Análise anual velopatóide 4 – Julho

Rijo, saudável e espadaúdo, como só um somali pode parecer espadaúdo, o Velopata entrou em Julho de 2016 com o pé direito.

Treinou muito. Roubou KOM´s no Strava, alguns até a gajos mais magros e mais solteiros que ele. Com Julho chegava o aguardado dia em que a Evo Team participava no Granfondue SkyRoad Serra da Estrela 2016.

Julho – A Torre.

Mesmo enlatado, aquela imagem até arrepiaria os pêlos do Velopata, se os tivesse. Saída de uma curva para entrar num vale, a lata que transportava os Evos para o épico evento abraçou toda a imponente e majestosa paisagem da Serra da Estrela. Da neve, onde brincou aquando da última visita à Torre ainda larva pré-velopática, não havia sinal. Tapetes verdes a perder de vista que contrastavam com o cinza ocre da montanha.

“Amanhã por esta hora devo estar bonito…” – pensou o Velopata.

Check-in no hotel feito, chop-chop, descanso dos atletas pós-viagem e lá seguiam os Evos para onde deveriam recolher os seus dorsais e restantes brindes da organização.

O que até então parecia uma Disneylândia velocipédica transformou-se numa Casa do Terror.

Calor. Muito.

Imperialmente muito.

Já os Evos carregavam nas cervejas em modo imperial pré-competição, ao que o Velopata apurou, é uma das técnica de ganhos marginais da notoriosa equipa britânica de gajos-que-tomam-medicamentos-dopantes-em-circunstâncias-clínicas-esquisitas-antes-de-ganhar-provas. Sentados na esplanada do café paredes meias com o recinto, os Evos relaxavam e opinavam sobre a prova e tempo houve para o tradicional debate “o meu pedala mais que o teu”. Até que alguém reparou o Terror das Furgonetas na mesa.

A verdade é que o Terror das Furgonetas ainda se encontrar ali, pronto para alinhar na manhã seguinte, continuava a ser conversa entre os restantes Evos. Apostas foram feitas; que na véspera da viagem para o estrangeiro desistiria, que a meio da viagem anunciaria a sua decisão de não pedalar e conduzir a lata Evo até à meta onde aguardaria a chegada dos restantes companheiros, que daria um mau-jeito muscular durante a noite ou mesmo que seria recolhido pelo carro-vassoura. Que nada, o Terror das Furgonetas aguentava firme e hirto como uma barra de ferro e reservava uma surpresa.

Pagou-se o estágio e os Evos seguiram novamente para o recinto, procurando o Terror das Furgonetas que foram descobrir encostado a uma barraquinha central onde cerveja era servida gratuitamente a todos os participantes da prova.

Terror das Furgonetas 1 Serra da Estrela e Evo Team 0.

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Representação Evo Team ao Skyroad Grandfondue Serra da Estrela 2016.

“Olhe desculpe mas a partida é onde?” – questionava o Velopata um dos muitos rapazotes, provávelmente escoteiros, que auxiliavam a organização como voluntários (para que o leitor veja bem o degredo, escoteiros…).

“É aqui.” – respondeu o pequenote.

“Não, deve haver algum engano.”.

O rapazote já deveria ter instrução na arte de aturar estrangeiros ressabiados pois não respondeu.

“Isto é pavê!” – apontou o Velopata.

“Sim, vão descer esta rua toda de pavê e depois seguem por aqui em frente.” – sinalizou o pequenote.

O Velopata relembra que está para o pavê como os palestinianos estão para os judeus.

Pequeno-almoço gargantuano no hotel. Comeu-se tudo o que havia e o que houvesse mais. Preparativos finais, no caso dos colegas Evos do Velopata; verificar pressão dos pneus, ajustar mudanças, carregar bidons. Para o Velopata o clássico chavão;

“Deixem-me fumar um cigarrinho que isto ainda vai demorar até ao próximo.”

Uma estrada em pavê, ainda por cima pavê marafado, onde quatro ciclistas lado a lado encaixavam por centímetros, no entanto, mólhadas havia de seis e sete ciclistas, rodas empurrando-se, ombros no chega-para-lá. Talegas gigantescas nas cassetes, o Velopata jura ter visto passar relações de 8-52 na cassete, tendência importada dos bêtêtistas e dos seus pratos singulares. O que é engraçado; o Velopata acredita que as primeiras bicicletas, na época em que os extraterrestres chegaram e ensinaram humanos a construír bicicletas, em dado ponto da sua evolução eram exatamente assim- 1 prato à frente e 1 pequena cassete atrás. É opinião do Velopata e mais alguns especialistas na matéria que a evolução segue é para a frente e não à retro.

“Ai que isto vai ser só cabras de montanha quando abrir…” – comentou entre dentes o Canhão de Lagos, companheiro do Velopata na linha de partida.

“Achas mesmo? Olha que eu ´tou a ver aqui muita pança.”.

“Já viste as talegas nas cassetes?”.

“Já. Aquilo até fica feio na bicicleta.”.

“Não é isso. Vais ver que isto não é malta da pedalada em cadência como no Algarve. Aqui é só força bruta. Vão em cadências muito baixas mas parecem uns comboios.”.

O tiro de partida ressoa na atmosfera e lá ia o Velopata pavê abaixo.

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O Terror das Furgonetas de peito inchado (esq.), na linha da frente com o Vençedor da volta a Portugal de 2000, Vítor Gamito (dir.). Dois a zero para o Terror das Furgonetas.

O leitor pergunta; Ó Velopata, mas és realmente assim tão caguinchas com o pavê?

Em perspectiva, o Rei do Barranco não teria descrição melhor;

“Em um quilómetro de pavê eu dou-te dois de avanço!”.

Na realidade o problema para o Velopata era só um. Fora-lhe prometido isto;

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Foto promocional SkyRoad Granfondue Serra da Estrela.

E tinha saído isto;

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Where´s Velopata?

Seguiram-se momentos dramáticos que ainda hoje o Velopata acredita terem deixado sequelas na sua relação com a Estrela Vermelha. Com apenas o pé direito engatado no pedal fez a descida que pareciam ser quilómetros intermináveis a passo, ou se acelerava ou o travão era apertado até os dedos ficarem dormentes. Ombros chocavam com guiadores, selins chovavam onde não deviam. Aqui e ali saltam bidons e caixas de comprimidos das bicicletas para o pavê. Aqui e ali, quedas iminentes.

Uma aberta no escoamento, estrada desimpedida e em alcatrão.

O Velopata carregou como alma tresmalhada ao vento. Não colou em rodas, rolou sozinho e desvairado e nas primeiras descidas pedalou como se algo tivesse roubado em Seia. Para além de ser o dorsal oitocentos-e-qualquer-coisa, teria com certeza perdido pelo menos 1 quilómetro naqueles 500 metros de partida simbólica do pavê, logo não poderia fazer por menos a espectacular recuperação sobre a qual iria um dia escrever no seu blog. Seria pois, ritmo full throttle aero carbon até à primeira subida e a partir daí gerir bem as reservas vegetarianas pois seria só subir. E depois subir mais para no final subir ainda mais.

Na véspera, o dono do Caffe & Cycles que o Velopata desconhece a alcunha e um outro comparsa do Algarve, o Raposa Sortuda, haviam trocado impressões sobre o que era participar nesta exigente prova, ambos participaram na edição transacta e repetiam este ano;

“Vocês não estão bem a ver o que isto é.” – advertia o dono do Caffe & Cycles que o Velopata pede a um leitor esclarecido que nos comentários indique a respectiva alcunha. Qualquer gajo com aquele peso que se propõe a fazer o Granfondue merece respect do Velopata.

“Hoje fizémos só uma voltita para esticar as pernas e em sessenta quilómetros já tínhamos mais de mil-e-tal de acumulado!” – terminou o Raposa Sortuda.

Ouvir isto pouco antes de ir dormir não é a melhor motivação para o soninho bom.

A primeira subida era adequada ao velopatus style. Sem paredes inclinadas apesar de longa. O Velopata engrenado não olhou a rodas ou grupos. Seguiu sozinho e sincronizado no objectivo. Se alguém quisesse colar, vinha para ajudar ou aguentar a bomboca.

“Ei ´tás-lhe a dar bem! Força nisso!” – gritou um Raposa Sortuda quando ultrapassado pelo Velopata em modo ressabiante.

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O Raposa Sortuda com certeza a pensar que sorte marafada seria esta.

A vantagem de provas com muita subida e talvez por essa mesma razão o Velopata se tenha especializado como Trepador, or so they say, é que rapidamente os aglomerados de carbono se desfazem nos primeiros abanões e a fruta madura vai ficando espalhada pelo alcatrão.

“Isto não é assim tão mau afinal.” – foi com este motivador pensamento que o Velopata se lançou na descida, finalizada a primeira dificuldade montanhosa do dia.

E mais uma vez o Velopata deixou escapar uma óptima oportunidade para estar calado.

O Velopata aproveitou o seu treino pós-Douro e manteve pedal a fundo na descida. Numa curva um rapazola, que o Velopata reconheceu depois como sendo o pequenote da véspera, provávelmente escoteiro por opção o que ainda é pior, assomou à estrada pedindo ao Velopata que reduzisse a velocidade e dobrássse a atenção.

“Já houve merda.” – pensa o leitor e pensou o Velopata.

O Velopata ouviu os urros de dor ainda antes de o ver. Uma ambulância. Bombeiros na berma. Entre os arbustos o que em tempos foi um airoso ciclista serra abaixo agora um trapo ensanguentado de licras rasgadas e pele sangrenta à mostra. Posteriormente, aquando dos banhos todos-nús-todos-juntos-pós-prova, outro másculo ritual dos praticantes deste nobre desporto, o Velopata apurou que o pobre coitado teria sofrido fraturas expostas em ambas as clavículas.

F-Ô-D-A-S-E.

O Velopata recorda que o moço pedalava uma Trek. Jazia uns metros à frente do carrosel de socorro. Com estas marcas de bicicletas que pesam menos que o isqueiro em carbono do Velopata tem de se ter cuidado, não terá sido em vão que o avô do Velopata morreu com um treco. Moço da Trek com ambas as clavículas no estaleiro – onde quer que estejas o Velopata espera que estejas bem e sempre a pedalar!

Ainda aturdido com aquelas imagens o Velopata acabou por descurar a sua concentração na descida e ao invés de entrar num grupo que seguia na frente, acabou colhido por um grupo vindo de trás o que é sempre motivante. Neste grupo seguia boa parte de uma equipa, os Duros do Pedal. Acabaram por se revelar uma salvação; não categorizadas, existiam um infinito número de subidas não menos duras, que transformavam este sector do percurso num mini-parte-pernas algarvio mas em mais inclinado. Apesar de muito curtas todas as subidas forçavam a saltar para o prato pequeno; um ponto do percurso chegou em que os clics e clacs dos desviadores dianteiros se silenciaram. Prato pequeno seria. Uma palavra de apreço aos Duros do Pedal que trabalharam na frente de um grupo de considerável dimensão tornando este sector menos doloroso. Um esperto Velopata aproveitou a boleia.

Terminado o sector ali colocado para lembrar o Velopata do seu querido Algarve, seguia-se a segunda contagem de primeira categoria. Não sem um respiro de um a dois quilómetros. Justamente nesse respiro os Duros do Pedal repetiram o procedimento do Tróiapocalipse, sem motivo aparente reduziram o ritmo e ficaram para trás. O Velopata, que se preparava para fazer a sua parte ao vento, acabou por se distanciar sozinho. Recebeu apupos do grupo. Um mal entendido. O Velopata apenas queria colocar-se na frente pois aproximava-se a contagem de montanha. Foi uma pena pois a união de esforços entre Velopata e Duros do Pedal poderia ter sido o início de algo para perdurar nos anais da história velocipédica.

“Bamos lá! Faz aí a pounte carago!” – uma voz de estrangeiro do norte, carregado de sotaque tripeiro nascido e criado nas entranhas do Bolhão.

Não ficou muito tempo isolado na sua fuga por engano. Da troupe já em sofrimento nas primeiras paredes saltava um grupo de quatro amigos estrangeiros do norte e um estrangeiro lá de fora que fizeram a ponte ao Velopata. Trabalhou-se bem e em conjunto apenas um senão.

“E soue é estúpido.” – o estrangeiro do norte com sotaque do Bolhão atirou pólvora para o ar.

“Então?” – o Velopata tentou travar conhecimento com tal espécime.

“Podia estar na esplanada jounto ao rio a buber um fino  e a ber as gaijas. Não… Tinha que me bir meter nisto.”.

“Olha para mim então.”.

“O que é que tem?” – pelo sotaque o estrangeiro do norte percebeu que o Velopata era estrangeiro do sul.

“Eu podia estar na praia no Algarve.”.

“Ah! Ah! Ah! Temos aqui um morcoum!” – explodiram todos em gargalhada menos o estrangeiro de lá de fora, porquê o Velopata nunca saberá.

Deste ponto em diante o Velopata foi forçado a colocar uma rolha nos ouvidos. O estrangeiro do norte com carregado sotaque do Bolhão era uma matraca, a seu lado o Pro Ressabiado quando dopado com cafeína nem aos calcanhares da categoria de menino do côro chega deste gajo, o Velopata estava na presença de um profissional, o chamado Ciclista-Matraca. É aquele gajo que quando todo o grupo sofre e a conseguir soltar uma palavra será “Ajuda!” ou “INEM!”, continua de sanfona ligada fazendo piadas e trocadilhos. Non-stop.

Não se diz que tudo tem uma função? A verdade é que o matraquear do estrangeiro do norte em constantes gingas tripeiros fez com que os quilómetros de sofrimento ao longo da segunda contagem de primeira categoria se diluíssem. Menos para o estrangeiro lá de fora que não aguentou o calor que se fazia sentir e provávelmente pensando que devia ter optado por turismo nas praias referidas pelo Velopata, tirou senha para o além. O sexteto, agora reduzido a quinteto, começava a focar nitidamente uma das placas amarelas da organização na estrada. Lia-se “Adamastor”, uma das atrações especiais preparada pela organização.

adamastor
O Adamastor. Com direito a um Adamastor em carne e osso que passava bilhetes de ida aos ciclistas mais incautos.

O Adamastor não é atração especial em lado nenhum. Aquilo é pura e simples maldade e horror por parte da organização. Naquele cenário, uma paisagem desprovida de vida com ausência total da côr verde a um nível que dir-se-ia lunar, o Velopata sentiu na pele o que realmente passaram as lendas de outrora Hinault e Bartali e não era uma dor qualquer.

The Pain.

É anunciado como seis quilómetros com nove por cento de inclinação.

É mentira.

“Epá, não me digam que o Adamastor é só isto?!” – o Velopata vangloriava-se dos dotes de trepador mesmo com os pulmões prestes a explodir no final de uma pequena subida mas bastante inclinada já no interior do sector.

E outra vez uma risada geral.

A estrada começou a descer. Não será necessária uma licenciatura em matemática; se todo este sector era o Adamastor… Então aí pela frente vinha um inferno.

The Pain é levar quase uma hora para percorrer seis quilómetros.

Em estágios de desenvolvimento de velopatia inicial o Velopata certa vez conseguiu convencer um certo número de coitados seus colegas de um outro trabalho onde afincadamente trabalhava a fazer um passeio de bicicleta até ao Cerro de São Miguel. Coisa pouca seria ou não fosse o Velopata ainda e apenas portador de uma bicicleta dobrável roda 20″. Sofrimento não será a palavra correta para catalogar esse dia, no entanto, foi a única vez que o Velopata se viu forçado a jogar os bidons ao chão e desmontando ter de seguir a pé.

The Pain é quando se pensa que mais vale desmontar. À nossa volta vêmo-los tombar um a um. Dando o Adamastor por vençedor desmontam das bicicletas e seguem a pé. Uma placa indica 14% de inclinação. Obrigado pela informação senhores das estradas de Portugal, não teria reparado!

Sem grande deliberação; aqueles foram os seis quilómetros mais horríveis que alguma vez o Velopata passou em cima de qualquer uma das meninas de seus olhos. Qual Malhão, qual Fóia, qual Picota, no Centro do Universo Conhecido do Velopata não existe nada assim.

Quando finalmente The Pain passou e o Velopata foi capaz de focar a visão, o cenário alterara-se por completo. Uma tenda na berma da estrada oferecia refúgio e salvação dos sobreviventes do estrago provocado pelo Adamastor. O Velopata encheu bidons, encheu-se de bolo de chocolate e mais uma das suas barras de energia chez moi. Quando regressou à estrada nem sinal da Matraca do Norte e companhia. Seguiam-se escassos quilómetros a rolar e uma descida daquelas onde mais uma vez a organização decidiu que os voluntários deveriam todos ser míudos com ares de escoteiro (seria o mesmo?), distribuíndo-os pelas curvas do sector mais apelativas aos suicidas.

Numa descida que seriam um a dois quilómetros em recta o Velopata preparava-se para por carga máxima à proa quando se apercebeu de outro escoteiro-mirim (aquilo começava a parecer o Village of the damned), que bloqueava a referida recta e obrigava a virar à direita.

“Com tanta estrada boa na Serra da Estrela e tínhamos de vir para aqui?”.

O clássico chavão do Velopata privado de uma gloriosa descida e desviado para uma estrada do pós-guerra e a subir, claro. Começavam agora uma série de cumes não categorizados. Por esta altura da prova, estavam as deliciosas entradas servidas com o Adamastor e já muitos tinham tombado. Grupos não se viam. Aqui e ali apareciam como fantasmas na montanha nua mas nenhum ultrapassou o Velopata.

Lá à frente um trio carregava nos últimos quilómetros planos antes de se iniciar a descida para Manteigas, de onde se subiria à Torre. O Velopata fez a ponte para o grupo e ainda puxou na frente os primeiros quilómetros de descida, mostrando que não estava ali nem no defeso, nem no bem-bom.

A descida para Seia é algo de especial. Apelidada como “descida técnica”, pode ser traduzida para os leitores menos versados no léxico velocipédico como “vai-devagar-senão-´tás-lixado-com-f-maiúsculo”. Lançados, o quarteto passou a trio quando um dos intervenientes, que o Velopata não chegou a perceber se era estrangeiro ou de onde, arriscou mal a trajectória numa apertada curva em cotovelo e ficou para trás não mais conseguindo colar. Pelo menos não caíu.

Ao longe o Velopata avistou um bom naco de troço de pavê. De imediato blasfemou e avisou os colegas de que poderiam seguir, o mais óbvio era que ficásse para trás.

O Velopata devia jogar no Euromilhões.

Na base da Serra da Estrela o Velopata ficou com as frequências cardíacas ainda mais deturpadas só de olhar para o que aí vinha. Olhando para cima e para a direita a enorme escarpa contrastava com o azúl flamejante do céu trazendo consigo um calor seco e tórrido. No centro um enorme Vale Glaciar ainda forrado de verde e pequenos pontos castanhos das casas dos pastores.

Agora era sempre a descer até lá acima – assim dizia a placa da organização.

The Pain é levar uma hora e vinte minutos para percorrer dezasseis quilómetros.

The Pain é tanto súor escorrer testa abaixo que têm de pedalar de olhos fechados porque ardem num mar de sal.

Uma pequena fonte na berma da estrada permite que nos quilómetros iniciais pelo Vale Glaciar acima os zombificados atletas possam retomar o fôlego e principalmente refrescar-se. Carregam-se bidons, um ou outro ainda brincam em como todo o corpo caberia dentro da fonte salvo o creme gorduroso do escroto que contaminaria aquela água toda. Face e olhos lavados do súor e o Velopata seguiu a sua labuta serra acima.

The Pain é quando percebes que quem inventou a expressão “paisagens de cortar a respiração” era, com certeza, ciclista.

The Pain é quando já não queres saber do aero para nada e vais de peito exposto ao vento e mesmo assim, o jersey é quente e cola-se na pele encharcada.

Foram dezasseis quilómetros de sofrimento ao calor impiedoso da Serra da Estrela. Algures nesse percurso existe uma zona de respiro onde até árvores projectam a sua salvadora sombra. Uma curta descida e finalmente se respira ar puro sem baba e ranho. O Velopata duvida que alguém tenha aproveitado e engatado o prato 52 naquele escasso quilómetro enviado pelas Altas Iminências Velocipédicas.

Uma placa indicava quatro quilómetros para a Torre. Por trás dos promontórios rochosos começava a vislumbrar-se o tecto da tão desejada chegada.

Uma miragem provocada pelo calor. Só podia. A estrada não seguia nessa direção e afastava-se para a direita. Uma facada nas pernas do Velopata.

À frente um solitário ciclista no que parecia ser uma KTM, marca que produzia e patrocinava veículos primitivos como carros e principalmente motas mas agora acha que sabe fazer bicicletas. Tal não foi o espanto do Velopata quando o referido ciclista abanou uma e outra vez e seguindo uma trajectória desaustinada foi de encontro o que parecia ser o único poste de electricidade existente em quilómetros. Saíndo rapidamente da bicicleta prostou-se de joelhos no duro chão.

“Deve ser árabe e vai rezar para agradecer.” – para o leitor perceber bem que os efeitos da subida à Torre não são apenas físicos mas também psicológicos, este foi realmente o primeiro pensamento do Velopata com aquela imagem.

Aquilo não estava correto e provávelmente o Alá até podia levar a mal que o gajo estivesse a rezar longe do sítio correto. Enquanto passava pelo moço o Velopata avisou;

“Ei man! Olha que ainda faltam quatro quilómetros para a Torre!”.

“Eu acho que vou desmaiar…”.

Era um boneco desprovido de vida e olhar vazio que se prostava; a alma ceifada pela imensidão da serra, a bicicleta tombada e o orgulho velocipédico e as pernas em frangalhos. Em segundos o roncar primitivo de uma mota da organização abafou o cavernoso silêncio e logo dois voluntários da organização correram em socorro do pobre árabe.

Foi um Velozombiepata que atravessou a meta na Torre. Seis horas e sete minutos para cumprir o total de cento e vinte e nove vírgula oito quilómetros do percurso.

Objectivo cumprido o Velopata sorriu enquanto inspirava fundo o ar seco e quente na Torre. A paisagem é realmente maravilhosa e tem um sabor especial quando conquistada de bicicleta a pedal.

Depois de todo o sacrifício passado era tempo de colher frutos. O Velopata pesquisou as redes sociais e a internet. Descobriu que para a posteridade, para marcar este tão importante evento na sua vida velocipédica e a avaliar pelos milhares de câmeras e aparelhos de gravação que viu espalhados pelo percurso, ficou apenas uma única foto do Velopata na prova;

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O único registo do Velopata na Serra da Estrela.

Porque há gajos com sorte.

Link para a actividade Granfondue SkyRoad Serra da Estrela 2016 no Strava.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

2 comentários sobre “Análise anual velopatóide 4 – Julho

  1. Pingback: Divisão Velopata – Em Abril cada carocha dá mil – Blog do Velopata

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