Escarade que nem um pórqe!

RRRRRRRRRR…

O Velopata acordou como se está a tornar habitual; cócegas no ouvido dos bigodes da sua gata que teima em ronronar encostada à cabeça, sempre uma a duas horas antes do alarme tocar.  Mas esta madrugada algo estava diferente. A cabeça do Velopata sentia-se pesada tal como o estômago.

“Deve ser culpa da Dona Ermelinda. E das castanhas.”

Na véspera, sabendo de antemão que o treino teria a presença do Pro Ressabiado, o Velopata decidiu carregar forte e feio nos hidratos e entregou-se de corpo e alma a um enorme tabuleiro de castanhas – mesmo sem a referida presença no treino era muito provável que o Velopata despachasse todo o tabuleiro, primeiro porque a Sra. Velopata tem de evitar os hidratos à noite e segundo pois além de ser velopata, ele é castanhopata. Para ajudar a deglutir tanta castanha despachou também uma garrafa inteira de tintol da Dona Ermelinda.

Gata alimentada para parar de azucrinar e prepara-se o pequeno almoço. O Velopata ainda eructa a castanhas o que torna a primeira refeição do dia difícil de engolir – o estômago ainda está cheio. Café e cigarrito na varanda para apreciar o tempo e pensar no equipamento a vestir. Passeia-se a cadela esgroviada, o que serve para confirmar a temperatura e a força/direção do vento, inspeção à Estrela Vermelha, tudo ok e siga para bingo.

Combinado na véspera o treino era simples, encontrar-me-ia com o Pro Ressabiado no Estádio do Algarve às 09:45 e seguiríamos para São Brás de Alportel onde o Canhão de Lagos e o Rei do Barranco iriam ao nosso encontro. Juntos seguiríamos para Almodôvar com pit-stop aí para por a conversa em dia. O regresso seria pelo Malhão, depois Loulé e casa. Ainda nessa noite o Canhão de Lagos avisou que iria com o Velopata ao encontro do Pro Ressabiado no estádio e seria só apanhar o Rei do Barranco em São Brás.

Ora como muitos saberão o caminho em melhor estado do estádio para São Brás é pela estrada que passa pelo MARF até Estói. Na sua sagacidade, astúcia e inteligência o Pro Ressabiado optou por avisar o Rei do Barranco que nos encontraríamos com ele em Loulé às 10:05.

Ou seja faríamos 10 quilómetros em 20 minutos. Possível? É mas com certeza para o ano veriam-nos na televisão a disputar o Tour, Giro ou Vuelta. Qualquer equipa do World Tour quereria assinar contrato conosco.

10:15, já quase chegámos a São Brás e lá telefona o Rei do Barranco questionado porque estamos atrasados. Que é coisa que ele adora. Claro está que o moço teria agora de fazer os quase 10 quilómetros que o separavam de nós em tempo recorde. Eu já não disse que o Pro Ressabiado consegue meter tudo em modo acelerado e sempre a abrir?

Discutíamos sobre parar no café da bomba de gasolina localizado na rotunda à entrada de São Brás ou ir ao encontro do desencontrado quando sem que nada o fizesse prever um enlatado qualquer nos buzina a quase 1 quilómetro de distância, passando depois a bela da razia. Achicalhámo-lo e como o Velopata e o Canhão de Lagos queriam beber um café de máquina insistimos em parar. O Pro Ressabiado avisou que iria ficar cheio de pica. Olhando para trás e sabendo o que sei agora, não o teríamos deixado beber café, isso é certo.

Escarade que nem um pórqe!

Cafés servidos e sentados na esplanada eis que entra em cena um indivíduo com aspecto menos limpo que se aproxima da nossa mesa. Colocando-se de joelhos junto à mesa diz;

“Bom dia. Olhem, eu já tentê lá dentre mas todos olharam de lade para mim. Como vocês têm ar de ser boa gente vou-ves pedir um favore…”.

Trocamos olhares de gozo pois pelo aspecto da personagem já percebemos onde é que isto vai parar. É carochada.

“É que eu vim agora da noite e já gastê a guita tode. Precise de meter gasolina mas só tenhe iste…” – mostrando-nos meia dúzia de moedas nas mãos.

“Ó parente, mas vem agora da noite? Já são dez e meia da manhã?!” – já todos reparámos que o Pro Ressabiado tem o hábito de se meter com esta gente estranha. Os esquisitos atraem-se, não é assim o ditado?

“Eu tou escarade que nem um pórqe!” – remata o sujeito.

Não perceram pois não? Eu explico, mas em português e não algarvio cocaínado – o moço estava escarado (seja lá o que isso for), que nem um porco.

Trocamos olhares de gozo enquanto o Pro Ressabiado continua;

“É, diz que é para a gasolina é…”

“Népias mane, orientem lá qualquer coise senão nã volte p´ra case. ´Tou aqui tode escarade!” – lá continuava ele a insistir no verbo escarar.

“Ó amigo ´tás comó Xouriçe lá em Quarteira?” – eu não digo que o Pro Ressabiado tem amizades duvidosas? Em tempos idos surgiram dúvidas quanto à alcunha deste Evo; se Pro Ressabiado ou… O Mitra de Quarteira.

“Conheçes o Xouriçe? Ele é mê amige! O gaje andava sempre aos cavales com a LC!”

Aqui o Velopata ficou sem perceber se o Chouriço seria maluco das motas e andava sempre de LC ou se na realidade ia sempre comprar “cavalo” na sua LC. Provavelmente roubada.

“Nã… Isto não ê nade comó Xouriçe! Nem é p´á droga! É meme p´á gasolina! Orientem lá qualquer coisinhe!” – notou-se que o moço estava a ficar impaciente. Notámos também que aqueles dentes já não eram nem brancos nem amarelos e sim castanhos.

“Não, ninguém tem moedas, as que tínhamos já vinham contadas para o café que é para não fazer peso.” – o Canhão de Lagos, sabe que a desculpa do peso, regra geral, resulta sempre com quem não é ciclista.

Não satisfeito com a paródia o Pro Ressabiado continua;

“Então mas és amigo do Xouriçe é?”

Aquele cérebro mergulhado em pó branco foi-se abaixo qual Windows Vista. O desgraçado entrou num remoinho de confusões e ficámos sem perceber se na realidade ele conhecia o Chouriço ou era apenas primo da irmã da sobrinha do cunhado dele.

Nisto somos surpreendidos por uma voz femenina,

“Deixa lá as pessoas em paz. Mas tu vens ou não?” – era a namorada/mulher/coiso do carocho.

“´Tá calada pá! Não vês que ´tou tentande arranjar dinheire p´rá gasolina?” – o carocho mostrou-se mais agressivo e continou a sua explicação de como era primo do enteado do tio do cunhado do Chouriço.

A respetiva do carocho reparou que o Velopata estava a fumar e cravou um cigarro. Como o Velopata também já foi SG Cravas aqui e ali pela Serra, em momentos enrascados, não consegue dizer que não. Abri a caixinha do tabaco de enrolar e ela mergulhou lá as mãos. Arrependi-me. Se ela trabalhava a terra ou não nunca saberei mas aquelas mão metiam nojo. O negrume cravado por baixo das unhas era espesso.

Ela fez o cigarro, acendeu-o e afastou-se interrompendo a navegação do seu marido/namorado/coiso sobre a sua relação com o Chouriço.

“Olha, vou-me embora!” – gritou enquanto se afastava.

“Não vais nada ó estúpida! Como é que vais se nã tens gasolina?!” – o Velopata ficou com a sensação de que se não estivéssemos ali a moça tinha apanhado. Uma simpatia este carocho.

Ele lá continuou mergulhado na sua maionese mental pelos parentescos do Chouriço até que ouvimos buzinar do outro lado da estrada. Era ela dentro do carro, pronta para se ir embora.

“Esta gaja é do car$#%o!” – e dizendo isto o carocho afastou-se em passo acelerado para o carro.

Foi então que percebemos.

O carro do casal carocho era o mesmo que há pouco nos tinha buzinado e passado uma razia.

Quantos Evos são necessários para mudar um pneu?

O Rei do Barranco finalmente chegou e seguimos viagem não sem antes termos uma discussão de comadres sobre quem seria o culpado do desencontro. Aproveitando a deixa de já estarmos atrasados em relação ao percurso programado, o Canhão de Lagos decidiu atirar o barro à parede;

“Isto já começa a ser um bocado tarde para irmos até Almodôvar não? Não quero chegar de noite como a semana passada.”

“Já começas com isso e ainda nem 30 quilómetros fizémos?” – o Velopata protestou como sempre.

Seguimos viagem a bom ritmo não fosse o vento frontal que se fazia sentir. O Velopata já sabia, com um vento assim a probabilidade de se alterar o percurso e já não irmos a Almodôvar ia aumentar exponencialmente.

Há dias assim. A verdade é que o Velopata não se estava a sentir no seu melhor mas treino é treino e se era para ir até Almodôvar assim seria. Mesmo que isso implicasse ir a sofrer na roda do Pro Ressabiado. Só que ninguém esperava o que aconteceu na descida a seguir à Fonte Férrea. O Rei do Barranco furou o pneu traseiro. Nova pausa e mais tempo perdido enquanto o Pro Ressabiado rapidamente se chegou à frente (efeito da cafeína), para trocar a câmara de ar e descobrir o famigerado objecto que tinha provocado o furo – uma porra de um agrafo.

Retirando o agrafo do pneu traseiro da bina do Rei do Barranco, e antes que algum Evo tivesse tempo de argumentar, o Pro Ressabiado atira o agrafo para o meio da estrada. Elevou-se um coro de protesto;

“Então mas que é isso? ´Tás parvo?!”

“Então mas tu atiras essa porra para o meio da estrada?”

“Tu és lixado pá! Então e se passar aqui um gajo a seguir?”

Óbviamente o Pro Ressabiado enfiou a viola no saco.

Seguiu-se o enchimento da câmara de ar tendo o Canhão de Lagos, armado em fanfarrão, emprestado a sua “espectacular bomba manual”. Era tão boa que se partiu às primeiras bombadas.

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Quantos Evos são precisos para mudar um pneu?

Por sorte parou um outro canhão de nome Rui Silvestre, proprietário da Caffe & Cycles em Faro, trazendo no bolso um cartucho de CO2 suplente. Assim foi possível que o Pro Ressabiado usasse o seu ficando com um dos cartuchos do Rui, não fosse a estrada apresentar-nos mais alguma surpresa. Trocaram-se mais algumas cordialidades e decidimos seguir viagem quando começa novamente a já aguardada conversa;

“Com mais este tempo perdido agora é que não vou até Almodôvar de certeza!” – o Canhão de Lagos sabe perfeitamente como provocar este vosso amigo.

“Ainda por cima a bola começa às seis e eu quero ver o meu Porto!” – reiterou o Pro Ressabiado.

“Bola? Mas agora andas a ver esses desportos menores? E ainda por cima és do Porto?” – o Velopata sabia; se até o Pro Ressabiado estava com dúvidas o mais provável era não irmos até Almodôvar.

O Rei do Barranco manteve-se calado. Para ele só interessava chegar a tempo de se ir alambazar com os seus amigos civis no sushi.

Seguimos viagem acordando que a próxima pit-stop seria no Ameixial e que aí logo se decidiria o passo seguinte.

O Pro Ressabiado e a cafeína.

O percurso até ao Ameixial não foi fácil. O vento forte frontal e lateral obrigou a esforço redobrado. Mas se pensam que o pior foi o vento enganam-se.

Este treino rapidamente se transformou em teste à capacidade de resiliência psicológia do Canhão de Lagos, do Rei do Barranco e do Velopata pois pura e simplesmente o Pro Ressabiado não se calou o tempo todo.

Ora eram as suas teorias metafísicas sobre quem pedala o quê e quanto, ora a corrente dele era boa porque isto, mais a cassete 11-28 era genial porque aquilo, uma sanfona que se conseguiu sobrepor ao vento. Trocámos olhares e ninguém precisou de falar para sabermos que todos pensávamos o mesmo – Mas este gajo não se cala?

O yap-yap-yap daquela matraca continou até chegarmos ao Ameixial tendo o Canhão de Lagos oficializado aquilo que o Velopata já sabia;

“Eu por mim o treino está feito. Se quiserem vão vocês até Almodôvar que eu agora vou voltar para trás!”.

“Eu também. Ainda queria passar um bocado com a minha filha antes de ir ver o jogo” – com o Pro Ressabiado fora sabia que restava apenas o Rei do Barranco para tentar convencer a manter a ideia inicial.

“Seguimos nós até Almodôvar e regressamos pelo Malhão?” – o Velopata piscou o olho ao Rei do Barranco.

Acontece que o Rei do Barranco também não estava para aí virado. Juntando a falta de respeito que foi o desencontro, ao furo e à perspectiva de sushi para jantar o Rei do Barranco terminou com as dúvidas;

“Eu por mim também já está! Voltamos para trás sim.”.

“Já fui…” – pensou o Velopata.

Na esplanda do café no Ameixial ficámos preocupados. O Pro Ressabiado pediu mais um café. Protestámos para que não bebesse, que não conseguiríamos aguentar mais umas horas com aquele matraquear constante mas, como de costume, as nossas preces foram ignoradas e lá bebeu o seu café.

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Custa a crer mas lá conseguimos que ele se calasse e sorrisse para a foto.

Lá regressámos agora com um vento estranho; ora estava a favor ora estava mais forte e contra. Juntem a isto aquela sanfona que não parava e já estão a ver a carga psicológica deste treino da Evo Team.

No final, quando nos separámos do Pro Ressabiado e do Rei do Barranco, que seguiram os seus caminhos de regresso a casa ainda houve tempo para comentar que raios teria tomado o Pro Ressabiado nessa manhã para estar naquele estado eufórico o tempo todo. Teria sido só da cafeína? A conclusão foi uniforme – ele estava era contente por ter tido companhia para pedalar e não ir sozinho e às escondidas como é seu hábito.

Sem problemas o Velopata chegou a casa. Ao entrar em casa encontrou a Sra. Velopata no sofá que, como de costume, perguntou;

“Então, como correu? Vens com um ar cansado.”

“Eu? Eu estou é escarado que nem um porco…”

 

Abraços velocipédicos,

Velopata

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