estava a ter um pesadelo.”

“Ele quem?”

“O Velopata.”

“Mas lá vens tu com essa conversa. Olha deixa-te mas é de velopatices e vai-te despachar que temos de ir às compras de coisas para o bebé.”

“Uai, mas ele está despachado.”

“Ai vais assim é? Todo suado?”

Só então o Velopata reparou, o pesadelo do qual tinha sido acordado deixara-o encharcado em súores frios. Também não era para mais, a simples ideia que o Velopatazinho poderia realmente querer tornar-se num Enlatadopatazinho era suficicente para desmoronar todos as sonhos e desejos velopáticos.

Depois de descobrir a existência do Rolhão Mucoso na aula matinal de preparação pré-parto, o casal Velopata tinha combinado um passeio por várias lojas de Faro e arredores, especializadas em materi… Tralha e bugigangas que na sua vasta maioria, se revelarão inúteis para o que se quer um campeão rijo que nem carbono HMFcoiso.

Mas nada, nem mesmo o Rolhão Mucoso, poderiam preparar o Velopata para a tempestade que se aproximava.

Já de banhoca tomada o casal Velopata aproximava-se da lata estacionada da Srª Velopata quando, com toda a casualidade do mundo, esta lançou um ataque em descida que faria o próprio Tubarão Nibali sentir-se diminuído;

“Sabes, devias levar o carro para te começares a habituar.”

“Como é que é?” – retorquiu um Velopata acreditando ter ouvisto erradamente.

“Devias levar o carro para retomares a condução.”

“Estarão os ouvidos e lindas orelhas dilatadas dele a traí-lo?” – nem engolir em seco o Velopata conseguiu, tal era o choque provocado por aquela tenebrosa ideia – “Queres que ele conduza… Uma lata?”

“Então como é que vais fazer se tiveres que me levar ao hospital?”

“Liga-se a uma ambulância.”

“Não acredito que não me levavas ao hospital!”

“E ele nem acredita que tu lhe estás a pedir isso, já devias saber que o Velopata diz que é um homem de princípios.”

A Srª Velopata não respondeu, limitando-se a fulminar o Velopata com um olhar que até carbono de alto módulo derreteria como manteiga no verão.

E se um dos milhares de fãs reconhece o Velopata ao volante de uma lata? Ele nem quer pensar nisso, lá se ia toda uma reputação que levou muitas publicações a construir!” – terminou o Velopata, sentindo-se atravessar a meta isolado após uma fuga de muitos quilómetros.

“Sabes que mais?”

O Velopata não respondeu pois sabia que estava iminente o ataque final da Srª Velopata em cadência froomiana;

“Deixa só o teu filho saber que não o querias levar ao hospital! E mais, deixa só o teu filho ficar doente se não vais logo conduzir a abrir para o hospital!” – com este contra-ataque da Srª Velopata, o Velopata sabe agora o que deve sentir um ciclista que acredita ter vencido a etapa até ao momento do visionamento do photo-finish, descobrindo depois que é só mais um dos derrotados do dia.

Chegados à loja cuja marca seria extremamente fácil para o Velopata produzir piadas relacionadas com pedofilia e o representante mais alto dos gajos que aparentam deter o monopólio sobre essa infame actividade e não, o Velopata não se refere à Casa Pia e sim à Igreja Católica, a Srª Velopata trocava impressões com uma funcionária (ou seria colaboradora?), sobre soutiens de amamentação enquanto o Velopata decidiu dar uma vista de olhos pelos binquedos disponíveis para os rebentos.

Desde brinquedos para estimular o tacto, o olfacto, a visão e o cérebro, a panóplia de brinquedos de chacha parecia não ter fim. Que é feito dos bons e antiquados bonecos de outrora; o herói de corpo musculado que veste apenas cuecas ou mesmo o vilão esquelético que quer subjugar o universo à sua vontade? Mas ainda piorava. A vasta maioria de  brinquedos parecia sempre incidir sobre réplicas e réplicazinhas de primitivos veículos motorizados, fossem eles latas de 2 ou 4 rodas, o que é certo é que de uma bicicleta, nem sinal. E isso deixou o Velopata triste. Como querem promover a mobilidade sustentável junto das gerações futuras que são as crianças se todos os brinquedos que lhes fornecem são uma bárbara ode aos enlatados?

Estava decidido. Por boicote o Velopata não iria adquirir nenhum brinquedo da referida marca. Até porque o Velopata é teso e os brinquedos disponíveis só poderiam ser fabricados em carbono Factcoiso pois aqueles preços…

“Isto é uma vergonha!” – disparou um almariado Velopata já de regresso para junto da Srª Velopata que estudava agora um kit de manicure para o rebento.

“O que é que foi agora?”

“Os brinquedos. É o enlatado que diz que faz bem ao tacto, o enlatado que estimula a visão… Ele já está como bem dizia o avô dele, estes brinquedos estão a tornar os putos broncos, estúpidos e moles.”

“A sério que vamos ter esta conversa?”

“Como não? No tempo dele, quando ainda era uma larva velocipédica, não havia nada disto. Brincava-se com paus e pedras nas ruas e ninguém morria, por isso é que a malta é uma geração rija.”

“Queres mesmo que o teu filho recém-nascido vá brincar com paus e pedras?”

“Não. Mas o que ele não quer é que o Velopatazinho vá brincar com enlatados.”

“Pois olha que a tua mãe já me disse que lhe comprou um carrito telecomandado.”

“Como é que é? Estarão os ouvidos e lindas orelhas dilatadas dele a traí-lo novamente?”

“Ouviste bem.”

“Isso resolve-se. Ele vai já ligar à mãe Velopata e explicar-lhe onde pode colocar o ca… Carri… Car… Enlatado telecomandado.”

“Não sejas fundamentalista e mal-educado. É uma prenda da tua mãe e sabes muito bem que os míudos gostam de brincar com carros.”

“Era só o que faltava, o filho do Velopata a brincar com enlatados. Lá está, pareces esquecer-te que o Velopata diz que é homem de princípios.”

“Deixa mas é de ser parvo e ajuda-me aqui. Que kit levamos?” – a Srª Velopata estava indecisa entre dois kits de manicure cuja única diferença era a bonecada que os decorava.

“Ele acha que em vez de um kit de manicure, o que o Velopatazinho vai mesmo precisar é um kit de depilação, assim começa desde cedo a fazê-la e mais tarde não tem de andar sempre a sofrer na cera como o pai.”

“Por uma vez na vida, podes colocar de parte as tuas veloparvoíces e responder a sério?” – a julgar pelo olhar a Srª Velopata já aparentava um certo desaustinanço. Lá estavam as hormoinas pululantes.

“Leva o mais barato. Isso é daquelas coisas que não tem de ser em carbono como parece ser tudo o que esta loja vende.” – o Velopata a sprintar para a meta.

Eirios gastos com o pagamento efetuado e já de saída da loja, eis que o sempre atento radar da Srª Velopata disparou com a presença da até então despercebida prateleira carregada de muda-fraldas de variadas formas, feitos e tamanhos.

“O que achas deste?” – questionou uma Srª Velopata claramente embevecida por um dos modelos que, pelas contas do Velopata, felizmente não deveria ser em carbono.

“É-lhe indiferente. Escolhe tu. Ele vai dar uma vista de olhos pelo resto da loja.”

“Vai sim que assim não chateias e deixas-me escolher à vontade.” – rematou a Srª Velopata enquanto uma funcionária, trabalhadora ou mesmo colaboradora da loja se aproximava já do casal para satisfazer todas as dúvidas e recomendando sempre o modelo de topo dos muda-fraldas, com certeza fabricado em carbono de alto módulo HMF Factcoiso, porque lá está, a rigidez é sempre importante.

Deixando a Srª Velopata entregue à escolha do que continua a parecer uma peça desnecessária à criação de um futuro vencedor de grandes voltas, o Velopata decidiu dar uma nova vista de olhos pela loja.

E mais uma vez o Velopata teve uma ideia de jerico ou, até mesmo, asno.

E que tal comprar uma chupeta digna de campeão?

Em tempos idos, ainda o Velopata era uma embrionária larva velopática, existia apenas um tipo de chupeta. Consegue o mui querido leitor imaginar a face do Velopata quando se viu perante um expositor onde se exibiam milhares de chupetas, chupetinhas e chupetóides? Aquilo parecia desenvolvido e, de algum modo, patrocinado pela Specialicoiso; existiam chupetas para todas as vertentes e modalidades de chuchanço.

Para que o leitor entenda corretamente o dilema velopático na escolha de uma chupeta para o futuro campeão do Tour de 2042, o Velopata deixa aqui uma lista e análise comparativa dos tipos  de chupetas que ele identificou;

Body Comfort – esta deverá ser a chupeta de endurance, optimizada para uma posição bocal que permita ao rebento passar vastas horas comfortável no seu chuchanço.

Body Physio – a chupeta que se ajusta à boca do rebento, moldável o suficiente para que o chupeta fit se processe naturalmente. É 10 gramas mais pesada que a chupeta anterior apresentando uma menor rigidez.

Body Physio Comfort – com esta é que trocaram as voltas ao Velopata mas, pelo que o Velopata conseguiu perceber, esta é a chucha de eleição dos bebés classicómanos, ideal para rebentos que gostam de chuchar enquanto os progenitores os transportam nos carrinhos através do pavê.

Body Compact – para bebés maçaricos nas andanças do chuchanço, esta é a chupeta preferida por muitos bebés amadores mais pesados pois permite a manutenção de uma cadência chuchechóide relativamente alta durante longas subidas. Ou isso ou é uma chupeta indicada para bebés com 50 dentes na região superior bocal e 34 dentes na região inferior bocal.

Body Comfort Night – para os bebés que adoram chuchar à noite, esta chupeta vem equipada com refletores laterais e um escudo frontal com luzes léde de 5000 luménes. A bateria, carregável por úéssebê e vendida à parte claro, é fixa ao babygrow através de um sistema de elásticos muito prático que permite a sua utilização em várias indumentárias, sem nunca prejudicar a aerodinâmica do rebento.

Air – a chupeta preferida do Velopata pois como o nome claramente indica, é a chucha mais aero do mercado, optimizada para reduzir o atrito provocado pela atmosfera.

Edição Especial Body Physio Aero – se o Velopata já estava à nora, o que dizer desta chucha; a que apresenta maior rigidez, melhor chupeta fit e aerodinâmica do mercado.

O querido leitor pode e deverá perguntar-se se as chupetas acima descritas serão realidade mas pela santa alma de Anquetil o Velopata vos garante que desta vez ele não está a delirar.

“Então, vieste escolher uma chucha para o bebé?” – questionou uma sorridente Srª Velopata que trazia consigo o que deveria ser o modelo de muda-fraldas selecionado.

“Não, isto está difícil.”

“Difícil porquê?”

“Porque se por um lado se quer educar um campeão de voltas de três semanas, o ideal seria escolher uma chucha aero, rígida e leve. Mas pode dar-se o caso de ele sair ao pai e preferir o ciclismo de longas distâncias logo, uma chucha de endurance seria mais indicada. Ele acha que o melhor é apontar as referências das chuchas e ler reviews na internet para escolher corretamente.”

“Santa paciência, mas tu tens de fazer tudo sobre bicicletas?”

“I am Velopata.”

“I am mas é estúpido. Vamos mas é pagar e seguir para casa que já estou cansada de andar a passear este barrigão.”

“Então e o muda-fraldas?” – inquiriu o Velopata.

“Levamos este.”

Enquanto se procedia ao pagamento o Velopata pode examinar mais de perto o dito cujo. Afinal de contas, o muda-fraldas escolhido pela Srª Velopata não passava de uma espécie de colchão pequenito com rebordos mais elevados, fabricado em material latexóide supostamente impermeável, com um preço muito abaixo dos 100 eirios por grama ou seja, não era um muda-fraldas em carbono mas também não aparentava comprometer a rigidez vertical ou lateral.

E foi assim que a Srª Velopata venceu mais uma etapa com chegada em alto desse Grand Tour que é a viagem rumo à parentalidade. Resta agora saber qual será a reação do Velopatazinho a um muda-fraldas não carbónico mas esse será assunto para futuras publicações.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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