O problema da(s) espécie(s)

Parece existir um novo desporto em Portugal.

Ainda não foi oficialmente reconhecido, nem baptizado com nomenclatura pomposa e um sufixo “ing“, tipo “cycleatropellating“, mas na sua essência consiste em atropelar e assassinar ciclistas para depois explodir em comentários raivosos sobre os referidos adeptos das duas rodas sem motor e no facto de estes não cumprirem o Código da Estrada.

Mas que desculpa de atrasado mental é essa?

Estão a gozar com a malta ou quê?

Especialmente quando lido o estudo do Observatório de Segurança Rodoviária Europeia onde se concluíu que 98,9% de todos os “acidentes” entre bicicletas e enlatados ocorrem devido a… Claro está, culpa dos condutores dos enlatados.

Notem que o Velopata escreve “acidente” entre parêntesis, uma vez que um acidente é algo que ocorre quando não se espera. Ou seja; ao conduzir a 150 km/h numa zona de 50 km/h, atravessar um sinal vertical luminoso vermelho, ou encarnado, ou mesmo não parar no sinal de STOP quando vem de lá outro enlatado lançado, o resultado não é um acidente – é sim, uma consequência direta da estupidez.

Tempos primitivos houve em que o Velopata também era ele um enlatado. Por ser um enlatado respeitante ao Código da Estrada, a vasta maioria da malta amiga do Velopata referia muitas vezes que ele “conduzia como uma velhinha”. Será desnecessário escrever que ao longo de 4 anos a conduzir pela capital do nosso país que é Lisboa, perfazendo uma média de 140 quilómetros por dia, o Velopata (ou deverá ele escrever Enlatadopata?), nunca foi multado ou se envolveu num acidente. Já os seus amigos gozões…

E assim, queridos leitores, amigos, fãs e coiso, se atinge o busílis da publicação de hoje – os portugueses estão-se cagando para as regras.

Esteja o portuga sentado no interior do seu enlatado, montado na sua bicicleta state of the art aero chrono carbon, a pagar os seus impostos ou até mesmo na fila do supermercado; se o tuga sente que pode retirar algum tipo de benefício por não respeitar as regras – então assim o fará. Aliás, parvo é o gajo que não aproveita – parece ser este o dogma vigente numa sociedade que se diz europeia e do século XXI. Mas o portuga não tem culpa, afinal de contas trata-se de comportamento humano no seu expoente máximo e em antes que venham mandar vir com o Velopata, atentem à situação que muito recentemente ele presenciou.

A caminho da baixa de Faro, pedalando para lá onde ele afincadamente trabalha, o Velopata encontrava-se parado no semáforo encarnado. Ou vermelho. Do outro lado da estrada, vários walkers aguardavam que o semáforo abrisse (note, querido leitor, que estes walkers não deverão ser confundidos com os mesmos da série Walking Dead, apesar de, tendo em conta a matinal hora, muitos se moverem do mesmo modo. Na realidade estes são sim os praticantes de walking).

Foi com espanto, surpresa e coiso que o Velopata percebeu que, apesar de o semáforo ainda se encontrar vermelho, ou encarnado, para os peões, o facto de nenhum enlatado se aproximar levou a que todos atravessassem o alcatrão. Todos? Não.

O sentido de trolha badalhoco velopático disparou quando se apercebeu que duas formosas moçoilas ainda aguardavam no passeio que o semáforo mudasse para verde. Facto é que estas duas borrachitas não aparentavam ser portuguesas; dir-se-iam nórdicas, provavelmente oriundas da vikingolândia ou até mesmo daquele país onde se produziram em tempos telemóveis rijos que nem calhau e actualmente mobiliário giro e barato. A verdade é que também elas observaram incrédulas enquanto a maralha portuga atravessou a estrada com o semáforo vermelho, ou encarnado, desrespeitando assim o código da estrada e a sua sinalética.

Entusiasmada com o comportamento dos nativos, uma das moças decidiu aventurar-se, apesar dos protestos da outra, diálogo esse que o Velopata não conseguiu perceber pois aquela gente mete bolinhas por cima do “o” e cortam os “a” com traços longitudinais.

Verdade seja escrita leitor, é difícil para o Velopata descrever o ar de satisfação quando a moça atingiu o outro lado do alcatrão; dir-se-ia uma felicidade quase infantil, como uma criança que rouba um chupa-chupa numa loja de doces e não é apanhada.

Segundos depois o semáforo passou a verde e o borrachito nórdico que tinha aguardado corretamente a mudança do sinal atravessou a estrada, juntando-se à sua amiga, tendo seguido todas pululantes os seus afazeres turísticos.

Então, observando estes comportamentos, como poderá isto não ser uma questão cultural?

Mas regressemos aos enlatados, o código da estrada e o homicídio de pessoas que se deslocam de bicicleta.

Se não soubesse o Velopata até escreveria que estamos numa autêntica guerra aberta.

E todos estão a perder; uns perdem a imaculada pintura da sua lata, outros perdem a vida.

Não parece lá muito justo.

Recentemente, durante uma pedalada matinal pela serra algarvia, um companheiro velopático afirmou;

“As associações da malta das bicicletas deveriam promover cursos e aulas para explicar a importância das regras do código e os comportamentos corretos a seguir quando encontram ciclistas na estrada.”

“Essa é uma óptima ideia. ” – respondeu o Velopata. “Só tem um problema.”

“Que problema?”

“´Tá-se tudo cagando. Ninguém vai aparecer.”

“Lá estás tu outra vez, sempre com essa atitude negativista.”

“Ele não é negativo. É realista.” – defendeu-se o Velopata.

“Então achas que devemos ficar sentados e ver a lista de mortes aumentar?”

“Não. Tens é de tomar conta de ti e faz como o Velopata… Tratar todos os enlatados como se te fossem tentar matar.”

“Isso não é maneira nenhuma de viver, quanto mais de pedalar.”

“Sim, mas até agora tem resultado com o Velopata. Ele está vivo, não está?”

“´Tás a ser cínico!”

“Achas mesmo? Deixa o Velopata contar-te uma história…”

O Velopata prosseguiu, contando ao seu companheiro de pedalada quatro muito engraçadas histórias que ele hoje partilha aqui com a sua ávida troupe que busca a iluminação velocipédica. No final destes quatro exemplos, perceberão onde o Velopata quer chegar.

1 – O Velopata vestido à civil regressava ao conforto do lar, terminado um extenuante dia lá onde ele afincadamente trabalha e uma passagem rápida pela G-Ride Concept Bike Store onde pode gastar mais alguns eirios em carbono. Já no interior da rotunda o Velopata aproximava-se da sua saída quando na última entrada da rotunda, um daqueles enlatados que se assemelha a uma estação, a station, lançou-se na frente do Velopata, forçando-o a travar violentamente e quase esbardalhar-se no alcatrão tal a força imposta nas rodas durante a travagem. Quando o Velopata gritou “Então pá, não sabes o código?”, foi brindado com um belo manguito da parte do condutor. A curiosidade? No tejadilho da station encontrava-se presa uma S-Workscoiso de Bêtêtê.

2- Baixa de Faro. O Velopata seguia, novamente à civil com a sua Brownie, numa calma manhã, para iniciar mais uma jornada de árdua labuta lá onde ele afincadamente labuta. Num segmento de descida rápido, o Velopata seguia a 30 e poucos quilómetros por hora aproximando-se de um cruzamento onde existe um sinal de STOP para quem lá chega do lado oposto ao do Velopata. Qual não foi a surpresa do Velopata quando um enlatado de cor azul, acreditou que o Velopata necessitava alimentação através de tubagens hospitalares, pois mesmo tendo trocado olhares com o Velopata, a aventesma simplesmente achou que o STOP não era para ele e atirou-se na frente do Velopata, mais uma vez forçando uma brusca travagem de modo a que o Velopata não pintasse a traseira da lata com um bonito vermelho vivo. Ou encarnado vivo. Quando o Velopata berrou a plenos pulmões “Então pá, não vês que tens ali um stop?!?!?!”, querem saber o que o querido enlatado fez? Ignorou o Velopata para logo a seguir começar com um divertido jogo de travagens abruptas, na esperança de que o Velopata não conseguisse travar a tempo e lhe embatesse por trás. Aquilo sim é que era uma classe de ser humano. Novamente uma curiosidade, o enlatado tinha não 1, mas sim 4 suportes para bicicletas da Thule no tejadilho.

3- Aquando da sua falhada tentativa de completar a Odisseia Algarvia, poucos quilómetros depois de se separar da sua troupe no Germano Biciarte Café, o Velopata seguia na direção do IC1, numa larga faixa de rodagem. Para além da faixa de rodagem ser larga, também a berma era larga e, como tal, o Velopata seguia fora da estrada. Consegue o querido leitor adivinhar o choque, espanto e coiso do Velopata quando do nada, um enlatado cinzento passou uma daquelas razias no Velopata? Até o cérebro velopático ficou abalado com a deslocação do ar e foi por milagre de Santo Coppi que o Velopata não foi ao chão. A piada está no facto de que no topo deste enlatado encontrava-se uma Specialicoiso de estrada. Lindo.

Portantos, o que tinham estes 3 enlatados em comum?

Eram todos ciclistas ou, pelo menos, pessoas relacionadas com ciclismo.

E ainda assim isso não foi suficiente para os impedir de colocar um companheiro do pedal em perigo.

Nem sequer pareceu afetá-los.

Mas falta ainda o que será o melhor exemplo da ideia que o Velopata quer transmitir. Pelas suas contas, já todo o tipo de enlatados passou razias ou mostrou completo e total desrespeito pelas regras da prioridade no alcatrão mas sem sombra de dúvida, o melhor exemplo que ocorreu ao Velopata que melhor elucida o leitor sobre o facto de que ninguém está preocupado com o seu carbono ou a sua vida é este – consegue o mais-que-tudo leitor adivinhar quem espetou uma monumental razia, a mãe de todas as razias, no Velopata?

Um enlatado oficial da Federação Portuguesa de Ciclismo.

 

Um momento de silêncio para que isto entranhe bem no cérebro do leitor.

 

Uma filha da mãe de uma lata para transporte de malta da Federação Porguguesa de Ciclismo passou uma daquelas razias no Velopata sem que nada o fizesse prever. Tudo se passou numa estrada nacional (N124), perto da hora do almoço, sem nenhum outro enlatado à vista e o Velopata até seguia na berma. Porque razão terá aquele condutor, que deveria promover o exemplo de uma ultrapassagem correta e respeito pelos velocípedes, feito tal?

Se nem mutuamente os ciclistas se respeitam, fará algum sentido andarmos para aqui a tentar educar o restante maralhal enlatado, ensinando-os que devem respeitar o próximo?

A história diz-nos que há cerca de 2000 anos atrás, um gajo tentou. O problema é que esse mesmo gajo acabou crucificado logo, parece ao Velopata que a sua ideologia de paz, amor e coiso não foi lá muito bem assimilada por esta espécie que continua a mostrar que ainda se encontra muito longe de estar pronta para viver em harmonia com o vizinho.

 

PS velopático: O Velopata continua a cumprir o Código da Estrada mesmo quando montado na sua Estrela Vermelha, Brownie ou Cappuccino. E continua a ser apupado pelos comparsas de pedalada com frases como “pedalas como uma velhinha”.

Cumpram o Código. Não dêem ainda mais razões aos enlatados para nos odiar.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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