Belga style

“Regra número 9: Se estás a pedalar à chuva, vento e frio, isso significa que és um badass. Ponto final parágrafo.”

Franck Strack in The Rules, The Way of the Cycling Disciple, dos Velominati

Existem duas grandes categorias nas quais se podem dividir os ciclistas;

  • os belgas;
  • o resto do mundo.

Há algo de especial na região europeia conhecida como Bélgica. Os ciclistas lá nascidos, particularmente na região da Flandres, parecem feitos de uma outra cepa.  Se o leitor tem dúvidas procure pela internet o palmarés de nomes como Tom Boonen, Phillipe Gilbert, Stig Broeckx, Thomas De Gendt, Roger De Vlaeminck, Tim Wellens ou mesmo Freddy Maertens. E claro, o incontornável, o profeta e messias Eddy Merkcx. Estes são homens que ao acordar de manhã, enquanto bebem um espresso e observam os céus, ao verem o dilúvio semelhante a um castigo divino que os aguarda, não conseguem evitar um sorriso na face, ávidos do sofrimento que os espera. Vento, chuva, frio e pavê. E é por essa razão que para os belgas o ciclismo é uma religião. O que o Velopata concorda pois é de longe a única e verdadeira. Têm dúvidas?

religiao
O Wielermuseum, em Roeselare, na Flandres Oeste. Atentem à Cruz de Ferro central, feita de vários quadros de bicicletas de eternas glórias do ciclismo. E a coleção de jerseys atrás. É ou não a igreja mais bonita que já viram? Claro que é.

Porquê os belgas pergunta o leitor?

Porque hoje o Velopata procurou neles a inspiração. Ao acordar de manhã, enquanto bebia o seu habitual alguidar de café e observava os céus, por instantes, também ele pensou nas épicas lendas belgas. O dia prometia chuva em monte, vento enxovalhante e frio. Metam frio nisso. Uma a uma chegavam as mensagens dos comparsas do dia – apresentavam mil e uma razões para ficar no choco e não ir para a estrada.

Tendo feito apenas uma mísera volta de 91 quilómetros na véspera, do alto do seu pedestal a Estrela Vemelha chamava o Velopata, implorando por mais quilómetros. Não querendo deixar a pobre coitada ógada (ainda por cima depois do que se passou esta semana), o Velopata equipou-se o melhor que pode para aguentar chuva e frio, tendo-se lançado à estrada.

Os primeiros 33 quilómetros revelaram-se atrozes. Vento forte sempre contra mas, pelo menos, não chovia. O frio embrenhava-se pelas poucas frinxas de pele que o Velopata mostrava – subia pelos pulsos e atingia os braços e o peito como afiadas lâminas.

“Pelo menos não chove.”

Próximo do Barranco do Velho, em jeito de resposta ao Velopata, começou a cair a primeira (e por sorte única), borrasca do dia – nada foram mais que umas gotas aqui e ali mas o Velopata gosta de exagerar de modo a aumentar a carga dramática. No entanto foram suficientes para o Velopata vestir o seu saco de plástico da Castelli, impermeável à chuva.

abelga
A Estrela Vermelha já perto do Barranco do Velho. Mesmo com os céus cinzentos conseguem ver o sorriso de felicidade estampado naquele quadro por estar de volta à estrada?

“Mas você vem para aqui pedalar com um mau tempo destes?” – a simpática moçoila que trabalha no Restaurante A Tia Bia, no Barranco do Velho, estava incrédula por ver aparecer o Velopata.

“Não existe mau tempo, existe é mau equipamento!” – respondeu o Velopata.

Na realidade o Velopata tentava motivar-se mais do que justificar-se. Iria agora fazer a descida pela Eira da Cevada com a estrada molhada, que juntando ao calor estranho da serra, poderia tornar-se perigoso. Vontade de regressar a casa e dar o treino por terminado não faltou. Mas depois lá está, os belgas. Além disso há algo que o Velopata, desde os seus primórdios, quando ainda era uma larva embrionária velocipédica, sempre disse; devemos treinar em todas as condições. Se no dia da prova estiver uma chuvada miserável e uma ventania infernal com´é? Além de que a religião do Velopata, os Velominati é bem clara; pedalar nas piores condições climatéricas é de homem, pedalar só quando faz sol e calorzinho… É para meninos.

O Velopata decidiu seguir o seu plano de treino, desceu a Eira da Cevada sem sobressaltos, rolou sempre com vento forte lateral até Salir, altura na qual foi surpreendido por algo que ele havia esquecido.

Os hardmen.

É certo e sabido que o Velopata tem um pequeno enguiço com os batráquios ou como os civis os conhecem, a malta do triatlo. Como já referido, o Velopata tem sérias dificuldades em confiar em alguém que afirma “ir fazer a parte do ciclismo”.

Mas a verdade é que hoje o Velopata tirou o seu chapéu, capacete e tudo o mais a esta troupe.

É que acordar cedo para ir pedalar é bom e faz bem à saúde.

Agora acordar cedo para ir nadar 2 quilómetros em águas de qualidade mais que duvidosa, com temperaturas mais próprias para leões marinhos, narvais e focas, pedalar 94 quilómetros com boa hipótese de levar com uma valente carga de água (assim como assim, também molhados já vinham), e com a ventania que o Velopata viu (que é sempre bom quando se está molhado dos pés à cabeça), para depois correr ainda 21,1 quilómetros – e dizem que o Velopata é que bateu com a cabeça?!?!

Vós sois os hardmen, os verdadeiros badasses do desporto. Hoje, após me cruzar com vários da vossa tribo, incluíndo o Batráquio, membro da Evo Team, e verificar o sofrimento estampado no vosso olhar enquanto terminavam a longa subida para Benafim, com lambadas de vento frontal, o Velopata apenas pode mostrar todo o seu respeito por vós e a vossa mui nobre actividade. Se há atletas que hoje traziam consigo a tradição dos ciclistas belgas foram os participantes no Triatlo de Vilamoura – Respect the batraquiame!

Este gajo deve ser maluco

O Velopata deixou os batráquios entregues às suas batraquices e seguiu o treino até Alte onde estava prevista a já religiosa paragem no Germano Biciarte Café. Sempre bem recebido pelo Pedro, o Velopata lá carregou um balde de café, comeu uma das suas barrinhas chez moi e no momento em que acendia uma cigarrilha foi surpreendido;

“A fumar amigo?”.

Um grupo de 4 ciclistas juntava-se ao Velopata na esplanada. E o Velopata lá deu a mesma desculpa de sempre,

“O Merckx também fumava 1 maço por dia e ganhou o que ganhou.”.

“Olhe que tenho um amigo que se você lhe diz que fumar faz pedalar mais, não é tarde nem é cedo, amanhã ele começa a fumar!”.

Risada geral. Claro que a conversa acabou por cair no blog deste vosso amigo e na quantidade de quilómetros que fez e está para fazer; da próxima aventura que o Velopata está a planear para o mês de Dezembro. Um grupo simpático que acabou por pagar o café ao Velopata. Quando nos separámos o Velopata não pode deixar de pensar que eles o acharam a modos que… Meio doido. Maluco, vá.

grupoemchoque
Na esplanada do Germano Biciarte Café reinou a boa disposição.

O Velopata despediu-se dos simpáticos companheiros de pedalada e seguiu viagem até à Portela de Messines tendo um deles como companhia, o ex-pro-campeão Bruno, infelizmente afetado por maleitas no joelho que o impediram de seguir carreira no World Tour. Mas o bichinho das binas é, como muitos sabem, mais forte e sentindo-se melhor, regressou às pedaladas, mesmo após ter vendido todas as suas bicicletas aquando da lesão. O Velopata não lhe disse por educação mas na realidade achou aquela atitude um sacrilégio – vender bicicletas só porque já não se pedala? E que tal pendurá-las na parede da sala como um troféu? Vender? Esta juventude está, efetivamente, perdida…

O Velopata seguiu o treino por Paderne, Boliqueime e Loulé sempre com chapadões de vento lateral. Em Santa Bárbara de Nexe o vento finalmente pareceu ajudar minimamente e foi pedal a fundo até casa.

A Estrela Vermelha repousa agora no seu pedestal, imunda de todo o badejo que respingou da estrada molhada nos cerca de 114,5 quilómetros percorridos. Apesar de ainda não estar saciada já tem todo o direito a um tratamento VIP SPA Lounge Sunset Gourmet, que acabou por não se concretizar na véspera do fim de semana dadas as condições metereológicas que se anteviam. Mas esta semana não falha. Lá vai o Velopata bodegar a casa de banho toda!

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

6 comentários sobre “Belga style

  1. Pingback: A morfologia de um Velopata – Blog do Velopata

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