A soma de todos os empenos

Empeno.

Substantivo masculino; flexão do verbo empenar na primeira pessoa do Singular do Presente do Indicativo. É o acto de empenar ou empenamento, também chamado à curvatura causada em madeiras indevidamente secas devido à exposição ao calor ou humidade. Como sinónimos pode acrescentar-se; estorvo, dificuldade, diferença de contas ou cálculos incorretos.

“Você outra vez?!?!”.

O Velopata estava incrédulo. A seu lado o famigerado e silencioso Homem da Marreta caminhava a par do Velopata com um sorriso maléfico estampado no rosto. Estávamos na última das subidas mais duras do dia (ainda faltavam outras três!). Na estrada lá à frente o Pro Ressabiado seguia como é hábito, um minúsculo pontinho no horizonte que tentamos seguir. Para trás já tinham ficado o Canhão de Lagos e o Rei do Barranco. Nenhum deles pareceu se aperceber da figura monstruosa.

“Então, não me diga que não estava à espera desta?” – quebrou o silêncio em tom jocoso.

Realmente o Velopata já adivinhava. Acordou com sono e ainda cansado do treino a Almodôvar na véspera – sozinho, sempre a carregar e com uma dose de vento de fazer sofrer até os morcegos que vivem sob as telhas da casa do Velopata, este já sabia que a presença do Pro Ressabiado no treino levaria a que fosse tudo menos chá de frango, ou seja, canja.

Horas antes, aquando da chegada a Cachopo para a primeira paragem do dia, o Velopata já tinha sentido a fraqueza nas pernas. Foi o último a chegar ao café quando já os Evos carregavam nas criminosas sandes de presunto e bebidas açucaradas com gás, daquelas que certo tempo depois permitem engrenar o turbo.

Claro está que foi uma questão de tempo até a discussão das metafísicas velocipédicas aplicadas ao Passeio Bike Lounge Algarve Lés a Lés e à Odisseia Algarvia começarem. De modo a reduzir o tamanho deste post o Velopata não fará uma transcrição íntegra da acesa discussão que teve lugar na esplanada e sim um resumo da ideia fundamental;

  • Pro Ressabiado – pensa que o Velopata faria uma média melhor se fizesse sozinho a Odisseia Algarvia, uma vez que não teria de esperar pelos mais lentos;
  • Rei do Barranco – acha que o Pro Ressabiado está enganado, seria sempre melhor o Velopata ter companhia para poder pedalar protegido na roda e passar menos tempo exposto ao vento;
  • Canhão de Lagos – a par do Rei do Barranco acha que o Passeio será um fiasco devido à sua dificuldade e em relação à Odisseia Algarvia acredita que … O Velopata é parvo.

 

cachopo
Evos na esplanada em Cachopo. Não sabíamos mas o Pro Ressabiado já sorria pois tinha bebido um café às escondidas.

Zás!

A marretada estava dada. Nem a segunda paragem do dia, já no Ameixial e requisitada por um Canhão de Lagos já sem fôlego e com as pernas em fanicos, permitiu que o Velopata recuperasse. A partir daí sabia que seria sempre a sofrer até Faro. Para piorar o Pro Ressabiado avisou;

“Malta! Eu vou pedir mais um café! Sabem o que isso quer dizer, não sabem?” – o sorriso do Pro Ressabiado revelava-se mais maléfico que o do Homem da Marreta. Protestámos que não nos sentíamos com disponibilidade psicológia que permitisse mais uma dose de cafeína no Pro Ressabiado mas de nada serviu.

“Ora boa tarde malta!” – uma simpática voz surpreendeu-nos à entrada da esplanada.

Olhámos na direção da voz. Era um simpático ciclista de 69 anos, equipado a rigor com as cores do BTT Loulé que se juntava à nossa mesa. O Velopata sabe agora que se os restantes Evos desconfiassem do que o Sôr Adérito tinha a dizer sobre o Velopata, não o teriam deixado juntar-se. Pura inveja.

Tal como quando na fila de espera de um hospital os mais velhos decidem-nos contar as histórias das suas vidas também o Sôr Adérito começou a contar a sua; emigrante em França reformou-se e regressou à sua terra natal de Fontes Ferrenhas onde, pelos vistos, tinha visto o Velopata passar lançado na véspera.

“Você passou nas Fontes Ferrenhas ontem não passou?” – questionou.

O Velopata acenou afirmativamente.

“Olhem que ele tem boa pedalada. Ia num bom ritmo! Você anda bem sim senhor!” – o Velopata reparou que os Evos trocaram olhares de indignação. “Ai mãe, o que é que você foi dizer Sôr Adérito…” – pensou o Velopata.

A conversa fluiu por entre histórias de empenos e como o Sôr Adérito tinha gasto toda a sua reforma em “bicicletes mai´ caras c´um raio!”.  Um pagode e uma simpatia.

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Foto tirada à socapa ao Sôr Adérito para não ferir susceptibilidades. Atentem ao sorriso do Pro Ressabiado já claramente sob o efeito da cafeína.

Seguimos viagem mas não sem antes o Sôr Adérito rematar;

“Vocês são todos muito franzinos e têm poucos músculos. Ele não!” – apontando na direção do Velopata – “Ele eu já vi que anda bem agora vocês… Vocês têm pinta de ser malta fraquinha!”. E foi com esta frase que nos despedimos sabendo o Velopata que a partir daí ia ser um inferno. Não, ia ser pior. Alma de ciclista maltratada como tinha acabado de ser a dos Evos, dá direito a revancha. E da grossa.

O castigo velocipédico abateu-se sobre o Velopata, tornou-se um sofrimento seguir na roda dos Evos. Assim que conseguia colar na roda lá um deles passava para a frente impondo um ritmo frenético que deixava o Velopata para trás completa e totalmente nas lonas.

“Estás bonito estás… E um empeno destes na semana antes da Odisseia não é grande augúrio não… Epá, estou mesmo mal… Até o Canhão chegou lá acima primeiro…” – pensou o Velopata enquanto via os companheiros desaparecer no horizonte na última subida para Loulé. Para alguns terá sido um momento histórico – para o Canhão de Lagos foi com certeza pois tratou-se da primeira vez que chegou ao topo de uma subida antes deste vosso amigo.

O Velopata retirou pelo menos um ponto positivo no empeno – ao longe o matraquear do Pro Ressabiado encharcado em cafeína fazia eco na Serra Algarvia. “Valha-nos Santo Joaquim Agostinho! Aquele gajo e o café… Não se cala mesmo… Ainda bem que não tenho de o aturar com este empeno senão… ainda o esganava!”.

Assim, o Velopata chegou a uma conclusão; quando o corpo está cansado mais vale ficar na cama e aproveitar, agora que faz fresquinho, o quentinho dos lençóis.

Agora é recuperar e esperar que a Odisseia Algarvia decorra sem empenos.

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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