A última pedalada de 2016

“A minha época já acabou e não estou para sofrer. Hoje é tranquilo.” – dizia o gajo, dizimado pelos primeiros membros do grupo que saíram a ressabiar entre eles.

Que ciclista não ouviu um comparsa proferir estas palavras? Regra geral, quando estas primeiras desculpas se fazem ouvir no início de uma group ride sabemos que serão esses os primeiros a ficar para trás.

Mas qual época?

Existe uma época para quem todos os fins de semana discute entre amigos qual o primeiro a atingir o tasco na serra desde que munido de uma absurdamente cara amálgama de fibras de carbono coladas com resina? A não ser que o gajo fosse do bêtêtê que essa modalidade sim, tem provas a torto e a direito, aquilo é todos os fins de semana e não será a primeira nem a última vez que o Velopata repara existirem provas simultâneas. O luxo. Uma efetiva contagem das provas de estrada do calendário velocipédico amador algarvio poderá ser feita com os dedos de uma mão. Chamar a isso “uma época” parece descarado exagero ao Velopata.

Se o gajo era bêtêtista ou não o Velopata nunca chegou a saber. O que não era mas tentava parecer é ciclista e avaliando o número de atentados que cometia às mais básicas leis da tradição velocipédica, apesar de munido de uma bela máquina de carbono, 100% carbono, daquele que é mesmo só carbono, full aero carbono, era claramente um gajo que ainda vivia na escuridão do submundo velocipédico ansiando por uma alma iluminada como o Velopata para o despertar e guiar na direção da luz.

Meias de compressão Moulin Rouge style. Um colete fluorescente concebido para utilização aquando da avaria de um enlatado, especialmente num passeio que se previa totalmente diurno. Óculos de sol de ir à praia. E aquele jersey era de que desporto menor? Futebol?

O Velopata engoliu em seco, era efetivamente um jersey de futebol.

Há limites.

Se são as regras o que nos distingue dos animais então as regras velocipédicas são o que nos distingue da restante humanidade que apenas “anda de bicicleta”. Nós somos ciclistas, há todo um código e tradições a respeitar.

“Vou ter muito trabalho com esta malta. ” – pensou o Velopata.

O leitor entenda que por “trabalho”, o Velopata refere-se à transformação da energia velométricocoiso em energia cinética que terá lugar nos rolos do seu quarto.

É que aquela malta do Clube Desportivo Areias de São João, (CDASJ), tem mais pros ressabiados por carbono quadrado que o Velopata originalmente pensava. O que prometia ser um relaxado passeio de ida-e-volta de final de ano até á Fóia; se escrever Fóia e relaxado na mesma frase fará algum sentido velocipédico, revelou-se um tareão que deixou o Velopata arrumado para a noite de final de ano. Soaram os primeiros ecos de fogo de artifício na atmosfera e já os cães fugiam dos seus quintais, os gatos escondiam-se onde podiam e o Velopata aterrava no sofá.

Estremunhado, foi acordado por uma família em gozo. Alguém gritou “Estrela Vermelha”, só para ver o Velopata assustado saltar do sofá. O sentido de humor desta gente. Este tipo de procedimentos não são corretos a quem foi sovado e espezinhado de manhã, varreu e lavou o chão da casa, mudou a areia da gata, colocou a louça na máquina de lavar, fez uma máquina de roupa que prontamente estendeu e nem uma cochilada no sofá novo que é relax like a boss conseguiu durante a tarde… E a seguir deram-lhe cargas etílicas. Tintol com comida da boa onde nada guinchou, ganiu ou foi assassinado na fase anterior ao empratamento. E depois ainda mais tintol.

“Comes que nem um alarve e depois dá nisso.” – a Srª Velopata sempre sábia e a contribuir para um Velopata afundado nas profundezas do sofá cinco minutos depois da meia-noite de trinta e um de dezembro de 2016. Envergonhada ainda fez notar que o Velopata praticou rolos enquanto a festa decorria.

“Tu não sabes. Não estavas lá.”.

“Estás a falar do quê?” – a Srª Velopata no regresso a casa conduzia o enlatado.

“A vergonha.”.

“Pois devias ter vergonha, porês-te ali à frente das pessoas a roncar assim… Vá lá que o fogo de artifício disfarçava.”.

“Não é isso.”.

“Pois que não tens vergonha nenhuma sei eu.”.

“A vergonha que ele passou hoje de manhã.”.

“Ele quem?” – a Srª Velopata à toa.

“Bem, o Velopata.”.

“Ah, tu.”.

“Não, ele. O pelotão até parou à espera no final de descida da Fóia. “.

“Estúpido.”.

“Quem?”.

“O Velopata.”.

Como aquele simples passeio se transformou em humilhante degradação velopática podem ser apontados dois factores;

  • a muito provável ausência de treino dados os compromissos calendariais com o blog e os familiares motivados por essa religião estranha que não é única e verdadeira como a Velominati;
  • o Pro Ressabiado ou; o atraso do Pro Ressabiado.

Se há coisa que nunca deve ocorrer é um ciclista adormecer para uma group ride. Atrasos são desculpáveis mas adormeçer não é justificação, é falta de respeito para com os comparsas mas principalmente para com o desporto. Como se dormir aconchegado numa quentinha cama em lençóis de termocarbono de algum modo suplantasse uma manhã ventosa na altitude fria e humidade colante da Fóia em Dezembro.

Quinze gélidos minutos depois da hora prevista lá aparece um Pro Ressabiado esbaforido e pela face entendia-se estar a coisa preta.

“Não esperaram, já arrancaram. Mete aí na roda e siga.”.

Era só o que faltava ao Velopata. Se já vinha a súar as estopinhas para não se atrasar e complementar o aquecimento do motor para não fazer figuras tristes, agora ainda tinha de seguir o Pro Ressabiado numa louca perseguição por boa parte da querida N125 atrás do comboio do CDASJ que uns bons quinze a vinte minutos de avanço surtia. Pelo menos o Pro Ressabiado tinha noção;

“Isto assim não vai ser fácil. Fazíamos história se os apanhássemos, dois gajos a perseguirem um grupo de vinte ou trinta.”.

“Pois.” – foi a única palavra que ocorreu ao Velopata e ainda bem pois era a única palavra com sentido que o fôlego permitia emitir.

O smartphone tocou, o Pata Negra e mais uns quantos esperavam na estrada para depois auxiliar na ponte para a frente.

“E pronto. Agora isto está safo.” – o coração do Velopata regressava ao seu lugar na caixa torácica.

Estava safo mas não para o Velopata.

A carregar de tal modo que ainda antes da primeira dificuldade do dia, o Paris-Roubaix em versão um bocado melhor que é o que em tempos foi a estrada entre Silves e o Porto de Lagos, o Velopata arriscava já descolar do grupo de… Bem… Um grupo composto por três pros ressabiados e o Pata Negra, que pesa mais vinte quilos que o Velopata e tem a mania que os esticões que os ressabiados lá ressabiam entre eles são engraçados, ou seja, de longe o auxílio que o Velopata esperava.

Uma cratera aqui e uma pontada no rim ali. Uma porrada num outro buraco e o outro rim acusava também. À terceira bordoada tornou-se uma questão existencial;

“Merda, como é que eu digo a esta malta que tenho de parar para mijar?”.

Sem tempo para gritar as suas intenções a um grupo em ressabianço coletivo o Velopata ficou para trás mas não esquecido. Segundos depois, já o nível hídrico velopatóide regressava aos níveis normais e telefonavam os comparsas lá na frente; que não iam parar, estáva-se praticamente na Fóia. O Velopata não ficou surpreendido, pros ressabiados gonna ressabiate e com certeza, estando a chamada para o Velopata concluída, já alguém se estará a tentar destacar para auto-coroar seja lá o que for que ele acha que vençeu. Uma ressalva importante e possibilitará futuros estudos sobre o tema neste vosso querido espaço; uma tendência parece existir pois todos os pros ressabiados optam pela mesma marca de bicicletas adquirida em supermercados alemães, quais Lidls e Aldis dessa vida. Desfiladeiro. Até o nome da marca traduzido é foleiro. E a verdade é que os alemães são muito bons a fazer muitas coisas como genocídios, fornos gigantes e endividar países mas bicicletas? Tenham lá calma.

O Velopata sabe que é nestes momentos de fossa velocipédica que se distinguem os homens dos ratos. Poderia procurar forças adormecidas no seu âmago e proceder a uma recuperação que faria eco nos anais da história do CDASJ.

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Velopata à esquerda e Pata Negra á direita para a última selfie de 2016, capturada na Fóia.

“Xic! Xic!” (onomatopeia que pretende representar o Velopata a emitir sons de rato)

O Velopata estava mesmo todo rôto. Desejava apenas chegar ao topo da Fóia, sofrer ao frio cinco segundos para dizer que sim e regressar para o quentinho de um qualquer tasco em Monchique com bolos bem fofinhos e café fumegante servido em jerricans de modo a travar conhecimento com muitos dos comparsas que por ali já enfardavam sandes de presunto, couratos e outras partes mortas de animais processadas por diversas metodologias.

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A troupe CDASJ in da tasco em Monchique para a última pedalada de 2016. Que diz que era um passeio mas o Velopata acabou mais trôpego que em prova.

Sem tempo para o seu ritual de café com cigarrinho e mesmo notando que toda a troupe ainda não estaria de regresso da Fóia já os ressabiados incitavam à carga Monchique abaixo pois parece que alguém tinha de estar não sei onde nem a que horas. A verdade é que o Velopata sem o fúel do cigarrito e a cereja no topo que é o espresso, tem dificuldades em carburar mas lá seguiu, fingindo saber ressabiar com a créme de la créme ressabiante. O Strava indicaria posteriormente um PW na descida da Fóia, Personal Worst. Só mimos para acabar o ano. Numa última curva no final da descida o Velopata foi surpreendido por um pelotão estacionado na berma;

“ÉÉÉÉÉHHHHHH Ó Velopata! Não tens vergonha? Está tudo parado à tua espera!”. – gritou o Pro Ressabiado no tom mais jocoso que conseguiu encontrar.

A lata daquele gajo. Mas a verdade é que todo o pelotão esperava. Pelo Velopata? Ele acredita que não pois para além de ser humilhante era só mais humilhante.

O Velopata puxou uma ou outra vez na frente do grupo, sempre cumpridor da sua tarefa e olhando em volta descobriu estar novamente sozinho, envolto por um ajuntamento de pros ressabiados e o Pata Negra de arrasto.

“Como é que raios isto foi acontecer?”.

Sensivelmente a meio do caminho alguém gritou que era sua intenção parar no tasco seguinte, aguardando o restante comboio CDASJ. Os pros ressabiados, ainda sob efeito da adrenalina que o corpo liberta enquanto ressabia, discordaram. E foi com pouca ou nenhuma pena que o Velopata aproveitou a deixa e acompanhado do Pata Negra pausaram no tasco para trocar impressões sobre a única coisa que o Pata Negra troca impressões recentemente, a sua nova Specialicoiso feita em alumínio esperto lá por um tal de Aloísio. Se as bicicletas também já são smart pouco falta para a iSpecialicoiso ou a iScott, o Velopata adverte.

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O pormenor do alumínio esperto do Aloísio que é provávelmente um brasileiro ex-central caceteiro do Fêcêpê que agora desenha quadros para a Specialicoiso.

Já sozinho no regresso a Faro, tendo-se despedido em Albufeira da companhia do Pata Negra até ao próximo ano, o Velopata ainda encontrou o São Pedro, até então não tinha dado um ar de sua graça nesta última pedalada do ano. Já conheçendo a peça o Velopata calculou o que vinha por aí; portas escancaradas para um marafado vento frontal que nem nas descidas permitia à Estrela Vermelha ganhar velocidade. Resignado o Velopata engrenou o relantim e assim seguiu até ao barrraco.

Se calhar o gajo até tinha razão. Cada vez mais o dia se assemelhava a um final de época. Corpo mastigado e cuspido a pedir descanso. Pedalar no Douro, subir a Torre, participar no Tróiapocalipse parecem eventos distantes. Em 2017 será difícil repetir tais façanhas – vem aí um Velopatazinho. Ou zinha. Tudo vai mudar.

“Onde é que vais com isso?” – a Srª Velopata interrompia o processo de calçar as meias velopatóide.

“Não vamos ao fim de ano?”.

“E tu vais levar essas meias?.

“O que é que tem?”.

“Isso não são meias das bicicletas?”.

“São meias de compressão. Ajudam os músculos a recuperar.”.

“Eu tenho é de te oferecer um garruço de compressão para ver se chega mais sangue ao cérebro.”.

 

As meias de compressão são velopata friendly sim, para auxiliar o descanso e recobro. O Velopata bem precisou delas na noite de fim de ano, algo que há muito não acontecia. Será isto o início de algo bom?

O Velopata deseja a todos um excelente 2017.

Sempre a pedalar; não importa onde, quando, como ou com o quê.

Menos com uma Specialicoiso dourada de alumínio esperto desenhada pelo Aloísio. Cá para o Velopata aquilo é bina para pesar pouco e vamos ter o Pata Negra lá na frente armado em ressabiador.

 

 

Um velopático 2017,

Velopata

5 comentários sobre “A última pedalada de 2016

    1. Nos desportos menores como o futebol a exigência física e psíquica é menor e fique sabendo que nem se fazem análises como veio há bem pouco tempo o Presidente da Autoridade Nacional Anti-dopagem criticar!

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